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É possível colonizar Marte?
I'm Sorry, Dave
16 dez 2020 | Por Vinícius Byczkowski (viniciusbyczkowski@usp.br)

Desde os primeiros sucessos na exploração do Universo além da Terra, a humanidade tem buscado ir cada vez mais longe. Em 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin se tornou o primeiro ser humano a chegar no espaço sideral. Gagarin viajou a bordo de uma espaçonave Vostok a uma altura de 315 quilômetros em relação ao nível do mar. Oito anos depois, a missão Apollo 11 levou Neil Armstrong, Edwin “Buzz” Aldrin e Michael Collins até a Lua, que tem uma distância média da Terra de 380 mil quilômetros. Atualmente, a humanidade possui um novo objetivo: visitar e futuramente colonizar Marte, que está a dezenas de milhões de quilômetros daqui.

 

Por que Marte? 

Marte é, entre todos os outros planetas do Sistema Solar, o mais habitável. Mercúrio é um planeta muito próximo ao Sol, o que faz com que ele receba muita radiação solar e dificulta o pouso por conta do campo gravitacional da estrela. Vênus, por sua vez, é o planeta mais quente do Sistema Solar, devido à densidade de sua atmosfera, e apresenta uma temperatura média de 450 graus Celsius. Júpiter, Saturno, Urano e Netuno são todos planetas gasosos, por isso não seria possível pousar neles. Marte, portanto, é o único com potencial de ser colônia humana no Sistema Solar, o que fez com que o planeta ganhasse tanta atenção.

Marte, ainda assim, é muito diferente da Terra. As poucas semelhanças entre os dois planetas são, basicamente, a duração do dia, que demora 25 minutos a mais no planeta vermelho, e a inclinação do eixo de rotação em relação ao plano de órbita. A inclinação da Terra é o que provoca a existência de estações demarcadas em diferentes localidades do planeta durante o movimento de translação, portanto entende-se que as estações em Marte se dariam de forma parecida. As diferenças, por outro lado, são significativas: a atmosfera marciana é composta basicamente por  CO₂, sua pressão atmosférica é cerca de 1% da pressão atmosférica terrestre e sua gravidade cerca de ⅓ da gravidade da Terra. 

Estas características trariam muitos desafios aos humanos que viajassem até Marte. Um ser vivo está apto a viver nas condições específicas do ambiente que habita, por isso, para que a humanidade chegasse a Marte, seriam necessárias várias adaptações. Uma colônia marciana precisaria de um sistema de pressurização, produção de alimentos, tratamento para o reúso de água, produção de ar respirável e energia, além de que não seria possível abastecer uma colônia em Marte com alta frequência.

Diversos projetos e modelos de colônias marcianas já foram desenvolvidos e apresentados. A tecnologia atual proporciona alternativas eficazes para a produção de energia em Marte, que foram utilizadas nas missões não tripuladas já enviadas: a sonda mais recente, Curiosity, é abastecida por energia termonuclear, enquanto as sondas anteriores possuem painéis solares. O reúso e tratamento de água também já é viável, como é realizado na Estação Espacial Internacional, e a alimentação da tripulação poderia contar com a produção vegetal de hortas hidropônicas, além das comidas liofilizadas que já são consumidas atualmente e poderiam ser enviadas periodicamente para abastecer as colônias. 

Mesmo assim, colonizar Marte de fato e transformá-lo em um planeta com potencial para abrigar vida é um desafio muito maior. Segundo Eder Molina, doutor em Geofísica pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), a humanidade deve visitar Marte nas próximas décadas, mas tornar o planeta habitável só seria possível a partir do Terraforming.

 

Terraforming

O processo consiste em transformar um ambiente antes inóspito em um ambiente habitável para a espécie humana. A partir de diferentes técnicas, seria possível remodelar Marte de acordo com as características da Terra. Para isso, seria necessário aumentar a temperatura do primeiro, através da provocação de efeito estufa no planeta, aumentar a disponibilidade de água, através do derretimento das geleiras e do deslocamento da água líquida encontrada em Titã – satélite natural de Saturno -, além da disponibilidade  de amônia e hidrocarbonetos, que poderiam ser deslocados para Marte a partir do redirecionamento de cometas. Esse processo requer, portanto, tecnologia muito avançada, e Molina acredita que tudo isso não seria possível tão cedo, pelo menos não nas próximas décadas.

 

Outras considerações

Por mais que a colonização de Marte ainda seja um sonho distante, é válido pensar sobre os impactos que a exploração do planeta pode ter. Até hoje, não foi encontrada nenhuma forma de vida fora da Terra, mas esta alternativa não pode ser descartada. Existe a possibilidade de que haja algum organismo vivendo, neste momento, na superfície marciana. Um organismo que está apto a viver naquele ambiente e que provavelmente não tem imunidade aos patógenos da Terra. Um astronauta viajando para Marte poderia carregar consigo da Terra algum microrganismo que pode dizimar qualquer forma de vida marciana com facilidade, extinguindo a vida extraterrestre jamais antes vista.

Essa reflexão abre caminho para muitas outras: a humanidade deve explorar Marte? Seria ético praticar o terraforming e transformar Marte naquilo que a humanidade entende como propício à vida, desconsiderando outros possíveis organismos que estariam aptos a viver naquele ambiente? Deveria ser a exploração de outros planetas a prioridade da humanidade hoje?

Para estas perguntas, a Ciência apresentou variadas respostas. Atualmente, as sondas enviadas para fora da Terra são esterilizadas, o que diminui consideravelmente o risco de contaminação dos corpos celestes por patógenos terráqueos. Entretanto, uma viagem para Marte poderia trazer para a Terra algum patógeno para o qual a humanidade não desenvolveu resistência. Por isso, parte da comunidade científica se posiciona contrária ao retorno de amostras marcianas e alguns cientistas defendem até que a espécie humana não deve visitar  o planeta.

Pensando além disso, caso a humanidade enfim colonize Marte, a quem pertenceria o planeta vermelho? Seria ele explorado comercialmente? Quais leis pautariam a vida dos primeiros humanos marcianos, já que não existiria uma máquina de Estado?

O doutor em Sociologia pela USP, Wagner Iglecias, bem como Eder Molina, entende que Marte não pertenceria a alguém ou a algum país, mas sim à espécie, da mesma forma com que o Ártico e a Antártida são terras comuns à toda a humanidade. Nesse sentido, é provável que seja assinado um tratado de exploração de Marte. 

Iglecias também especula que a colonização definitiva do planeta vermelho levará muito tempo e sugere que os preceitos morais e éticos deste futuro em questão serão diferentes dos atuais, principalmente aqueles ligados aos ideais mercadológicos que regem o capitalismo na atualidade. Segundo o sociólogo, “até lá, a humanidade poderá ter enfrentado catástrofes ambientais, revoltas e revoluções, resultando em mudanças e aperfeiçoamentos da democracia ou em aprofundamento dos regimes autoritários”. Iglecias imagina que os primeiros humanos marcianos se organizarão em uma colônia pequena e que a primeira sociedade marciana se pautará em valores como a cooperação, a solidariedade e o espírito de grupo, por conta das dificuldades propostas pelo ambiente. 

 

Por que colonizar outro planeta?

Uma última pergunta pertinente a respeito da colonização do planeta vermelho é o porquê. Colonizar Marte é um passo importante para o avanço científico. Não se trata de ter um planeta reserva, trata-se de expandir os conhecimentos da espécie a respeito do Universo. O projeto do 14-bis, de Santos Dumont, por exemplo, é muito diferente dos aviões da atualidade, mas foi fundamental para que a aviação se tornasse tão importante. Da mesma forma, os esforços de Marie Curie foram fundamentais para a produção de energia nuclear; os de Alan Turing, para a produção de computadores como os atuais; sem os esforços de diversos astrônomos não seria possível cogitar a colonização de outro planeta. 

Portanto, a colonização de Marte é mais um passo no sentido do progresso científico e informacional e significaria expandir o conhecimento da espécie e permite à humanidade alçar novos voos no futuro.

 

Confira também: A ciência de Perdido em Marte

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COMENTÁRIOS
David
Muito boa a Matéria, amei...100% aprovada Show...Very Show....
19 jun 2021
 
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