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DIA 04 | 28ª Bienal do Livro de SP: Cultura e representatividade nos estandes

Entre livros, autores e leitores que movimentam a Bienal do Livro, o coletivo Caiás reúne escritores em um estande dedicado à literatura negra
28ª Bienal do Livro de SP
Por Karl Marx Lamerinha (karl_marx@usp.br) 

No quarto dia da 28ª Bienal do Livro de São Paulo, realizado nesta segunda feira, o Distrito Anhembi recebeu uma programação que reuniu literatura, música e encontros com autores. Entre os destaques de 7 de setembro, estiveram Alice Oseman, Maidy Lacerda, Thalita Rebouças e Pedro Bandeira, além de uma mesa sobre o crescimento do romance erótico. A Bienal acontece até 13 de setembro, em Santana, na zona norte da capital.

Perto da praça de alimentação, depois de atravessar o corredor dos Artistas, o espaço abriga o Estande CC26 e as obras do Coletivo CAIÁS, Universidade Zumbi dos Palmares, e Flink Sampa. Durante o dia, autores aproveitaram para apresentar seu trabalho e trazer visibilidade sobre pautas sociais.

Em entrevista à Jornalismo Júnior, os autores Claudio Marques Da Silva, Mercia Magalhães e Elaine Regina contaram sobre suas diferentes obras, trajetórias e perspectivas dentro da literatura.

As ilustrações contribuem para a construção da protagonista e de seu cotidiano, explorando visualmente aspectos da experiência de uma menina negra na infância [Imagem: Karl Marx Lamerinha/ Acervo pessoal]

Para Mércia Magalhães a proposta do Coletivo Caiás é  aproximar pedagogos, jornalistas e escritores na construção de uma literatura capaz de dialogar com a educação para as relações étnico-raciais. Em um de seus livros, a autora conta a história de Kaya, uma menina negra que se aventura na descoberta de sua própria identidade e pertencimento com a ajuda de sua professora. O texto percorre personagens e eventos marcantes para a cultura, como a capoeira, o maracatu, os quilombos e personagens que fizeram a diferença na história, como Zumbi dos Palmares e Dandara

Mércia explicou que sua experiência em sala de aula foi o ponto de partida para transformar essa preocupação em literatura. Ao perceber a falta de referências que apresentassem às crianças negras uma imagem positiva de si mesmas, a professora levou para os livros situações que já faziam parte de sua prática pedagógica. A intenção, segundo ela, era que a obra também pudesse retornar à escola como repertório representativo e ferramenta didática, oferecendo às próprias crianças personagens e histórias nas quais pudessem se reconhecer.

“A Conceição Evaristo criou uma palavra que eu amo para descrever isso: a escrevivência.”

Mércia Magalhães

Além de escritora, Mércia  também é atriz e professora da educação básica, experiências que atravessam sua relação com a literatura infantil [Imagem: Karl Marx Lamerinha/ Acervo pessoal]

Para a autora, o conceito de “escrevivência”, de Conceição Evaristo, “é a nossa forma de inscrever memórias, dores e sonhos no papel”. Significa tornar as experiências reais em um elemento crucial na atividade não só da literatura, mas da conexão da sociedade com sua própria cultura. Para ilutrar ainda melhor o termo, a professora apresentou um exemplo do impacto desse tipo de obra: um aluno, menino negro com síndrome de Down, que se viu representado por uma das hístórias do coletivo.

A representação dos personagens também incorpora elementos das experiências de crianças negras com deficiência, da comunidade LGBTQIA+ e de povos indígenas [Imagem: Karl Marx Lamerinha/ Acervo pessoal] 

O livro ganhou um boneco de pano inspirado no garoto feito por Elaine Regina, que é artesã, além de autora e pesquisadora científica. Enquanto Mércia mostrava as páginas de suas últimas obras, o próprio garoto chegou ao estande e  pegou  o boneco de uma das prateleiras. “Ele disse que o nome dele é Malik, o nome do personagem. Isso é lindo, ele se viu na história, entendeu que ele também pode estar nas histórias que as pessoas contam” disse Mércia, emocionada.

Caiás aproxima literatura e educação antirracista 

Caiás é um nome em iorubá que significa “a felicidade bateu à sua porta”. O coletivo reúne escritores, jornalistas e educadores negros ligados ao Centro de Estudos e Pesquisas Raciais (CEPRacial) da Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo. Entre livros infantis, poesia e outras produções, o grupo aproxima a literatura da experiência de crianças e jovens negros dentro e fora da sala de aula.

A aproximação também parte da legislação. As Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 tornaram obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas escolas. Para o Caiás, fazer com que essas leis sejam efetivamente cumpridas é parte do trabalho do coletivo, e a produção de livros é uma das formas encontradas para levar esse conteúdo às escolas.

A produção de Elaine Regina amplia esse diálogo entre cultura e educação para uma área menos esperada: a matemática. Sua dissertação de mestrado deu origem a um livro publicado pela Editora Zumbi dos Palmares, que propõe ensinar conceitos matemáticos a partir de elementos da cultura africana. Na obra, símbolos e grafismos presentes no corpo de povos do continente são analisados como formas de representação de relações como família, hierarquia, descendência e idade. 

A partir dessas referências, Elaine desenvolve exercícios próprios e apresenta possibilidades para que professores levem essa abordagem para a sala de aula.

Elaine foi incentivada a transformar sua tese em um livro por seus orientadores, que entenderam o potencial da pesquisa para formação docente no país levando os saberes africanos e afro-brasileiros como fundamento [Imagem: Karl Marx Lamerinha/ Acervo pessoal]

Para Elaine Regina, essa forma de ensinar matemática também questiona a estrutura em que a educação está organizada atualmente. A autora entende que incorporar referências culturais africanas ao ensino permite reorganizar uma lógica educacional marcada por perspectivas coloniais e ampliar as formas de produção de conhecimento dentro da sala de aula. É a partir dessa compreensão que ela define a proposta de sua pesquisa:

“Promover uma educação matemática antirracista e decolonial é reconstruir o currículo como espaço de reconhecimento, justiça e produção de conhecimentos que dialoguem com a diversidade cultural dos sujeitos”

Elaine Regina

Cultura e educação desde a infância

De volta aos corredores da Bienal, o público encontra estandes dedicados a diferentes áreas além da literatura, com espaços voltados à educação, cultura, música e outras manifestações artísticas. A variedade também permite que temas como a matemática sejam apresentados a partir de referências culturais que fogem do modelo tradicional de ensino — como acontece no trabalho de Elaine Regina.

Além de escritor, Claudio da Silva é mestre em Economia, doutor em Educação e coordenador do Núcleo Economia Verde, Antirracista e Mudanças Climáticas do CEPRacial da UniZumbi  [Imagem: Karl Marx Lamerinha/ Acervo pessoal]

A proposta de aproximar conhecimento e cultura também alcança a pedagogia infantil. Para o Caiás, esse contato começa ainda na formação das crianças, quando livros e atividades podem contribuir para ampliar as referências apresentadas em sala de aula. É a partir dessa perspectiva que Claudio Marques da Silva apresenta seu livro, que parte de um elemento familiar ao imaginário infantil: os dinossauros. 

A partir de ilustrações voltadas às crianças, a obra aborda clima e biodiversidade de maneira acessível, e aproveita o interesse pelos animais pré-históricos como ponto de partida para discutir as transformações do planeta. A proposta é aproximar o afeto e a curiosidade das crianças por essas figuras de uma educação ambiental consciente e crítica.

O autor leva a discussão para a relação entre infância, clima e biodiversidade. Em seu livro, a Amazônia aparece a partir de registros fotográficos dos rios e de diferentes paisagens da região, aproximando as crianças de questões relacionadas à preservação ambiental. A obra também é construída a partir da interação entre autores e pedagogos, buscando conciliar o conteúdo apresentado com as necessidades da prática em sala de aula.

A proposta encontra nas imagens um caminho para chegar ao público infantil. Ao trabalhar com elementos que despertam a curiosidade das crianças, como os dinossauros, Claudio busca criar uma porta de entrada para temas ambientais mais complexos. A intenção é que o livro não apenas desperte o interesse das crianças, mas também ofereça aos educadores um material que possa ser utilizado no processo de ensino, que aproxime biodiversidade, clima e preservação de uma educação ambiental crítica.

Mais do que reunir livros e autores, a Bienal também permite ao público conhecer diferentes formas de produzir e compartilhar conhecimento. Entre literatura negra, educação antirracista, cultura africana e discussões sobre clima e biodiversidade, trabalhos como os apresentados pelo Caiás mostram como a produção literária pode se relacionar com outros campos e experiências. 

A programação da 28ª edição do evento também reúne atividades voltadas à educação, às artes, à cultura popular e a diferentes expressões literárias, ampliando as possibilidades de contato com manifestações culturais que fazem parte da sociedade brasileira. A Bienal segue sua programação até o dia 13 de setembro.

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