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‘A metade de Nós’: filme homenageia aqueles que ficaram para trás

A melancolia e a monotonia prendem o telespectador até o fim em trama sobre luto e acolhimento, que venceu o Prêmio do Público em 2023 na 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Por: Regina Lemmi (regina_lemmi@usp.br)

O casal Francisca (Denise Weinberg) e Carlos (Cacá Amaral) encontra-se desamparado após o suicídio de seu único filho, Felipe. O par se separa e resta ao telespectador acompanhar a trajetória única de cada um dos personagens. Enquanto a mãe procura culpar os antidepressivos, o pai  mora no apartamento de seu filho, alienado pela vida do finado. Para retratar o luto, A metade de nós (2024) retoma visuais estéticos inacreditavelmente belos, que auxiliam na manutenção de uma narrativa coesiva e fúnebre. 

Em entrevista aos Cinéfilos, o diretor Flavio Botelho diz que “Todo luto é único”. Desde 2014, após o suicídio de sua irmã, o cineasta começou a produzir o longa, motivado pela pergunta de “Como sobreviver a isso?”. Após uma década, em apenas três meses, os atores ensaiaram para a gravação, empenhados em entregar uma grande homenagem a todos aqueles que perderam seus parentes.

Francisca finalmente libera os sentimentos contidos no apartamento à venda. [Imagem: Reprodução / Youtube / Pandora Filmes Trailers]

O início do filme consiste em um flash forward, capaz de criar uma narrativa circular em que seu começo é o fim do longa. Em close-up médio, os protagonistas encaram a câmera e questionam um psiquiatra, que não aparece em cena. Suas interações demonstram-se confusas e entediantes propositalmente, a esposa não quer conversar e o marido finge que está tudo bem — até que seu choro no banheiro prova o contrário. 

A trajetória de Carlos se sobrepõe, por mais tempo em cena, à de Francisca. O pai demonstra-se curioso a entender o filho por meio do seu vizinho, com quem se relaciona sexualmente. Hugo era próximo de Felipe diante suas idades semelhantes. O filme não parece abordar as divergências etárias entre Carlos e Hugo e, diante disso, o telespectador compreende um protagonista absorto e alheio à realidade de sua vida diante o pesar. Ele tenta conciliar-se no luto por meio da natação e rememoração dócil sobre a infância de seu filho, o que influencia uma quebra no teor trágico. A dor apenas se realça em seus choros às escondidas, algo que faz o espectador ter compaixão pelo personagem,  sentindo um embolar na garganta, por exemplo,  na cena em que Carlos limpa as marcas da parede onde seu filho se matou. 

Carlos e Hugo se conhecem no elevador do prédio. [Imagem: Reprodução / Youtube / Pandora Filmes Trailers]

Já Francisca apresenta uma história modesta. Sua trajetória consiste na busca de vingança: vigia o médico pela janela de um apartamento à venda, do outro lado da rua. Sua negação e raiva silenciosas externalizam uma pequena porção de sua sensação de culpa, a qual tenta transferir ao psiquiatra pelo diagnóstico dado a Felipe. Inicialmente, ela se recusa aceitar o quadro “O homem-rato”, pintado por Felipe em tons de cinza e baseado em pinturas do filho do colaborador, Andrés Bruzzone. A mãe, entretanto, concorda em cuidar da cadela do morto. 

A obra cinematográfica surpreende pelo enquadramento simétrico para a narrativa. Esse é um filme que compromete-se a mostrar, não apenas contar a história. O diretor utiliza de plano geral e planos médios, sem planos-sequência, para retratar a monotonia da vida em meio aos sentimentos cruciais na mente dos protagonistas. Sobretudo, os visuais da obra ofuscam as falas pontuais pouco densas. Dessa forma, o público atenta-se aos pequenos detalhes que a câmera ressalta, pois é o que ela aponta que importa. 

O puro silêncio das cenas concebe uma sensação de mal-estar ao telespectador. É por meio da internalização da fala que rondam-se os mil porquês nas mentes dos personagens. O momento em que Francisca guarda uma corda do filho morto em sua mochila, ou quando Carlos dobra as roupas de Felipe no guarda-roupa, entregam ao espectador pequenos lampejos de compadecimento. Por meio do silencioso, há uma mensagem clara a respeito da impossíbilidade de se apontar o motivo de uma tentativa de suicídio.

Deitado na grama, Carlos reflete sobre a vida do filho após passar a noite em uma festa. [Imagem: Reprodução / Youtube / Pandora Filmes Trailers]

O longa cumpre a promessa de manter-se em uma simples premissa: discutir sobre o luto de maneira a olhar de outra forma à vida. O enfoque do filme não engloba a apresentação de um contexto a esses personagens, nem conta a história de Felipe. Mas apresenta o conforto, não apenas ao espectador, mas também aos produtores.

“O filme não é sobre suicídio, é sobre aqueles que foram deixados.
É sobre como sobreviver ao luto.”
Denise Weinberg

O final do longa retrata a consolação da natureza diante do luto. Não há uma cura para a pessoa enlutada, mas a capacidade inata da água da cachoeira e o bater do vento nas folhas entregam ao casal uma sensação de pacificidade após tantas emoções conturbadas. É um desfecho mais do que deslumbrante ao público. 

O filme está em cartaz nos cinemas. Confira o trailer:

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