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Blaxploitation: um cinema de revolta

Conheça a história e as características desse gênero cinematográfico que mudou a forma como os negros eram vistos no cinema

CINÉFILOS
16 abr 2022 | Por Thiago Campolina (thiagocampolina@usp.br)

Há 50 anos, estreava nos EUA o filme Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971), considerado o primeiro filme blaxploitation. Esse novo gênero foi responsável por colocar os negros em uma posição central dentro do cinema norte-americano. Pois, até os anos 1970, a população negra não tinha papéis de destaque no enredo dos filmes. Atrás das câmeras, na direção ou no roteiro, a participação era ainda menor.

Para se ter uma ideia, no ano anterior ao lançamento de Sweetback’s, em 1970, ocorreu a 42ª cerimônia de entrega do Oscar. Nesses 42 anos, os únicos atores negros premiados foram Sidney Poitier, em Uma Voz nas Sombras (Lilies of the Field, 1963), e Hattie McDaniel, por seu papel no clássico … E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939). Poitier levou a estatueta de melhor ator, feito que só seria repetido por um negro em 2001, com Denzel Washington em Dia de Treinamento (Training Day, 2001). Já McDaniel angariou a de melhor atriz coadjuvante. Até hoje, a única mulher negra a ganhar o prêmio de melhor atriz foi Halle Berry, também em 2001, em A Última Ceia (Monster’s Ball, 2001).

 

Cena em preto e branco de ... E o Vento Levou, em que a empregada Mammy aparece de pé ao lado da cama, onde uma mulher branca está deitada bebendo algo em uma xícara.

Hattie McDaniel como a empregada Mammy em … E o Vento Levou [Imagem: Divulgação/IMDb]

No entanto, os personagens interpretados por Poitier e McDaniel eram submissos aos brancos. Eles representavam uma espécie de negro bom e aceitável, que não tinha voz própria e que reconhecia seu lugar. Isso era o que acontecia com todos os atores negros da época, obrigados a se contentar com papéis de camareiros, motoristas, cozinheiros, ladrões ou prostitutas. Quando não era esse o caso, então o personagem apresentava um caráter manso, conformado e desprovido de sexualidade.

A razão para isso era que o público branco, racista e preconceituoso, não queria ver um negro forte, poderoso e altivo. Até 1964, as leis Jim Crow instituíam a segregação racial, o que legalizava o estigma de raça inferior e sub-humana que recaia sobre o povo negro. Portanto o cinema, enquanto produto de seu entorno, também refletia isso. Caso um filme tivesse um negro que não fosse estereotipado e conformado, a sua receita seria menor, algo que não interessava aos estúdios e produtores. 

 

Os anos 1970 e o contexto de surgimento do blaxploitation 

A década de 1970 ficou marcada por diversos eventos emblemáticos, não só para os EUA, mas para o mundo como um todo. A Contracultura, os Panteras Negras e a independência de países africanos são alguns exemplos que podem ser citados. Dessa forma, o ambiente era altamente politizado. 

Em entrevista ao Cinéfilos, Michelle Caetano, mestre em História Social pela UFRJ, aponta que “o movimento contracultural intensificou o papel da arte como veículo de contestação dos valores normativos, dando voz às parcelas minoritárias. Dentre eles, os afro-americanos”. 

Além disso, os grandes estúdios hollywoodianos enfrentavam uma crise econômica, tão grande que alguns deles chegaram à beira da falência. Esse fator, somado com o contexto de efervescência política e cultural que agitava os EUA, fez surgir dois movimentos cinematográficos: a Nova Hollywood e o Blaxploitation. Ambos propunham uma forma de se fazer um cinema diferente da Era de Ouro. Os estúdios, que precisavam de dinheiro em caixa, decidiram dar uma chance. 

E deu certo! O Blaxploitation foi um sucesso absoluto de público e renda, tendo produzido em apenas cinco anos mais de 200 filmes. O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), um marco da Nova Hollywood, foi superado em bilheteria por Super Fly (1972). Essa obra mostra um traficante de cocaína, ironicamente chamado de Priest (Padre, em inglês), que quer sair do mundo em que a sociedade lhe obrigou a viver. Mas o que Priest tinha de tão especial para conseguir desbancar Don Corleone, um dos personagens mais icônicos do cinema? 

 

Cena de Super Fly, clássico do Blaxploitation, em que Priest, um traficante negro, aparece deitado em uma cama com as mãos atrás da cabeça. Ao seu lado, uma mulher branca de bruços o encara. Ambos estão sem roupa.

Ron O’Neal no papel de Priest, um traficante que, como muitos personagens do Blaxploitation, era cobiçado pelas mulheres brancas. [Imagem: Divulgação/IMDb]

O gênero blaxploitation: inovações e características

Bem, o que era tão diferente em Super Fly, assim como nos filmes do movimento de modo geral, era a maneira como o negro era mostrado. Antes do blaxploitation, houve os chamados race films, que “abriram caminho para o processo de representação afirmativa da negritude no cinema norte-americano”, conforme aponta Michelle. Feitos por e para negros, essas produções apresentavam um tom crítico ao preconceito do cinema.

No entanto, o blaxploitation dá um passo adiante. Ele não só tira os negros de papéis preconceituosos e de menor importância, como também o faz com impetuosidade, violência e ironia. A situação se inverteu e os brancos passaram a ser os coadjuvantes, enquanto os negros eram os principais. Agora, o público negro conseguiu, de fato, aquilo que ele sempre quis: poder se enxergar nas telas do cinema.

Essa identificação é gerada através de enredos e personagens que encarnam o cotidiano da população negra e pobre, especialmente urbana. Tanto que a maioria dos filmes se passa nas cidades, onde há muita violência, prostituição e tráfico de drogas. Os negros, então, passam a atuar como cafetões, traficantes e prostitutas. Contudo, como o blaxploitation faz questão de deixar claro, a marginalidade na qual vive a população negra não é uma escolha. É uma imposição da sociedade, que a impossibilita de tentar seu sustento de outra maneira. 

Michelle nota que “muitos personagens no cinema Blaxploitation eram bem sucedidos financeiramente, bem resolvidos com sua sexualidade e negritude e não se dobravam diante de atitudes racistas”. Ela continua, afirmando que eles questionavam o preconceito, a partir de um enfrentamento explícito dos mecanismos que os levaram até aquela situação. 

Por essa razão é que esses personagens eram anti-heróis, isto é, eram moralmente questionáveis e agiam por fora do sistema, ao contrário do herói clássico. Fosse pela violência, fosse pela ironia, eles não ficavam calados. Colocavam o dedo na ferida, indo contra todas as expectativas que se tinham dos negros. Incomodavam e ainda faziam isso com estilo, buscando sair da sombra em que o cinema e a sociedade os puseram.

Se antes a mídia retratava a negritude como algo inferior através das imagens, é também através das imagens que o Blaxploitation inovou esse retrato. O cabelo black power, a moda extravagante, bem como a postura descarada e sedutora buscam chamar a atenção para os negros. Tudo isso quer mostrar que a hora deles serem notados finalmente tinha chegado.

 

Críticas e polêmicas

As mulheres negras também conquistam seu espaço nos filmes, com personagens fortes e corajosas. Pam Grier, considerada a rainha do Blaxploitation (de Coffy, 1973 e Foxy Brown, 1974), e Tamara Dobson (de Cleópatra Jones, 1973), por exemplo, são dois ícones dessa geração. Quentin Tarantino, muito influenciado por esse gênero, fez um filme como homenagem a ele e a Pam Grier. Jackie Brown (1997), no qual ela interpreta o papel-título, e que, aliás, muitos consideram como seu melhor trabalho. No entanto, muitas vezes elas, assim como os homens, continuavam a difundir alguns estereótipos. Como se todo negro fosse traficante e toda negra fosse prostituta.

 

Cena de Coffy, filme do movimento Blaxploitation, em que Pam Grier traja uma roupa decotada vermelha e Robert DoQui veste uma roupa mostarda.

Pam Grier e Robert DoQui em Coffy, trajando roupas coloridas, decotadas e cheias de adereços. [Imagem: Divulgação/IMDb]

O próprio termo Blaxploitation foi cunhado por Junius Griffin, presidente de uma entidade defensora dos direitos dos negros, a NAACP. É a junção de black (negro, em inglês) e exploitation (exploração). Ele, como outros ativistas, achava que os filmes passavam uma imagem negativa do povo negro, a qual acabaria reafirmando os estigmas que ele já possuía. 

O público branco, é claro, também não aprovou o movimento, dizendo que ele era imoral e violento. Mas as plateias negras conseguiram sustentar a produção de novos filmes, ainda que por um período bastante curto. Isso porque no ano de 1976, após meros cinco anos desde o primeiro filme, o Blaxploitation já parecia ter ficado saturado. As obras eram muitas, assim como as críticas. Por isso, no momento em que os estúdios se recuperaram da crise, eles simplesmente cortaram o investimento. 

 

O legado do Blaxploitation para o cinema

Apesar de sua ascensão ter sido meteórica, o Blaxploitation conseguiu imprimir uma marca profunda na cultura norte-americana. Segundo Michelle, ele repercutiu nas gerações seguintes, ao abrir um precedente para essa série de mudanças que ocorreu. “Não há dúvida de que esse movimento insólito abriu caminhos para o longo processo da representatividade assertiva da negritude no cinema hollywoodiano”, ela afirma. 

Nos anos 1980, houve o surgimento de diversos artistas negros, como Eddie Murphy, Denzel Washington e Spike Lee. Por trás das câmeras, o movimento também abriu espaço para profissionais negros além dos atores. O staff, composto pelo diretor, cinegrafistas, designers e maquiadores, era formado por negros, de modo a dá-los uma possibilidade de emprego. 

Na música, houve um intercâmbio riquíssimo entre a estética do Blaxploitation e os gêneros musicais que faziam sucesso à época, dentre eles o Soul e o Funk. Artistas do calibre de James Brown e Curtis Mayfield interpretaram, escreveram e compuseram trilhas sonoras. Uma das melhores do primeiro se encontra em O Chefão de Nova Iorque (Black Caesar, 1973). Mayfield, com letras mais críticas e ácidas, assina a música de Super Fly e mais outros cinco filmes. 

Aliás, foi no prêmio de melhor canção original que um negro ganhou pela primeira vez um Oscar nas categorias técnicas, isto é, aquelas que não são de atuação, roteiro ou direção. Isaac Hayes, com sua música tema para Shaft (1971), levou a estatueta em 1972. Além disso, o álbum homônimo faturou três Grammys no mesmo ano, sendo o mais vendido na carreira de Hayes. 

No ano de 2016, houve uma série de manifestações em relação à premiação mais relevante do cinema americano, acusando-a de não levar em conta os trabalhos de pessoas negras. Chamada de Oscar’s So White, a causa movimentou o público e os artistas em torno de uma maior representatividade na indicação e entrega dos prêmios.   

Paulatinamente, tal objetivo vem sendo alcançado. Segundo dados de 2021 do relatório anual de diversidade da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), 19% dos papéis principais de um filme são interpretados por negros, o que é até acima do percentual desta população nos EUA, que é de 13,4%.  No entanto, os filmes protagonizados por negros tendem a ter um orçamento menor que aqueles nos quais o personagem principal é branco. 

Como se vê, um avanço enorme já ocorreu na representatividade dos negros no cinema americano, que é um dos mais importantes do mundo. Esse avanço foi possível, em grande medida, devido às mudanças trazidas pelo Blaxploitation na forma como o negro era retratado. Temos que agradecer a esse cinema inovador, que foi capaz de trazer, em uma época na qual o racismo era ainda mais violento, uma visão menos preconceituosa dos negros. Portanto não vamos desistir. A luta está no final, mas ainda não acabou. 

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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