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É campeão! Brasil celebra 10 anos do terceiro ouro olímpico no vôlei masculino

Após duas pratas consecutivas, a Seleção Brasileira voltava ao topo do pódio das Olimpíadas em Rio 2016

Por Giovanna Pimenta (giovanna.beatriz.carneiro.pimenta@usp.br) e Lívia Falbo (liviafalbo@usp.brvôlei Brasil

No dia 21 de agosto de 2016, a Seleção Brasileira de vôlei masculino conquistou seu terceiro ouro olímpico. Depois de 2 pratas consecutivas, em 2008 e 2012, o time garantiu o primeiro lugar do pódio ao superar a Itália por 3 a 0. “Hoje é o dia da redenção. Depois de tanta bola na trave, hoje ela entrou. Realizei o maior sonho da minha vida”, afirmou o levantador Bruninho após a final, em entrevista à Globo.  

O título, disputado no Maracanãzinho, foi fruto de muito suor. Em entrevista ao Arquibancada, Marcel Merguizo, repórter esportivo da TV Globo, comenta que a campanha do Brasil na Rio 2016 não foi boa, apesar do resultado espetacular. “Ao avaliar jogo a jogo, a campanha brasileira ficou perto do desastre no meio das Olimpíadas”, diz. Após um início turbulento, a Seleção conseguiu reagir e encontrou, no momento decisivo, a força e a técnica necessárias para conquistar a medalha de ouro. 

Ouros anteriores 

Em 1992, a Seleção de Marcelo Negrão, Giovane Gávio e Carlão foi consagrada campeã olímpica pela primeira vez. Com uma temporada perfeita, dirigida por José Roberto Guimarães, o time perdeu apenas três sets na competição e venceu a Holanda por 3 a 0 na final. “Às vezes parece que foi um filme. Nós nos preparamos muito para aquele momento, treinamos muito. Mas, no fundo, a gente não acreditava que iríamos ganhar”, diz Giovane Gávio, ex-jogador de vôlei e bicampeão olímpico, em entrevista ao Arquibancada. Ele explica que a Seleção Brasileira possuía um “complexo de inferioridade”, e por isso acreditava que os outros times eram sempre melhores. “Nós tivemos que romper essa barreira da vitória, de acreditar que era possível vencer”, completa. 

A conquista marcou o primeiro ouro olímpico conquistado pelo Brasil em esportes coletivos [Imagem: Divulgação/CBV] 

Em 1996, o sonho de ser bicampeão foi adiado: a equipe foi eliminada de forma precoce nas quartas de final pela Iugoslávia. Em 2000, após uma campanha perfeita na primeira fase do campeonato, o Brasil perdeu novamente nas quartas, dessa vez para a Argentina. 

Após um jejum de 12 anos, o êxtase de 1992 se repetiu em 2004, quando a seleção se tornou bicampeã olímpica. A equipe, recheada de talentos, conquistou seis vitórias em sete jogos disputados. 

Giovane Gávio, campeão olímpico em 1992 e 2004, coordenou as competições de vôlei de quadra, de praia e sentado nas Olimpíadas do Rio [Imagem: Divulgação/CBV] 

Trajetória na Olimpíada  vôlei Brasil

No dia 7 de agosto de 2016, o Brasil protagonizou a primeira partida do vôlei masculino nas Olimpíadas. Contra o México, no Maracanãzinho, a Seleção levou a vitória por 3 a 1. Apesar do triunfo, esse não era o resultado esperado: “O México ganha o primeiro set da Olimpíada, e ele não ganha mais nenhum depois disso. O Brasil até brinca: nós fomos bons anfitriões”, diz Merguizo. 

Na primeira fase da competição, o Brasil integrou o Grupo A, ao lado de México, Canadá, Estados Unidos, Itália e França. Das 5 partidas que disputou, a seleção perdeu duas. “O Brasil joga mal a fase de grupos inteira. Ele esteve muito perto de ser eliminado”, indica Merguizo. Ainda assim, o time terminou na quarta colocação do grupo e garantiu a classificação para a próxima fase do torneio. No primeiro episódio de uma série do Esporte Espetacular sobre a Rio 2016, Bernardinho afirma que o último jogo do Brasil na fase de grupos, contra a França, foi o mais tenso de sua carreira. 

Nas quartas de final, o Brasil enfrentou a Argentina. Durante a partida, os ponteiros titulares da Seleção Brasileira assustaram os torcedores. Lipe sentiu dores nas costas, mas seguiu no jogo. Já Lucarelli, que teve um estiramento leve na coxa direita, foi substituído por Maurício Borges, e só voltou para a quadra no final do jogo. Mesmo com os momentos de tensão, o Brasil superou o adversário sul-americano por 3 a 1. 

A semifinal foi disputada contra a Rússia. Quatro anos antes, nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, o Brasil havia perdido a final para os russos. As expectativas para a partida eram altas, mas a semifinal de 2016 foi mais tranquila do que o esperado: a Seleção Brasileira venceu por 3 sets a 0 e garantiu sua quarta final olímpica consecutiva. “Acho que a semifinal contra a Rússia e a final contra a Itália foram mais leves”, argumenta Merguizo. 

A final vôlei Brasil

No último jogo da competição, o adversário do Brasil foi a Itália. O confronto trazia uma preocupação: os italianos haviam vencido os brasileiros na fase de grupos. Na final, porém, o cenário foi diferente. Mais equilibrada, concentrada e eficiente, a equipe comandada por Bernardinho soube controlar melhor os momentos decisivos da partida.

O ponteiro Lipe jogou sua primeira Olimpíada em 2016, aos 32 anos [Imagem: Fernando Frazão/Wikimedia Commons] 

No primeiro set, Bruninho se destacou na defesa e na distribuição das jogadas, enquanto os principais nomes do ataque brasileiro não desperdiçaram as oportunidades de colocar a bola no chão. Lipe e Wallace também contribuíram com pontos de saque. A Itália salvou o primeiro set point, mas, após cometer um erro de saque, o Brasil fechou a parcial em 25 a 22.

O segundo set foi mais acirrado. O Brasil começou melhor e abriu vantagem, mas os italianos reagiram e mantiveram o jogo equilibrado. A partir dos 20 pontos, a vantagem no placar não passava de dois tentos. Apesar da resistência, os brasileiros conseguiram se manter firmes: após um bloqueio e um ace, a Seleção venceu por 28 a 26. 

No terceiro e último set, a Itália abriu 18 a 16. Os jogadores brasileiros mantiveram os seus semblantes calmos e concentrados, e os europeus voltaram a cometer falhas. Com um ponto de Wallace, o Brasil abriu 24 a 23. Os russos empataram, o que evitou o fim do jogo. Lucão cravou o 25° ponto. No segundo match point, o bloqueio de Lipe colocou fim em 12 anos de jejum. O Brasil se tornou, finalmente, tricampeão olímpico.

A seleção de 2016                                          

“O Brasil sempre foi campeão olímpico usando a força do time”, diz Giovane. No Rio, os jogadores vivenciaram juntos todos os altos e baixos da competição. Mesmo diante das derrotas na fase de grupos e da pressão ao longo do jogos, permaneceram unidos e confiaram uns nos outros — até a consagração da vitória. Mas qual foi a trajetória de cada um dos atletas da seleção titular? 

Sérgio Luiz Seixas Francia Nogueira, conhecido como Serginho, chegou aos Jogos Olímpicos Rio 2016 com uma certeza: aquela seria sua última participação na seleção masculina. Medalhista olímpico e bicampeão mundial, o líbero construiu uma carreira marcada por títulos, mas também por superação. Durante a infância, assumiu responsabilidades financeiras e conviveu com a violência da região onde morava. Essas experiências fizeram parte de sua história e foram ressignificadas ao longo de sua carreira no esporte.

Ricardo Lucarelli, natural de Contagem (MG), iniciou sua carreira no Minas Tênis Clube. Ele teve passagens pelo SESI-SP e pelo Vôlei Taubaté. Sua trajetória pela Seleção Brasileira começou cedo. Em 2010, o atacante representou o país no time júnior e foi campeão do Campeonato Sul-Americano, conquista que repetiu em 2013 e 2015, além dos títulos conquistados em campeonatos mundiais.

Wallace de Souza, oposto natural de São Paulo (SP), iniciou sua carreira no Banespa/São Bernardo, mas teve passagens pelo Vôlei Futuro e pelo Sada Cruzeiro. Sua trajetória na Seleção Brasileira começou em 2007, quando conquistou o Campeonato Mundial Sub-21. Na seleção principal, ganhou os Jogos Pan-Americanos de 2011 e a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Em 2013, foi vice-campeão da Liga Mundial e do Campeonato Mundial.

Wallace e Lucão juntos no bloqueio; eles já disputaram 3 Olimpíadas juntos [Imagem: Fernando Frazão/Wikimedia Commons]   

Bruno Rezende, conhecido como Bruninho, natural do Rio de Janeiro (RJ), iniciou sua carreira no voleibol ainda jovem: passou por clubes como Unisul e Cimed, onde ganhou destaque nacional. Filho do técnico Bernardinho, construiu uma trajetória de presença constante na Seleção Brasileira. Antes dos Jogos Olímpicos Rio 2016, já havia conquistado a prata olímpica em Londres 2012 e títulos como a Liga Mundial e o Campeonato Sul-Americano. No Rio 2016, atuou como levantador e capitão, um dos principais nomes da equipe. 

Maurício Borges, ponteiro natural de Maceió (AL), iniciou sua trajetória no voleibol profissional no Sport Club do Recife. Passou por equipes como Minas Tênis Clube e SESI-SP. Sua relação com a Seleção Brasileira começou nas categorias de base, com a conquista de títulos sul-americanos e mundiais. Na seleção principal, ganhou espaço entre os principais ponteiros do país e integrou o elenco que disputou os Jogos Olímpicos Rio 2016. 

Éder Carbonera, central natural de Campo Grande (MS), iniciou sua carreira profissional no Brasil e passou por equipes como Cimed e Vôlei Taubaté. O jogador construiu sua carreira na Seleção Brasileira a partir das categorias de base, e conquistou títulos importantes na equipe adulta como o Campeonato Sul-Americano em 2009 e o Campeonato Sul-Americano em 2009, 2014 e 2016. Em 2016, integrou o grupo que disputou os Jogos Olímpicos Rio 2016 e participou da campanha que terminou com o ouro olímpico brasileiro.

Lucas Saatkamp, conhecido como Lucão, central natural de Colinas (RS), iniciou sua carreira no Bento Vôlei. Passou por clubes como Cimed, SESI-SP e Vôlei Taubaté. Na Seleção Brasileira, conquistou títulos importantes nas categorias de base e rapidamente ganhou espaço na equipe adulta. Medalhista de prata nos Jogos Olímpicos Londres 2012, Lucão chegou ao Rio 2016 como um dos principais centrais do elenco. Durante a competição, destacou-se pelo bloqueio, ataque rápido e saque, suas maiores contribuições para a conquista do ouro olímpico.

Destaques do time 

Serginho

O líbero Serginho foi eleito o Melhor Jogador do Torneio (MVP) do vôlei masculino na Rio 2016. Aos 40 anos, o veterano foi um dos grandes destaques da competição e teve papel decisivo na conquista do ouro. “O Serginho passou por uma situação muito forte. Ele já estava mais velho, mas se reinventou e entendeu o papel dele como líder daquele time”, destaca Giovane. 

Dentro de quadra, Serginho era peça fundamental no sistema defensivo. Sua experiência e capacidade de leitura do jogo traziam segurança à equipe, especialmente nos momentos de maior pressão. 

Sua importância para o time não era apenas técnica: o líbero comemorava cada defesa, incentivava os companheiros e ajudava a manter a equipe concentrada mesmo nos momentos difíceis. “O grande líder mesmo, o espírito vencedor do time, é o Serginho. Ele deixa muito claro para os caras que era a sua última Olimpíada. Quando tem alguém assim no time, você joga por ele também”, afirma Merguizo. 

Mais do que um especialista na defesa, Serginho se tornou o coração da equipe. Sua experiência, personalidade e capacidade de contagiar os companheiros fizeram dele uma das figuras centrais da campanha que terminou com o ouro olímpico.

Lipe 

Apesar de ter marcado o ponto decisivo na final, Lipe não começou as Olimpíadas como titular. Ele era reserva de Maurício Borges, que se destacava pela qualidade no passe. No confronto contra a França na fase de grupos, Lipe ganhou a posição e assumiu a titularidade como ponteiro. 

Sua importância para a equipe ia muito além das habilidades técnicas. Lipe era sinônimo de raça, energia e entrega. Ao lado de Serginho, ajudava a contagiar a equipe e a torcida, celebrando cada ponto com uma intensidade que refletia a importância que dava a cada lance. “O Lipe foi decisivo. Ele colocou uma intensidade muito grande no time, deu uma energizada na galera. Foi sensacional”, elogia Giovane.

Uma das cenas marcantes dos Jogos aconteceu quando Lipe saiu da quadra, comemorou de forma explosiva e correu para abraçar Serginho, como se aquela jogada já valesse uma medalha de ouro. Essa imagem demonstrou a disposição do jogador de transformar cada ponto em combustível para a equipe.

As Olimpíadas de 2016 foram as últimas jogadas por Serginho e Lipe [Imagem: Fernando Frazão/Wikimedia Commons] 

Wallace 

Wallace foi um dos principais destaques da Seleção Brasileira na conquista do ouro olímpico nos Jogos Rio 2016. Na final contra a Itália, o oposto terminou como o maior pontuador da partida, com 20 pontos. Esse desempenho reforçou sua importância para a equipe ao longo da competição.

Foi eleito o melhor oposto do torneio. Considerado uma das principais referências ofensivas da seleção, Wallace era visto como uma espécie de bola de segurança para o levantador Bruninho. “A gente tinha o Wallace no momento mágico dele, dava bastante segurança para o Bruninho”, afirma Giovane. A performance do oposto no Rio fechou com chave de ouro um período de boas temporadas por clubes, marcado pelo título nacional conquistado pelo Sada Cruzeiro. 

Lucão 

Lucão foi uma das principais referências da Seleção Brasileira na campanha pelo ouro olímpico na Rio 2016. O central se destacava pela velocidade no ataque e pela eficiência no bloqueio, características que o tornavam uma peça importante no sistema de jogo comandado por Bernardinho. 

Além da contribuição técnica, Lucão conquistou a confiança do levantador Bruninho, com quem formava uma das principais conexões da equipe. “Um líder que organiza o jogo e que, na hora em que precisa dele, ele resolve”, diz Merguizo. A atuação no Rio consolidou o central como uma das referências do Brasil na conquista do título diante da Itália.

Wallace e Lucão juntos no bloqueio; Eles já disputaram 3 Olimpíadas juntos [Imagem: Fernando Frazão/Wikimedia Commons] 

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