Jornalismo Júnior

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Como a religião evangélica se tornou palco da política brasileira?

Estudiosos explicam como essa participação se consolidou e se fortaleceu no país, especialmente após a eleição de Jair Bolsonaro
Gabriela Moraes (gabrielamoraessilva@usp.br)

Em 2022, o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou um novo cenário religioso no país: de 2010 a 2022, houve redução de 8.4 pontos percentuais dos católicos apostólicos romanos, enquanto os evangélicos aumentaram 5.2 pontos percentuais. No meio deste contexto, Jair Messias Bolsonaro (PL) tornou-se candidato à presidência, em agosto de 2018, com slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. 

A ideia de separar religião e política surge no século 18, com o movimento iluminista. Segundo a plataforma digital de educação, Casa do Saber, o movimento surge atrelado a uma burguesia, que buscava maior autonomia econômica e política e tinha dois ideais principais: o culto à razão e o liberalismo. Estes dois abalaram as estruturas do sistema político da época, pois buscaram enfraquecer a Igreja Católica e a centralização política do rei. Quase que no mesmo período, a reforma pretestante também questionou as bases da Igreja Católica, surgindo o protestantismo. É assim que a ideia de Estado laico estabelece-se. 

Entretanto, o protestantismo, que lutou contra os dogmas católicos, hoje associa-se à política. Para a doutora em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Andreia Maidana, “a combinação entre religião e política é utilizada como estratégia central do atual movimento [político] conservador”.

Pentecostalismo

O teólogo e pastor, Walter Pinheiros, conta que o pentecostalismo surge no século 20 como uma alternativa às igrejas europeias históricas — igrejas resultantes da reforma protestante que, durante três séculos, dividiram-se em várias vertentes, como os luteranos, os presbiterianos e os batistas. Ele pontua que estas igrejas históricas são baseadas em dogmas e na bíblia.

No século 20, havia um movimento nos Estados Unidos de igrejas protestantes muito forte, entre elas as Igrejas Batistas e as Igrejas Presbiterianas. Pinheiros explica: “Um fenômeno diferente dos Estados Unidos para o Brasil […] é que eles foram colonizados por britânicos protestantes. O catolicismo cultural que existe no Brasil, não existe nos EUA, eles têm o protestantismo cultural”. 

É durante esse mesmo período em que os EUA vive a segregação racial, um sistema de discriminização institucionalizado contra a população negra, que vigorou do final do século 19 até a década de 1960. Pinheiros relata que “existia uma minoria étnica negra nos EUA que era oprimida e que era impedida de cultuar” e ele conclui que essas pessoas excluídas passam a criar suas próprias igrejas, e assim surge o que é conhecido como “Igrejas Negras”.

Em 1906, ocorreu o Avivamento da Rua Azusa em Los Angeles (EUA), considerado o marco histórico do pentecostalismo moderno, afirma o teólogo. Ele conta que se tratou de um movimento liderado pelo pastor afro-americano William J. Seymour que começou, em abril de 1906, em um galpão na Rua Azusa, número 312, cultos com a prática de glossolalia, principal característica do Pentecostalismo.

O teólogo esclarece que a glossolalia consiste em falar em línguas ‘desconhecidas’ que são vistas como a manifestação do Espírito Santo. “Trata-se de uma experiência sensível, porque as igrejas [europeias históricas] eram muito racionalistas, muito mais da fala e da leitura”. Ele completa que como a população negra americana era privada do direito ao acesso à escola, “é daí que vem a ideia da oração em línguas”, ou seja, de uma experiência mais sensível e menos “racionalista”.

O fenômeno que, de acordo com Pinheiros, não possui explicação bíblica, nem histórica e que consiste somente em experiências das pessoas com a fé, acaba sofrendo críticas das igrejas históricas. “Falavam que essas pessoas estavam endemoniadas […], só que esse tipo de fenômeno teve um apelo muito grande nas periferias americanas”, relata. O teólogo aponta que isso acontecia porque as pessoas que não eram alfabetizadas e as que eram impedidas de ir às igrejas brancas eram recebidas nessas comunidades religiosas.

As igrejas brancas, vendo que se trata de um fenômeno de massa e que atrai público, começam a incorporar essas experiências pentecostais em seus cultos, explica Pinheiros. “Quem exportou o Pentecostalismo para o mundo não foram as igrejas negras, que começaram o movimento, foram as igrejas brancas”, revelou.

Pentecostalismo no mundo

É no contexto de disseminação do pentecostalismo pelo mundo que ele passa a ter um caráter político. Primeiro como forma de disseminar o American Way of Life (estilo de vida americano, em tradução livre), depois como instrumento ideológico na Guerra Fria, relata Pinheiros. Para ele, “é quando o Pentecostalismo se perde”.

O teólogo explica que começa um “fenômeno mundial do movimento carismático evangélico americano espalhando as igrejas pelo mundo” e que já se trata de “um movimento político, em que as elites brancas começam a espalhar pelo mundo a ideia da glossolalia alinhada com a ideia do sonho americano”. É nesse contexto que as Igrejas Pentecostais ganham força no cenário brasileiro, relata.

Homem branco de terno preto segurando uma bíblia
“Billy Graham é um exemplo de pastor americano que realizou diversas cruzadas religiosas para espalhar o American Way of Life pelo mundo”, segundo Pinheiros [Imagem: Reprodução/Instagram/@billygraham]

Pinheiros diz que até o início dos anos 2000, as igrejas evangélicas brasileiras possuíam um discurso dualista: “nós temos corpo e alma, o corpo não é importante; […] eles se preocupavam em ir para o céu, não com as coisas que aconteciam no Brasil”. No entanto, após a redemocratização do Brasil, com o fim da ditadura civil-militar, na década de 1990, alguns setores evangélicos viram que precisavam de dinheiro e que precisavam disputar com o catolicismo, por isso surge a campanha “Irmão Vota no Irmão”.

“Os evangélicos começam a se unir de maneira bem sutil para se organizar politicamente” e é a primeira vez que um discurso político como esse surge no Brasil, de acordo com o teólogo. Ele também conta que quando os candidatos evangélicos passaram a ser eleitos, os fiéis começaram a perceber que haviam conseguido verbas para auxiliar a manutenção da Igreja. Ao mesmo tempo, surgiu a “Teologia da Prosperidade”, que, segundo Pinheiros, foi quando “as igrejas [evangélicas] começaram a dar ênfase no individualismo, no enriquecimento pessoal e na ideia de meritocracia”.

Entretanto, para o teólogo, o que realmente consagra os evangélicos na política é a “Teologia do Domínio”. Com ela, “os evangélicos abandonam o discurso de que essa vida aqui não importa e começam a acreditar que, como são filhos de Deus, eles devem reinar na Terra, influenciando a política, as universidades e a cultura”. Apesar disso, ele afirma que “isso passa despercebido pelos pesquisadores, porque os evangélicos eram 10% da população brasileira na época e não ofereciam perigo até o fenômeno do bolsonarismo”.

Maidana destaca que a relação dos evangélicos com a política existe especialmente após a redemocratização, mas que de fato esta relação se acentuou a partir de 2018. “O governo de Jair Bolsonaro foi um marco neste histórico de ‘protagonismo dos evangélicos ’”.

A queda do PT e a ascensão de Bolsonaro

Entre 2001 e 2014, durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Dilma Rousseff (PT), o Brasil apresentou uma queda da desigualdade social e da pobreza, segundo o artigo O Brasil de Bolsonaro: Uma Democracia Sob Estresse, de Cláudio Gonçalves Couto. Isso desagradou uma elite que “pôde perceber que seus espaços, antes exclusivos, passavam a ser ocupados também por segmentos antes ausentes”, pontua o estudo.

O artigo destaca que os governos petistas também eram associados a “uma pauta de costumes em dissonância com as perspectivas mais conservadoras de grande parte dos brasileiros das classes mais baixas”. Este fator, ligado aos escândalos de corrupção no governo de Lula, o “Mensalão”, e no governo de Dilma, a Operação Lava Jato, tornaram-se um “pretexto mais convincente” para a oposição do que as críticas às políticas de redução das desigualdades, segundo a pesquisa. 

Nesse contexto, a doutora em sociologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Adrielma Silveira Fortuna dos Santos, explica que houve um “choque moral” da população com as pautas sociais da esquerda e com os escândalos de corrupção. Isso, aponta,  “conectou os indivíduos a uma identidade coletiva, que pode ser resumida na construção da narrativa das ‘pessoas de bem’”.

No dia 31 de agosto de 2016, a então presidente Dilma Rousseff perdeu seu mandato por um impeachment, dando fim a 13 anos consecutivos de governo do PT. Em um cenário de crise política e econômica, o teólogo afirma que a população brasileira não sabia para onde direcionar sua raiva e que “a burguesia procurou um candidato evangélico que falasse a ‘língua do povo’, assim o Bolsonaro passou a ser visto como uma figura messiânica que salvaria o Brasil, já que a esquerda se tornou o sistema”.

Dois homens brancos sorrindo de terno levantando as mãos
“A direita brasileira se alicerça em valores familiares e religiosos. Políticos de direita identificam essas pautas como fundamentais para manter a fidelidade do eleitorado”, segundo Maidana [Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil]

Bolsonaro foi batizado pelo pastor Everaldo em 11 de maio de 2016 nas águas do Rio Jordão, em Israel. Nas eleições de 2018, foi eleito presidente do Brasil com um discurso antissistema, que agradou a população desesperançosa do Brasil. Somado a um apelo religioso com dois bordões principais: “Brasil acima de tudo, Deus acima de Todos”; e a passagem bíblica: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertarás”.

A força da fé evangélica

O crescimento da fé evangélica no Brasil é explicado, para Maidana, pelo fato da igreja ocupar vazios institucionais. “O avanço das Igrejas, sobretudo nas periferias, preenche lacunas deixadas pela ausência do Estado”. Assim, “ao oferecerem rede de apoio, acolhimento e assistência social, [as igrejas evangélicas] transformam-se em bases eleitorais e de mobilização política”

O teólogo esclarece que ninguém esperava que o Bolsonaro ganhasse as eleições e, quando aconteceu, perceberam que “o discurso evangélico mobiliza não só os fiéis, mas os setores conservadores da sociedade que não são religiosos”. Para Pinheiros, o Bolsonaro conseguiu conectar um grupo que não conversava: “As igrejas europeias históricas não conversam com as pentecostais, mas na esfera pública se unem para lutar contra a esquerda, contra as feministas, contra o movimento negro e contra a pauta LGBTQIA+”.

Homem branco em cima de uma carro de passeata com câmeras
Silas Malafaia, figura de destaque no meio evangélico, elegeu-se deputado e foi apoiador de Bolsonaro, sendo alinhado ao conservadorismo cristão [Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil]

O discurso conservador ser um forte mobilizador é explicado pela “configuração símbolos-discursivas”, para a socióloga. Ela ressalta que “tanto na etnografia dos protestos de rua quanto na análise de redes sociais”, há o uso de “símbolos, frases de efeito e argumentos simplificados, mas profundamente carregados de sentido moral para uma parcela da sociedade” e aponta que essa é uma forma de descaracterizar a ação como estritamente política, o que garante uma legitimidade moral e cívica superior ao movimento. 

Fortuna também ressalta a importância das tecnologias de comunicação, como o Facebook e o WhatsApp. “O uso estratégico dessas mídias permitiu o rompimento da chamada ‘espiral do silêncio’, criando o potente sentimento de que o indivíduo não estava ‘sozinho’”.

Por esse mesmo ângulo, Maidana explica que a dinâmica entre religião e política aproveita-se da representatividade e da visão de sociedade dos cristãos. “A influência da religião na política é benéfica para esta ala [direita brasileira], porque gera identificação, consequentemente, fidelidade do eleitor cristão”.

Além do senso de identidade, para Fortuna, o discurso moralista cristão exerce uma forte atração sobre a população brasileira, porque funciona como “uma ideologia reativa e de emergência” e explica que este discurso “oferece um senso de proteção contra mudanças sociais e jurídicas”, como as conquistas de direitos de grupos minoritários, que são interpretados por esse grupo como um processo de “desmoralização da sociedade”. 

Com a “Teologia da Prosperidade”, os discursos religiosos começam a se aproximar dos princípios do liberalismo econômico e da defesa do empreendedorismo social, de acordo com a socióloga. Ela explica que há uma aliança política que une a defesa radical do livre mercado com pautas de costumes tradicionais, chamada de amálgama ultraliberal-conservadora. “Muitos desses movimentos [conservadores] são apoiados e financiados por think tanks [instituições de pesquisas] liberais e organizações empresariais que buscam difundir o ideário de livre-mercado, de privatizações e do Estado mínimo”, aponta. Fortuna ainda esclarece que os movimentos sociais conservadores tornam-se um instrumento de manutenção do capitalismo liberal.

“O candidato que deseja se eleger, terá que direcionar seu discurso ao evangélico, dado o tamanho significativo deste eleitorado.”

Andreia Maidana

Perigos da associação da política com a religião

Maidana afirma que “é possível identificar movimentos fundamentalistas no Brasil, com forte influência na política”. Segundo o artigo Fundamentalismo à brasileira: perfil e enfoque do Protestantismo de Missão no Brasil, fundamentalismo é o movimento que defende “uma obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios”. No caso do fundamentalismo religioso, obediência literal a um conjunto de princípios religiosos, inclusive na vida pública. 

Para a cientista política, “a associação direta entre religião e política é perigosa, porque ameaça o Estado laico”, e consequentemente “compromete a igualdade de direitos, a liberdade religiosa e o respeito às minorias”. Além da “imposição de dogmas particulares na formulação de leis e políticas públicas”, Maidana chama atenção a um perigo central: a religião utilizada como instrumento de manipulação política. 

Uma investigação realizada pela BBC News, aponta que alguns pastores pressionam os fiéis para que votem em determinado candidato e até citam punições divinas, caso seja feito o contrário. Para Maidana, os princípios laicos brasileiros são frequentemente tensionados. “O Estado brasileiro não adota religião oficial, mas enfrenta desafios para manter-se neutro diante da forte influência religiosa na formulação de políticas públicas e nos espaços institucionais”.

Fortuna enfatiza que esta associação intensifica a polarização política do país: “Os perigos residem na disseminação de discursos que incitam à violência e à intolerância, baseada na visão maniqueísta que divide a sociedade entre o ‘bem’ e o ‘mal’”. A socióloga também ressalta um perigo à ordem democrática, já que “alguns desses movimentos religiosos defendem abertamente a intervenção militar e nutrem um saudosismo à ditadura”.

“Ao construir narrativas de ‘nós’ contra ‘eles’, esses movimentos estabelecem limites rígidos de identidade, tratando as diferenças como irreconciliáveis.”

Adrielma Fortuna

Multidão em um desfile militar com armas
Segundo o artigo A violência de corromper a religião em nome da política, “quando se mistura religião com política partidária, a discussão concreta [saúde, educação, moradia, renda] vira uma abstração e o ‘Outro’ se torna um demônio concreto a ser excomungado”. [Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil]

Seguindo essa lógica, Maidana também entende alguns discursos conservadores como insufladores da polarização política. “Estas figuras políticas associaram pautas conservadoras à própria fé, identificando adversários políticos como ameaças existenciais à família e aos valores religiosos. Estratégia que fomenta a polarização no país”. 

Para o teólogo, entretanto, a ideia de separar religião de política é impossível, pois a religião faz parte da vida pública das pessoas. Apesar disso, ele ressalta que é necessário separar a igreja do Estado e que ninguém deve legislar baseado em argumentos religiosos. “Por exemplo, quando se abre discussão sobre aborto, muitos deputados usam argumentos da Bíblia. Esse tipo de coisa deveria ser proibido”.

Além disso, Maidana declara que é possível que existam representantes religiosos na política sem que isto afete a laicidade do Brasil. “Depende muito do perfil deste político, é possível ser evangélico, mas saber dividir religião das decisões políticas. Não é um exercício fácil, mas é possível encontrar o equilíbrio”, pontua.

“Dentro do espaço político, não podemos legislar na vida da maioria usando argumentos religiosos. Entretanto, a religião se discute na política como parte da vida das pessoas.”

Walter Pinheiros

[A capa desta matéria usa uma imagem editada do Wikimedia Commons]

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