Por Estela Bughay (estelabhupalo@usp.br)
Na manhã de sexta-feira (25), a mesa “Documentários: Diferentes formas de contar histórias” abriu o último dia do ciclo de palestras da Semana do Jornalismo de 2026. Com mediação da repórter Luiza Paglione, os convidados Arthur Guimarães e Caue Angeli conversaram sobre suas carreiras, a produção de documentários e o atual cenário do ramo audiovisual.
Arthur Guimarães é produtor de documentários para streaming, com passagens pelo Jornal Nacional e Fantástico como repórter investigativo. Indicado duas vezes para o Emmy Internacional pela cobertura do caso Marielle e matéria do JN sobre o nadador Ryan Lochte, ele colabora ainda com a revista piauí e o Estadão. Já Caue Angeli dirige, desde 2013, a produtora 11:Onze Filmes, responsável pelo desenvolvimento de documentários como “‘Triunfo’ O pai do Hip Hop no Brasil” e “GIG – A uberização do trabalho”.
De redações aos documentários
No início da mesa, os convidados falaram sobre as diferenças entre trabalhar em redações e produzir documentários, pontos comuns na carreira de ambos. Para Guimarães, que agora produz documentários comerciais, se trata de uma nova forma de trabalho, já que as equipes são maiores e a produção final é voltada para o entretenimento, não para o jornalismo.
Já Angeli começou a carreira como repórter cinematográfico na Globo, aos 18 anos. Nesse tempo, estudou na Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba, e conta que aprendeu a fazer reportagens com poucos recursos e o chamado “cinema direto” – estilo de filmagem que busca retratar o que está sendo gravado com o mínimo de intervenções possíveis –, que aperfeiçoou durante seu trabalho no Profissão Repórter. Ele comenta que, mesmo que exista uma diferença financeira e de apoio entre a redação e a produção independente de documentários, existem similaridades. “Acho que é um processo parecido com o da redação, mas já em outro lugar. A coisa já se locomove em outro sentido”, conta.
Limites até a superexposição
Ao ser questionado sobre a superexposição de pessoas na produção de documentários, Angeli explica que é necessário analisar a situação e que dúvidas relacionadas à ética do processo estão sempre presentes. “Acho que vai do bom senso, do bom gosto, de qual intenção se tem ao expressar aquilo.”
Para Guimarães, a situação é mais delicada, especialmente em trabalhos que envolvem pessoas criminosas. Por trabalhar em produtoras de filmes para grandes plataformas de streaming, como a Netflix e a Amazon, ele ressalta a importância de que não existam novas exigências dessas empresas que mudem o que havia sido combinado inicialmente com os entrevistados.
Caue Angeli também assina o documentário “Pau D’Arco”, que acompanha sobreviventes de uma chacina policial no Pará [Imagem: Loren Tangi/Jornalismo Júnior]
Como manter a atenção do espectador?
Os documentaristas também explicaram meios de tornar a obra envolvente para os espectadores. Para Angeli, é importante evitar interferências no que está sendo capturado. “Eu tento manipular o mínimo possível. Gosto de filmar do jeito as coisas do jeito que estão”, afirma.
Já Guimarães enfrenta o problema das métricas dos streamings, em que as séries documentais precisam capturar a atenção de quem assiste logo nos primeiros minutos. Para isso, as produções seguem uma lógica de suspense progressivo que enrijece o roteiro e padroniza o gênero. “Essas plataformas vivem do algoritmo: querem vender e querem que a pessoa fique presa. Elas estão, na verdade, o tempo todo medindo o comportamento do espectador.”
Ele comenta que essas “fórmulas” de roteiro acabam empobrecendo a história, que, na sua opinião, é a parte mais importante em uma produção. “A pessoa, o personagem, a notícia. Isso vale mais do que qualquer formulinha de roteiro.”
Dicas para documentaristas
No final da conversa, os convidados deram conselhos para uma boa produção de documentários. Segundo ambos, uma boa pesquisa — seja por meio de documentos ou entrevistas — é sempre o passo inicial para a produção. É só depois disso que começa a criação de uma narrativa.
Angeli pontuou que é importante saber trabalhar com os recursos disponíveis e reforçou que o roteiro deve vir após a pesquisa. “Eu acredito muito que o roteiro do documentário vem depois de você ir para a rua, depois de fazer a pesquisa, porque falar antes sobre o que vai ser feito depois é quase uma ficção”, concluiu.
O evento contou com os seguintes apoiadores: Copiadora do CRUSP, Editora UNIFESP, Elle Brasil, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Jota Hamburgers, Revista Quatro Cinco Um e Summus Editorial.
*Imagem de capa: Loren Tangi/Jornalismo Júnior









