Por Gabriela Moraes (gabrielamoraessilva@usp.br)
Meu neto, Fabinho, anda muito estranho ultimamente. Tudo começou depois do isolamento social da pandemia da covid-19. Quando as coisas se estabilizaram, o Fabinho não queria sair de casa nem mesmo ir para a escola. Onde já se viu? Na minha época, ninguém deixava de ir ao trabalho ou à escola, a não ser que estivesse doente.
A Clarice, minha neta, veio tomar café na minha casa ontem e conversou comigo:
— Vovó, a senhora tem que entender. A pandemia foi difícil para ele. Depois de tudo, ele tem um diagnóstico de depressão. — afirmou.
— Minha neta, na minha época não existia nada disso! Mas que absurdo sua mãe não colocar juízo na cabeça do menino! — rebati.
— Isso sempre existiu, vovó; a diferença é que agora minha geração fala disso e dá a devida importância. — Ela voltou a dizer
Esses jovens sempre aparecem com uma nova — é esse espírito revolucionário, pensei, querem mudar tudo!
Depois que Clarice foi embora, eu me deitei para dormir e acabei nem tomando banho nem fazendo minha higiene noturna. Desde que me aposentei, ando muito cansada. Na verdade, os primeiros seis meses foram incríveis, mas depois da morte do Geraldo, meu marido, fui ficando em casa e me sentindo tão sozinha; às vezes, não tenho vontade nem de comer. Hoje, minha filha, Helena, insistiu em me levar ao psicólogo. Vê se pode?
O consultório era bonito; tinha janelas grandes e uma vista muito bonita da Avenida Paulista. Sentei em uma poltrona confortável e olhei para a psicóloga, que me lembrava de minha neta que acabou de entrar na faculdade de psicologia.
— Estou aqui porque minha filha teve a ideia desmiolada de me trazer. Eu tenho certeza de que estou muito bem.
— Eu tenho certeza de que a senhora está bem. Mas vamos apenas conversar, tudo bem? — A psicóloga me deu um sorriso gentil.
— Está bem — suspirei.
Contei para ela sobre Fabinho e o quanto estava preocupada. Minha filha não conseguia endireitar o menino e eu estava com medo de não ter conserto. Quando ela pediu para eu falar de mim mesma, disse que não tinha muito o que falar, mas conforme fomos conversando, contei que estava aposentada há três anos e que no começo foi ótimo, mas que agora estava sendo complicado. Acredita que ela me disse que avaliaria nas próximas sessões a possibilidade de um diagnóstico de transtorno depressivo? Se eu não tivesse educação, teria me levantado e ido embora.
Quando a consulta finalmente acabou, fui para casa de minha filha para ver o Fabinho, já que ele nunca mais apareceu na minha casa. Chegando lá, o menino nem queria sair do quarto. Antes de eu entrar no cômodo, a Clarice me puxou de canto:
—Seja gentil com ele, vovó; ele te ama — ela suplicou.
— Tá, tá, mas agora me deixe ver meu neto! — disse, entrando no quarto.
Quando abri a porta, ele estava deitado e de repente me enxerguei nele. Ele passava tanto tempo no quarto quanto eu. Não queria tomar banho ou comer. Também não queria passear com sua família. Aquele cansaço, na verdade, era uma dor que eu não enxerguei nele, nem em mim. A dor de uma vida sem esperança, sem sentido. Meus olhos ficaram molhados e não consegui me dirigir a ele; eu o abandonei no momento em que ele mais precisava.
Dei de cara com Clarice assim que saí do quarto com os olhos marejados, quando escutei:
— Vovó, você está bem?
Não pude mais me conter, chorei tudo o que havia segurado desde a pandemia, que levou uma parte de mim. Senti a dor que tentava tanto esconder.
No momento em que eu consegui me acalmar, a Clarice, de novo, me esclareceu:
— Agora, entendemos a saúde mental como algo sério e também entendemos as pautas sociais ligadas a isso. A exploração do capitalismo, os preconceitos como o machismo, tudo isso reflete na nossa cabeçinha, vovó. Nosso pai sempre foi muito rígido com o Fabinho, dizendo que homem não poderia ser fraco. Ele aguentou tudo, até que explodiu.
Minha neta me contou a história de uma amiga que ficou afastada do trabalho depois de ter um burnout. Ela disse que a coitada trabalhava na escala 6×1 e ficava por volta de 3 horas no transporte público para chegar ao trabalho. Ela também contou que na faculdade de psicologia leu um estudo que se chama Escala 6×1 e Redução da Jornada de Trabalho; Ele apresenta que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que jornadas prolongadas de trabalho aumentam riscos de doenças mentais e de acidentes de trabalho.
— Mas não para por aí, vovó. A gente estudou outro artigo, Impactos da Escala de Trabalho 6×1 na Qualidade de Vida e Dinâmicas Sociais no Brasil, que mostra que as mazelas sociais também influenciam o impacto de uma alta jornada de trabalho. Mulheres, por exemplo, são mais afetadas, por muitas vezes possuírem dupla jornada, trabalho remunerado e trabalho doméstico.
— É por isso que estamos criando uma organização de jovens da faculdade, para realizarmos protestos pela aprovação da Proposta de Emenda à Constituição que busca o fim da Escala 6×1.
Ela também começou a relembrar um dia que estava no fundo da minha memória. Era uma sexta e eu tinha ido almoçar na casa da Helena. O Fabinho chegou da escola quase chorando e disse que uns meninos na escola estavam enchendo o saco dele. Isso foi suficiente para meu genro ter quase um ataque. Ele começou a perguntar para Fabinho se ele não era homem de verdade, já que ele estava chorando.
— Me sinto tão culpada por não enxergar isso, Clarice. Será que seu irmão vai me perdoar? Eu achei que essas coisas eram só mais uma rebeldia dele — disse envergonhada.
— Ah, vovó, somos rebeldes mesmo; é por isso que trazemos assuntos novos para o mundo. Afinal, é para isso que os jovens servem, né? — Ela riu — Não se sinta culpada; você foi educada de outra forma. Agora, vai falar com seu neto. Ele precisa de você!
Olhei para a porta do quarto dele e senti um medo inexplicável; entrar ali não era só entrar no mundo do meu neto, mas também entrar no meu e reconhecer que eu e ele não estávamos bem e que tudo bem não estar bem. Respirei fundo, abri a porta e falei baixinho:
— Oi, meu bem, é a vovó.
— Oi, vovó — ele disse apenas.
Eu me sentei na ponta da cama dele, acariciei seus cabelos e dei o sorriso mais gentil que eu pude:
— Você perdoa a vovó por ter estado longe de você? Agora, eu entendo o que você está passando. Na verdade, você sabia que eu também sinto essa sensação de que nada mais faz sentido?
Pela primeira vez, vi um brilho nos olhos dele, depois de tanto tempo.
— É verdade mesmo, vovó? Você também sente isso?
— Claro que sim, meu amor. Eu não mentiria para você.
Passamos o resto do dia juntos, conversando. Ajudar-me dava um sentido para a vida dele e ajudá-lo dava sentido para a minha. Ele me contou o quanto ficar isolado em casa, aos 13 anos de idade, foi difícil e como sentia saudade do avô. Eu lembrava do meu marido todo dia, vítima da covid. A pandemia levou meu parceiro da vida inteira, no momento em que fazia seis meses que eu tinha me aposentado. Não tinha trabalho para ocupar a mente, larguei minhas leituras e meus hobbies e deixei que a tristeza tomasse conta de mim. Esqueci que ainda tinha uma filha e dois netos maravilhosos.
No mesmo dia, eu e Fabinho assistimos ao filme preferido dele, Star Wars, e comemos muito bolo de cenoura com chocolate, o meu preferido, porque ainda não queríamos sair de casa, mas seria nosso próximo passo. Além disso, eu também me comprometi a falar com meu genro; ele era igual a mim, negando toda essa ideia de saúde mental trazida pela nova geração e, assim como eu, sabia que também entenderia o que nossos jovens estavam tentando nos dizer.
No dia seguinte, voltei à casa de minha filha para sair com meu neto. Passei a madrugada inteira pensando se ele aceitaria ou se até eu mesma teria forças para isso. Foi assustador no começo, mas fomos à sorveteria favorita do meu marido. Tudo ali me lembrava dele, ele amava sorvete de menta com calda de chocolate e odiava sorvete de morango, que, a propósito, era meu favorito. Ele dizia que não sabia como eu conseguia tomar aquilo, mas que tomaria um quilo de sorvete de morango, se fosse a condição para ficar perto de mim e sempre me dava um beijo com gosto de menta na boca, antes de irmos para casa.
E de repente, eu não estava triste, estava sentindo uma gratidão enorme pelo que passamos ali e pela lembrança que eu ia criar ali, naquele dia. Olhei para o meu neto e o vi sorrir pela primeira vez em dois anos.
Na semana seguinte, eu voltei ao consultório na Avenida Paulista para a minha sessão de terapia.

