Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)
Fazia exatos seis meses desde a minha graduação. Seis meses desde que uma nova designação compunha quem eu era. Enfim, no auge dos meus 24 anos, jornalista. Naquela noite tranquila do fim de maio, pela primeira vez, eu me sentia verdadeiramente pertencente à profissão. O curioso é que eu já trabalhava como repórter em um emprego estável desde março.
Foi então que percebi por qual motivo aquela sensação finalmente havia chegado: eu estava praticamente no prazo para entregar a minha primeira pauta e ainda não tinha sequer ideia do que mostraria ao meu editor. Era um momento de pânico e, como a boa procrastinadora que sempre fui, decidi espairecer colocando um filme na TV que há muito tempo havia sido indicado pela minha mãe.
“Meu bolo favorito” me prendeu do primeiro ao último segundo, porém uma cena específica provocou em mim um arrebatamento total. Passei a ter algo parecido com a sensação que G.H. teve ao encontrar a barata no quarto de sua empregada. Sabia que, a partir daquele momento, nunca mais seria a mesma.
A passagem mostrava uma tentativa de prisão pela polícia da moralidade iraniana de uma jovem por deixar uma mecha do cabelo à mostra, apesar de usar o véu. No filme, ela é salva pela protagonista, que se indigna com a violência da abordagem e decide defendê-la. Após uma conversa em que duas mulheres, separadas por uma grande diferença de idade, encontram uma na outra um ponto de apoio diante do medo imposto por uma sociedade profundamente machista, a protagonista consegue convencer o oficial a libertar a garota.

Depois de terminar o filme, fiquei imóvel por algum tempo repassando mentalmente a cena. O que me separava daquela menina violentada por ter fios de cabelo evidentes? A garota retratada parecia um pouco mais nova do que eu. Talvez tivesse 17 anos. Passei a tentar rememorar como eu era naquela idade. Uma menina livre que, vivendo a melhor parte de sua adolescência, gostava de usar um estilo de cabelo diferente a cada vez que ia sair. Que tipo de país é o Irã? Que tipo de lugar violenta uma mulher por causa de uma mecha de cabelo? Que tipo de Estado impede uma mulher de existir?
Lembrei de uma notícia que havia lido no mês anterior sobre uma marcha de mulheres que, na esteira do cessar-fogo entre Irã e Israel, voltaram a desafiar a obrigatoriedade do hijab. Cedi ao impulso de pesquisar a matéria novamente.
Descobri que o véu havia sido imposto em 1979, ano em que a monarquia secular da Dinastia Pahlavi foi derrubada pela formação da primeira teocracia islâmica do mundo moderno. Conforme apontam relatórios da Anistia Internacional e do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH), o lenço é entendido por algumas mulheres iranianas como um valor externo que tem o único objetivo cercear a vivência feminina. Em minha pesquisa, encontrei uma reportagem que apontava o Irã como o país em que as mulheres ‘valem metade’ de um homem. Mais uma vez, uma pergunta se formou em minha mente: o que, afinal, me diferenciava daquela jovem?
Por mais que se trate de uma personagem ficcional, algo muito semelhante aconteceu em 2022 no país. Mahsa Amini, mulher iraniana de 22 anos, foi espancada até a morte pela polícia, segundo ativistas. O motivo? Estava com os cabelos à mostra. Enquanto a guarda afirmava que Mahsa morrera por um ataque cardíaco no momento de sua detenção, naquele instante, compreendi que há países onde a violência usa uniforme. Em outros, ela prefere passar despercebida. Mas, em ambos, ela continua moldando a vida das mulheres.

Ser uma mulher rebelde no Irã, aparentemente, é fazer aparecer uma característica natural dos seres humanos, ou seja, seu cabelo. Ser uma mulher rebelde no Brasil é contar com uma roda de amigos que termina com seu parceiro por ter sido agredida verbalmente e acaba sendo rotulada como alguém intolerante. Na antiga Pérsia, a violência é institucionalizada; no Brasil, muitas vezes, ela é difusa. Lá, o Estado determina como uma mulher deve existir. Aqui, em tese, somos livres para escolher. Mas que liberdade é essa que termina quando anoitece?
Falo isso, pois o meu medo de violência sempre se intensifica assim que o sol se põe. Talvez porque, no Brasil, uma mulher seja estuprada a cada seis minutos. Talvez porque as ruas fiquem vazias, porque a cidade muda de rosto quando escurece, porque aprendemos desde cedo a apertar o passo, a dividir a localização, a segurar as chaves entre os dedos. Mas até que ponto é a noite que nos assusta?
Porque a violência não tem horário. Ela acontece no ônibus da manhã, no elevador do trabalho, dentro de casa, na festa de família. A noite apenas torna mais visível um medo que nunca vai embora. Ela não cria o perigo; apenas nos lembra dele. É esse medo que me aproxima tanto da jovem personagem de “Meu Bolo Favorito” quanto da protagonista do filme.
Eu não sou menos livre do que uma mulher iraniana. Muitas de nós, brasileiras, temos a impressão de que ser mulher no Oriente Médio é muito diferente da experiência feminina que temos no Ocidente. Que aqui há liberdade para nós. Embora seja fato que nenhuma lei brasileira me obriga a cobrir os cabelos, que posso escolher como me vestir, para onde ir e com quem viver, eu ainda tenho muito medo. Minhas amigas ainda têm muito medo. As mulheres da minha família ainda têm muito medo. Todas nós ainda temos muito medo.
Passei boa parte daquela noite tentando descobrir o que me separava daquela garota. Agora percebo que a pergunta estava errada. O filme não me fez olhar para o Irã. Fez com que passasse a enxergar a experiência universal feminina por uma nova lente. Independentemente da idade, do país ou do regime político, há um sentimento que parece atravessar fronteiras: a consciência de que direitos nunca são definitivos. Que aquilo que hoje nos parece garantido pode, amanhã, ser questionado. É por isso que tantas mulheres aprendem tão cedo a conviver com o medo. Não porque compartilhamos a mesma realidade, mas porque, em diferentes medidas, ainda somos obrigadas a disputar espaços que jamais deveriam nos ter sido negados.
De repente, fui tomada pela certeza de que tinha encontrado a pauta que levaria ao meu editor na segunda-feira: as muitas formas de violência que moldam a experiência de ser mulher, seja qual for o lugar do mundo.
Talvez ele, à primeira vista, não entenda o tema. Talvez o atribua a uma “militância desnecessária” e acabe por desprezá-lo, afinal, é difícil perceber um medo que nunca foi ensinado ao seu corpo. O que me resta é uma esperança silenciosa de que minha pauta seja aceita. Mais intimamente, de que o mundo se torne um lugar no qual nenhuma mulher precise lamentar o simples fato de existir.