Por Nina M Bozic (ninamilibo@usp.br)
A casa está cheia de manchas. Cinzas, pretas, pequenas, grandes.
De primeira, eram quase imperceptíveis. Surgiram numa temporada chuvosa de janelas fechadas. Claras e pequeninas, permaneciam na escuridão dos cantos escondidos. Quando eram notadas, aparentavam inocência. Eu ignorava, mal sabendo que me espreitavam.
Lentamente, começaram a se revelar. Pareciam tímidas, sem pressa de serem notadas. Foram aos poucos conquistando a claridade, aumentando de tamanho, liberando seu odor azedo. De pouco em pouco.
De repente, a casa inteira estava manchada.
E assim permanece. O ambiente é feio. Não é mais marcado apenas por pontos cinzentos localizados, mas por grandes extensões escuras, nos tetos, nas paredes, nos móveis. Toda superfície refletora se tornou turva, quase opaca. Algumas das marcas têm uma espécie de penugem esbranquiçada, que repugna qualquer um que a encara. A umidade é esmagadora, pesando sobre cada objeto, cada pessoa. É fria. E não é apenas sentida. As maiores manchas, pretas e gotejantes, parecem gritar em nome da umidade do ar, escancarando sua existência. O cheiro é forte, ardente nas narinas, pinicante. Sua acidez queima.
A casa foi conquistada, e eu também. Sou assombrada pelas manchas, independentemente de onde eu esteja. Consigo sentir seu peso, ouvir seu gotejar, cheirar seu fedor, tocar sua penugem, enxergá-las se espalhando pelos cantos dos olhos, sempre. Meu corpo permanece vivo, mas está feio como tudo ao seu redor. Fisicamente, também decaio, com manchas na aparência, na integridade, no bem-estar. É como se tivessem conseguido crescer até mesmo dentro de mim. Estão tomando tudo.
E a vida, injusta, incompreensível, inimaginavelmente segue. Ainda tenho que trabalhar, dormir, comer, respirar. A repugnância espreita tudo que faço, mas tenho que seguir existindo. Mais do que tudo, preciso tentar ignorar a situação, por mais que me persiga. É desesperador.
Claro, eu entendo que algo tem – urgentemente – que ser feito. Mas, enquanto não há resolução, tenho que continuar. Sei que, por ter deixado a situação chegar ao ponto em que chegou, não há solução simples, não há como voltar ao que estava antes. Mas também não posso deixar tudo como está. A casa não pode desabar, de jeito nenhum.
Em um dia qualquer, chego do trabalho e vejo que parte do teto do meu quarto cedeu. Acima de mim, só resta um forro frágil e manchado, já escurecido e gotejando. À minha frente, escombros finos e úmidos amontoados no chão. Eu os encaro, incapaz de desviar o olhar. Talvez tenha tido sorte de estar fora quando aconteceu. Poderia ter sido atingida, ter me machucado com o desmoronamento. Mas não me sinto agradecida. Não, sinto ódio. Ódio por essas manchas sempre agirem pelas costas, sempre fazerem o pior quando não posso impedi-las. Ódio de mim mesma por deixar. Além dele, há o desespero, a vontade gritante de sair dali o mais rápido possível, de correr até, de algum jeito, chegar em minha casa de antes.
Sinto um peso subir de meu âmago à minha garganta. Tudo pelo que as manchas me fizeram passar – todos os sentimentos horríveis, a paranóia, o medo, o desespero, a incerteza, a ansiedade – parecem emergir de uma vez só, explodindo em minha pele. Lembranças felizes na casa emergem em minha mente, trazendo a dor da saudade à mistura. Meus olhos se enchem de lágrimas quentes, que inundam sem parar. Finalmente, me sinto chegar ao limite e desabo. Choro, grito, soluço. Nada parece ser o bastante para expressar o que eu sinto.
Sou parte da tragédia.
Mal posso acreditar que é tudo por causa de umas malditas manchinhas em que não prestei atenção. Manchas que eu soube ignorar. Mesmo quando eram pequenas, eu sabia que estavam lá, sabia que poderiam crescer. Eu sabia que poderiam impedi-las de alguma forma. Mas ignorei. A culpa é o maior dos pesos.
Mas o que eu poderia ter feito? Eu estava tão, tão cansada. E chovia, chovia tanto. A chuva não era culpa minha, eu não poderia controlá-la, então talvez as manchas também não fossem. Poderia tentar abrir um pouco as janelas, mas do que adiantaria? Continuaria chovendo, independente de minha vontade.
Naquela época, era possível ter esperança. Parte de mim pensava que tudo fosse passar com a chuva, que as manchas partiriam juntamente ao excesso de umidade. Que eu estaria livre delas sem mesmo precisar reconhecê-las, sem ao menos precisar abrir as janelas. Cruel esperança.
Elas se instalaram com a chuva e a assistiram ir embora. A casa permaneceu úmida, com as manchas se alimentando dela, lentamente. Era esperado, eu sabia disso. E achei que teria forças para agir com o fim da chuva, que então resolveria tudo isso. Agora eu podia controlar a situação, podia fazer algo, não? Não. As janelas permaneceram fechadas. Meu corpo também começou a decair no desleixo. A sensação de impotência ficou, o ambiente chuvoso também guardado em mim. E as manchas cresciam.
Eu conseguia sentir elas penetrando em cada lugar da casa. Assim como me sentia afundando, sendo esmagada por tudo, sem poder reagir. E a vida seguia, é claro. Trabalho, sono, respiração, fome. Feiúra. E manchas em toda parte.
Bem no fundo, por baixo do peso, eu sentia a chama da agonia. Uma ansiedade em me levantar, em resolver aquilo, em gritar até que as manchas se dissolvessem. Um ânimo torturante, implorando para ser atendido, desesperado para não sufocar. Mas me sentia enterrada profundamente demais para atendê-lo. Minha inércia tinha se tornado chuva – inevitável.
De vez em quando, inesperadamente, uma poeira de esperança voltava, passando por mim. Me dava sonhos. Eu fantasiava em chamar alguém, mostrar a situação e deixar que resolvessem por mim. E não teria que fazer tudo para resolver a situação, o que quer que “tudo” fosse. Seria o plano perfeito. Isso se não fosse a vergonha de admitir minha negligência. Me sentia desleixada e nojenta, a culpada pelo estado da casa, pelo meu estado. Não poderia lidar com o julgamento de outra pessoa. Então deixei como estava, sufocando.
Eu percebi quando a casa tinha sido tomada, no momento em que realmente olhei para a extensão das manchas, para a minha situação. Me senti sair do estupor da inércia, com o desespero crescendo. Cada gota era como um grito, um tapa em meu rosto para que eu visse o estado de tudo. Claro, ainda assim, não resolvi. Mas comecei a ser assombrada. A partir daí passei a notar os detalhes, a ser perseguida pela sombra das manchas onde quer que eu fosse.
O maior terror se repete em minha mente sem parar, desde então: eu deixei que a casa fosse tomada. Encarando o teto desabado e soluçando, sinto esse pensamento me corroer. Cresci nessa casa, e agora me sinto morrendo com ela. Imploro por perdão a nós duas. Choro por mais tempo do que posso contar, mesmo com os olhos secos e a garganta rouca. Não consigo parar ou pensar no que fazer se parar. Por todo aquele momento, meu mundo é só sentir.
Então, paro. Sem motivo, meu corpo simplesmente se detém. Respiro fundo. Abro os olhos lentamente, e novamente encaro os escombros, dessa vez apenas os vendo pelo que são. Sem grandes sentimentos, só observo aqueles pedaços de gesso podre. Engulo em seco. Ainda é desesperador, mas não sinto mais ímpeto de chorar. Me aprumo. Ajeito a postura, arrumo o cabelo. Suspiro, absorvendo tudo. Me levanto e vou ao banheiro. Me encaro no espelho turvo e só vejo escombros. É deprimente, e a ansiedade gritante começa a ressurgir.
Mas percebo que, pelo menos sobre o estado do meu corpo, posso fazer algo. Não vai doer, não vai ser difícil, posso fazer isso. Lavo o rosto, e a água gelada me arrepia. É bom. Sinto que posso prosseguir. Tomo um banho quente e demorado, penteio o cabelo, hidrato a pele. Depois de todos esses meses, um prazer ressurge nessa rotina – o alívio. Me lembro do porquê já gostei de banhos longos e de todo o ritual da limpeza. Transbordo em uma tranquilidade até então esquecida. Ignoro as manchas e foco apenas em mim.
Quando termino, me delicio em estar limpa, recomposta, agradável. Relaxada. Sinto parte do peso dentro de mim se dissolver. Sorrio, incrédula e com uma realização pulsando: consegui resolver algo, sozinha. Finalmente me sinto mais leve, me sinto capaz.
Olho ao redor. A casa continua escura, úmida, fedida, desabando, manchada, feia. Dentro de mim, as coisas não estão tão melhores. O peso ainda está lá, minha mente ainda está assombrada. Mas meu corpo tem uma aparência melhor, e as sensações parecem menos esmagadoras.
Posso resolver isso aos poucos. Sei que não será fácil, mas, se sou capaz de cuidar do meu corpo em escombros, a casa caída também pode ser resolvida. Atravesso meu quarto, ignorando o chão e o teto, focada na janela. Abro ela, e o vento e o Sol me agradam. Sinto as manchas recuarem.
Vai ficar tudo bem. Eu sou capaz.
[Imagem da capa: Reprodução/pexels]
