Jornalismo Júnior

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‘Caras-Pintadas’: uma expressão da juventude dos anos 1990 que abalou Brasília

O movimento foi de fundamental importância para o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, aponta especialista
Por Yuri Umemaru (yuri.umemaru@usp.br)

Em 1989, no segundo turno da primeira eleição presidencial direta da Nova República, Fernando Collor de Mello (filiado ao PRN à época) foi eleito com 53,03% dos votos ante os 46,97% de Lula (PT). Durante a campanha, Collor se apresentou como um candidato jovem que iria construir um “Brasil novo”, combater a corrupção e enfrentar aquilo que era o principal “inimigo” do país: a hiperinflação.

Um problema desde o início da década de 1980, a inflação atingia números notáveis naquele ano. Segundo dados oficiais do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em dezembro de 1989, a inflação bateu a casa dos 50% e encerrou o ano com um acumulado de 1.972,91%. Esse cenário — não controlado pelos planos econômicos do governo José Sarney (1985-1989) — corroía o poder de compra dos brasileiros, que sofriam com a remarcação diária de preços e queda na qualidade de vida.

No dia 16 de março de 1990, no segundo dia do governo Collor, a equipe econômica anunciou o que ficou conhecido como “Plano Collor”. Entre as medidas instituídas, como a troca da moeda brasileira e a abertura ao capital externo, o pacote trazia uma polêmica diretriz: o bloqueio das cadernetas de poupança que excediam 50 mil cruzados novos (moeda vigente) por 18 meses. O objetivo, segundo o economista Odilon Guedes Pinto Júnior em uma reportagem da BBC Brasil, era reduzir a liquidez da economia por meio da diminuição do poder de compra, o que, posteriormente, forçaria a queda dos preços. Apesar de uma queda momentânea, os resultados não ocorreram como esperado e a inflação continuou subindo.

Homem branco de terno fazendo o símbolo de paz e amor nas duas mãos
Segundo dados das pesquisas Datafolha, a aprovação de Collor era de apenas 36% em junho de 1990, e piorou nos levantamentos seguintes [Imagem: Roosewelt Pinheiro/Wikimedia Commons]

Dois anos depois, em maio de 1992, Pedro Collor, irmão do presidente, revelou em uma entrevista à revista VEJA a existência do “Esquema PC Farias” — nome que fazia referência ao empresário Paulo César Farias. Tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor, ele foi acusado de influenciar decisões do governo e de intermediar negócios e favores com o empresariado em troca de cobrança de propina.

Em meio a essa crise política e econômica, manifestações surgiram em todo o país. No dia 16 agosto de 1992, ocorreu o que veio a ser chamado de “Domingo Negro”: jovens com roupas escuras e os rostos pintados nas cores preta, verde e amarela, protestaram em diversas cidades, pedindo a saída de Collor da presidência. Era o início do movimento “Caras-Pintadas”.

Pessoas em foto preto e branco num protesto segurando bandeiras e com símbolos hippies
Canções como Cara Pintada, de Leci Brandão, chegaram a ser compostas para homenagear os jovens manifestantes [Imagem: Célio Azevedo/Wikimedia Commons]

Com a liderança da União Nacional dos Estudantes (UNE), as mobilizações ocorreram durante agosto e setembro de 1992 e reuniram números expressivos em várias localidades. Segundo estimativas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no dia 25 de agosto, cerca de 400 mil estudantes participaram de um protesto na cidade de São Paulo. A pressão sobre o Congresso Nacional ficou insustentável e, em 29 de setembro, foi aberto o processo de impeachment pela Câmara dos Deputados.

Em entrevista à J.Press, Luís Antonio Groppo, professor de Ciências Sociais, Pedagogia e História na Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), analisa as características desse movimento, seu impacto nos acontecimentos daquele período e o que ficou de legado para a sociedade e para a história recente do Brasil.

J.Press – Quais foram as razões para o protagonismo jovem nas manifestações?

Luís Antonio Groppo  – Havia um sentimento geral na população de insatisfação com a crise econômica e com as medidas do governo Collor, como o confisco das poupanças, que não resultaram em melhorias substanciais na vida das pessoas, e isso foi canalizado pelos estudantes.

É importante destacar que ocorreu algo surpreendente: essas manifestações foram iniciadas por estudantes secundaristas, que, apesar de terem uma tradição de mobilização no Brasil, não costumavam “puxá-las”, e eles foram muito importantes principalmente no início do movimento. Posteriormente, organizações como a UNE, presidida à época pelo atual deputado federal Lindbergh Farias (PT), entraram no movimento, mas o começo foi protagonizado pelos secundaristas.

Isso foi uma surpresa porque eles se mostraram uma manifestação de uma série de insatisfações que eram mais amplas e para além das questões econômicas, como os escândalos de corrupção, que eram veiculados pela imprensa no dia a dia.

J.Press – O que fez as manifestações terem tanto espaço? Havia alguma ligação com a então recente redemocratização do país?

Luís O movimento estudantil nos anos 1960 foi de grande importância na luta contra a ditadura civil-militar — mesmo antes, na época do populismo — e acabou sendo muito reprimido na década de 1970, mas, ainda assim, foi um dos grupos sociais que se destacou no processo de redemocratização. Entretanto, nos anos 1980 como um todo, os estudantes, principalmente os do ensino superior, tiveram uma atuação de pouco destaque em comparação com outros grupos, como os trabalhadores, aqueles ligados à moradia e as novas fases do movimento negro e feminista.

É por isso que, em 1992, os “Caras-Pintadas” foram uma grande surpresa. Os jovens estudantes não estavam sendo protagonistas de grandes mobilizações, então aquela época é uma espécie de “entressafra”, visto que, logo depois, voltaram a diminuir gradativamente.

J.Press   Havia alguma simbologia por trás do ato de pintar os rostos?

Luís  Foi uma reação de tom provocativo àquela convocação feita pelo Collor de que as pessoas saíssem vestidas com as cores do Brasil. O uso da bandeira e do hino nacional — símbolos patrióticos e nacionalistas — nas manifestações era uma forma de se manifestar contra a corrupção e isso foi retomado décadas depois, mas com um forte sentido “direitista” a partir de 2015 e 2016.

Agora, eu apontaria influências estéticas de um movimento que aconteceu na Argentina naquela mesma época: os Carapintadas, jovens militares que também pintavam os rostos como forma de se manifestar. Ocorreu no contexto da redemocratização do país e carregava uma certa ambiguidade, visto que criticava o processo, mas também era contra o regime militar.

J.Press   Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, e Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, foram músicas entoadas pelo movimento. Que tipo de recado queria ser dado com essas escolhas?

Luís – Naqueles dias, estava sendo transmitida pela Rede Globo uma minissérie chamada Anos Rebeldes (1992) e a música de abertura era Alegria, Alegria. Não sei dizer até que ponto foi coincidência ou não, mas um pouco daquele repertório de contestação dos anos 1960 estava sendo mostrado na televisão e isso foi retomado pelos estudantes. É claro que estava mais ligado ao campo socialista na década de 1960 e, em 1992, ganhou um tom mais patriótico — que sempre existiu.

Apesar de resgatar esse repertório, eles também criaram músicas próprias, sendo bastante irônicas e com muitos xingamentos ao presidente, à sua esposa e ao próprio PC Farias. Às vezes, entoavam o hino nacional também, então lembrava um pouco o movimento das “Diretas” de certa forma.

Homem pardo de camisa branca pintando o rosto de uma mulher branca e de cabelos longos
Um coro muito utilizado nas passeatas e que acabou sendo relatado em reportagens foi “Ai, ai, ai, ai, se empurrar o Collor cai” [Imagem: Sérgio Lima/Wikimedia Commons]

J.Press O impeachment de Fernando Collor aconteceu no final de 1992. Isso gerou alguma mudança na percepção da sociedade sobre a eficácia dos protestos?

Luís – Eu diria que houve um certo “eclipse” após esse momento. Me parece que, após 1992, os grandes protestos de rua deixaram de acontecer com esse tamanho e com essa radicalidade, voltando somente nas “Jornadas de Junho” em 2013.

Isso é curioso porque, mesmo com o Collor sendo afastado, os governos seguintes deram continuidade ao teor neoliberal da política econômica, especialmente os de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). É óbvio que foram criadas legislações anticorrupção e outros ganhos que foram sentidos pela população, mas não houve mais manifestações tão barulhentas para fazer pressão.

J.Press   Hoje, como o senhor acha que o movimento reverbera na sociedade? É possível enxergar alguma influência em manifestações posteriores, como nas já citadas “Jornadas de Junho”?

Luís Ele acabou sendo esquecido, assim como o movimento dos anos 1960, e outros repertórios de contestação foram ganhando espaço. Estudando os congressos da UNE, por exemplo, nota-se que, por muito tempo, eles relembravam esses dois temas, mas isso não acontece mais.

Após 2013, há uma menção maior a outros movimentos, como o do passe livre, o antiglobalização, etc. Ou seja, construiu-se um outro referencial muito influente, baseado no autonomismo. Mesmo as juventudes dos partidos socialistas mais tradicionais tiveram que abraçar alguns elementos dessa corrente, o que os afastou desse repertório socialista stricto-sensu do século 20 e da pauta patriótica e anticorrupção, que acabou sendo capturada pela direita e por movimentos de juventude de extrema-direita, como o Movimento Brasil Livre (MBL). Então, eu diria que houve uma grande transformação do repertório, com o movimento de 1992 estando muito mais próximo daquele ideário de 1960 do que de 2013.

Além disso, os “Caras-Pintadas” traziam a ideia de ser algo que representasse o povo, transcendendo partidos e ideologias específicas, assim como foi no início das manifestações em 2013. É evidente que havia uma certa ambiguidade nas “Jornadas”, já que alguns partidos foram atacados, mas ainda havia um sentimento de ser algo que representasse todo mundo ou um número maior de pessoas.

A partir de 2015, não há mais isso. A ideia de povo, de nação e a própria bandeira do país passaram a entrar em disputa, com uma intensa apropriação por parte da direita nesse campo simbólico. Então toda aquela representação do “Fora Collor”, com o verde e amarelo nos rostos, não representa mais as mesmas coisas.

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