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Esquisitamente comum: Maurício Pereira

Em conversa de quase 5 horas com o músico paulistano Maurício Pereira, ele falou bastante sobre a própria vida e algumas coisas mais. Aqui tem um pouco do que eu ouvi.

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30 out 2020 | Por Tomás Novaes (tomasnovaes@usp.br)

Na penúltima semana de julho, eu me embriaguei de Maurício Pereira. Ouvi todos os seus discos, li suas letras, cacei suas entrevistas e os seus videoclipes. Entre um vídeo e outro, aparecia Maurício também, em voz, em alguma propaganda no Youtube. Locutor, saxofonista, músico e jornalista de formação, Maurício reservou quase 5 horas daquela semana para uma longa entrevista sobre ele mesmo.

Isolado no interior de SP, Maurício me atendeu de noite, com a cabeça mais cabeluda  – sintoma de uma quarentena que já dura alguns meses. Logo no começo da chamada, Maurício me perguntou se a matéria seria veiculada em áudio ou em texto, porque “pro impresso eu falo mais em português, pro áudio eu falo mais em paulistês”. No fim, Maurício falou bastante em paulistês também.

Maurício Gallacci Pereira é escorpiano, daltônico, tem 60 anos, nascido em 1959 na Bela Vista. “Bem classe média”, como ele diz. E assim como a densidade de suas letras anunciava, Maurício não tem dificuldade com as palavras – tem dicção clara, de quem já fez muito trabalho de locução, e sotaque paulistano puxado, que chama a atenção até do paulistano mais naturalizado.

Maurício ficou conhecido ainda nos anos 80, pois era uma das metades da dupla “Os Mulheres Negras”. Ao lado de André Abujamra, Maurício gravou 2 discos com a gravadora Warner, alcançando sucesso na cena paulistana. Em sua carreira solo, Maurício fez a primeira transmissão ao vivo de um show no Brasil, em 1996, e lançou 8 discos. Como qualquer artista independente, ralou, quase vendeu seu saxofone, quase parou de fazer discos, mas voltou à cena na última década.

Hoje, 2020, quase 30 anos depois do fim da banda, Maurício talvez seja mais conhecido – ou reconhecido – como “pai do Tim”. Seu filho, Tim Bernardes, é músico integrante da banda paulistana “O Terno”, além de ter um disco solo lançado em 2017. 

Na intenção de cartografar a figura e a história de Maurício, década por década, disco após disco, o começo de tudo deve ser óbvio: a família e a juventude. Vocês verão que, neste seu primeiro mapa, Tonico e Tinoco toca debaixo do travesseiro, Vila Olímpia é roça e português e italiano competem bastante nos ouvidos. Então “bora nóis!”, como diria Maurício.

Um Mauricinho na Vila Olímpia

Na monategem, uma triângulo formado pelos pontos: Belenzinho, Campinas e Vila Olímpia

Os três pontos principais da infância e juventude de Maurício Pereira

Mauricinho”, neste caso, é só um Maurício pequeno mesmo, porque de acordo com ele “a Vila Olímpia era uma roça, não tinha iluminação pública, minha casa tinha fossa, não tinha rede de esgoto ali na minha rua”.

De ascendência portuguesa e italiana, Maurício cresceu ali na fronteira da Zona Oeste com a Zona Sul de São Paulo, com seu pai, publicitário, e sua mãe, funcionária do INPS – hoje o INSS. Maurício é o mais velho de três irmãos, e, quando o caçula nasceu, sua mãe, Daria, saiu do funcionalismo e começou a fazer freelas, depois a trabalhar no comércio e, já mais tarde, foi produtora do Antônio Abujamra, pai do André Abujamra. 

Graduada em Letras na USP, a mãe do Maurício também era pianista, formada em conservatório. Maurício, apesar de crescer com o piano em casa, não teve formação de músico, mas teve um grande professor de formação musical: o rádio.

Na minha casa, já nos anos 60, tinha um hábito. O meu pai tinha um rádio do lado da cama. Na cozinha tinha um rádio. Logo que eu fiz 10 anos de idade, eu pedi um rádio. Então do lado da minha cama, se eu esquecia o rádio ligado, eu acordava ouvindo música caipira. Eu fazia lição ouvindo o rádio no primário.

A trilha sonora da infância do Maurício, além da Jovem Guarda e de Beatles, era música de rádio: o brega, com Lindomar Castilho, Evaldo Braga, e música italiana. A família materna e paterna de Maurício são de Campinas, e as duas famílias têm ascendência italiana. O bisavô paterno, filho de português, foi maquinista da Mogiana – companhia ferroviária do interior de SP. “Eu passei muito tempo em Campinas, e como eu venho de uma família de ferroviário, eles me levavam para ver a manobra da Companhia Paulista e da Companhia Mogiana no sábado de manhã.”

Maurício e sua mãe, Daria, entre 1962 e 1963

Maurício e sua mãe, Daria, entre 1962 e 1963 [Imagem: arquivo pessoal]

Em todos os discos de Maurício, com exceção do último, Outono no Sudeste (2018), entre as faixas está pelo menos uma canção em italiano. Ele aprendeu a língua aos poucos, tanto por parte do seu avô materno quanto da sua avó paterna. “Quando era pequeno, tinha um ídolo italiano: era o Gianni Morandi.” Na sua infância, especialmente nas férias e finais de semana que passava na casa dos avós maternos, no Belenzinho, Maurício ouvia o italiano através de ditados e cantorias de seus avós. 

Ambos os seus avôs trabalharam como contadores e caixeiros-viajantes. A contabilidade, o comércio, toda essa tradição familiar pode explicar uma certa dualidade de Maurício como artista, que, desde o começo da sua carreira, tem um pouco de “contador português” e outro tanto de músico “fora da casinha”.

Aí tem a minha particularidade de artista: eu sou muitas horas um artista semi maluco, mas muitas horas eu sou o cara da vida comum, sou pai, o cara que vai na padaria, no supermercado.

A relação com a escrita é antiga, seja nas redações do colégio, nas cartas ou na preferência pelo John Lennon ao Paul Mccartney, na infância. “Eu sempre fui um cara da palavra, eu sempre fui muito de escrever.”

Um tipo solitário

Maurício no fim de 1980

Maurício no fim de 1980 [Imagem: arquivo pessoal]

De 74 à 77, já no colegial, Maurício estudou no Santa Cruz, colégio particular tradicional da Zona Oeste paulistana. Foi ali onde Maurício entrou em contato com a literatura, desde Max Weber até Dostoiévski: uma formação humanista forte em plena ditadura de Geisel. “Em 75 eu lembro que levaram três ou quatro professores presos, torturaram os caras.”

Maurício era o garoto mais novo do colegial. Quando foi prestar vestibular, em 1976, ele tinha 16 anos e não sabia o que queria. “Eu estava sempre perdido, perdido na faculdade, perdido na música, perdido na minha vida”. Maurício conta também que sempre foi um cara mais tímido e introvertido, “ainda sou, mas a profissão me deixou mais habituado”.

Eu acho que quando você é um tipo meio solitário, que não cresce muito em nenhuma turma, em nenhuma gangue, você acaba pensando sozinho, e você faz coisas mais esquisitas.

Aos 16 anos, Maurício prestou Direito na Puc-SP e Jornalismo na ECA. Passou nos dois, mas a antiga relação com o rádio lhe ajudou a decidir por estudar na USP. Porém Maurício nunca escondeu que não era o maior fã da faculdade e do curso: “Eu odiava a escola, odiava o jornalismo, odiava tudo. Eu faltava, eu acochambrei muito, fui muito medíocre na faculdade”. 

A vivência na universidade foi importante no contato com novos autores, formatos artísticos e temas. Maurício conheceu a poesia concreta, a obra de Paulo Leminski e de Jorge Mautner, além de ter entrado em contato com a semiologia e as artes gráficas. 

Como eu não gostava, como eu tava perdido, eu curti pouco a faculdade. Como eu era muito novo, meu primeiro contato com as drogas leves foi na universidade. Então foi também importante por isso, para conhecer um pouco de sexo, um pouco de drogas, um pouco de rock and roll – todo mundo é filho de Deus, né.        

 Também foi durante a faculdade que Maurício começou a estudar saxofone. Ele diz que nunca foi um estudante de música muito disciplinado, e aprendeu a teoria com o passar dos anos, de um jeito “muito bagunçado”. 

Tim e Chico Bernardes, filhos de Maurício, são músicos e fizeram faculdade de música. Sobre isso, Maurício disse que “num primeiro momento, torci o nariz”. A trajetória do Maurício faz com que ele não seja o maior entusiasta do aprendizado musical teórico, mas hoje ele enxerga que “cada caminho tem suas vantagens”. Pelo fato dele não ter uma formação completa de músico, os trabalhos que buscou fora da sua carreira também eram fora da música – na publicidade, no jornalismo.

Eu ter feito muita coisa fora da música me faz ser um músico peculiar e trazer elementos de fora para dentro. Então como autor isso é bem legal. Eles sendo de dentro da música, eles vão buscar muita informação da linguagem musical. São caminhos diferentes.

Maurício não sabia que seria músico – a música como profissão surgiria mais para frente, com 25 anos. Mesmo assim, ele já era um interessado e um bom ouvinte de todo tipo de música, além de já escrever poesias. Entre 1983 e 1984, o músico chegou a publicar um livro de poemas – e alguns desses poemas seriam musicados nos discos dos “Mulheres Negras”.

De algum modo eu pensava como um compositor popular mesmo antes de ser. Mesmo que eu não tivesse me tornado, eu tenho mente de compositor popular, eu nasci para fazer isso.

Bem ou mal, Maurício se graduou na ECA com 21 anos. Três dias depois da graduação, ele já estava trabalhando – e dessa maneira ele entrou em um ciclo de trabalhos e demissões no jornalismo, de 1981 à 1983. Foi freelancer de texto, trabalhou na Rede L&C e foi revisor do Estadão. Ficou dois anos e meio trabalhando na madrugada como revisor, entrava à meia-noite e saía às seis da manhã. “Eu tava mais perdido do que cachorro em mudança”. Só que em 1983 surgiu algo que mudou tudo: André Abujamra.

Caras esquisitos

Os Mulheres Negras, provavelmente entre 1985 e 1986

Os Mulheres Negras, provavelmente entre 1985 e 1986 [Imagem: arquivo pessoal]

Mais de duas vezes durante a entrevista, Maurício classificou ele e seu parceiro André Abujamra como dois “caras esquisitos”. Fato é que esses dois esquisitos gravaram dois discos esquisitos e fizeram diversos shows esquisitos – tudo com o objetivo conceitual de se tornarem a nata da música pop. No fim, mais esquisitamente ainda, eles marcaram a história da música paulistana.

Maurício e André se conheceram no TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, que ficava na Bela Vista. O pai do André, Antônio Abujamra, alugava as salas do teatro, e em uma delas aconteciam aulas de percussão africana. André e Maurício começaram a frequentar essas aulas, em 1983, e, dessa maneira, seus caminhos se cruzaram. Para Maurício, a casualidade de conhecer o André foi importantíssima:

Várias coisas me salvaram, e o André foi uma delas. Com certeza ter conhecido André fez toda a diferença, a gente teve uma espécie de amor à primeira vista. E eu acho que o que o que cada um de nós deu para o outro é muito, é muito grande, e a gente deu com muita generosidade.

Maurício era magro, seis anos mais velho, já formado, escorpiano e introvertido. Já André era mais gordo, estava entrando na faculdade, era taurino e um verdadeiro “bicho do palco”. Em conversa com o André, ele falou comigo um pouco sobre isso: 

“Eu e o Maurício, apesar da diferença, nosso coração é muito igual, a gente pensa muito igual, o nosso coração pensa muito igual, em qualquer aspecto, político, musical. Apesar das diferenças, a gente tem uma igualdade astral, a gente é meio soul brother, sabe?”

Os soul brothers imediatamente se conectaram e depois começaram a tocar juntos. A primeira banda com os dois se chamava Musca’d Xalote, e logo após a dissolução os dois formaram “Os Mulheres Negras” – André na guitarra e Maurício no saxofone.

Para Maurício, os Mulheres “foi uma faculdade de show”. Os dois pensavam o show como espetáculo, e durante seis anos eles aperfeiçoaram esse conceito. Eles tinham iluminador, Guilherme Bonfanti, e produtor, Aguinaldo Rocca, e as apresentações eram roteirizadas, com figurino característico, o que evidenciava o quanto a dupla sempre foi diferenciada no cenário musical.

Tem uma imagem que eu vejo do Maurício que não sai da minha cabeça. A gente tinha uma banda chamada Musca’d Xalote, e uma vez gente foi fazer um show numa escola. E o Maurício saiu do palco e foi tocar saxofone no meio da criançada. Naquele minuto, naquele segundo, eu falei: esse cara é do meu time.

Além dos shows, o lado “contador português” do Maurício aparecia em outra área: a autoprodução. Desde o início a banda já abriu uma microempresa e se empenhou no cultivo do público. A dupla chegou a ter até uma newsletter que enviava para os fãs de três em três meses. Toda essa produção feita pelo próprio artista é a nova regra do mercado no século 21, mas nos anos 80 essa preocupação era raridade.

A tecnologia era outra peça importante da música dos Mulheres. Maurício comprou um pedal de sampler em uma viagem para Nova Iorque, em 1985 o pedal tinha memória de looping de dois segundos. Eram só os dois no palco, mas tinha a bateria, o baixo, a percussão e o teclado. Toda essa sonoridade era produzida ao vivo, com os pedais do André, a guitarra e os sintetizadores. 

Toda essa tecnologia foi enquadrada no conceito de “tecnopobre”, ou seja, “usar tecnologias muito baratas pra fingir que são muito maravilhosas”, explica André. Segundo Maurício, a utilização desses aparelhos surgiu como “uma mistura de necessidade com conceito necessidade pois eram só os dois na banda, conceito porque o uso de tecnologia barata se encaixava na própria dinâmica teatral das apresentações e no toque humorístico da dupla.

Hoje, Maurício afirma que, no duro, os Mulheres eram, “além de uma banda de clowns, e mais que uma banda de humor, uma banda nonsense, sem pé nem cabeça. Não parecia com nada”. Porém, ambos contaram que na época se incomodavam com a imagem dos “malucos engraçados”. Para André, essa imagem era desgastante:

A gente se incomodava demais, porque tinha vezes que eu colocava a mão no pedal e a galera começava a rir. Hoje em dia eu não me incomodo, porque eu já consigo ver a diversidade do nosso trabalho, então hoje em dia tá mais tranquilo, mas na época eu sofria muito e o Maurício também sofria muito.

Utilizando do seu lado “contador português” mais uma vez, Maurício analisa essa questão de um ponto de vista mais mercadológico, também frisando que os Mulheres eram “uma banda com humor, não de humor”:

A piada não rende trabalho. Você ouve uma música mil vezes, agora, você não ouve uma piada mil vezes, né? Então isso é uma preocupação da gente. A outra é que eu acredito que o artista tem que ter o controle do discurso dele, da narrativa dele, e chegou uma hora que nossa imagem como “maluco beleza” amarrou um pouco a nossa liberdade em cima do palco.

Por volta de 1987, enquanto tocavam em uma biblioteca na Vila Mariana para uma plateia infantil, o produtor e olheiro da Warner, Pena Schmidt, entrou e sentou ao fundo. Após esse show, André e Maurício fecharam um contrato com a Warner e lançaram dois discos.

Os Mulheres, provavelmente no fim dos anos 80

Os Mulheres, provavelmente no fim dos anos 80 [Imagem: arquivo pessoal]

O primeiro disco da banda se chama Música e ciência (1988) e contém a clássica versão abrasileirada de Beatles, Sub – Yellow Submarine. A música que fecha o disco, Xarope – a levada, possui basicamente dois versos: “Nosso objetivo é fazer música pop / E quem sabe algum dia ficar rico e xarope”. Apesar de estarem em uma grande gravadora, o cotidiano da banda não mudou muito – continuavam com a mesma liberdade, mas estavam no grupo das bandas indies da Warner, e portanto a atenção e a qualidade da distribuição estava longe daquela fornecida para bandas como os “Titãs”, por exemplo.

A gente não queria ser independente, a gente queria estar dentro da indústria e ter liberdade criativa, essa era a ideia do Mulheres: liberdade dentro do comércio, dentro da indústria. Um trabalho como o Mulheres era sempre marginal dentro do fluxo comercial da gravadora, então a gente lá dentro viu que não era tão simples assim.

Por mais que à primeira vista não seja tão claro, a produção de música popular está no cerne da “ideologia” dos Mulheres, mas também das figuras artísticas do Maurício e do André, separadamente. Maurício Pereira é um artista nascido no cenário experimental que busca ser vendido “que nem sabão em pó”, como um músico comum. Essa é outra dualidade do Maurício: o conceito pop e o conteúdo artesanal.

Eu adoraria fazer uma canção parte A, parte B e refrão, que tocasse na Rádio Nativa. Para mim, isso aqui é que é louco, isso é um desafio. Não vai acontecer, já saquei que não vai, meu caminho é um artesanato mais diferentão. E tudo bem.

A banda esteve na ativa de 1985 até 1991, reunindo-se para diversas turnês nos anos seguintes, porém sem gravar nenhum material novo. Os dois pensam em sintonia sobre isso: Maurício entende o Mulheres “como um trabalho completo”, e André acredita que a banda é “atemporal”. Abujamra me explicou um pouco o que quis dizer com isso:

A gente fez tanta coisa nova há tanto tempo que fazer uma música nova hoje é tocar o que a gente já tocava. Nós dois pensamos muito parecido: a gente não precisa gravar nada, cara.

O fim da banda foi súbito, pouco tempo depois do lançamento do segundo disco, “Música serve pra isso” (1990). Maurício me contou que a relação entre os dois estava “um pouco desgastada”. 

Nessa época, André já fazia trilhas sonoras para cinema e teatro e já pensava sobre seu próximo projeto, o Karnak. Maurício é um cancioneiro, não tem a mesma formação musical do seu parceiro, o que não lhe permitia atuar em diversas frentes da música. Então seu foco estava voltado para fazer discos, pensando ainda nos Mulheres. “Como se um cara foi caçar e o outro ficou em casa”, explica Maurício.

Não tava rolando. Eu sou mais radical, eu falei “Cara, não dá, vamos acabar com isso”. Eu tava com filho para nascer, eu tava levando astral ruim pra casa – astral ruim que vinha de shows muito bons. A intimidade em cima do palco e a própria generosidade continuavam, mas a viagem de cada um tava muito diferente.

Com o André “caçando”, Maurício foi mais atuante na criação do segundo disco: “Ele é quase um disco meu”. O disco colocou os Mulheres no seu auge, com hits como Só Tetele (1990) e John (1990). Porém, o dia do show de lançamento do disco, marcado seis meses antes, coincidiu com uma final de campeonato, jogo do Corinthians no Pacaembu, em 1991. Não o bastante, na mesma tarde caiu uma tempestade, então poucas pessoas foram ao show. Isso gerou uma dívida enorme, e então, para conseguirem grana e encerrarem a banda, Maurício e André fizeram alguns shows de despedida. Menos de 24 horas depois do último show, o primeiro filho de Maurício, Martim, nasceu.
      

Os anos 90: muito perto do zero

Maurício e Martim no começo dos anos 90

Maurício e Martim no começo dos anos 90 [Reprodução: @timbernardes]

“No dia seguinte eu tava numa nova vida. Não era mais um dos Mulheres Negras. Eu tinha um filho, cara apenas isso. Eu era o Maurício Pereira que ninguém conhecia.”

Maurício se casou ainda nos anos 80 com Lucila Bernardes. Um dos irmãos de Maurício namorava a irmã de Lucila, e assim eles se conheceram e estão juntos até hoje. 

Como você já deve ter reparado, eu estava sempre perdido, mas a Lucila é um caso especial. Chegou uma hora que não tinha alternativa: era pegar ou largar, casar ou largar, aí eu casei no ímpeto – e eu não sou um cara muito do ímpeto. Eu fui e continuo casando até hoje – foi uma dessas poucas coisas você acerta legal na vida.

Depois de dizer isso, Maurício bateu três vezes na madeira do sofá. “Eu acho que eu não seria músico sem ela”. O primeiro filho dos dois, o Martim, veio antes do que imaginavam, e ao longo da década ainda nasceriam mais dois: a Manuela e o Francisco.

Na carreira do Maurício, os anos 90 não foram fáceis. Na época, ele dizia que “tudo que eu fiz nos anos 90 deu errado”. Hoje, ele conta que foram anos de muito aprendizado, mas que ele só conseguiu entender isso 20 anos depois.

O primeiro disco do Maurício pós-Mulheres foi o Na Tradição (1995). Nesse trabalho, as canções foram compostas durante o fim dos Mulheres, as gravações aconteceram entre 1993 e 1994, mas o disco só foi lançado em 1995. 

Quando Maurício saiu dos Mulheres, as coisas ficaram mais complicadas. A visibilidade não era a mesma, não tinha mais a gravadora e ainda tinha um filho pra cuidar. “Eu praticamente tinha que começar tudo do zero, né, e realmente eu tava muito perto do zero.” 

O “Na Tradição” foi uma tentativa de recriar uma imagem: Maurício aparece sério na capa, de calça jeans e camiseta branca. A produção é limpa e a formação é clássica baixo, bateria, piano, guitarra e trombone. Maurício saía da “maluquice”, que era os Mulheres, para um disco “tradicional”. “Não por acaso eu chamei de Na Tradição”.

Maurício Pereira na capa do “Na Tradição”, lançado em 1995

Maurício Pereira na capa do “Na Tradição”, lançado em 1995 [Imagem: arquivo pessoal]

Maurício também conta que essa escolha foi um planejamento de carreira. “Eu pensei assim: eu vou fazer discos clássicos” – clássicos no sentido da produção, dos arranjos não serem datados. Essa estratégia permite, por exemplo, que os discos do Maurício sejam relembrados de tempos em tempos e que ele faça turnês de trabalhos antigos.

Pode ser que eu grave disco em 1993 e que eu precise tocar ele até 2050. Só que só tem um jeito de um trabalho fazer sentido 50 anos depois: usar uma instrumentação clássica o suficiente para saber que ela vai continuar sendo usada.

É só assim que ele, como artista independente, consegue planejar sua carreira em um mercado escasso e completamente imprevisível. “É um pensamento um pouco de pânico, mas ao mesmo tempo é um pensamento de quitandeiro.”

Entre 1992 e 1994, Maurício trabalhou como crooner no programa Fanzine, na TV Cultura. Como um verdadeiro operário da música, Maurício gravava a semana inteira, em jornadas de sete, oito horas. “Eu devo ter cantado entre 500 e 600 músicas”.

Para ele, foi uma escola de câmera e de canto. “Eu saí de lá graduado em ser cantor, me deu mais confiança”. Foi durante essa experiência que Maurício compôs parte da safra do seu segundo disco solo, Mergulhar na Surpresa (1998), que conta com canções como “Um dia útil”“deve ter sido uma canção que eu fiz em alguma noite que eu cheguei do Fanzine, tinha filho pequeno para dormir e que não conseguia”.

Essa temporada na TV Cultura foi importante, pois a banda do programa se reuniria com Maurício dez anos mais tarde para formar o Turbilhão de Ritmos e gravar um disco juntos. Além disso, talvez o encontro mais importante que o Fanzine proporcionou foi entre Maurício e o pianista da banda, Daniel Szafran. Após o fim do programa, em 1994, os dois já começaram a fazer shows e gestar o que seria o disco “Mergulhar na Surpresa”, lançado em 1998.

Uma semana depois do fim do Fanzine, nasceu a segunda filha de Maurício: Manuela. “Impressionante o timing ruim que eu tinha para ser despedido”. O disco “Na Tradição” foi lançado em 1995, quando Maurício já havia composto parte do “Mergulhar na Surpresa” e já fazia shows no formato piano e voz, com Daniel Szafran. 

Junho de 1999: Maurício, mais cabeludo, com Daniel Szafran, no lançamento do Mergulhar em Ouro Preto

Junho de 1999: Maurício, mais cabeludo, com Daniel Szafran, no lançamento do Mergulhar em Ouro Preto [Imagem: Adriana Bueno]

            

O fim da década foi difícil”. Maurício conta que ele e Szafran pegaram a estrada e tocaram direto de 1994 até 2000. O “Mergulhar na Surpresa” se tornou, especialmente nos últimos 10 anos, talvez o mais importante disco na carreira de Maurício, mas na época do lançamento o cenário era bem diferente. “A gente fez grandes shows para pouco público, a gente pegou muita roubada.”

Para Maurício, a safra de canções gravada no Mergulhar foi a melhor que ele já fez. “Eu acho o Mergulhar um dos meus grandes trabalhos, senão o grande. É um disco que está completamente no meu coração”. O disco foi gravado com 60 takes em três dias, no Estúdio Zabumba, em São Paulo.

“Szafran é outro amor à primeira vista. Quando as pessoas pensam em mim, elas logo pensam, como parceiro, no André. Mas se bobear eu talvez tenha feito mais coisa com o Daniel do que com André. Eu não faria o Mergulhar sem o Daniel. A gente deu uma liga infernal, infernal. ”

Maurício, em 2020, tem uma compreensão que não tinha sobre esse momento da sua carreira. Hoje ele consegue analisar de maneira mais fria, e, para ele, três detalhes dificultaram o desempenho do disco, na época.

O primeiro tem relação com o momento do mercado. “Nos anos 90 tinha mais de uma cena, o mainstream estava dando uma desmoronada. Foi difícil”. O diretor da Tratore, a maior distribuidora dos artistas independentes no Brasil, Maurício Bussab, conta que nos anos 80 havia uma maior dificuldade de entrar no mercado, a não ser através das grandes gravadoras: “Era muito difícil você gravar um disco independente, você precisava ter muita vontade. E, sendo independente, você estava à margem do mercado”

Durante os anos 90 já havia começado um processo de enfraquecimento das grandes gravadoras, e a cena musical começou a se pulverizar. Com o “Mergulhar”, Maurício atravessou justamente esse momento de transição.

O segundo detalhe é curioso: a dificuldade de se encontrar casas de show e teatros com piano. “O Brasil é a nona economia do mundo, mas na prática é um país pobre, né. E por conta disso os teatros não tem piano”. Os dois tiveram muitas vezes que adaptar o show para o teclado. 

Por último, outro detalhe relacionado à cena musical: já que ainda não havia surgido a internet e o cenário independente consolidado que temos hoje, era difícil chamar o público para ouvir um disco cru, de canções em piano e voz, como é o Mergulhar. “Ninguém queria sentar pra ouvir as mazelas de um cantautor com letras gigantes como eu.”

Cientista? Não, só músico independente

Setlist da transmissão ao vivo de 1996, no CCSP

Setlist da transmissão ao vivo de 1996, no CCSP [Imagem: arquivo pessoal]

Do dia 11 ao dia 15 de dezembro de 1996, Maurício fez cinco shows no CCSP – Centro Cultural São Paulo. Esses shows colocaram Maurício no Guinness Book, porque foram transmitidos ao vivo pela internet: Maurício foi o primeiro artista a fazer isso no Brasil.

A história é curiosa. Tudo começou em meados de 1996, com um Macintosh problemático. Maurício não conseguia conectar seu computador na internet, então foi pessoalmente ao provedor para resolver o problema. Quem o atendeu foi um garoto de 16 anos chamado João Ramirez, que já conhecia o trabalho do Maurício. Foi nesse momento em que João contou que seria possível transmitir um show ao vivo pela internet. E Maurício não só acreditou, como topou.

Eu não pensei como um cientista, eu não pensei como um gênio maluco. Me apareceu uma oportunidade que me pareceu factível do jeito que o João Ramirez explicou. Eu precisava de uma mídia nova, apareceu um moleque com um projeto que fez sentido. Eu não tinha nada para perder.

A transmissão funcionou basicamente assim: o áudio era captado e a imagem era digitalizada diretamente em um processador 486. Depois disso, através de duas linhas telefônicas, a imagem era transmitida até um laboratório da USP e de lá para um servidor de áudio nos Estados Unidos, que devolvia a transmissão com imagem e áudio para o site do João Ramirez, onde o show era transmitido com 10 minutos de atraso. Segundo Maurício, cerca de 30 mil pessoas entraram na transmissão.

Maurício e João Ramirez (o mais próximo da câmera) em 1996, no “chat” após os shows

Maurício e João Ramirez (o mais próximo da câmera) em 1996, no “chat” após os shows [Imagem: arquivo pessoal]

         

Lançado no ano anterior, Maurício também foi um dos primeiros artistas a ter um site próprio. Sobre esses feitos pioneiros, Maurício cita uma frase de Platão: “a necessidade é a mãe da invenção”. 

Essa pegada solitária minha me obriga a pensar sozinho, e às vezes eu faço uma coisa que ninguém fez. Não são grandes invenções, assim: não é que eu inventei a roda, mas eu lubrifiquei a roda.

Anos 2000: do fundo do poço à Casa de Francisca

Ter o seu nome no Guinness Book foi um feito importante, mas na prática não ajudou Maurício no seu dia-a-dia de músico independente. Para conseguir fazer o supermercado de cada mês e alimentar mais uma boca que chegava na casa, o terceiro filho, Francisco, Maurício teve de recorrer à trabalhos de fora da música. “Peguei todos os trampos, todos os bicos que tinha para fazer”.

Depois de seis anos fazendo o show do “Mergulhar na Surpresa”, Maurício e Daniel pararam. “A gente tava no fundo do poço”. Maurício chegou até a colocar seu saxofone à venda nos classificados do jornal, e os dois tocaram juntos no bar Piratininga durante três anos – música instrumental, saxofone e piano, duas vezes por semana, três horas por dia.

Praticamente a gente deprimiu. Sabe quando você faz um trabalho que tá muito bonito, você aposta muito nele, e comercialmente ele fracassa? Ele não teve visibilidade. Então em 2000 a gente até parou de tocar junto, o Daniel não tava legal, eu também tava tocando muito pouco, eu fui fazer coisas como repórter, apresentador de programa, mestre de cerimônia. Eu fiz um monte de coisa e toquei muito pouco ali na virada do século.

Enquanto trabalhavam na noite, Maurício e Daniel começaram a relembrar as canções que tocavam no Fanzine, nos anos 90. Essa brincadeira nostálgica acabou por reunir os ex-integrantes da banda do programa, e dessa reunião saiu um show semanal em um espaço chamado Supremo, na rua Oscar Freire. 

Durante cerca de seis meses passaram diversos convidados, e nomes como Fernanda Takai, Zeca Baleiro, Zé Rodrix, Chico César e Wanderléa participaram das apresentações.

Era um jeito de eu dar uma lubrificada na cabeça, já que eu não estava compondo e não tava ganhando dinheiro. A gente tava meio chacoalhado, eu e o Daniel. A gente tava meio sem saber o que fazer para variar né, foi a terceira coisa que eu mais falei aqui.

Maurício Pereira e o Turbilhão de Ritmos

Maurício Pereira e o Turbilhão de Ritmos [Imagem: Jayme Bregantin]

Desses shows semanais saiu um disco ao vivo, gravado no Itaú Cultural: “Canções que um dia você já assobiou”. É um disco de covers, músicas que eram tocadas no Fanzine e que também fizeram parte da formação musical do Maurício.

Eram canções com as quais eu tinha tanta intimidade que eu podia me dar o luxo de idolatrar elas brincando, fazendo festa. É um disco basicamente de reverência: reverência à música comercial, à música do rádio.

O show foi gravado em três sessões, e Maurício conta que, no dia da gravação, estava doente, com a voz menos potente. Ele também contou que estava assim na gravação do “Na Tradição”. “Para gravar o disco eu sempre tinha que dar um couro, trabalhar dobrado um pouco antes. Aí quando chegava, ficava doente tinha trabalhado feito um puto antes”. Coisas de músico independente.

Maurício conta que esse disco serviu de apoio para o próximo salto da carreira autoral: o disco Pra Marte (2007). Um salto para uma paulistanidade mais crua e escancarada. Um salto que aconteceu, como na maior parte da carreira de Maurício, no escuro.

Maurício e Daniel Szafran no lançamento do disco “Pra Marte”, em setembro de 2007

Maurício e Daniel Szafran no lançamento do disco “Pra Marte”, em setembro de 2007 [Imagem: Henio Okuhara]

Eu confesso que eu não estava otimista naquela época. Eu achava que eu ia fazer meu último disco e eu ia ter que procurar um trabalho em outra atividade.

“Pra Marte” é o disco mais paulistano do Maurício: ele é todo escrito em dialeto. Muito influenciado pelo rap, mirando em uma pegada mais folk e com uma banda à la Rolling Stones. Maurício gravou e lançou este disco acreditando que fosse seu último trabalho e, muito felizmente, essa previsão não se concretizou. 

Maurício conta que, assim como sabe falar em português e paulistês dependendo do formato da entrevista, também sabe compor nessas duas línguas. Mas ele faz questão de lembrar que o fato da sua música falar de São Paulo e em paulistano não é nenhuma novidade:

“O Adoniran cansou de fazer isso. Os caras me veem como se eu fosse o inventor da paulistanidade de rua. Não sou, eu sigo uma tradição que tantos outros paulistanos fizeram”

Almejando um som mais seco, mais “de garagem”, a formação da banda no disco foi clássica: vocal, baixo, bateria, e duas guitarras. Um dos guitarristas foi Tonho Penhasco, outro parceiro importantíssimo na carreira do Maurício, especialmente nos últimos 15 anos.                              

Além de ser escrito todo em dialeto paulistano, “Pra Marte” também traz bastante do Estado de São Paulo. “É um disco paulistano, mas é um disco paulista também: tem duas modas de viola lá dentro”. A capa do disco é do fotógrafo Cristiano Mascaro, e mostra um brinquedo de parque de diversões, o chapéu mexicano, com somente uma pessoa na atração. É uma capa dobrável, e a foto foi tirada em Votorantim, no interior de São Paulo.

Maurício conta que o disco “não correu tanto”. Nesse mesmo período, em 2007, faleceu a mãe do Maurício, Daria, e também ele teve que começar a cuidar do seu pai, Dirceu. “Foram anos meio esquisitos. Mas são coisas que acontecem com todo mundo mas que me botaram meio conturbado com a corrida habitual da carreira”.

Por mais que o disco em si não tenha alçado muitos vôos, uma música gravada ali mudou a trajetória do músico: Trovoa (2007). Essa é hoje a música mais conhecida do Maurício, e isso se deve especialmente às regravações que aconteceram na década de 2010: Metá Metá, Maria Gadú e A Banda Mais Bonita Da Cidade foram alguns nomes que lançaram versões e ajudaram a devolver o Maurício pra cena.

Maurício segurando a capa completa do disco “Pra Marte”, em 2007

Maurício segurando a capa completa do disco “Pra Marte”, em 2007 [Imagem: Henio Okuhara]

“Trovoa” foi composta entre 2003 e 2004, durante os shows com o Turbilhão de Ritmos. A letra é uma colagem de experiências, sentimentos e imagens e Maurício conta que ela tinha o dobro do tamanho. “Trovoa deu muito trabalho técnico pra fazer.” Para editar, ele colocou uma base de rap em looping, criou os acordes e cantou por cima, e assim ele passou meses mudando os versos e trocando as estrofes, “lixando” a canção. 

Eu pensei assim: como vai ser meu último disco, eu vou escrever do jeito que eu falo, do jeito que eu quero. Foda-se a métrica, foda-se se a música vai ter 10 páginas de comprimento, foda-se tudo. Foda-se o luxo, foda-se, foda-se tudo: eu vou escrever como eu quero. Então é um disco escrito à vontade.

Feita nos confusos primeiros anos do século 21, quando Maurício estava buscando a saída do “fundo do poço”, a canção reflete muito desse estado de espírito confuso e profundamente angustiado. “Trovoa é parte de uma explosão interna.”       

Sabe quando você tá fazendo um monte de coisa ao mesmo tempo, sem consciência? Você acerta e não sabe porque, você erra e não fez por mal, você quer uma segunda chance e não sabe se vai ter, você acha que só tá fazendo merda e de repente aparece com um diamante na mão e faz uma coisa boa para alguém, sabe? A minha cabeça tava trovoando, tava cheia de coisas.

Maurício sabia que a música era forte, mas não esperava que ela se tornasse um “clássico da sofrência” na música brasileira alternativa, como de fato virou. “É uma canção sem refrão, não tem muita melodia, ela é discursiva.”

Além do sucesso dessa canção, outro acontecimento importantíssimo que surgiu após o “Pra Marte” foi o convite da Casa de Francisca, espaço clássico da cena independente paulistana, para um show do disco “Mergulhar na Surpresa”, em 2008 dez anos depois do seu lançamento. “Que sorte que a gente ainda tava na profissão quando a Casa de Francisca nos convidou.”

Esse show colocou Maurício de volta pro jogo. A cena paulistana havia mudado, e o convite nasceu justamente desse novo universo independente que se interessava por canções de cantautor, mais artesanais. E, depois desse renascimento do “Mergulhar na Surpresa”, Maurício foi estabelecendo cada vez mais seu nome na cena alternativa.

Aí eu voltei para o mundo dos vivos, aí eu voltei para estrada. E, uma vez na estrada, eu peguei meu Kalashnikov e caí matando, porque eu não acredito que a gente tem muitas chances na vida de voltar do fundo do mar.

Para entender melhor como a cena musical independente de São Paulo passou da escassez cruel dos anos 90 para um polo pujante de casas de show e artistas alternativos, é necessária uma pequena recapitulação histórica. E ninguém melhor que Maurício Pereira pra falar de São Paulo.

Uma breve história de São Paulo, por Maurício Pereira 

Mapa com acontecimentos importantes da vida do músico

 

“São Paulo sempre foi um lugar diferente: era um Brasil que não era Brasil”

Maurício conta que teve um insight sobre a história de São Paulo em um lugar específico, em 2000: Recife. Quando estava voltando do Festival de Garanhuns (PE), o vôo atrasou e ele ficou seis horas em Recife. Durante esse tempo, Maurício foi caminhar pelo centro velho da cidade, e foi ali, observando as construções do século 17 e 18, que ele percebeu a razão das crises de identidade do seu jeito paulistano com o resto do Brasil.

Aí me caiu a ficha de por que o paulistano era um brasileiro de segunda classe: porque até 1850 São Paulo tinha, sei lá, menos de mil habitantes. São Paulo era um morro entre o rio Tamanduateí o rio Anhangabaú, um morro com duas dúzias de caipira. Nem português a gente falava!

O desenvolvimento tardio e atropelado de São Paulo, segundo Maurício, tem tudo a ver com a cultura amorfa da cidade: a cultura típica paulistana é não ter nada enraizado São Paulo junta e mistura tudo. “São Paulo cresceu ganhando muito dinheiro e com pouca formação. Muito desenraizamento e muita mediação tecnológica. Muita cultura de massa.”  Maurício Bussab, da distribuidora Tratore, falou um pouco sobre essa história:

É uma cidade, por mais inóspita que seja, muito acolhedora. Mas você pode ver que as pessoas que estão aqui em SP tocando, elas normalmente não são apresentadas como sendo da sua cidade de origem. Elas nunca são descritas como forasteiros: ou nada ou paulista.

Para Maurício, na cena cultural, a virada aconteceu nos anos 90. São Paulo começou a borbulhar – a Fashion Week, os cinemas, a cena gay na Augusta, a Fórmula 1, o grafite, o rap, o pagode paulista. “Foi se formando um entrelaçamento de artes e expressões artísticas contemporâneas em São Paulo.”

Esse caldo foi ferver mesmo no começo do novo século, no Baixo Augusta. “Começou a vir gente pra cá”, tanto que artistas como Chico Science, Zeca Baleiro e Chico César vieram para São Paulo. Com as gravadoras enfraquecidas e novas mídias entrando no jogo para pulverizar o mercado, o Rio de Janeiro, onde estava a Globo e as sedes das grandes gravadoras, perdeu sua força. 

“São Paulo cresceu à margem da Globo e à margem das gravadoras grandes”, então a cena independente já era mais forte aqui. A Vanguarda Paulistana, o rock, o rap, essa formas alternativas tinham mais espaço em SP. Com a transformação do mercado de total controle das gravadoras para uma multiplicação de cenas localizadas, São Paulo ganhou mais destaque.

Na primeira década de 2000, o Baixo Augusta foi o palco para uma nova cena independente, especialmente no Studio SP, casa de shows que funcionou até 2013. “Surgiu essa cena de canção independente”. Karina Buhr, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos foram alguns nomes lembrados pelo Maurício. Essa cena foi diretamente responsável pelo convite da Casa de Francisca e pela reaparição do Maurício. “Eu achava que ninguém tava me ouvindo, mas justo os caras mais diferentões tavam, e me trouxeram de volta pra cena. E aí voltou a ter casas, voltou a ter mídias.”

Ainda sobre a música paulistana, Maurício também relembra que, apesar de São Paulo ter a maior população do país há algumas décadas, até os anos 2000 era muito raro você escutar um músico paulistano na rádio. Além disso, no final dos anos 90, Maurício conta que não conseguiu tocar no Festival de Jazz de Montreal com o “Mergulhar na Surpresa”, porque o disco não era “suficientemente brasileiro”.  

O fato de eu ser paulistano me tornava um gringo dentro e fora do Brasil. Se você pegar o pop brasileiro, tirando as bandas de rock paulista, alguma coisa de Jovem Guarda mais o Adoniran, o Vanzolini e o Guilherme Arantes, o resto nada era paulista.

Pra onde que ele tá indo?

Pereirinha e Pereirão: Maurício e seu filho, Martim, tocando alguma moda de viola

Pereirinha e Pereirão: Maurício e seu filho, Martim, tocando alguma moda de viola [Imagem: Pedro Zeidler]

Em 2010, Maurício gravou um segundo disco com o Turbilhão de Ritmos: “Carnaval Turbilhão”. É outro disco de covers, agora de marchas clássicas de carnaval com uma pegada mais rock. Para Maurício, esse disco foi um “abrigo”: “Se eu cheguei em 2010 querendo fazer um disco, quer dizer que a minha carreira não acabou em 2007”.

Talvez gravar esses repertórios consagrados das músicas que a gente conhece da infância junto com amigos que conhecem essas músicas da mesma época seja um jeito de buscar abrigo da peleja da criação e da novidade, sabe?

Entre esse disco e o seu próximo trabalho autoral, outros ventos mudaram a cena independente. Além da gravação de “Trovoa” pelo grupo Metá Metá, em 2010, o começo da década também foi diferente por uma razão mais familiar: a carreira do primogênito Martim com sua banda, O Terno.

O primeiro disco da banda, “66”, foi lançado em 2012, e metade das canções do disco são do Maurício. Com a crescente popularidade do grupo, um público mais jovem começou a visitar o trabalho do Maurício. “Eu virei o pai do Martim, mas eu ganhei muito público. Gente de 17 anos veio me ouvir, eu quase um sessentão.”

Maurício conta que a primeira palavra que o Tim disse não foi “mamãe” nem “papai”. Foi “muca” – uma tentativa de falar “música”, porque ele queria ouvir alguma coisa no CD Player da casa. Desde muito cedo, o Tim já era parceiro de Maurício em algumas canções. Foi Tim quem disse, com menos de dez anos, a frase sugestiva “mergulhar na surpresa”, querendo dizer “quero mergulhar na represa”. Foi também com Martim no colo que Maurício compôs “Pan y Leche”.

Pai e filho já chegaram a ter uma dupla juntos: “Pereirinha e Pereirão”. Os dois fizeram diversos shows entre 2009 e 2013, onde tocavam música caipira, canções autorais e clássicos do blues.

Em 2014, Maurício lançou seu quinto disco solo autoral: Pra Onde Que Eu Tava Indo. Como o nome sugere, é um disco de transição uma transição para um trabalho mais moderno em nível fonográfico, o que seria concretizado completamente no disco seguinte, Outono no Sudeste (2018).

Maurício conta que desse disco para cá sua voz mudou. Um problema gástrico comum fez com que sua voz perdesse um pouco do brilho e do alcance, fazendo dele um cantor mais consciente e preciso no uso da sua voz. “É como se eu tivesse que invadir a Casa Branca e tivesse só uma bala.”

               

Maurício no lançamento do disco “Pra onde que eu tava indo”, em 2015, no Sesc Pompéia

Maurício no lançamento do disco “Pra onde que eu tava indo”, em 2015, no Sesc Pompeia [Imagem: Daniel Ach]

Outro fator que mudou a sua voz nessa década foi a locução publicitária. Maurício conta que, por ter feito muitos trabalhos de locução, sua maneira de lidar com a palavra falada mudou. “Locução é 7 por 24. Hoje eu já fiz locução cara! Pode chegar num sábado à noite, você vai tomar um copo de cachaça com LSD e o cara fala: “Tem uma locução pra já!”.

Nos últimos dez anos, o que ajuda Maurício a se manter é a publicidade. “O que dificulta a sobrevivência do artista independente no século 21 é o excesso de oferta.” Para Maurício, essa realidade existe por um truque do capitalismo e por uma armadilha criada pela própria liberdade artística do século 21.

Maurício nunca disponibilizou sua música de graça na internet, como se tornou comum. Com isso, sua carreira anda mais devagar, mas cada passo é aproveitado inteiramente em matéria de arrecadação. Como já foi citado, Maurício já fazia o cultivo do público ainda nos anos 80, quando esse termo quase não existia.

É matematicamente impossível você criar uma família sendo músico independente. Aí eu virei o Maurício multitarefas, porque realmente a música alternativa tende a ser deficitária. 

Durante os Mulheres, Maurício conta que, apesar de o mercado ser mais restrito e rígido, era mais fácil ganhar dinheiro. Uma vez numa gravadora grande, como era o seu caso, não havia tanta concorrência como hoje o público e a arrecadação eram “centenas de vezes” maiores. O caminho do independente para o mainstream existia era justamente nesse em que os Mulheres estavam caminhando. Hoje, Maurício acredita que “o mainstream ficou mais restrito”, graças à pulverização do mercado, o surgimento de muitas mídias e novos artistas.

Essas plataformas do século 21 remuneram muito mal. Excesso de oferta e ganho baixo – isso vale para a música como vale para os motoboys do Rappi.

Maurício lembra que alguns dos maiores escritores brasileiros, como Manuel Bandeira, Drummond, Graciliano Ramos e Vinicius de Moraes eram funcionários públicos. Maurício conta que, além da fragmentação do mercado musical, a concentração de renda e a educação de baixa qualidade do país também dificultam a sobrevivência da cena artística.

Se você tem um país onde 80% das pessoas chegaram pelo menos até o fim do colegial, por que a escola pública é boa, e, se você tem um país que tem a renda distribuída e por conta disso as pessoas podem pagar pela arte, então a arte vira um mercado.

O sonho do Maurício e do André durante os Mulheres era sobreviver na música só de bilheteria e direito autoral. Apesar de reconhecer a importância do incentivo público à cultura, Maurício também acredita que ela não permite amadurecimento da música como mercado. Sobre a Lei de Incentivo, Maurício comentou:

Ela fica mantendo a gente vivo por instrumentos, sabe? Um soro aqui, o oxigênio ali, adrenalina aqui, isso num mercado que não existe. Isso aí é bom e é ruim. A gente tem que ter o risco de sucumbir, de parar de existir.

Perto da costa

Maurício em show no Rio de Janeiro, em dezembro de 2018

Maurício em show no Rio de Janeiro, em dezembro de 2018 [Imagem: Marcele Carvalho]

Mesmo quando a carreira está mais sólida e o disco é mais homogêneo e conceitual, Maurício não sabe muito bem onde ele está. Dessa vez, Maurício conta que está “à deriva, mas tô perto da costa”.

A safra de canções que fazem parte do seu último trabalho, “Outono no Sudeste”, foram compostas em bloco, do mesmo jeito que aconteceu no segundo disco dos Mulheres, “Música e Ciência”, e em outros discos da sua carreira solo, como “Mergulhar na Surpresa” e “Pra Marte”.

Assim como o outono é uma estação de transição, Maurício conta que “é um disco emocionalmente de alguém em um meio de caminho”. Esse disco é o primeiro do Maurício com um produtor presente, que traz um conceito fonográfico para o trabalho. Quem produziu o disco foi Gustavo Ruiz, filho do guitarrista Luiz Chagas, além de músico parceiro e irmão da cantora Tulipa Ruiz.

Eu sou um pouco descarnado, se depender de mim é tudo reto, muito seco. A minha poesia é mais delicada, mas na minha orelha o som é Rolling Stones, é garagem, sem firula. O Gustavo permitiu um pouco que o som tivesse poesia também, e isso ajudou a poesia do som à abraçar a poesia do texto.

“Outono no Sudeste” é um disco doce e mais respirado. Apesar de canções mais doces sempre estarem presentes nos trabalhos do Maurício, a idade e a fase mais segura da carreira contribuíram para a formação de uma safra mais “calma”, não muito de verão nem de inverno: um “morno” típico do outono, mas com a melancolia e a poluição de São Paulo.

A banda do disco “Outono no Sudeste”

A banda do disco “Outono no Sudeste” [Imagem: Marcele Carvalho]

Maurício conta que, para a surpresa de ninguém, ele está meio perdido depois do “Outono no Sudeste”. Não sabe o que vem por aí. Mas diz que está enchendo alguns cadernos de ideias: “Não sei se essas coisas prestam. Então uma hora eu vou ter o mesmo trabalho que você vai ter: me editar. Não é fácil, dá uma preguiça da porra (risos)”. De fato, editar o Maurício Pereira não é nada fácil.

Dessa conversa com Maurício eu pude perceber duas coisas: Maurício gosta muito de caminhar e Maurício gosta muito de ferrovia. Ele parece ter seu funcionamento ligado ao andar solitário. “Na hora do pôr do sol eu não gosto de estar em casa, eu gosto de estar debaixo do céu.”

O estúdio lhe dá agonia ele prefere a viagem, a turnê. Não exatamente os shows, mas o que vem no pacote: uma nova cidade, novas pessoas, novas estradas. Conversar na padaria com um “mano”, dar um rolê no centro. 

O gosto pelos trens é familiar. Descendente de ferroviário, Maurício já afirmou em algumas entrevistas que sonhava em ser maquinista. Ele diz que hoje “não dá mais”. Maurício já teve moto, já fez road trip pelo interior, mas vendeu ela ainda nos anos 80 para viajar para os Estados Unidos e voltar com os aparelhos de “tecnopobre” dos Mulheres. O que fica disso é que Maurício necessita do movimento, e com isso a sua cabeça parece estar sempre trovoando.“Eu sou um cara tipo quieto. Eu sou inquieto, mas eu sou quieto.”

Repleto de dualidades que não se contradizem, Maurício é um operário da música. É um guerrilheiro da canção independente, da poesia das pequenas coisas. Na busca de compreender ele, encontrei uma pessoa assustadoramente concreta; e talvez o detalhe mais maluco e complicado de sua existência seja seu daltonismo. De resto, Maurício é um brasileiro comum, que enxerga e pensa como qualquer um. 

Eu sou o Pato Donald do pop. Um cidadão comum, straight . Um casal e três filhos, um aluguel e um automóvel. E necessidade de estudar e comer.

Nesse momento de pandemia, Maurício conta que nunca foi otimista, mas que tenta não ser pessimista para não trazer desesperança para os seus filhos e para o público do seu trabalho, apesar de também acreditar que não existe muito futuro pra humanidade.  

Tem muita coisa bonita, mesmo quando você tá fudido, mal pago, canceroso, louco, humilhado, acho que o acaso existe sempre, e sempre pode acontecer um momento bonito. Quando John Lennon dizia “Deus está solto”, a Luz está solta também. Shit happens and shit unhappens.

Assim como acreditar na arte como fonte de energia e esperança, Maurício também crê que “a arte é um serviço público”, assim como o lixeiro, o professor, o médico: serviços que são prestados para a coletividade. No começo do milênio, Maurício acreditava que o mundo não iria precisar de artistas em um futuro distante, quando tudo seria mais justo, assim como o mundo não precisaria de lixeiros se não houvesse mais lixo.

Hoje em dia, Maurício não sabe se acredita mais nisso. O que ele acredita muito é na “arte contra a barbárie”. A arte serve então para impedir a “normalização” seja a normalização da barbárie ou a normalização das pequenas coisas. Essas pequenas coisas seriam o sagrado da vida comum: uma caminhada na Vila Ipojuca, um simples pardal, um beijo na testa de um filho. Para Maurício, a arte precisa reacender o brilho do comum e impedir a insensibilidade perante essa luz. 

Praticar a arte contra a barbárie é um serviço público, e tudo isso que eu disse nessa entrevista são suportes, acessórios e ambientes dessa função que é só uma das funções que o artista pode ter na sociedade.

J.Press
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