Jornalismo Júnior

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‘Choose Life?’: o cinema, as drogas e os jovens

Um cigarro para o personagem que fuma por não saber o que fazer com as mãos
por Sara da Franca (saradafranca@usp.br)

Em Aos Treze (Thirteen, 2003), Tracy Freedland (Evan Rachel Wood) experimenta drogas pela primeira vez. Não há adultos interrompendo a cena para explicar o perigo, apenas duas adolescentes rindo alto em um quarto que parece pequeno para tanta energia. Uma câmera inquieta, incapaz de acompanhar a velocidade com que a inocência escapa pelos dedos. Em minutos, o filme deixa claro que seu interesse nunca esteve na droga em si, mas no seu papel de porta de entrada para outro cenário: o da adolescência como um território em permanente estado de combustão.

Ao longo da história do cinema, algumas vezes o álcool, os narcóticos e as substâncias alucinógenas ocuparam o centro da narrativa. Mesmo quando parecem protagonistas, costumam funcionar como metáforas: o primeiro cigarro marca a independência. A primeira garrafa compartilhada promete pertencimento. A droga sintética transforma uma festa comum em uma experiência quase transcendental. De James Dean a Christiane F., a marca da bituca pode até mudar, mas os significados continuam semelhantes.

A substância em preto e branco

Desde seus primórdios, o consumo de álcool esteve presente na sétima arte, sendo uma das características da vida cosmopolita retratada no cinema mudo, entre as décadas de 1890 a 1920. O mesmo valia para o uso de cigarros, considerado um charme estético dos personagens, enquanto outras drogas estimulantes eram abordadas em filmes como vícios exóticos e passíveis de advertência — a exemplo de For His Son (1912), em que um pai inventa um refrigerante com cocaína para ganhar dinheiro, mas seu próprio filho, tragicamente, acaba se tornando um adicto.

Durante o fim dos anos 1920 aos anos 50, o hábito de fumar se tornou uma prática organizada e fortemente promovida quando empresas de tabaco, como a American Tobacco Company (Lucky Strike) e Liggett & Myers (Chesterfield), começaram a pagar estrelas de Hollywood para a inserção de seus produtos. Os então jovens atores Bette Davis, Joan Crawford, Clark Gable e Marlene Dietrich foram alguns dos astros a serem remunerados pelos tragos que davam em cena.

Marlene Dietrich fez do hábito de fumar uma de suas marcas registradas e ajudou a propagar os cigarros Lucky Strike
[Imagem: Reprodução/IMDb]

De janeiro de 1920 a dezembro de 1933, mesmo com a Lei Seca em vigor nos Estados Unidos — que restringia a produção, importação, transporte e venda de bebidas alcoólicas — a maioria dos filmes de Hollywood contava com personagens bebendo, e o termo “wet scene” (cena molhada) foi cunhado para descrever tais momentos. 

Em 1930, o Código Hays, montado pelos grandes estúdios estadunidenses, impôs diretrizes de censura moral às produções cinematográficas. O retrato do uso, mesmo de substâncias lícitas, só era permitido caso favorecesse o enredo ou o desenvolvimento do personagem, nunca de forma excessiva ou glamourosa.

Pelas próximas décadas, filmes como Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945) mudaram a abordagem única e simpática do uso de álcool e do fumo nas telas. Na trama, Don Birman (Ray Milland) não consegue alcançar seu sonho de ser escritor e se torna dependente de bebidas alcoólicas para lidar com sua realidade. Billy Wilder, diretor do longa, afirmou que a indústria de bebidas alcoólicas ofereceu à Paramount Pictures 5 milhões de dólares para que o filme não fosse lançado.

Ray Milland se internou na ala de alcoolistas do Hospital Bellevue para estudar a condição. Ele ganhou o Oscar de Melhor Ator e o longa venceu a categoria de Melhor Filme em 1946
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Já A Loucura da Ganza (Reefer Madness, 1936) e O Homem do Braço de Ouro (The Man with the Golden Arm, 1955) conseguiram contornar a censura e retrataram a dependência em substância ilegais.

Enquanto o primeiro — que foi patrocinado pelo governo americano — retrata o uso de drogas ilícitas por adolescentes no ensino médio de maneira inverossímil, como modo de alertar os pais, o segundo, estrelado por Frank Sinatra e Kim Novak, foi uma tentativa de apresentar a reabilitação de um ex-dependente após seu período na prisão.

A cultura anti-drogas era preponderante, geralmente com curtas direcionados a adolescentes, de fundo educativo, que focavam no consumo de marijuana e transições para químicos pesados, como em A Terrível Verdade (The Terrible Truth, 1951) — em que o então juíz de direito William B. McKesson relata a história de uma adolescente e sua recuperação após o vício em heroína, utilizando o filme, também, como propaganda anticomunista. 

Mas o retrato da juventude como período de dramas delinquentes se associou esteticamente aos cigarros e à bebida em títulos como o clássico Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955) e intensificou a influência da imagem jovial de celebridades, como James Dean.

O longa, ao contrário de seu nome original, explora as razões que contribuem para o comportamento juvenil considerado rebelde à época. Os adolescentes reconhecem a ausência familiar em suas vidas e o consumo de cigarros, por exemplo, torna-se característica daqueles que fogem ao padrão dos que são “certinhos” e resignados às suas condições.

James Dean consolidou a estética
do “rebelde sem causa” nos anos 50
[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A camiseta branca simples, o jeans e a jaqueta demonstravam a postura irreverente, que era coroada com um cigarro em mãos. A adolescência como um período de ser um “mini-adulto” tinha acabado, e agora a casualidade de Dean tinha mostrado essa época da vida com tons de solidão, confusão, raiva dos pais e um profundo desejo de se encaixar.

O Código Hays acabou em dezembro de 1968, com a introdução do sistema do MPAA Film Rating System, que regulou a audiência dos filmes produzidos em Hollywood por idade e recomendações de supervisão adulta, mas a relação entre as nuances da juventude e sua relação com o uso de drogas estava apenas começando a ser explorada.

Lucy no Céu com Diamantes e o desencanto

Nos anos 1960 a popularização da LSD e da maconha acompanhou o desenvolvimento da cultura hippie, dos movimentos anti-guerra e da revolução sexual. Parte da juventude enxergava as drogas não como criminalidade, mas como forma de expandir a consciência. 

O cinema absorveu esse imaginário e o retratou em filmes, como em Sem Destino (Easy Rider, 1969), onde os narcóticos são parte natural da vida dos protagonistas, ao mesmo tempo que o sonho de paz e amor é fracassado diante da realidade conservadora americana.

Mesmo sem mostrar o consumo direto de substâncias, em Magical Mystery Tour (1967), o terceiro filme dos Beatles, a estética psicodélica representava o reconhecido uso de alucinógenos pelos garotos de Liverpool, que se associaram aos seus visuais e composições,  influenciando gerações de jovens.

As cores chamativas e o nonsense em Magical Mystery Tour contribuem para a estética psicodélica [Imagem: Reprodução/IMDb]

Com os desgastes da Guerra do Vietnã (1955-1975), o otimismo sessentista deu espaço ao realismo nas décadas seguintes. Nos anos 1970, o cinema mostrou que a promessa de liberdade absoluta também produz dependência, violência e frustração, ao mesmo tempo que o consumo de álcool e maconha apareciam de maneira cada vez mais naturalizada. O jovem era um hedonista desencantado, mas que já havia inserido hábitos questionáveis em sua rotina.

Esse desencanto após as promessas da contracultura foi explorado em Os Viciados (Panic in the Needle Park, 1971). No filme, o retrato sem cerimônias do fim do “sonho americano” e do lado não opulento de Nova York destacam o uso de drogas pesadas como rejeição da fantasia na dureza da realidade. Estrelado por Al Pacino, o longa utiliza da técnica vérité style para demonstrar, sem pomposidades, a vivência dos personagens.  

O choque do vazio e o adeus à infância

A década de 1980 trouxe, de forma definitiva, as durezas da relação “juventude-drogas” e suas conexões com as críticas sociais, juntamente com um dos maiores clássicos que abordam o assunto: Eu, Christiane F. – 13 Anos, Drogada e Prostituída (Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, 1981).

No filme, baseado em fatos, Christiane é uma adolescente na Berlim dos anos 1970. Ela se apaixona por um traficante de drogas e escalona de uma inocente pacata para uma viciada em heroína que acaba por se prostituir para alimentar seus vícios.

O longa foi considerado “a imagem de uma geração” — muito pela abordagem austera da Berlim Ocidental da época, que explicitava as crises sociais vividas nas periferias da Guerra Fria e construía uma adolescência soturna. Ao evitar discursos moralizantes e escancarar uma trajetória de isolamento e perda da infância, a força da narrativa se sustenta na ausência de glamour.

“Senti tanta coisa que comecei a não sentir nada” é uma
das frases marcante da protagonista
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Já nos anos 1990, o cânone escocês Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting, 1996) retrata a constante tensão que o vício em substâncias lícitas e ilícitas traz. Sua famosa trilha sonora eletrônica e o humor ácido refletem essa visão, enquanto as cenas de overdose, abandono, recaídas e mortes também não são poupadas. Aqui, há reconhecimento dos malefícios, mas também das dificuldades de parar e dos porquês de continuar.

Em seu famoso monólogo introdutório, o protagonista Mark Renton (Ewan McGregor) critica a cultura de consumo e a resignação da classe-média às ilusões de sucesso, sempre começando suas frases citando“Choose life” (Escolha a vida). Em vez de aceitar esse modelo convencional de realidade, Renton opta por rejeitá-lo completamente, escolhendo a heroína e concluindo, de forma memorável, que não se precisam de razões quando se tem a droga.

Em outros longas como Kids (1995), o retrato cru do uso de álcool, maconha e outros mostra a sensação de abandono da juventude, sem grandes discursos adultos. Já em Vamos Nessa (Go, 1999) a cultura de drogas sintéticas em raves é explorada através da comédia. Uma estética dinâmica e imersiva, longe de pautas moralizadoras, guiaram as novas representações.

Para seu papel em Trainspotting – Sem Limites, Ewan McGregor leu livros sobre crack e heroína, e considerou injetá-la para se aprofundar melhor no personagem, mas desistiu posteriormente
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Pertencimento e psique

A partir dos anos 2000, o consumo passa a ser abordado dando maior relevância aos fatores emocionais relacionados às convenções sociais e as dinâmicas comportamentais modernas. Temas como ansiedade, pressão estética, bullying e pertencimento englobam as narrativas de adicção. Esse fenômeno, para a psicóloga existencial-fenomenológica Erika Nascimento, se relaciona a sentimentos inerentes à essa época da vida:

“Ocorre, muito naturalmente na juventude, a busca em torno de elementos de pertencimento a um grupo e, ao mesmo tempo, algum destaque individual. O álcool e as drogas são apenas alguns deles [dos elementos], mas trazem uma equação simples, uma receita rápida com alguns desses componentes buscados por muitos dos jovens.” 

— Erika Nascimento

Um dos maiores exemplos é o filme Aos Treze, que relata a adolescência feminina nesse contexto. Tracy, a protagonista, modifica sua aparência e seus hábitos para aparentar estar madura o suficiente. Ela utiliza das drogas para construir sua identidade, para pertencer — não para desafiar algum sistema. 

No renomado Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000), mesmo retratando pessoas de idades diferentes, a técnica de montagem hip-hop permite despertar sensorialmente o próprio dinamismo da recreação enquanto a vida dos personagens é destruída psicologicamente.

Na trama, Harry (Jared Leto) é viciado em drogas, mas sonha em ficar rico traficando. Ele e sua namorada, Marion (Jennifer Connelly), acabam por terem seus sonhos de prosperidade interceptados
pela adicção em heroína
[Imagem: Reprodução/IMDb]

E, a partir dessas abordagens, e das discussões sobre saúde mental em ascensão, nas décadas seguintes, filmes com interesses em demonstrar o que levam os jovens a começarem a usar drogas foram pensados com maior profundidade e humanização dos dependentes. Também a abordagem do consumo como parte da experimentação afetiva e existencial da juventude foi ampliada. 

Filmes como Querido Menino (Beautiful Boy, 2018), que mostra a dependência pela perspectiva de diferentes membros de uma família, e A Pior Pessoa do Mundo (The Worst Person in the World, 2021) — em que a protagonista está em uma jornada de autoconhecimento — fazem parte dessa nova onda.

Glamour ou realismo?

O consumo de álcool e, principalmente, cigarros passou por retratos esteticamente relacionados à elite, à cultura urbana e à boêmia, facilitando abordagens normalizadas por serem drogas lícitas e passíveis de patrocínio pelas indústrias de bebidas e tabaco. No cinema, o uso desses produtos na adolescência geralmente indica um traço de personalidade que tende ao rebelde, mas não surpreende devido à sua legalidade na sociedade.

O debate mais influente sobre uma suposta romantização recai sobre o uso de substâncias ilegais. O uso dessas drogas em uma fase de experimentação e descobertas que é a juventude, para Erika Nascimento, pode ser considerado esperado e não deveria ser o símbolo mais expressivo dessa época da vida. As diferentes motivações que levam ao uso permitem diversos retratos da maneira de consumo nessa fase que, para a psicóloga, podem ser reducionistas.

“O cinema me aparenta dar ênfases distintas entre ser rebelde, cool, dono de si ou o jovem que se afundou naquele uso, se perdeu ou que os problemas centralizados na substância viraram um caminho sem volta. [Eu] Diria que a realidade costuma ser bem mais complexa, e por vezes tão morna que sequer é bem vendida por aí.”

— Erika Nascimento

A banalização ou realismo da abordagem dependem de uma construção de roteiro em que é possível reconhecer o histórico de aprendizados de um personagem e das possibilidades do seu convívio para confrontar regras e imposições de modos diferentes. Também a importância da humanização deles e de suas experiências são destacadas:

“Quanto mais a arte mostrar o personagem como um ser humano, com conflitos, dentro de um contexto, acredito que auxiliará a diminuir preconceitos. Somos muito rápidos em separar “eu” e “eles”, uma distinção quase involuntária e crua, como se aquela vida nunca pudesse ser a nossa, [que é] distante! Mas a [importância dada à] narrativa de como aquela vida se deu, entre escolhas e fatalidades, constrói pontes mais sólidas.”

— Erika Nascimento

A influência do que pode ser negativo ou positivo vem de muitos fatores além das telas, o que não impede o questionamento de representações rasas do tema. Sobre essas condições, a psicóloga reitera que é “importante retratar de frente, ‘de cara limpa’, quando o uso vira um acessório de personalidade, sem qualquer reflexão sobre o cenário e também as possíveis consequências.”

Acesse aqui a lista de filmes que inspiraram esse texto!

*Imagem de Capa: [Arquivo Pessoal/Sara da Franca]

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