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Libertadores da América: A relação entre o torneio e os homenageados

Como o ideal de liberdade presente no nome da competição está se perdendo ao longo dos anos

ARQUIBANCADA
23 nov 2021 | Por João Dall'ara (j.dallara@usp.br)

O principal torneio de clubes da América do Sul tem um nome que leva consigo um peso diferente, que destaca-se em detrimento dos demais. Mas, apesar de parecer uma associação simples, muitas pessoas não relacionam a Copa Libertadores da América aos Libertadores da América, homenageados que nomeiam a competição. 

Assim, é possível notar que o nome, atualmente, não carrega o mesmo sentido que já carregou, e isso deve-se por diversos motivos, dentre eles a perda dos ideais pregados pelos Libertadores e a associação da competição aos aspectos mercadológicos.

Origens da competição

Para entender todo o significado da competição, é preciso olhar para suas origens. As primeiras disputas entre clubes de diferentes países da América do Sul começaram no início do século 20, com as copas Competencia e Copa Aldao, competições em que participaram times argentinos e uruguaios. 

Um pouco depois, o clube Colo Colo, do Chile, manifestou o interesse em realizar uma competição entre os clubes da América do Sul, que iriam além dos jogos entre argentinos e uruguaios. Depois de alguns anos de insistência dos dirigentes, em 1948 surgiu o Campeonato Sul-americano de campeões, em que os clubes campeões nacionais de sete países representaram suas respectivas nações. Em sua única edição, a competição teve um clube brasileiro campeão, o Vasco da Gama.

É importante ressaltar que, no Brasil, ainda não existia um torneio entre clubes de caráter nacional, apenas o campeonato entre seleções estaduais. Assim, o Vasco foi escolhido como representante brasileiro  pois a seleção do Rio de Janeiro havia sido campeã em 1947 e o cruzmaltino, o campeão estadual, sendo considerado o melhor time brasileiro.

Embora não tenha sido organizado pela Conmebol, esse campeonato tem o seu valor histórico reconhecido pela Confederação. Além disso, foi importante por ser um princípio do que viria a ocorrer anos depois, a Copa Libertadores da América. 

Depois de 10 anos sem torneios continentais, o brasileiro José Ramos de Freitas, presidente da Conmebol no ano de 1958, teve como um de seus últimos atos a organização de um novo torneio entre clubes sul-americanos. Pressionado pela UEFA (União das Federações Europeias de Futebol), que já tinha um torneio entre clubes na época — a antiga Copa dos Campeões, campeonato que ocorria desde 1955 — e que manifestou seu interesse em realizar um embate entre um representante da América do Sul e um representante europeu. Junto de interesses políticos e econômicos, o presidente enviou um telegrama para alguns países indicando suas intenções. 

Depois de uma votação quase unânime, o campeonato seguiu em frente, com sua primeira edição em 1960. Dos países que não aprovaram, a Venezuela se absteve de votar e o Uruguai foi contrário. A justificativa uruguaia foi de que o então Sul-americano de seleções — atual Copa América — perderia forças com esse novo campeonato.

O campeonato surgiu com o nome de Copa dos Campeões da América, por sua semelhança com o campeonato europeu, e contou com a participação de sete clubes, que haviam sido campeões nacionais de seus países. O Bahia foi o representante brasileiro, por ter vencido o primeiro campeonato reconhecido nacionalmente pelo Brasil, a Taça Brasil, em 1959.

O Peñarol, do Uruguai, sagrou-se como o primeiro campeão da competição, ganhando os dois primeiros torneios de forma consecutiva, em 1960 e 1961, assim como o Santos de Pelé, que venceu os campeonatos de 62 e 63. Essas conquistas contribuíram fortemente para a impulsão do torneio de maneira global e o desenvolvimento do futebol praticado no continente.

Libertadores Santos

Santos bicampeão da Libertadores [Imagem: Reprodução/Santos FC]

 

O impacto da Libertadores da América no futebol 

Sobre o futebol, é inegável a importância do torneio para o desenvolvimento das federações e clubes da América do Sul. A Copa Libertadores da América facilitou a institucionalização do esporte no continente, por proporcionar uma regularidade de encontros e disputas entre os clubes. 

Mas, junto desse primeiro interesse, o perpetuamento de interesses e alianças políticas entre as Confederações estava presente. Existia também o interesse político da Conmebol em exercer seu poder e ser o centro do futebol sul-americano, e, por isso, a instauração da  Libertadores  em conjunto com a Copa América, era fundamental.

A mudança de nome

A mudança do nome para Libertadores da América só ocorreu cinco anos após o primeiro campeonato. Além da inserção dos vice-campeões nacionais no torneio como forma de expandir a competição, as mudanças no nome ocorreram com a ideia de promover uma identificação maior entre os sul-americanos. Com isso, o torneio deixou de ter em seu nome a semelhança com o campeonato europeu de clubes e adquiriu um nome muito mais significativo, próprio e único para a América do Sul, levando em conta os fatores históricos dos homenageados. 

Para isso, é preciso entender a importância dos chamados Libertadores para o continente. Os Libertadores da América possuem essa alcunha por estarem ligados de alguma maneira aos movimentos de independência dos países sul-americanos, em contraste com os colonizadores europeus. É importante a delimitação dessas figuras à América do Sul, visto que os movimentos emancipatórios ocorreram por uma dinâmica diferente na América do Norte e Central.

Quem foram os Libertadores da América?

A lista dos Libertadores não é fechada e conta com uma pluralidade de nomes, com diferentes trajetórias, mas que de alguma forma foram importantes para os movimentos revolucionários e emancipatórios na América do Sul no século 19. 

Os principais representantes podem ser nomeados como Simon Bolívar (1783-1830), venezuelano que ficou conhecido como “O Libertador”, e o argentino José de San Martín (1778-1850), além de nomes como Bernardo O’Higgins, José Artigas, Antonio José de Sucre, Francisco Miranda e tantos outros ligados a esses movimentos. Alguns inclusive são homenageados em nomes de times que disputam o campeonato sul-americano, como o Fútbol Club Bolívar, da Bolívia, e o O’Higgins Futbol Club, do Chile. 

É importante identificar que, em sua maioria, esses homens tinham ideais liberais, eram burgueses e estavam muito ligados a pensamentos iluministas, que haviam surgido na Europa e pregavam em seu ideal a liberdade individual. Além disso, eram opositores às estruturas antigas de poder, que tinham ideais despóticos, autoritários e cerceadores que os colonizadores europeus praticavam na América.

O historiador Raphael Abreu menciona que “esses personagens, como Simon Bolívar e José de San Martin, foram responsáveis por dizer para Europa, através das armas e violência, um basta. Esse basta foi exatamente esse ponto, de lutar pela independência, lutar por um processo de liberdades maior, por aprofundar essa noção de que a América precisava e precisa ser livre desse julgo, desse domínio europeu”.

A partir disso, muitos deles partiram para a luta armada e viveram intensos conflitos para que a liberdade de muitos países da América fosse alcançada. Portanto, são vistos como símbolo de resistência e luta contra os europeus, o que corrobora para o nome da competição ser tão particular. É interessante notar que, tal como foi a desvinculação que ocorreu no processo de libertação da América, o nome da competição foi dado para que se desvinculasse da semelhança com o do torneio europeu.

Entretanto, ainda que os Libertadores representem muito para o continente, é necessário que se aponte algumas controvérsias em suas posturas. Talvez o maior exemplo disso seja Dom Pedro I, que é considerado o libertador brasileiro. Essa nomeação, no entanto, não está de acordo com seus atos e pode ser mais bem feita ao tratá-lo apenas como um responsável por esse processo de independência. Isso porque não ocorreu, de fato, uma ruptura com o europeu. 

A independência brasileira deu-se por meio de um tratado e, embora tenha havido alguns lampejos de resistência no território brasileiro, a independência do país não é caracterizada por conflitos intensos e grandes lutas armadas, mas sim como um ato político. Logo, é possível dizer que o grito de independência, romantizado e eternizado pela obra de Pedro Américo, não teve pesos reais na questão social, e o país ainda viveu anos sob o domínio de um português. 

Ademais, de modo geral, os Libertadores eram em sua grande parte burgueses, liberais, militares e movidos pelo iluminismo. Então, desfrutavam de um certo poder e faziam parte de uma elite da época, de modo que é possível atribuir que o fator econômico também teve uma grande influência nas lutas de libertação, já que os países eram limitados economicamente pela metrópole. 

Outros fatores a serem considerados são a permanência da escravidão e regimes autóritarios em diversos países, mesmo após a sua suposta libertação, e a manutenção do status quo de alguns grupos, como as elites regionais, caracterizadas como caudilhos, não havendo uma grande ruptura na estrutura social. Além disso, as liberdades foram muito associadas com as liberdades individuais do homem, havendo também problemas envolvendo a participação das mulheres.

Apagamento dos seus ideais?

Entretanto, é notável que se repare em um esvaziamento de significado do torneio com o passar dos anos. Se em seu início foi criado com o intuito de definir um representante que pudesse enfrentar um europeu de forma parelha e demonstrar a força do futebol sul-americano pelo mundo, atualmente não é possível dizer que o significado é o mesmo. Essa noção do apagamento é rodeada por inúmeros fatores muito complexos, que refletem o contexto social, econômico e político dentro do campo. 

A competição passou por diversas transformações no sentido mercadológico. O  futebol sul-americano sempre foi considerado diferente dos demais pelo seu caráter emocional exacerbado, a paixão e a presença do popular e inusitado, em um torneio marcado pelas tradições. Isso deve-se por conta de diversas narrativas, que tiveram a participação das torcidas, clubes, jogadores, organizações, o interesse da mídia e até mesmo da Conmebol em atribuir mais valor a competição, como uma espetacularização. Atualmente, há uma padronização, e o torneio é cada vez mais próximo do realizado pelos antigos colonizadores.

As muitas atualizações do torneio fizeram com que até mesmo o nome fosse alterado pelo mercado com o passar do anos, com o atrelamento da competição à empresas que, inclusive, foram colocadas antes dos Libertadores. Isso por vezes oculta o nome completo, como foi com a Copa Toyota Libertadores, depois Santander e, em sequência,  Bridgestone. 

Como aborda o antropólogo e pesquisador do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas), Dr. Enrico Spaggiari “a Libertadores vai se tornando cada vez mais um torneio lucrativo, rentável e que vai mobilizando outras formas de pertencimento, outras identidades, acirrando rivalidades. Então, o torneio vai se transformando e modificando também”. Ele ainda explica que esse processo já é antigo: “ Desde aquela época já havia interesses, que podem ser criticados, e a competição vai ganhando cada vez mais um aspecto mercadológico de fato. O próprio nome dos Libertadores ficou em segundo plano.”

O nome verdadeiro e completo da competição não é mais mencionado como já fora, dificilmente referem-se ao torneio como A Copa Libertadores da América e isso relaciona-se com o que foi mencionado nas primeiras linhas do texto, o desconhecimento sobre o nome e a perda de significado com o passar dos anos. Por mais que tenham problemas presentes nos Libertadores, eles ainda são um símbolo e representam esse ideal de pertencimento para os sul-americanos. 

“A Libertadores da América, a construção desse torneio e o modo como ele foi sendo atualizado, como ele foi se transformando exige que a gente olhe ao longo desta consolidação para algumas sutilezas. Como ocorreram alterações que permitem que a gente veja como esse simbolismo inicial vai sendo trabalhado de forma diferente e leva a um enfraquecimento dessa proposta inicial de criar um pertencimento à América do Sul”, ressalta o antropólogo. 

Spaggiari ainda complementa que “Porém acaba mostrando que a própria Libertadores em diversos exemplos, nesses sutis momentos específicos dessa espetacularização”.

Por isso, surge um questionamento se esses significados são realmente vistos na prática ou se são apenas uma construção ilusória dos sul-americanos sobre eles mesmos  de liberdade, autonomia e pertencimento. O que é visto, também além dos campos, é uma dependência vigente até os dias de hoje dos países da América aos antigos colonizadores europeus, como a grande exportação de commodities e submissão comercial. 

Além da exportação de commodities, a América exporta seus maiores craques, que em sua imensa maioria, não fazem sua carreira no continente sul-americano. A Copa Libertadores da América, criada para mostrar a força do futebol praticado na América para o mundo, hoje não conta com os seus principais jogadores, algo que enfraquece o torneio e o futebol sul-americano de modo geral. Os principais nomes das seleções jogam na Europa, vide Neymar, Lionel Messi, Luis Suárez, Alexis Sánchez e James Rodríguez.

Spaggiari questiona se realmente o continente sul-americano se libertou da Europa:  “Essas amarras, na verdade, agora, são no caso do futebol, mercadológicas. Já que o futebol se tornou um espetáculo, estamos presos, continuamos presos e de alguma forma ainda ligados e dependentes daqueles que queríamos nos tornar livres”. 

Libertadores Madrid

A final da Libertadores entre River e Boca foi disputada em Madrid [Imagem: Reprodução/Libertadores]

Um exemplo sintomático dessa submissão da América à Europa no futebol foi a disputa da final da Libertadores de 2018, que foi disputada no próprio continente europeu, muito por conta dessa construção espetacularizada do futebol sul-americano. A presença de brigas e o futebol mais visceral praticado pelos clubes e torcidas, e que é, de certa forma, alimentado pela própria Conmebol impediu que um dos maiores clássicos sul-americanos do continente fosse realizado em seu território. 

Por conta de ataques ao ônibus dos Xeneizes, o confronto histórico entre Boca Juniors e River Plate foi realizado  na Espanha, curiosamente um grande colonizador das terras sul-americanas.

A memória, se não é trazida à tona e não é lembrada, vai perdendo seu valor e pode ser esquecida, como reflete o historiador Raphael Abreu: “A questão da memória, do esquecimento, do lembrar, porque isso é uma coisa muito cara para nós, historiadores. Acho que quando falamos sobre memória, estamos pensando na produção de algo que fica como um legado. Mas infelizmente esse legado desaparece, se não é relembrado, se ele não é recolocado, incentivado, ele acaba desaparecendo”. 

Assim, a história da América do sul, dos Libertadores da América e da Copa Libertadores da América pode estar sofrendo com as transformações, as atualizações e tudo que ocorre fora das quatro linhas. Isso se reflete no futebol, com seu ideal se esvaindo ao longo dos anos e, gradualmente, vai perdendo seu valor.

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