Por Sofia Colasanto (sofiacolasanto2@usp.br)
O segundo dia do Festival piauí de Jornalismo começou neste domingo (6), na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. A primeira mesa contou com a entrevista de Carlos Dada, fundador e diretor do jornal salvadorenho El Faro, o primeiro veículo digital da América Latina. A conversa foi conduzida por Marcelo Lins, comentarista da GloboNews, e Consuelo Dieguez, repórter da Revista piauí.
O convidado não poderia ser mais adequado para discutir o tema do festival deste ano: No olho do furação – diretores de redação em tempos de tormenta. Atualmente, a redação do El Faro atua em exílio, por conta da perseguição que sofre do governo de Nayib Bukele, presidente há seis anos de El Salvador.
De início, Consuelo retomou o primeiro Festival piauí de Jornalismo, que aconteceu em 2014 e tinha como temática Onde é que isso vai parar?, em um contexto de incertezas sobre o que o mundo digital poderia oferecer ao jornalismo. Como criador de um veículo que é digital desde sua fundação em 1998, Dada foi um dos convidados para discutir os novos caminhos da atuação jornalística. Doze anos depois, o jornalista volta ao festival para relatar como a tecnologia tornou-se uma ferramenta de controle.
Entre 2020 e 2021, mais da metade dos jornalistas do El Faro tiveram seus telefones grampeados pelo governo de Bukele através do software israelense Pegasus. Dada também relatou visitas de drones à sua residência e de outros exilados da equipe. Os avanços tecnológicos que antes eram tidos como uma injeção de oxigênio para o jornalismo latinoamericano, voltaram-se contra a própria classe.
“À medida que essas ferramentas foram avançando, a democracia foi se dissolvendo em El Salvador, e em muitas outras partes da América Latina. A possibilidade de instalar uma só voz cresceu para todos aqueles governos autoritários.”
Carlos Dada, fundador do jornal El Faro

Como um jornal sobrevive no exílio?
Ao longo da entrevista, Dada foi questionado sobre como o jornal se mantém mesmo em uma situação tão frágil. O veículo é perseguido desde 2019 pelo governo salvadorenho, mas em 2025, a situação tornou-se crítica quando o jornal denunciou acordos entre Bukele e líderes de gangues para a diminuição da violência no país.
Desde então, o governo considera o jornal um inimigo do povo e o acusou judicialmente de lavagem de dinheiro, problemas fiscais, campanhas de difamação e espionagem, como relatou Dada. A partir disso, a redação viu-se obrigada a exilar-se do país, de modo que muitos redatores deslocaram-se para a Costa Rica.
O diálogo com as fontes tornou-se um dos maiores desafios da atividade jornalística do El Faro. Dada relatou que, inicialmente, o contato acontecia “à moda antiga”: a fonte era levada até a Guatemala, dava a entrevista e depois retornava a El Salvador. Aos poucos, os meios digitais foram tomando conta do processo; porém, a descoberta da espionagem realizada pelo governo preocupou os jornalistas perante a segurança de suas fontes. “As fontes sempre estão correndo mais riscos do que os jornalistas”, afirmou Dada.
A dificuldade de contato também acontece pelo perigo que as fontes sofrem ao conversarem com o jornal. O fundador relatou que todos os funcionários do governo Bukele já passaram por um polígrafo, isto é, um detector de mentiras, em que foram perguntados se mantinham comunicação com o El Faro.
Dada também foi questionado sobre como fazer um jornal em exílio que retrate a realidade do país. Para além do contato com a população, o jornalista comentou que a análise de documentos governamentais é uma parte essencial da apuração. “Toda ditadura deixa rastros de seus crimes”, afirmou.
A manutenção financeira do jornal foi o tópico de que Carlos Dada tentou se esquivar, mas Marcelo Lins não deixou a pergunta passar. A situação do veículo não é fácil. Por um lado, enfrenta a falta de patrocínio e a diminuição de fundos que financiam o jornalismo mundialmente e, por outro, os altos gastos com a defesa judicial e com o exílio da equipe. Atualmente, é possível realizar doações ao jornal via internet.
Nem tudo que reluz é ouro
Em agosto de 2026, um levantamento da CB Global Data registrou aprovação de 68,7% de Nayib Bukele, sendo o presidente latinoamericano com o maior índice. Questionado sobre o motivo de um governo autoritário ser tão popular, Carlos Dada reconheceu que a população salvadorenha sente que a democracia não conseguiu resolver os problemas da nação, como os altos índices de violência. “É muito difícil exigir que sejam eleitores da chamada democracia, quando a democracia é uma palavra absolutamente vazia.”, revela o jornalista.

Dada se solidariza com os cidadãos que apoiam o governo Bukele. Desde que decretou o regime de exceção em 2022, o presidente vem tomando medidas drásticas para diminuir a presença de gangues no país e aumentar a segurança pública. Para isso, seu governo adotou a prática de encarceramentos em massa sem direito a receber visitas e à defesa. Carlos entende que muitos preferem ter seus direitos restringidos em prol da resolução de problemas crônicos do país.
A diminuição de homicídios no país fez com que o chamado “modelo Bukele” se tornasse uma sensação nos discursos da extrema direita ao redor do mundo. Nas eleições brasileiras deste ano, candidatos como Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) se inspiram em El Salvador em suas propostas para o fim do domínio das facções criminosas no país.
Questionado sobre o assunto, Carlos Dada contou ao público uma anedota. Certo dia, em uma exposição de fotos que mostravam a realidade de El Salvador durante o governo Bukele, um empresário brasileiro abordou o jornalista e comentou que o Brasil passava por um problema semelhante de segurança pública em relação às gangues. Dada, então, deu sua sugestão: “A solução é fácil, é só jogar uma bomba em cada favela”. O empresário, assustado, o questionou se isso não era errado, já que muitos inocentes morreriam, no que Dada respondeu “Parabéns, você já entendeu o modelo Bukele!”
Para o jornalista, o que a mídia internacional acompanha em El Salvador é apenas um pequeno recorte da realidade, o qual é totalmente manipulado pelo governo. Ele relata que apenas uma prisão pode ser visitada no país, que é justamente aquela que apresenta as melhores condições, enquanto outros 22 presídios têm visitação proibida. Além disso, Dada denuncia que há torturas dentro do cárcere, alto nível de violência policial nas ruas e detenções com justificativas frágeis. Outros problemas nacionais também continuam sem solução, como é o caso da crise econômica.

Há esperança?
Mesmo com a voz rouca, Carlos Dada conseguiu dizer muito. O jornalista admite que não gosta de expor sua vivência, porque entende que ela não possuí valor na esfera pública. No entanto, em tempos como esse, contar a sua história é contar o que está acontecendo com a sociedade.
Questionado sobre o que lhe dá esperança, Dada revelou que entende a situação de seu país como “um desafio a ser enfrentado, não uma tragédia”. O diretor sabe a importância de seu veículo, mas confessa que não vê o jornalismo como a ferramenta que irá desmantelar o discurso autoritário. Carlos insiste para que sua equipe continue executando um jornalismo investigativo de alto nível, afinal “todo período acaba”, e para ele é importante prezar pela posição que o veículo irá ocupar ao fim do regime.
[Imagem de capa: Renata Paes/Jornalismo Júnior]
