Por Hugo Boff (hugoboff@usp.br), Lívia Falbo (liviafalbo@usp.br) e Luiza Torre (luizatorre@usp.br) massa
Há duas décadas, o Brasil rompeu com o jejum de quase dois anos sem alcançar o lugar mais alto do pódio da Fórmula 1. No dia 27 de agosto de 2006, no Circuito de Istambul, Turquia, Felipe Massa venceu sua primeira corrida na competição. Em seu primeiro ano na Ferrari, o piloto uniu-se ao grupo dos brasileiros que já se consagraram como vencedores de um Grande Prêmio, ao lado de Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Rubens Barrichello.
A trajetória de Felipe Massa
No dia 25 de abril de 1981, nascia Felipe Massa, o piloto que viria a ser o primeiro brasileiro desde Ayrton Senna a ganhar uma corrida de Fórmula 1 em casa, no autódromo de Interlagos.
Ainda quando garoto, Massa já poderia ser considerado um apaixonado por velocidade e, com apenas 8 anos de idade, estreou sua carreira no kart. Aos 16 anos, o fã de automobilismo trabalhou para a equipe Benetton como entregador de comida em troca de um passe de paddock, para que conseguisse acompanhar o esporte mais de perto.
Em entrevista ao Arquibancada, Felipe Massa contou sobre sua experiência e os desafios enfrentados ao ingressar em um esporte tão elitizado. “O automobilismo é um esporte muito difícil, ainda mais para pessoas que tem uma dificuldade financeira”, ressalta. O piloto enfatiza que o maior problema enfrentado por ele durante o início de sua carreira foi a dificuldade de conseguir o dinheiro e o patrocínio para correr, apesar de acreditar que esses obstáculos foram importantes para seu aprendizado.
“Ou eu vencia ou não teria uma próxima corrida, essa era a maior pressão”
Felipe Massa
Antes de se tornar o atleta mundialmente reconhecido por sua passagem na Scuderia Ferrari, o piloto participou de outras competições do universo do automobilismo, nas quais se destacou rapidamente. Em 1998, Felipe correu pela primeira vez no campeonato nacional Formula Chevrolet, no qual viria a conquistar o primeiro lugar já no ano seguinte. O brasileiro também venceu o título da Formula Renault italiana, em 2000, e da Formula 3000 europeia, em 2001.
O ingresso na Fórmula 1 ocorreu no ano de 2002, quando Massa correu pela equipe Sauber no primeiro Grande Prêmio (GP) da temporada, realizado na Austrália. Na temporada seguinte, o atleta atuou como piloto de teste da Ferrari, para então retornar à Sauber por mais dois anos. Em 2006, Massa tornou-se oficialmente piloto titular da Ferrari.
O contexto da temporada de 2006
Em 2006, Massa conquistou seus primeiros pódios, que tiveram ainda mais impacto uma vez que o piloto vestia o uniforme da Ferrari, uma equipe com uma história sem igual dentro da categoria. Com a saída de Rubens Barrichello da escuderia, era o momento de os holofotes se direcionarem a outro brasileiro, e Massa aproveitou sua chance, uma vez que teve um ótimo desempenho na temporada.
“Para um piloto, depois da primeira vitória, a cabeça, o jeito de trabalhar e a importância dentro da equipe mudam. No final tudo isso foi incrível e sensacional”
Felipe Massa
Felipe terminou o campeonato de pilotos em terceiro lugar, ficando atrás apenas do vencedor daquele ano, Fernando Alonso, e de seu companheiro de equipe, Michael Schumacher. O piloto subiu no pódio sete vezes naquela temporada: ficou em terceiro lugar em duas ocasiões, em segundo em três e venceu dois Grandes Prêmios. Além de ter conquistado sua primeira vitória em 2006, naquele mesmo ano Felipe ganhou o GP do Brasil, algo que nem mesmo seu antecessor conterrâneo foi capaz de alcançar no desenrolar de sua carreira como piloto de Fórmula 1.

Além de ser o sexto brasileiro a conquistar o primeiro lugar em um Grande Prêmio na Fórmula 1, Felipe Massa é o quarto com mais vitórias na modalidade, empatado com Rubens Barrichello [Imagem: Reprodução/Instagram/@botequimgp]
Da largada na pole à 58ª volta
Mesmo com a atmosfera de tensão que se instalou pela disputa entre Schumacher e Alonso, Massa começou a surpreender os espectadores antes das luzes vermelhas se apagarem. Durante a sessão de classificação, ocorrida no sábado, o brasileiro terminou o dia com o melhor tempo após marcar 1min26s907, garantiu a pole position e largou na primeira posição do grid. Logo atrás, o alemão disparou no segundo lugar, seguido pelo espanhol na P3.

Schumacher ficou atrás de Massa nas qualificatórias com uma diferença de apenas 377 milésimos [Imagem: Reprodução/YouTube/Primeira Fila F1]
O domingo ensolarado de agosto de 2006 foi o palco da disputa entre os gigantes. Enquanto Galvão Bueno dava seu bom dia para os telespectadores brasileiros, as primeiras posições da largada estavam definidas pelo tom rosso corsa, popularmente conhecido como “vermelho Ferrari”. Antes da largada, marcada às 9h no Brasil e às 15h na Turquia, o apresentador e o comentarista automobilístico, Reginaldo Leme, narravam seus palpites para as próximas 58 voltas.
“Tomara que o Alonso pule na frente do Schumacher”, dizia Galvão antes da volta de apresentação e aquecimento dos pneus. “A gente conhece a facilidade com que a Renault larga. Não é difícil que o Alonso, que está do mesmo lado do Felipe, se enfie no meio e tome a frente de Schumacher”, acrescentou o comentarista, que já previa a saída de Massa pelo lado direito, de modo que sobrasse apenas a esquerda para Fernando Alonso.
Nos primeiros metros as falas de Bueno e Leme se materializam na pista. Enquanto Massa largou defendendo para que seu companheiro de equipe conseguisse tomar a ponta esquerda, Schumacher se lançou na direção de Alonso e, mais adiante, repetiu o mesmo movimento na primeira curva, fechando o carro da Renault na terceira colocação.
Na 13ª volta, a disputa entre os protagonistas da temporada era acirrada, mas a dominância de Massa permanecia desde a largada. Após rodar na primeira curva da volta, o italiano Vitantonio Liuzzi, que corria pela Scuderia Toro Rosso (STR), abandonou a corrida e deixou o carro em uma posição perigosa para os demais pilotos no ponto de escape da pista, o que forçou a entrada do Safety Car.
Durante o processo de retirada do carro do italiano, Alonso, que estava 10,7 segundos atrás de Massa e 8,8 segundos atrás de Schumacher, encontrou uma possibilidade de virada. Diante da entrada do carro de segurança, os três primeiros colocados partiram para os boxes. Porém, com o intuito de aproveitar a neutralização da pista e não perder tempo em relação aos adversários, a Ferrari adiantou o pit stop de Massa, que estava previsto para ser feito na volta 19 ou 20, e chamou ambos os pilotos da escuderia para os boxes na 14ª volta.
Naquele instante, Alonso encontrou a brecha que procurava desde o momento em que foi fechado por Schumacher na primeira curva da corrida. Ao ver que a Ferrari chamou seus dois corredores para o pit stop, a Renault decidiu chamar também o espanhol para os boxes. Massa, que chegou primeiro ao pit lane, foi rapidamente atendido, enquanto seu companheiro se tornou uma vítima do stacking, nome dado à fila de carros no momento do reparo.

Após ficar cerca de 12 segundos parado, o alemão foi ultrapassado pelo espanhol ainda nos boxes [Imagem: Reprodução/YouTube/Primeira Fila F1]
“O Schumacher vai ter que atacar o Alonso e o Felipe talvez tenha que garantir a vitória para Ferrari”, exclamou Galvão durante a transmissão da reviravolta inesperada.
Após a alteração na disposição dos corredores que ditavam o ritmo da corrida, Michael Schumacher cometeu um erro que novamente afastou o alemão da segunda colocação. Durante a 28ª volta, ao passar pela famosa curva 8, o piloto saiu da pista e foi para a parte gramada do autódromo. Com a perda no controle da tração frontal do carro, o piloto da Ferrari aumentou seu tempo de atraso em quatro segundos em relação ao segundo colocado.
Em meio a guerra travada entre Espanha e Alemanha, o Brasil sustentava sua liderança no calor de Istambul. Na 39ª volta, a última rodada de pit stop, Felipe Massa foi o primeiro a parar entre os líderes e realizou com certa tranquilidade a troca dos pneus. Após a entrada do brasileiro, Alonso também se dirigiu aos boxes. Schumacher fez diferente. Diante de uma sequência de voltas na terceira posição, o piloto alemão realizou o overcut, isto é, permaneceu na pista com pouco combustível enquanto os outros pilotos estavam nos boxes, e só veio a parar na volta 43.
Embora o carro estivesse mais leve, por não correr com o tanque cheio, a estratégia não foi suficiente para Schumacher, que reduziu a distância de Alonso, mas não conseguiu retomar a segunda posição.
Ao final da prova, com nove voltas para o término da corrida, uma sequência de investidas alemãs atacaram a segunda colocação do espanhol, mas a posição de liderança seguiu no domínio de Massa. Enquanto as câmeras mostravam o embate europeu, Galvão Bueno aproximava os brasileiros do que acontecia alguns metros à frente do combate entre Alonso e Schumacher.
Nos últimos instantes antes de Massa cruzar a linha de chegada, a transmissão capturou a imagem que consagrou o Brasil novamente no lugar mais alto do pódio do automobilismo. “Vá preparando aí o tema da vitória. Aí vem Felipe! Na ponta dos dedos. Felipe, Felipe, Felipe Massa do Brasil!” comemorou Galvão frente à primeira bandeirada. Com o tempo de 1h28min51s082, o brasileiro conquistou a vitória e somou dez pontos na tabela do Campeonato Mundial.
“Esse sentimento de vitória é a realização de um sonho. Ainda mais com Schumacher e Alonso dividindo pódio comigo em uma disputa acirrada desde a classificação”
Felipe Massa

Atrás de Massa, Alonso chegou na segunda colocação, com um tempo de prova 5,575s mais longo que o primeiro colocado, e somou oito pontos. Na P3, Schumacher terminou a corrida apenas 0,081s atrás do espanhol e garantiu seis pontos [Imagem: Reprodução/YouTube/Primeira Fila F1]
Apesar do resultado desfavorável para a Ferrari, que estimava uma dobradinha no pódio com a P2 de Schumacher para reduzir a distância na tabela de pontos da temporada, a festa brasileira não se conteve. E diante da alegria de ter alcançado o primeiro título, o piloto que tinha como função chegar em segundo lugar e auxiliar na vitória de Schumacher fez o sinal de primeiro lugar com as mãos.
“Sinto pelo Michael, mas obrigado. É um dia muito especial para mim!”
Felipe Massa, após cruzar a linha de chegada
A vitória de Massa e o automobilismo no Brasil
No dia 27 de agosto de 2006, Felipe Massa deixou de ser uma promessa e passou a ser, de fato, um campeão. No GP da Turquia, o brasileiro conquistou a primeira vitória de sua carreira na Fórmula 1. O triunfo encerrou um jejum de vitórias para o Brasil, que já durava 32 Grandes Prêmios. O último ouro havia sido de Rubens Barrichello, no GP da China de 2004.
Em Istambul, Massa não só alcançou o primeiro lugar do pódio, como marcou sua presença na elite do automobilismo. Em sua primeira temporada como piloto titular da Ferrari, o então jovem de 25 anos conquistou a pole position e dominou a prova para levar o ouro para casa.
“Depois da primeira vitória, consegui o passo mais importante da minha vida. Não foi por sorte, foi por talento e resultado, largando na frente e chegando na frente”
Felipe Massa
O feito ganhou ainda mais relevância em um país que já teve grandes revelações na categoria, mas que também enfrenta dificuldades para manter pilotos no alto nível do automobilismo mundial. Com três campeonatos mundiais de Nelson Piquet e outros três de Ayrton Senna, além do bicampeonato de Emerson Fittipaldi, o país construiu uma forte tradição. Esse passado vitorioso elevou as expectativas sobre as gerações seguintes e dificultou o reconhecimento de trajetórias de sucesso que não terminaram em um título mundial.
A fama atribuída a essas personalidades não condiz com o menosprezo enfrentado pelos brasileiros. “O Barrichello e o Massa, em termos de conquista, têm uma carreira parecida. Se eles tivessem outra nacionalidade, talvez fossem até mais valorizados. Nós ficamos muito mal acostumados com os títulos de Piquet e Senna”, afirma Rodrigo França, jornalista especializado em Fórmula 1, em entrevista ao Arquibancada.

Durante o GP de Interlagos em 2006, Massa utilizou um uniforme especial, o qual substituiu os tons clássicos da Ferrari pelas cores da bandeira do Brasil [Imagem: Reprodução/YouTube/Primeira Fila F1]
Além da pressão por resultados, chegar à Fórmula 1 representa um desafio financeiro. O automobilismo é um dos esportes mais caros do mundo, e os custos para competir desde as categorias de base podem limitar o caminho de jovens talentos. No caso de Massa, o apoio da Ferrari foi fundamental para que ele pudesse avançar em sua carreira. “O Massa não teria condições financeiras de chegar na Fórmula 1 não fosse o apoio da Ferrari desde o começo”, destaca França.
A contribuição da Ferrari na carreira de Massa não foi apenas financeira. Por ser uma equipe de enorme tradição na Fórmula 1, a escuderia ampliou a visibilidade de Massa e contribuiu para consolidar seu reconhecimento no automobilismo. A colaboração foi mútua, já que o piloto também deixou sua marca na história da equipe.
A trajetória de Massa representa mais do que uma vitória isolada. Ela evidencia as barreiras enfrentadas por pilotos brasileiros para chegar à Fórmula 1 e permanecer nela. Ao conquistar seu primeiro GP pela Ferrari, Massa não apenas ampliou a lista de vencedores brasileiros na categoria, mas também mostrou a importância da combinação entre talento, apoio financeiro e capacidade de suportar a pressão em um esporte no qual poucas oportunidades estão disponíveis.
Do auge na Fórmula 1 até a atualidade
A temporada de 2008 foi marcada por um episódio que até hoje repercute a vida de Massa: o caso “Singapuragate”. Durante o GP noturno no circuito de Marina Bay, o piloto Nelsinho Piquet bateu o carro propositalmente, com o intuito de favorecer Alonso, seu companheiro de equipe na Renault, fato que foi confirmado no ano seguinte pelo próprio corredor. Com o acidente, o Safety Car foi acionado. Nesse cenário, Massa foi chamado para os boxes e não retornou para a corrida por conta de uma falha na mangueira de combustível. Como consequência, o brasileiro da Ferrari perdeu a liderança do campeonato e, ao final do Mundial, ficou um ponto atrás de Hamilton. Em meio a manipulação e ao vice-campeonato, Massa entrou com um processo na justiça em 2024, o qual segue em aberto até hoje.
A temporada de 2009 também foi problemática para o piloto. No dia 25 de julho, durante o Q2 do treino classificatório, na pista de Hungaroring, na Hungria, Massa foi atingido na cabeça por uma mola que escapara instantes antes do carro de Rubens Barrichello. Logo após a colisão, o piloto perdeu o sentido e bateu na zona de proteção feita de pneus. Diagnosticado com uma fratura no crânio, o brasileiro ficou aproximadamente dois dias em estado de coma induzido, mas conseguiu se recuperar sem qualquer tipo de sequela neurológica e voltou a correr pela scuderia na temporada seguinte.
Após uma trajetória de 11 vitórias e um vice-campeonato mundial pela Ferrari, Massa se despediu como um dos pilotos que mais largou pela equipe italiana, em 2013. Como novo destino, o piloto iniciou em 2014 seu período na Williams, onde teve a oportunidade de correr ao lado de Valtteri Bottas e Lance Stroll.
Depois de 15 anos na F1 e quatro anos na equipe britânica, Massa anunciou sua aposentadoria de forma definitiva. Com 269 largadas e 41 pódios ao todo, o brasileiro se despediu do esporte no dia 26 de novembro de 2017, no GP de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, aos 36 anos.
Contudo, o corredor não conseguiu se manter muito tempo distante das pistas e já no ano seguinte anunciou a entrada na Fórmula E, campeonato automobilístico de carros elétricos. Na modalidade, Felipe correu pela equipe de Mônaco, Venturi, por dois anos. Em 2021, um ano após ter finalizado suas atividades entre os carros elétricos, o brasileiro estreou pela Lubrax Podium na Stock Car e se mantém no grid até os dias de hoje.
*Imagens utilizadas na capa: Morio/Wikimedia Commons, Morio/Wikimedia Commons e @chav1s.f1/Instagram
