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Futebol no rádio: as vozes no esporte
ARQUIBANCADA
21 dez 2020 | Por Por Rebeca Alencar (rebs.alencar@usp.br)

Rádio: a mídia comunicativa mais antiga da história. Futebol: um dos esportes mais amados do mundo. A junção entre os dois não poderia ser menos do que uma combinação positiva, presente no cotidiano do brasileiro há décadas. 

Mas o que há de tão característico nessa combinação que a mantém funcionando e tendo sucesso até hoje? Nesta matéria do Arquibancada, Fernando Morgado, o coordenador-adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS analisa o histórico desse veículo midiático e as características de suas produções. Além disso, Napoleão de Almeida e Marcelo do Ó, narradores esportivos e apresentadores do canal Uninarra, contam um pouco sobre seu trabalho e experiência na área.

 

De onde e como surgiu?

Um fato interessante revelado por Fernando é a utilidade inicial da mídia radialista. Sua exploração por cientistas e amadores era baseada no objetivo de entender todo potencial que aquele novo meio informativo tinha a oferecer. Posteriormente, em 1930, o investimento de empresários permitiu com que aquele foco de pesquisa se tornasse um grande negócio. Com o tempo, mais emissoras foram criadas e as programações foram aprimoradas, o que chamou a atenção das grandes massas.

O professor ainda conta que a sua popularização coincide com um processo de democratização da informação no Brasil. Além disso, o evento também teve grande responsabilidade na integração da identidade cultural do país. 

“Em um país como o Brasil, que historicamente sofre com o analfabetismo, é importantíssimo ter uma mídia como o rádio. Ela oferece informação e entretenimento de forma simples, gratuita, regionalizada e sem exigir que os ouvintes leiam, escrevam ou dominem outros idiomas”, explica.

No entanto, o conteúdo esportivo chegou no rádio pouco antes disso. Na década de 1920, começaram as primeiras transmissões, não somente atraindo um novo público, mas para reforçar o caráter interdisciplinar da rádio, que se desde então já se adequava facilmente a todos os setores da sociedade. Na época, ainda não existiam as pesquisas de audiência e havia poucos meios de se saber como foi a recepção do público, mas a proposta revolucionou os dois campos: tanto o do esporte, quanto o da mídia comunicativa.

Futebol no rádio, estúdio

Cabine de controle nos estúdios da Rádio Tupi, em 1937 [Imagem: Memorial da Democracia]

Os bastidores das produções

“O rádio nasceu baseado no amadorismo. Nos primeiros anos, era comum ver profissionais sendo obrigados a conciliar sua vida ao microfone com outras atividades profissionais e acadêmicas”, relata Fernando. 

Ele cita como exemplo Blota Jr, um dos pioneiros da rádio esportiva e grande destaque nas apresentações dos festivais de MPB da Rádio Record, nos anos 1960. Morgado, que escreveu uma biografia sobre o radialista, afirma que simultaneamente ao trabalho na mídia radialista, Blota Jr ainda se graduava em direito pela Universidade de São Paulo. 

Atualmente, Napoleão de Almeida afirma que a preparação para o trabalho dos narradores e demais radialistas do esporte fora das rádios consiste em dedicação constante. A preparação, que vai desde o estudo dos jogos de futebol até o acompanhamento de suas informações, faz com que ela seja muito mais externa ao ambiente de trabalho do que o contrário.

Marcelo do Ó concorda com o colega, e detalha um pouco sobre os bastidores: “Precisamos estar em dia com o noticiário, acompanhando os torneios que a gente transmite, bem como atentos ao nosso corpo, nossa voz, aos aspectos técnicos e fonoaudiológicos ligados à narração também”.

Todo esse processo faz parte do cuidado com que as narrações das partidas são produzidas. Fernando diz que mesmo tendo somente o áudio como material, o espectador é compensado por uma descrição mais detalhada dos acontecimentos. O talento do profissional, nesse caso, é responsável por levar o torcedor à loucura, tornando dispensável a presença de imagens. “Costumo dizer que, com sua técnica, um bom narrador é capaz de transformar um jogo ruim em um jogo bom, um jogo bom em um jogo ótimo e um jogo ótimo em um jogo histórico”, opina. 

Napoleão segue a mesma linha de raciocínio construída por Morgado e acredita que o estudo para a adquirir a técnica adequada não termina quando se atinge o nível profissional. “Quanto pior o jogo, mais necessário o conhecimento de quem o transmite, a habilidade em manter a atenção da audiência, já que o espetáculo em si está ruim”, comenta. Mas para que ela se mantenha com alta qualidade, saber o que é falado em meio às torcidas e ter boa oratória são dois dos requisitos que estão em constante atualização.

Paralelamente, Marcelo fala que a parte mais difícil de narrar os jogos é controlar a velocidade de fala e descrever os acontecimentos simultaneamente ao momento em que ocorrem. “A gente precisa balancear, enquanto está falando, a emoção do momento, acompanhar a jogada e girar o time de transmissão. Tudo quase ao mesmo tempo”, detalha. 

Contudo, não só ele como Napoleão afirmam que a complexidade de seus trabalhos não os torna os mais difíceis, pois outras funções também detêm seus obstáculos em particular. “O comentarista também precisa de um alto poder de síntese para trazer sua visão do jogo em poucos segundos e a reportagem tem que avaliar qual informação e detalhe dos lances são relevantes”, exemplifica Marcelo.

 

O caráter desafiador das emoções 

Além da preparação técnica, o desafio para o narrador também está no controle emocional diante dos jogos. Fernando Morgado aponta que a rádio é a mídia da emoção, da mesma maneira que o futebol é um dos esportes que mais extrai emoções de seus torcedores. Apesar de poder trabalhar com grandes paixões,  a tarefa do narrador não é nada fácil. Acima do amor de torcedor, é preciso ser profissional. Sobre isso, Napoleão de Almeida afirma que conciliar as duas questões é necessário.  

“Não significa que o narrador não se emocione, pelo contrário. A questão é que, do microfone para trás, o cidadão tem preferências e gostos, tem desejos, anseios e conceitos como qualquer outro. Do microfone para frente, é um profissional responsável em transmitir o que ocorre, não o que deseja”, adiciona.

E o que acontece quando o jogo é do time do narrador? Napoleão diz que em momentos como esse tanto ele quanto seus colegas de profissão se preocupam mais com o próprio sucesso do que com o das equipes em campo. O objetivo ali é oferecer um bom trabalho e uma narração de qualidade. Para isso, é preciso ver o esporte como seu material de trabalho, não de lazer. “Ganhar e perder fazem parte do esporte. Para um narrador é indiferente o resultado do jogo”, relata.

Por outro lado, a emoção que não pode invadir o momento do trabalho é característica de trabalhos memoráveis de Napoleão e Marcelo. As inúmeras experiências vividas pelos profissionais não lhe trouxeram somente aprendizados em relação à técnica e ao estudo de sua área, mas, principalmente, muitas histórias para contar.  

Marcelo tem um vasto currículo em trabalhos no jornalismo esportivo até mesmo fora do futebol. Do tênis ao judô, cada um deles era desafiador, mas o resultado sempre foi gratificante. Contudo, o narrador afirma que o mais difícil foi narrar diversas modalidades dos Jogos Olímpicos de 2016, pela Rádio CBN.

Já Napoleão lembra que o mais inesquecível foi o seu primeiro trabalho como narrador, em uma rádio estatal de pouca audiência, na transmissão de um jogo de futsal da segunda divisão no Paraná. “Possivelmente somente minha mãe e minha namorada à época estavam escutando, mas para mim era como se fosse a final da Copa”, brinca. Mesmo assim, ele afirma que o público pequeno não induziu negativamente a qualidade de seu trabalho. Ali, como profissional, o narrador deu tudo de si, e lembra disso com todo carinho.

A oportunidade de narrar a Copa do Mundo é considerada, por muitos narradores, o auge de suas carreiras [Imagem: Gil Leonardi/Imprensa MG]

Dois impactos: tempo e tecnologia

Em vista do desenvolvimento tecnológico responsável pela ascensão da mídia virtual e televisiva, há quem pense que hoje o conteúdo esportivo oferecido pelas rádios não seja tão influente quanto antes. Fernando Morgado, no entanto, afirma que esse pensamento é equivocado. 

Ainda na atualidade, principalmente em São Paulo, a quantidade de emissoras radialistas que apostam no esporte como carro-chefe é muito grande, assumindo o papel referencial para outras mídias quando o assunto é cobertura de futebol: “São muitos os profissionais que começaram no rádio e também se destacam na TV e na Internet. Eles carregam as técnicas que aprenderam e desenvolveram ao microfone. Aliás, a forma como a TV cobre eventos esportivos é inteiramente baseada no rádio”, detalha.

Por outro lado, as novas tecnologias abriram um leque de possibilidades para a mídia radialista, o qual acompanhou as novas tendências técnicas e as transformações do jornalismo esportivo. Como exemplo, o professor cita o investimento na produção de vídeos tanto gravados quanto ao vivo. Consequência disso é uma nova demanda de preparo para os profissionais da área, que precisam sempre estar atentos às suas inovações.

A respeito da audiência, é importante ressaltar que nem as mais diversas modificações pelas quais as rádios passam são ameaçadoras ao seu público. Morgado concorda que a disputa pelo tempo dos ouvintes está mais acirrada, mas, segundo ele, a rádios “seguem exercendo um papel fundamental na rotina da audiência tanto dos grandes centros urbanos quanto das cidades interioranas”.

A extinção da mídia radialista não é uma preocupação. Cada veículo midiático possui seu espaço e importância, mas não há nada que se sobreponha à sua função principal: ser o cenário da conexão entre narrador e ouvinte, em que o profissional se torna os olhos do espectador.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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