Por Luiza Paglione (luizapaglione@usp.br)
O sentimento de estar perdendo algum evento é recorrente no cotidiano das gerações que cresceram diante de infinitas possibilidades ao alcance de um toque no celular. Essa sensação é gerada pela ansiedade de não participar de uma experiência, aparentemente, imperdível que – hipoteticamente – está ocorrendo do outro lado das telas.O nome dela é FoMO, Fear of Missing Out (medo de ficar de fora, em tradução livre).
Embora o termo “FoMO” tenha se popularizado com a era digital, esse fenômeno acompanha o ser humano desde a Era Não-Escrita, uma vez que estar excluído de uma tribo poderia indicar menor chance de sobrevivência. Nesse sentido, a checagem compulsiva das redes sociais funciona como um instinto primitivo: torna-se necessário saber tudo que acontece fora da sua realidade. Assim, não se perde trends, piadas internas ou acontecimentos e não há risco de ser isolado socialmente.
Apesar de o desejo por socialização ser inerente ao ser humano, as redes sociais transformam esse hábito em dependência. Com a ajuda dos algoritmos que prendem a atenção dos indivíduos, pode-se observar até problemas associados ao sistema dopaminérgico, o que cria um ciclo vicioso em busca de recompensas rápidas.
O FoMO ainda é aproveitado pelas empresas, que utilizam dessa ansiedade geracional para vender produtos e serviços. Dessa forma, nunca é possível ter acervo o suficiente para estar dentro de todas as tendências efêmeras e, consequentemente, o consumo é visto como a ‘única salvação’.
O homem primitivo também sentia FoMO
O homem é um ser social desde muito antes de Aristóteles trazer essa máxima na filosofia. Afinal, as relações humanas que garantiram a perpetuação e a sobrevivência da espécie na Era Não-Escrita, uma vez que se distanciar da sua tribo poderia significar ficar sem alimento ou ser atacado por um predador.

Nesse sentido, o homem primitivo também temia a exclusão social, o que, possivelmente, originou a base do sentimento do que se entende por FoMO. O psicólogo e pesquisador de neurociência da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Gabriel Rego, explica que o ser humano desenvolveu uma espécie de “radar social”. Ou seja, os indivíduos são sensíveis a sinais de aceitação e rejeição de um grupo, o que os torna suscetíveis ao medo de ficar de fora. “Constantemente nos preocupamos com a preservação de nossos vínculos e com a manutenção de nosso status, o que nos torna mais vigilantes a sinais sociais. A diferença nessa experiência ao longo da história humana é a frequência e resolutividade. No passado, era provável que não fôssemos tão expostos a sinais dessa natureza quanto nos dias atuais. Hoje, somos expostos a informações sociais constantes, o que leva a uma maior ativação desse “radar” social perante situações às quais temos menor controle.”, afirma.
Em paralelo com o contexto atual, era mais fácil lidar com a ansiedade social gerada pelo sentimento de FoMO quando ela era restrita a pequenos grupos. Hoje, com o advento das redes sociais, o “radar social” funciona de maneira ininterrupta no scroll infinito. Tenta-se rastrear tudo o que acontece em determinado meio social, explica o psicólogo.
“Nosso cérebro não foi desenvolvido para lidar adequadamente com redes sociais de milhares de pessoas. O mundo digital não amplia essa capacidade cognitiva, apenas aumenta o volume de sinais que o cérebro tenta processar com o mesmo hardware.”
Gabriel Rego, psicólogo e pesquisador de neurociência
A ciência por trás do FoMO
O medo de ficar de fora tem efeitos a curto e longo prazo. Em um pequeno espaço de tempo, ele gera ansiedade social e instiga o movimento contínuo de rolagem das redes sociais. Já a longo prazo, pode ocorrer a dependência digital advinda da repetição. Isso pode gerar dificuldade de concentração, intolerância à frustração e baixo rendimento acadêmico.
Nesse processo do uso contínuo entra a dopamina, um neurotransmissor associado ao sistema de recompensa do cérebro. “Um dos problemas das mídias sociais é que a rolagem infinita explora esse mecanismo recompensador por meio de reforço de razão variável, ou seja, quando você não sabe se o próximo post será relevante. Isso cria um ciclo de ‘só mais um pouco’, que é mantido pela antecipação, e não pela satisfação. O FoMO funciona como o combustível ansiogênico [indutor de ansiedade] que sustenta essa checagem compulsiva”, explica Rego.

O FoMO pode ser ainda mais prejudicial para nativos digitais, uma vez que estão acostumados a estímulos rápidos e a tarefas simultâneas. A psiquiatra Julia Khoury explica por que isso acontece: “O efeito prático da FOMO na mente do jovem é a redução da capacidade de concentração, porque os estímulos na rede social são rápidos, intensos e breves. Isso faz com que o cérebro não desenvolva a capacidade concentração em um mesmo estímulo. Isso também afeta adultos, só que eles já tinham adquirido essa capacidade antes, então sentem esse impacto com intensidade menor.”
Em relação à saúde mental e o FoMO, a Dra. Julia Khoury aponta uma relação bidirecional: a ansiedade e depressão levam ao uso do celular como “válvula de escape”. Em contrapartida, o vício agrava os quadros por picos e quedas de dopamina. O uso excessivo pode, inclusive, ativar genes dessas doenças via epigenética.
FoMO, FoBO e Marketing
A expressão “Fear of Missing Out” foi criada pelo estrategista de marketing Dan Herman e foi publicada pela primeira vez no Journal of Brand Management em 2000. O conceito buscava demonstrar como o medo da exclusão poderia ser usado como um gatilho comercial: para aliviá-lo, os consumidores eram impulsionados a tomar decisões rápidas de compra.
Já a sigla “FoMO”, associada ao significado usado hoje, foi cunhada por Patrick McGinnis em 2004, em um artigo de opinião satírico do The Harbus, jornal independente da Harvard Bussiness School (HBS). Em entrevista à Jornalismo Júnior, McGinnis diz que “Quando criei o FoMO, não tinha nenhuma expectativa, só escrevi esse artigo por diversão. Anos depois, quando descobri que tinha entrado para o dicionário, eu não fazia ideia.”

No Dicionário de Cambridge, o termo é descrito como um sentimento de preocupação de que se possa perder eventos emocionantes aos quais outras pessoas estão indo, especialmente causado por coisas vistas nas mídias sociais. A princípio, ele descrevia a sensação de não poder estar em duas festas simultâneas e como essa lacuna gerava ansiedade nos estudantes universitários. Atualmente, com milhares de opções de eventos coexistentes e que são conhecidos via redes sociais, essa ansiedade se torna quase inerente.
“Quando cunhei o termo lá em 2004, era um problema de escassez. Você tinha tempo limitado, opções e informações reais sobre o que seus amigos estavam fazendo. Mas eis o que mudou: o FOMO costumava ser descoberto. Agora, ele é fabricado.”
Patrick McGinnis, cunhou o termo ‘FoMO’
Além disso, McGinnis criou um subtermo derivado de FoMO, o FoBO. O Fear of Better Options seria, em português, o medo de opções melhores. É a ideia de que, em um mundo de escolhas abundantes, pode ser difícil decidir entre todas as opções. Muitas vezes essas escolhas são extremamente semelhantes – como acontece quando vai se realizar a compra de um produto online e existem diversas opções de lojas, cores, tamanhos e formas do mesmo bem.
Nesse sentido, combina-se os medos de perder, de escolher e de tomar uma decisão errada que gerará menor satisfação. Diante de milhares de alternativas, a população está fadada à insatisfação com suas escolhas: “nos enganamos pensando que, se continuarmos procurando, de alguma forma encontraremos algo melhor. Na verdade, quanto mais procuramos, mais propensos estamos a nos arrepender, porque examinamos as outras opções de forma tão minuciosa que o arrependimento aparece.” disse Patrick.
Outro ponto de atenção é a forma como os algoritmos reconhecem o padrão de querer tudo ao mesmo tempo. Eles aproveitam esse hábito para mostrar mais publicidades no ciclo de scroll infinito. A “monetização da atenção”, como caracteriza McGinnis, garante que o indivíduo nunca tenha o suficiente e precise constantemente comprar ou querer mais, dada a experiência comprável sempre nova.
The Joy of Missing Out (JoMO)

O JoMO (Joy of Missing Out), traduzido como a “alegria de ficar de fora” em português, surge como um contraponto direto ao estresse e à ansiedade provocados pelo FoMO. Enquanto o FoMO é impulsionado pelo medo constante e pela necessidade de estar sempre conectado, o JoMO propõe uma mudança de perspectiva. O incentivo, nesse caso, é para que o indivíduo se sinta satisfeito em não participar de tudo. Esse conceito valoriza a desconexão das redes sociais, a redução da hipervigilância social e permite que a pessoa foque em suas próprias necessidades e no momento presente.
A prática do JoMO envolve estabelecer limites saudáveis para o uso da tecnologia e priorizar o cuidado com o mundo interior. Estratégias como a meditação e o estabelecimento de horários específicos para largar o celular – especialmente antes de dormir – são ferramentas fundamentais para cultivar esse estado.
A alegria de ficar de fora é o ditado popular: “você não pode abraçar o mundo”. A abordagem serve como uma forma de contornar a dependência digital e aceitar que, às vezes, é preciso perder algumas coisas em prol de viver uma vida mais saudável.
*A capa desta matéria usa uma imagens editadas do Matrix.BO

