Jornalismo Júnior

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15° Roda de Conversa do Prêmio Vladimir Herzog: “As pessoas não tem noção da quantidade de sangue, suor e lágrimas para chegar à matéria”, diz mediadora 

Discussão contou os bastidores das produções premiadas e pautou temas como democracia, violência policial e direitos humanos
Na imagem, os convidados da 15º Roda de Conversa do Prêmio Vladmir Herzog
Por João Zogobi (jvznogueira@usp.br) e Theo Zapella (theozapella@usp.br)

No rápido consumo da imprensa cotidiana, o caminho traçado pelo jornalista, da pauta até o produto final, nem sempre é tão explícito, muito por conta da velocidade da leitura ditada pela rotina dos leitores — o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, por sua vez, propõe uma outra dinâmica. Na terça-feira (20), os vencedores e homenageados da 48ª edição do prêmio participaram da 15° Roda de Conversa, na qual discutiram os processos de apuração, produção e desenvolvimento dos produtos jornalísticos laureados.

Sediada no teatro Tucarena, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a conversa antecedeu a cerimônia de premiação e criou um espaço de reflexão e sinergia entre os 13 jornalistas presentes. Mesmo com processos jornalísticos distintos, os autores e mediadores encontraram semelhanças entre as produções, cujas temáticas orbitam entre violência, gênero, infraestrutura e trabalho.

Após a abertura de Ana Luísa Gomes, curadora da Oboré, e Giuliano Galli, do Instituto Vladimir Herzog (IVH), os mediadores Angelina Nunes, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), e Aldo Quiroga, professor da casa, deram início ao debate com a primeira divisão temática proposta por eles: a permanência do trabalho escravizado no Brasil.

O trabalho que se esconde: a escravidão

No primeiro bloco, apresentaram seus trabalhos a jornalista Marieta Cazarré (TV Brasil), vencedora na categoria Vídeo com “Trabalho escravo doméstico: silêncio e servidão”, e Daniel Camargos (Repórter Brasil), vencedor na categoria Texto com “A foto esquecida do trabalhador amarrado em uma carvoaria do Maranhão e o elo com a Toyota”. 

A quantidade de material bruto para o início dos projetos assusta: Camargos organizou uma base de dados, documentos oficiais e quase 200 páginas de documentos. Marieta lidou com 10 horas de material bruto gravado. 

No caso da repórter da TV Brasil, o  material conta com o depoimento de cinco mulheres resgatadas de serviços domésticos análogos à escravidão, muitas vezes enganadas com a promessa de pertencerem à família: “isso cai muito rápido por terra: elas têm acesso à herança, sentam à mesa para comer? Tem acesso à educação? Quase sempre não”.

As tendências ao trabalho escravizado não se restringem ao contexto domiciliar. Na altura da página 30 de um relatório aberto por engano, Camargos se deparou com uma foto que retratava um trabalhador de carvoaria, de cabeça baixa, amarrado pelos pés e braços. Além de investigar a fotografia em si,  ele mergulhou em uma análise mais profunda, traçando a cadeia produtiva do carvão: quem consome o produto que tem em si o sangue deste trabalho?

Os mediadores apontaram para um ponto de contato entre os dois trabalhos, um dilema vivido por ambos os jornalistas: a linha tênue entre expor a condição de vulnerabilidade do trabalhador e o risco de revitimizá-lo perante a mídia. “Depois de entender que foi escravizada, a pessoa muitas vezes passa a sentir alguma vergonha, mas é algo imposto a ela”, diz Marieta.

Das muitas violências contra a mulher 

Posteriormente, a violência presente no primeiro bloco se voltou para outros eixos, mais focados na experiência feminina. Com trabalhos que abordam as relações de poder em perspectiva de gênero ou a hostilidade clínica em processos de parto e aborto, duas vencedoras e duas homenageadas com menção honrosa discutiram suas produções.

Em “Agressão” (2026), obra de Ana Paula Araújo premiada na categoria Livro-reportagem, explora a violência psicológica e física sofrida por mulheres dentro de seus próprios lares. A autora revela que entrevistou dezenas de mulheres que “se sentiram libertadas ao ler outros depoimentos e entenderam que há outras pessoas que passam por isso”. 

Essa mesma libertação da vítima durante a conversa com jornalistas é ressaltada na obra de Angela Boldrini (Folha de S. Paulo), laureada com menção honrosa na categoria Vídeo. Na obra “22 semanas”, a repórter entrevistou a avó de uma criança de dez anos que enfrentou o lobby da senadora Damares Alves (PL), para realizar um aborto após ser estuprada pelo próprio tio: “quando ela [a avó] começou a contar, parecia que precisava há muito tempo falar”

Ainda nessa temática, a obra “Sala de Espera: o Aborto Legal no Brasil sob Ameaça” recebeu menção honrosa em Áudio. A representante da equipe, Natália Silva, também explorou essa sensação dos entrevistados: “Fizemos três perguntas em duas horas e  meia. Elas [as vítimas] tinham necessidade gigantesca de falar”. No podcast, Natália e sua equipe desenham um panorama político-sanitário do movimento que visa impedir a realização de processos legais de aborto. A jornalista conta que seu público-alvo foi os agentes de saúde, tanto aqueles que realizam o procedimento sob o rigor da lei quanto clandestinamente. 

Também dentro do contexto clínico está o trabalho “Parto ou Sentença?” do portal AzMina, vencedor da categoria Texto. Na reportagem, Mariana Rosseti e sua equipe investigam casos de mulheres, majoritariamente pretas e periféricas, que morreram por complicações durante o parto. O portal descobriu que, sob a tutela de uma mesma equipe médica, as mulheres eram submetidas à violência obstétrica: “É um racismo emaranhado na prática médica profissional”, disse Rosseti.

Focado em estudantes, o evento foi “uma aula aberta de jornalismo”, segundo a mediadora Angelina Nunes [Imagem: Thaiza Souza / Jornalismo Júnior]

Brutalidade policial: Brasil, terra de ninguém

A brutalidade policial também foi tema de algumas produções premiadas na terça-feira. Foram destaques na categoria os trabalhos de Antônio Junião (Ponte Jornalismo), Tomaz Silva (Agência Brasil), Eduardo Anizelli (Folha de S. Paulo) e Caio Castor (The Intercept Brasil)

A categoria premiou produções em diversos formatos, como charges, no caso de Antônio; registros fotográficos, feitos por Tomaz e Eduardo,  e produções multimídia, como a de Caio.  Os quatro jornalistas e suas equipes foram consagrados pelo Prêmio ao exporem a dor e o desamparo causados por operações policiais ações a partir de um olhar focado principalmente na população periférica e preta.

Silva e Anizelli expuseram em seus trabalhos fotográficos pontos de vista sobre a mesma ocasião: a Operação Contenção, deflagrada em outubro de 2025 pelo governo do Estado do Rio de Janeiro. A ação policial, que superou os recordes do Rio e se consagrou como a mais letal no território — com cerca de 120 mortes atestadas. Os focos foram os Complexos do Alemão e da Penha.

Em “Viúva se despede do marido morto na operação mais letal do Rio de Janeiro, Tomaz Silva, vencedor da categoria Fotografia, conta que imperavam, no ambiente, o luto e a agonia: “moradores desciam aos montes dos morros e descarregavam corpos de feridos sob o chão de uma praça pública”. Por não gostar de “mostrar a tragédia gratuita”, em suas próprias palavras, ele buscou, em meio ao caos, uma cena que simbolizasse a dor sem torná-la violentamente gráfica. 

“Quando começaram a cobrir com panos, eu comecei a observar as pessoas e eu vi a Fernanda, a fotografada. Eu quero mostrar quem fica. […] Ela não se sentiu invadida ou incomodada com a foto, mas sim homenageada.”
Tomaz Silva 

“Entendi que meu papel ali não era apenas registrar a morte, mas tentar preservar a humanidade e a dignidade de Fernanda”, disse Tomaz, em discurso na premiação [Imagem: Reprodução/Agência Brasil]

Ainda no tema, Anizelli, no ensaio fotográfico “Aqueles que carregam os mortos”, registrou as muitas horas de brutalidade sob as mais variadas perspectivas — de cima do morro, embaixo e até com drones. O fotógrafo relata que presenciar o ataque foi uma experiência traumática — ele reconhece a importância do trabalho, mas não gosta de revisitá-lo. As fotos, que ganharam menção honrosa em Fotografia, são descritas por ele como um “trabalho perturbador […] Mas também não tenho como negar o que está acontecendo na minha frente”. 

Sob um suporte diferente, o cartunista Antonio Junião conquistou menção honrosa na categoria Arte com a charge “Outro jovem negro assassinado”. A ilustração traz um tom crítico que aborda a banalização da brutalidade policial em relação a população preta, encarada por grande parte da sociedade como um “equívoco isolado”. 

Antonio Junião é diretor executivo da Ponte Jornalismo e suas charges e ilustrações percorrem temas como a cultura preta, política e esportes [Imagem / Reprodução: Prêmio Vladimir Herzog]

Vencedor da categoria Multimídia com “Moinho de Gente: a expulsão da última favela no centro de São Paulo” o jornalista Caio Castor e a equipe do Intercept retratam o acompanhamento da luta por sobrevivência e direito à cidade por parte dos moradores da Favela do Moinho, ameaçada e criminalizada pelo governo do Estado. A favela teve sua demolição e desapropriação concluídas neste ano, para dar lugar a um parque. O depoimento de Caio foi marcado por grandes emoções — ele próprio foi morador do território, e usou do espaço de fala para ler uma carta de Alessandra Mojo, liderança da comunidade presa há 400 dias. 

Violações e denúncias

Furando o caráter essencialmente urbano das outras produções, Carolina Dantas e a equipe do InfoAmazonia e Amazon Underworld mostraram a onipresença da violência na sociedade brasileira sob o ponto de vista amazônico. Venceram a categoria Multimídia com a obra “Ouro, Escavadeiras e fuzis: como facções e milícias dominaram garimpos clandestinos na Terra Indígena Sararé”. Segundo a representante da equipe, as terras indígenas passaram a lidar com mais uma ameaça: além de garimpos e madeireiras, sofrem ataques, agora, de facções criminosas e milícias que disputam as riquezas naturais dos territórios.

As premiações chegaram, também, ao Oriente Próximo. Com “Palestina, da abundância à fome”, Julia Dolce e a equipe d’O Joio e o Trigo mostraram o uso da tecnologia da fome como arma de guerra. Parte da equipe se deslocou até a Cisjordânia para colher depoimentos de palestinos que sofriam com a fome provocada pelo exército israelense: “nossa tradutora estava fraca e padecia de fome enquanto falava com a gente”, conta.

Já em um caráter de denúncia em relação à infraestrutura do país, a jornalista Jade Abreu (Metrópoles), e equipe produziram uma reportagem que, segundo ela, começou com algo pontual — e se tornou um grande e complexo produto. Em “O Brasil que Desmorona”, também vencedor da categoria Multimídia, analisa-se a situação das pontes no Brasil. A equipe percorreu de norte a sul do país, analisando não só a questão estrutural e técnica, mas também os impactos sociais, familiares e comerciais que são gerados pelo descaso e a ausência de reformas.

[Imagem de capa: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]

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