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Entre acusações e assassinatos, a fama do jogo ‘Among Us’
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01 mar 2021 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br) e Isabella Marin (isabellamarinsilva@usp.br)

Among Us é um jogo mobile desenvolvido pela empresa InnerSloth em 2018. Mas foi em 2020, durante a pandemia do coronavírus, que o jogo alcançou um novo patamar. Considerado uma febre entre celebridades, como Neymar, Pewdiepie – gamer e produtor de conteúdo com mais inscritos no YouTubee até mesmo candidatos às prefeituras nacionais, Among Us tem se mostrado um dos marcos culturais de 2020. Mas dentre tantas opções, o que faz com que seus usuários o escolham? Qual seu diferencial? As respostas para essas perguntas e muitas outras estão neste texto do Sala33

 

Fama e a alta nos downloads de Among Us

O jogo Among Us, traduzido em português como “Entre Nós”, se passa em uma nave. Nela, há duas formas de jogar: como tripulante ou impostor. O primeiro faz as tarefas definidas e tenta sobreviver ao impostor, enquanto o segundo tem como objetivo matar o maior número de inocentes. Durante a partida, sempre que alguém encontra um corpo, pode reportá-lo e iniciar uma discussão para descobrir quem é o impostor. O jogo envolve acusações, manipulações, desconfianças e muita diversão até o final.

Início do jogo Among Us. [Imagem: Reprodução/Among Us]

Início do jogo Among Us. [Imagem: Reprodução/Among Us]

Por isso, a cada dia ganha mais seguidores e usuários. Em outubro de 2020, o jogo bateu o recorde de 100 milhões de downloads e se tornou o jogo mais baixado do ano, segundo a empresa Sensor Tower, que monitora o crescimento de apps. Ainda que tenha sido lançado em 2018, Among Us realmente estourou na pandemia do coronavírus, na qual uma das medidas de proteção recomendadas é o isolamento social. Logo, muitas pessoas passaram a se refugiar nos jogos on-line, como uma maneira de se manter próximo dos amigos e familiares.

É o caso de Amanda Fernandes, estudante de 18 anos. Antes, ela tinha o costume de sair todos os finais de semana com seus amigos para se divertir e conversar. Mas com a pandemia, isso se tornou inviável. A alternativa encontrada para solucionar o problema foi começar a fazer chamadas em plataformas virtuais para se entreter com diversos jogos. Um dos escolhidos foi Among Us: “Com a pandemia, cortamos os encontros e tivemos a ideia de fazer videochamada para matar a saudade, e para se divertir jogamos alguns jogos, como Among Us. Eu diria que diminui 50% da saudade”, declara.

Apesar do ano de 2020 ter surpreendido a todos e quebrado expectativas, algumas pessoas tentam preencher essas lacunas com as partidas virtuais. Maria Victória Machado é uma delas. A graduanda do curso de Educação Física da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp) teve apenas duas semanas de aula antes de decretarem a suspensão das mesmas. Com isso, não conheceu muitos de seus colegas de sala: “Nessas duas semanas na Uenp, o povo estava se conhecendo. Aí veio a pandemia e depois o pessoal nem lembrava mais quem era sua própria sala”. Porém, com Among Us surgiu a oportunidade de tentar suprir essa falta: “Começamos a jogar, agora todo mundo entra no Discord, todo mundo conversa, todo mundo interage. O jogo proporcionou isso, a nossa aproximação”.

O jogo não tem a capacidade de aproximar apenas amigos conhecidos ou colegas de classe. O app está longe de ser um Tinder, mas, se utilizado corretamente, pode funcionar como. Pedro* e Ana Júlia* conseguiram se conhecer melhor dessa forma. Os dois são da mesma cidade e já conheciam um ao outro de vista, mas nunca tinham sido realmente próximos. “Eu ficava chamando ele para jogar e aí a gente ficou mais próximo. Se não fosse o jogo, seria muito mais complicado de conversarmos, hoje a gente se fala toda hora!”, relata Ana Júlia.

Pedro, por ser um pouco mais tímido, se recusava a entrar na chamada de Ana e seus amigos, mas sempre topava participar das jogatinas. A principal vantagem que Ana vê no jogo para a relação entre os dois é como ele conseguia “quebrar o gelo” facilmente: “Era legal acusar ele e zoar, ficava algo divertido”.

A estudante de Jornalismo da Universidade de São Paulo (USP) Mara Mendes de Matos comenta um pouco sobre como o jogo influencia sua rotina na quarentena. Ela destaca o papel importante de socialização de Among Us na pandemia, e afirma que mesmo tendo aula com seus colegas todos os dias no ensino à distância, perde-se muito da convivência do dia a dia. Assim como Amanda Fernandes, o jogo representa o seu momento de interação com os amigos. 

Um dos aspectos mais interessantes de Among e de sua popularidade massiva está no grande público que antes não consumia muito do mercado de jogos. Mara não se identifica como uma pessoa “ligada em jogos” e afirma que gostava de Eightball e sudoku antes de entrar na faculdade. Ela acredita que o jogo teve muita influência na aproximação com alguns colegas, pois afirma que talvez não tivesse contato com algumas pessoas se não fosse pelo jogo. Mara destaca o clima de amizade e descontração: “Surgem algumas brigas e discussões, mas são coisas normais de jogos”.

A jogadora ainda disse que o game a ajuda a desenvolver habilidades estratégicas e afirma que elas poderiam ser aproveitadas em outros setores da vida pessoal e profissional.

 

A psicologia por trás do jogo 

Alana Onitsko Ferreira, psicóloga clínica especializada em Terapia Analítico-Comportamental pela Unesp, costuma indicar Among para seus seguidores do Instagram. A psicóloga, que também é mestranda de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela mesma instituição, acredita que os jogos colaboram para a socialização, desenvolvimento de habilidades sociais, raciocínio lógico e o enfrentamento de frustrações. Por isso, se tornaram uma rica ferramenta para a psicoterapia, e ainda é uma forma de entretenimento. 

“De modo geral, os jogos divertem, despertam nossa curiosidade, demandam lógica, estratégia e, quando são multiplayer como o Among Us, são espaços de socialização”, relatou. A psicóloga ainda explica que, em sua concepção, o sucesso do jogo vem justamente dessa forma adaptada de interação social. Por ser um jogo leve, intuitivo, com partidas curtas e recompensas imediatas, logo se tornou uma ponte de reaproximação com os amigos, ao mesmo tempo que acalenta e dá conforto à rotina de home office na pandemia. “Among foi uma forma de juntar os amigos que foram separados pela pandemia e formar também novos amigos, nos bate-papos, através dessa interação social.”

Além disso, o jogo consegue prender muito a atenção de seus usuários pelo mistério de quem será o impostor na próxima rodada. Não apenas envolve a identidade do impostor, mas o próprio comportamento do player vira uma preocupação. “Esse fator da dúvida desperta mais curiosidade, instiga mais a pessoa a continuar jogando, porque é uma estratégia. Como será que a pessoa vai defender seu ponto de vista na acusação de alguém? Ou, se eu reportar, será que vão me achar suspeito?”, questiona a psicóloga em relação às escolhas dos participantes nas partidas. 

Perla Lima, mestra em Psicologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e youtuber no canal Psique Entre Nós, relaciona o sucesso de Among Us com os reflexos que seu caráter acusatório e misterioso causa nas pessoas. Em seu vídeo para o YouTube, a psicóloga comenta sobre a euforia e a sensação prazerosa decorrente da liberação de dopamina, o conhecido hormônio da felicidade, que o jogo pode proporcionar. Dessa forma, quanto mais prazeroso fica, mais motivação se tem para continuar jogando. 

Ainda assim, jogar com conhecidos pode ser uma tarefa mais difícil, devido ao fato de eles já conhecerem seu comportamento. Nesses casos, é provável que se tente dissimular à frente dessas pessoas o que, segundo Lima, pode ocasionar ansiedade e uma maior vigilância no jogo. Aí entra uma tentativa do controle emocional pelo indivíduo e de lidar com a adrenalina e inquietação. 

Momento de acusação do jogo Among Us. [Imagem: Reprodução]

Momento de acusação do jogo Among Us. [Imagem: Reprodução]

Mesmo que ocorra essas emoções mais afloradas, Onitsko avalia que essa intensidade maior de sentimentos pode acabar rápido. Isso porque, como as partidas são curtas, há a possibilidade de que essa frustração seja passageira também. “A ascensão da vitória é o que nos move no jogo. Para isso, exige concentração, foco e muita lábia, o que podem ser fatores mais ansiógenos, mas que, se na próxima partida você for apenas um tripulante, esses níveis abaixam”, explica.

Para Onitsko, o jogo pode até ser um recurso para compreender melhor a frustração, visto que está sujeito a essa sensação em qualquer partida, seja impostor ou tripulante. “A gente está suscetível e isso faz parte do conjunto, faz parte do jogo”.

 

O uso político do game 

Publicidade de Boulos e Erundina. [Imagem: Reprodução/Instagram @guilhermeboulos.oficial]

Publicidade de Boulos e Erundina. [Imagem: Reprodução/Instagram @guilhermeboulos.oficial]

Publicidade de Boulos e Erundina. [Imagem: Reprodução/Instagram @guilhermeboulos.oficial]

O dia 15 de novembro marcou a data das eleições municipais para a maior parte do Brasil, com exceção do Amapá, vítima de um apagão prolongado. Até a data da eleição, percebeu-se um movimento grande por parte de muitos candidatos, com espectros políticos variados, de se aproximarem de camadas mais jovens de eleitores através de Among Us.

O ex-candidato a prefeito da cidade de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL), que apresentou amplo crescimento nas pesquisas de intenção de voto, fez uso do jogo em sua campanha. Além de marcar uma live com o youtuber Felipe Neto — atualmente o terceiro canal do Brasil com maior número de inscritos, mais de 40 milhões — o candidato do PSOL fez campanha pesada em suas mídias sociais, utilizou-se do jogo em algumas ocasiões. Um levantamento feito pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) revela que os vídeos do Instagram De Guilherme Boulos tiveram 11 milhões de visualizações, enquanto a produção de mídia de Bruno Covas (PSDB) — prefeito da cidade, que concorreu à reeleição e venceu —  teve 70 mil.

Live de Boulos e Felipe Neto. [Imagem: Reprodução/Instagram]

Live de Boulos e Felipe Neto. [Imagem: Reprodução/Instagram]

O ex-candidato à Prefeitura de São Paulo e youtuber Arthur do Val (Patriota) — também conhecido como Mamãe Falei, nome de seu canal com mais de 2,7 milhões de inscritos — realizou lives com aliados políticos, como o deputado federal Kim Kataguiri (Democratas) e o apresentador Danilo Gentili. Além deles, Arthur convidou sua adversária Marina Helou (Rede) para eventos similares. O candidato ficou em quinto lugar na corrida à prefeitura, com quase 10% dos votos, enquanto a candidata teve 0,41%.

O universo dos games tem ganhado cada vez mais espaço na política, para além de Among Us. No primeiro debate dos candidados à prefeitura da capital paulista promovido pela emissora Bandeirantes no dia 1º de outubro, Celso Russomanno (Republicanos) disse ter em seu governo planos que envolviam a pauta dos games. Em uma de suas respostas no programa, o candidato afirmou que, caso eleito, planejava implementar centros municipais de games. A proposta de Russomanno previa que esses centros fossem colocados em escolas públicas e que houvessem parcerias com instituições privadas.

 

Um olhar das desenvolvedoras

O jogo Among Us não apresenta gráficos, temática e jogabilidade revolucionários. Saulo Camarotti, fundador e CEO da Behold Games, uma desenvolvedora de jogos nacional, comenta sobre a popularidade recente do jogo e diz que tudo está relacionado com a jogabilidade, o design e o momento atual: “Jogos como Among Us se tornam populares pois trazem no momento certo uma resposta a uma necessidade, através da sua jogabilidade, plataforma e acesso”.

Sobre o que uma desenvolvedora deve levar em consideração na criação de um produto mobile, ou seja, voltado para celulares, Saulo afirma que, para a Behold, o bom design é pensado para que o jogo funcione na plataforma. Além de influenciar na temática do jogo, o design atua de forma decisiva no público, nos inputs, na distribuição, na maneira de jogar e também no tempo de sessão.

O CEO comenta que a pandemia aproximou muitos “não gamers”, pois eles, passaram a jogar como uma forma de passar tempo com os amigos. A pandemia de 2020 afetou de forma positiva o mercado de jogos no geral.

Sobre o momento do mercado de games, Saulo comenta que a Behold tem tido boas vendas no mundo todo e acredita em um impulsionamento pela pandemia. Ele ressalta o crescimento dos jogos mobile, que correspondem aos jogos mais atrativos para consumidores de fora do universo de games.

*Os nomes verdadeiros foram substituídos para preservar as informações dos entrevistados

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