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Arte com baralho: mágica e ‘cardistry’
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04 nov 2020 | Por João Timm (joaotimm@usp.br)

Hoje, quando se vê alguém com um baralho na mão em um ambiente que não seja uma mesa de jogo, assume-se que é um mágico. Por mais que muitos, de fato, sejam mágicos, nem todos são. A manipulação de cartas existe há séculos e hoje possui mais de uma “modalidade”, cada uma com suas características e objetivos.

Os baralhos existem desde o século 9. Eles são originários da China, e no século 11 já tinham se espalhado pelo continente asiático e chegado até o Egito. Foi apenas no século 14 que eles alcançaram a Europa, onde se tornaram imensamente populares. Ao longo de todo esse caminho, o baralho foi passando por alterações, até que na França surgiu da forma como é conhecido hoje: 52 cartas de quatro naipes diferentes e dois coringas.

Já o termo “mágica” tem origem do grego, e era usado para se referir a monges persas durante a guerra entre os dois povos. Com o fim do conflito, a palavra começou a ser usada popularmente para designar rituais e práticas estrangeiras e/ou suspeitas. Como truques e ilusões aparentavam ser inexplicáveis, da mesma forma que rituais, passaram a ser chamados de mágica.

 

A mágica com cartas

Os truques de mágica com cartas são contemporâneos à sua disseminação. Assim que os baralhos se tornaram acessíveis, já havia pessoas tentando criar ilusões com eles. Sua maior popularidade, no entanto, só foi atingida no início do século 20, quando uma grande quantidade de mágicos incorporou baralhos em suas rotinas dada sua portabilidade e baixo custo.

O mágico brasileiro Jean Macedo destaca o lançamento do livro The Expert at the Card Table (1902). “É um livro incrivelmente antigo que tem coisas que até hoje são usadas”, diz. “É um livro incrível, que ensina técnicas de gambling, principalmente, e que é recomendado por vários mágicos na atualidade porque as técnicas que estão lá são usadas até hoje”. Gambling, como Jean define, são truques realizados especificamente na mesa de jogo, mas que compartilham diversas técnicas com a mágica. 

Outro livro célebre de mágica foi lançado em 1940, chamado Expert Card Technique, que ensina técnicas fundamentais e diferentes variações delas. A literatura de mágica era muito importante, dado que a única forma de divulgação e aprendizado eram os livros.

Hoje, a principal forma de se aprender mágica é pela internet. Enquanto existem diversos canais no YouTube que ensinam técnicas e truques gratuitamente, também há sites e empresas que vendem truques de forma avulsa. Jean, que tem seu próprio canal no YouTube, o Masterz of Cards, explica: “Tem sites que vendem treinamento para mágicos, então eles vendem truques, objetos e ferramentas que o mágico usa, e lá existem vários downloads que você pode pagar, baixar e aprender um truque, uma rotina ou uma técnica”. 

Esses downloads são vídeos produzidos por mágicos profissionais ensinando truques que eles mesmos inventaram, geralmente com uma complexidade um pouco mais alta e um efeito visual marcante. Os vídeos, além de serem protegidos pela lei de direito de cópia, o que impede sua divulgação direta, também demoram a ter seu conteúdo reproduzido devido ao respeito existente entre os mágicos.

Ainda assim, Jean acha importante pontuar que, na era da internet, a “regra de que um mágico não pode revelar os seus segredos” está quase batida. Mesmo sendo importante manter o respeito e o “bom senso”, como diz, “se uma pessoa não ensina, outra vai lá e ensina”.

 

Cardistry

Além da mágica, outro tipo de manipulação de cartas é o chamado cardistry, que consiste em uma série de “manobras” com o baralho de forma extremamente visual e com muito movimento das mãos. O cardistry é bem mais recente que a mágica: existe desde 2004, ano em que os irmãos americanos Dan Buck e Dave Buck, mágicos profissionais, lançaram um DVD intitulado The Dan and Dave’s System, com uma série de rotinas e cortes autorais. Três anos depois eles lançaram outro DVD, chamado The Trilogy, que conseguiu ser mais aclamado que o primeiro lançamento.

Uma das três “modalidades principais” de cardistry: as 'card fans'. [Imagem: Reprodução/YouTube Making Impossible]

Uma das três “modalidades principais” de cardistry: as card fans. [Imagem: Reprodução/YouTube Making Impossible]

Uma das três “modalidades principais” de cardistry: as card spreads.  [Imagem: Reprodução/YouTube Ekaterina Dobrokhotova]

Uma das três “modalidades principais” de cardistry: as card spreads. [Imagem: Reprodução/YouTube Ekaterina Dobrokhotova]

Uma das três “modalidades principais” de cardistry: os packet cuts [Imagem: Reprodução/YouTube December Boys]

Uma das três “modalidades principais” de cardistry: os packet cuts
[Imagem: Reprodução/YouTube December Boys]

As diferenças entre mágica e cardistry são bastante claras. O cardist brasileiro Diego Okawa explica que “mágica e cardistry tem propósitos totalmente diferentes, porque enquanto na mágica você faz uma técnica escondida do seu espectador, em cardistry você mostra as técnicas, você mostra as habilidades que tem com as cartas”.

Assim como a mágica, o lugar para se aprender cardistry é na internet. Porém, não existem os downloads de truques, isso porque, para ser reconhecido como um bom cardist, é preciso inventar seus próprios cortes. Diego conta que, em seus três primeiros anos praticando cardistry, ele apenas aprendia e copiava cortes de outras pessoas, mas que depois passou a criar seus próprios movimentos. “Normalmente as pessoas aprendem por tutoriais mais no início, depois só veem para lembrar as mecânicas”, diz.

 

No Brasil

Existe tanto uma comunidade de mágica quanto de cardistry no Brasil, porém não do mesmo tamanho que em outros países. Jean diz que a mágica nacional ainda é muito “envergonhada”, no sentido de que ela não explodiu ainda. Mas isso talvez não seja por acaso.

Um grande obstáculo que existia até poucos anos atrás era a língua. A maioria do conteúdo de boa qualidade que ensina mágica, como os downloads e os livros, eram em inglês, o que limitava as referências para aqueles que não falavam o idioma.

Com isso em mente, Jean criou seu canal no YouTube em 2014 e, três anos depois, lançou seu próprio curso de mágica. “Ali que eu vi a oportunidade: não existe ninguém que fala português que ensina isso que eu acabei de ver”, ele conta, sobre quando estava estudando com conteúdos em inglês. “Eu nunca vi ninguém falando isso no Brasil; eu vou fazer um canal no YouTube e vou ensinar”.

Essa mesma questão do idioma também impacta a comunidade de cardistry. Diego conta que as comunidades de outros países são muito comunicativas entre si, enquanto a do Brasil se encontra mais isolada.

Fora isso, diferente dos mágicos, que estão mais presentes no YouTube, os cardists concentram sua atividade em outra rede social, o Instagram. É por lá que compartilham vídeos de seus cortes e criações, e também entram em contato com as invenções de outros artistas.

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