Por Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)
O primeiro dia do 10º Festival Piauí de Jornalismo aconteceu neste sábado (5), em São Paulo. O jornalista Dean Baquet, ex-editor executivo do The New York Times por quase uma década, falou sobre sua experiência à frente de um dos principais jornais dos Estados Unidos durante a ascensão de Donald Trump na política americana. Baquet discutiu sobre as dificuldades e os dilemas que enfrentou para dirigir sua equipe.
A conversa foi conduzida por André Petry, diretor de redação da Revista piauí, e por Natuza Nery, da GloboNews. Os mediadores trouxeram à tona questões sobre decisões tomadas por Baquet durante sua liderança, e também abordaram temas sobre as atuais mudanças que interferem no jornalismo.
Dean Baquet nasceu em Nova Orleans, em Louisiana, e foi o primeiro homem negro a comandar a redação do The New York Times. Em 1988, ele foi vencedor do Prêmio Pulitzer na categoria de Jornalismo Investigativo por uma reportagem que denunciava esquemas de corrupção em Chicago, quando trabalhava no Chicago Tribune. Em 1994, foi finalista do prêmio na mesma categoria, quando já trabalhava no The New York Times.

[Imagem: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior]
Mudanças políticas e mudanças na imprensa
Ao iniciar a conversa, Baquet foi questionado se a imprensa havia subestimado a ameaça de Trump à democracia. O jornalista afirmou que, caso pudesse voltar para 2016 — ano em que Trump foi eleito —, tomaria decisões diferentes e faria uma cobertura distinta. Segundo ele, na época não tinha noção da “quantidade de americanos brancos ainda raivosos com um presidente negro [Barack Obama]”.
Para Baquet, a incerteza econômica do país e o desejo de mudança impulsionaram a eleição de Trump. Ele afirmou ainda que repórteres políticos às vezes são seduzidos por especialistas, o que considera um erro, pois, naquele momento, os especialistas também estavam confusos com a situação.
Ao relembrar o episódio da marcha ao Capitólio, a sede do Poder Legislativo dos EUA, Baquet contou: “você fica pensando: como cobrir isso ao vivo? E por outro lado, pensa: como minha capa impressa ficará? E, meu Deus, o meu pessoal está dentro desse prédio, eles vão ficar bem?”.
Em relação às divergências internas, Baquet defendeu que considera protestos dentro da redação algo saudável. Para ele, a publicação de opiniões que vão contra as dos leitores e que podem os deixar desconfortáveis é necessária em determinados momentos. O jornalista disse que a “redação é o reflexo de um país” e que precisa dar espaço às discussões e diferenças que acontecem fora da redação jornalística.
As diversas faces do jornalismo
Questionado sobre a escolha de seguir no jornalismo investigativo, Baquet declarou: “no jornalismo investigativo você descobre coisas que as pessoas não querem que você descubra”. Para ele, um jornal que quer crescer não precisa necessariamente concentrar a sua produção nessa área, mas que para sobreviver, o veículo “precisa reportar coisas que nem todo mundo consegue, publicar algo que ninguém mais publique”.
Baquet falou sobre as diferentes funções que os jornais impressos desempenhavam: “você precisava dele para vender seu carro, saber onde ver um filme, para comprar uma casa”, entre outras funcionalidades. Porém, o tempo passou, e as funções que ficaram são a reportagem, investigação e opinião, funções essas que, de acordo com o jornalista, são as que mais provocam e instigam a sociedade.
Além disso, no passado, os jornais não tinham que “lutar” para serem lidos, pois eles eram diretamente importantes e necessários para se entender diversas situações cotidianas. Agora, ele avalia que os jornalistas precisam lutar para conquistar os leitores, situação essa que Baquet não enxerga como um problema.
Nery destacou que uma solução encontrada no The New York Times e em outros jornais foi trazer as antigas funções para o meio digital, quase como uma réplica da versão impressa. Hoje, esses veículos contam com seções de receitas, jogos clássicos e outros assuntos, o que contribui para alcançar outras parcelas da população.
O jornalista também explicou como funciona a checagem de fatos no The New York Times e afirmou que o processo é diferente dependendo do formato, já que o jornal também gerencia duas revistas. O problema é que o veículo precisa divulgar informações em alta velocidade e não há checagens que acompanhem esse ritmo. Essa pressa faz com que algumas notícias não tenham uma checagem inicial, o que não quer dizer, segundo Baquet, que o rigor e o compromisso com a verdade sejam deixados de lado pelos jornalistas.
Pressões sobre a imprensa
Ao ser questionado sobre como lida com pressões de governos e empresas sobre o noticiário, o jornalista afirmou que a coação direta de empresários que se sentem atacados não é tão comum. Mas o cenário muda com os líderes políticos, que tentam convencê-lo de não publicar determinados assuntos.
Sua decisão é não aceitar pedidos feitos por assessorias de imprensa. Entre outras estratégias utilizadas por Baquet, ele afirmou que apenas ouve pessoas de forma direta, o que não significa, porém, que vá remover alguma parte ou deixar de publicar certo conteúdo que seja de interesse público. Em situações excepcionais — como quando há risco de morte —, por outro lado, o ex-diretor do The New York Times exige a comprovação de que a publicação de fato colocaria uma vida em perigo.
“O ato de saber e não publicar é algo muito poderoso; é um ato político”
Dean Baquet

Mesmo tendo sido o primeiro homem negro a comandar o The New York Times, o jornal ainda encontra dificuldade para reter jornalistas negros. Baquet falou brevemente sobre a questão racial dentro do jornal, e declarou que é preciso “ter cuidado para o jornalismo não se tornar uma profissão da elite”. Baquet complementou ao dizer que a sua presença como um editor negro de um jornal de elite ajudou na representação racial ao fazer com que pessoas negras vissem alguém que se parecesse com elas na grande mídia. “Você não pode produzir um grande jornal diariamente se você não tem pessoas com diversidade de pontos de vista”, observou.
Em relação às melhorias do jornalismo, o jornalista afirmou que a cobertura do país melhorou, pois há um esforço maior para chegar a lugares onde a imprensa não costumava estar. Ele ainda citou a queda drástica do jornalismo local como um dos motivos do caos vivenciado em 2016.
O jornalista disse estar esperançoso quanto ao futuro da profissão: “tenho muita esperança, sou otimista por natureza. O jornalismo vai desafiar doutrinas de uma forma positiva”. Ele acredita que os próximos anos serão difíceis, mas que as organizações que acompanha estão abertas a novas possibilidades.
[Imagem de capa: Sofia Colasanto/Jornalismo Júnior]
