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‘Solar Power’ em Māori: revitalização e visibilidade de línguas indígenas

A cantora neozelandesa Lorde lança EP com músicas do álbum “Solar Power” traduzidas em Māori, língua indígena em processo de revitalização

Escuta Aí
05 nov 2021 | Por Lara Paiva (larapaiva@usp.br)

Em setembro de 2021, na semana da língua Māori da Nova Zelândia, a cantora Lorde relançou músicas de seu álbum Solar Power — que  ganhou versão deluxe nessa sexta (5) — em Te reo Māori. O mini álbum conta com cinco músicas traduzidas e foi chamado de Te Ao Marama — o que não traduz Solar Power (“poder solar”) ao pé da letra, mas sim “mundo de luz”. 

A capa de Te Ao Marama é uma  versão recolorida da arte “Serene", do artista neozelandês Rei Hamon [Imagem: Divulgação].

A capa de Te Ao Marama é uma  versão recolorida da arte “Serene”, do artista neozelandês Rei Hamon [Imagem: Divulgação].

A Nova Zelândia recentemente esteve nos holofotes globais devido à sua eficiência de manter a pandemia do vírus Covid-19 sob controle, com a liderança da primeira ministra Jacinda Arden. O fim da pandemia no país foi acompanhado de uma campanha de conscientização  baseada nos princípios da cultura e valores Māori. 

 


O vídeo de divulgação da campanha “A Journey of Reflection” usa termos Maori para delimitar práticas para um mundo pós pandêmico.

 

Os Māori são um povo originário da Polinésia que habita a Nova Zelândia desde o século 14. Com a chegada dos ingleses no país, iniciou-se um árduo processo de colonização que buscou extinguir sinais da cultura Māori do país — incluindo sua língua. 

Apesar de Lorde não ter ascendência Māori, tentativas de conservar a língua no país muitas vezes levam os Pākehā (neozelandeses de ascendência européia) a falar a língua em seu dia-a-dia. 

 

A revitalização da língua Māori

Estima-se que, por todo o mundo, falam-se de seis a sete mil línguas diferentes. Segundo o professor de linguística Paulo Chagas, da Universidade de São Paulo, se nenhuma interferência fosse feita para preservá-las, metade delas seriam extintas até o final do século. “No final do século 20 os linguistas começaram a pensar ‘peraí: não são só os animais e as plantas que estão ameaçados, mas as línguas também. Elas estão desaparecendo”.

Foi neste contexto que iniciou-se, há algumas décadas, uma intensa campanha de revitalização de Te reo Māori na Nova Zelândia. “Em 1975 um relatório por Richard Benton confirmou o que muitos estavam pensando: que a língua Māori estava à beira da extinção”, afirma Hemi Dale, professor da Universidade de Auckland e falante de Te reo. 

Guerreiro Maori tipicamente ornado [Imagem: Pixabay].

Guerreiro ori tipicamente ornado [Imagem: Pixabay].

“Isso gerou ação, com o desenvolvimento de centros infantis do desenvolvimento da língua Māori (kōhanga reo) e depois ensino primário e secundário imersivo (escolas tribais Kura Kaupapa Māori & Kura ā-iwi)”. O professor ainda leciona em um programa universitário de imersão bilíngue, com foco em possibilitar às pessoas a ensinar o currículo por meio de Te reo. “Ter a qualificação e ser um falante de te reo Māori é uma competência altamente empregável”.

Para Dale, a resistência à língua é cada vez menor e a adesão da sociedade geral neste plano é essencial. “O plano Te Matawai também é sustentado pela noção que todos in Aotearoa [nome Māori da Nova Zelândia] têm um papel a desempenhar relativo à revitalização de te reo Māori, não importa quanto reo se fala”, ele adiciona. 

Hemi Dale é um falante nativo de Maori e educador de longa data dessa língua e cultura na Faculdade de Educação e Trabalho Social da Universidade de Auckland (NZ). [Imagem: Hemi Dale]

Hemi Dale é um falante nativo de Maori e educador de longa data dessa língua e cultura na Faculdade de Educação e Trabalho Social da Universidade de Auckland (NZ). [Imagem: Hemi Dale]

Por isso, a participação de Lorde — cujo nome verdadeiro é Ella Yelich-O’Connor, com herança croata e irlandesa — foi vista com bons olhos por grande parte dos falantes da língua. O álbum ainda é baseado em valores que vêm da cultura e tradição Māori, como cuidar do planeta e a conexão ao mundo natural. 

Mesmo a cantora não falando Te reo, Lorde colaborou com tradutores como Hemi Kelly e Hana Mereraiha para recriar as músicas na língua Māori. Dificuldades foram apresentadas porque, em muitos casos, uma tradução ao pé da letra só não soaria certo. Outra restrição foi melodia e a contagem de sílabas. Muitos artistas Māori afirmam que apoiaram o projeto. Kelly afirmou à Newsroom New Zealand que via as intenções de Lorde como “boas e genuínas”. 

 

O processo de construção de Te Ao Marama

A regravação de músicas em inglês por artistas neozelandeses em Māori faz parte de uma iniciativa chamada de Waiata Anthems. “Embora haja alguns detratores a respeito de ver o envolvimento da Lorde como uma forma de ‘tokenismo’, eu não vejo dessa forma”, afirma Hemi Dale. “A tradução das músicas e treinamento que fizeram parte do processo de assegurar a autenticidade das versões Māori de cada música foi uma colaboração com falante de Māori e músicas que estão na crista da onda de revitalização aqui em Aotearoa”.

Mesmo assim, vale lembrar que os músicos Māori são pagos menos em média que os não-Māori, mesmo que cantores contemporâneos que compõem em Te reo façam grande sucesso. Nas rádios do país, o que toca é, em sua maioria, música hegemônica americana.

O professor Paulo Chagas aponta que os projetos de imersão buscam integrar todas as faixas etárias da comunidade. “Os mais velhos muitas vezes falam fluentemente mas não têm muito contato [com outros falantes], eles ficam um tempo com crianças pequenas com três, quatro, cinco anos, para fazer aulas de imersão da cultura Māori”. “Esse modelo inclusive está sendo imitado no Brasil”, Chagas adiciona.

Exemplo nacional é a comunidade Kaingang, que vive um momento muito semelhante à ruptura de transmissão observada no mundo Māori. Nela, esforços vêm sendo feitos para imitar a revitalização pela qual Te reo passou, como destrincha este artigo da Revista Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

 

Reação do público

O lançamento do disco gerou polêmicas de todos os lados da internet, e não só moradores da Nova Zelândia opinaram sobre o assunto. Thomas Finbow é professor de linguística na Universidade de São Paulo e afirma que manifestações culturais e materiais indígenas estão ganhando cada vez mais força, mas que a projeção imensa de Lorde deve ser aproveitada.  “Ela não é Māori, a família dela não é Māori, mas existem muitas pessoas que têm interesse [na língua] na Nova Zelândia, que valorizam a cultura indígena e estão valorizando cada vez mais”. 

Guilherme Alves é fã da neozelandesa desde seu primeiro álbum, Pure Heroine, lançado em 2013. ”Fui conhecendo o álbum e me apaixonei por tudo, pela estética dela… ela era meio rebelde — ainda hoje é — e as letras também falaram muito comigo”, ele afirma. 

Lorde em “Royals", a música que alavancou o começo de sua carreira [Imagem: Reprodução / Youtube].

Lorde em “Royals”, a música que alavancou o começo de sua carreira [Imagem: Reprodução / Youtube].

“Eu acho que a relação da Nova Zelândia com a população indígena é muito diferente da nossa relação com os nossos indígenas. Pelo que eu vejo, realmente tem uma apreciação”, diz o estudante de cinema. 

Guilherme ainda compara a situação com o que aconteceu com a cantora Madonna nos anos noventa com a dança Vogue, icônica cultura da comunidade LGBTQI de Nova York. “Ela pegou isso e mostrou para o mundo. Eu não vejo isso como apropriação cultural, eu vejo como uma celebração. E tudo que ela fez para a cultura LGBTQI foi essencial naquela época”.

Por outro lado, muitos se sentiram extremamente desconfortáveis com a interpretação da Lorde. O coreógrafo e artista Māori Jack Gray criticou duramente a cantora em suas redes sociais: “foi um caleidoscópio das contemplações superficiais e egocêntricas de uma artista pop”. 

Gray havia até sido convidado para trabalhar com a cantora, mas não se sentiu confortável com o tom das interpretações. “Eles não estavam lá para ouvir um artista Māori expressar suas preocupações. Eles queriam um produto. E queriam um produto Ocidental com um nome Māori”.

Cena de Solar Power, primeiro videoclipe do álbum com o mesmo nome [Imagem: Reprodução / Youtube].

Cena de Solar Power, primeiro videoclipe do álbum de Lorde com o mesmo nome [Imagem: Reprodução / Youtube].

 

Apropriação ou apreciação cultural? 

O fato de Lorde, como uma pessoa de ascendência européia não-Māori, ter gravado o álbum na língua ancestral desse povo levou muitos a questionarem sobre a questão da apropriação cultural em casos como esse.

É válido lembrar que o contexto neozelandês é único, e os Māori veem a preservação de Te reo como uma prioridade; mas em muitos casos esse povo foi vítima de apropriação cultural. Estampas que buscam imitar a cultura podem ser vistas em muitas ocasiões, que levam à revolta da população. No Brasil, tatuagens similares às tradicionalmente Māori são frequentemente imitadas.

Calça legging com “estampa Maori” à venda no site Etsy [Imagem: Divulgação].

Calça legging com “estampa Maori” à venda no site Etsy [Imagem: Divulgação].

Hemi Dale lembra do caso do ‘haka’, dança Māori que ficou extremamente popular devido a times esportivos neozelandeses que a realizavam antes de competições. “A haka tem uma longa história e foi frequentemente utilizada antes de batalha como uma forma de deixar os guerreiros fisicamente e psicologicamente prontos para a batalha”. 

 


O famoso time neozelandês All Black realiza a dança Haka antes de um jogo.

 

A dança é tão popular que até o príncipe Harry a realizou em uma visita ao país. “Há inúmeros exemplos no Youtube de grupos que realizam seu próprio haka”, afirma Dale. “Alguns são autênticos e alguns ofensivos em questão de como difamam a cultura Māori”. 

 


O duque de Sussex realiza uma dança Haka com militares neozelandeses em uma visita ao país.

 

Não é só em países como a Nova Zelândia que aspectos culturais de minorias são “emprestados” por pessoas que fazem parte de outros grupos. No Brasil, inúmeros exemplos variam, de fantasias ofensivas carnavalescas à perpetuação de estereótipos.

Apropriação cultural por meio de fantasias de indígenas no Carnaval é comum no Brasil [Imagem: Reprodução / Instagram].

A apropriação cultural por meio de fantasias indígenas no Carnaval é ocorrência comum no Brasil [Imagem: Reprodução / Instagram].

 

A importância da preservação de línguas 

A revitalização da língua Māori e o debate causado pela cantora Lorde trouxeram à tona várias questões referentes à importância da preservação de línguas minoritárias, sejam elas indígenas ou não. 

“Estudos demonstram que, quando se preserva a língua, isso ajuda na autoconfiança da pessoa, ajuda na manutenção da cultura, em uma quantidade imensa de aspectos psicológicos e ajuda a estruturar a comunidade”, afirma o professor Thomas Finbow. “Tudo isso parte da questão da língua”. 

Um exemplo disso em prática parte da própria Nova Zelândia: recentemente, uma jornalista viralizou na internet por se apresentar na TVNZ com tatuagens faciais tipicamente Māori. Oriini Kaipara foi a primeira mulher a aparecer na televisão com a moko kaue, utilizada por mulheres no queixo. 

“Isso é para nós. Todos nós", escreveu a jornalista em uma postagem no Instagram da TVNZ [Imagem: Reprodução / Instagram].

“Isso é para nós. Todos nós”, escreveu a jornalista em uma postagem no Instagram da TVNZ [Imagem: Reprodução / Instagram].

Ela afirma que a realizou como forma de se reconectar com sua cultura, e a emissora demonstrou apoio. “Homens Māori com rostos completamente tatuados (conhecidos como mataora) e mulheres com uma mojo (tatuagem) em seu queixo vêm se tornando cada vez mais comuns”, diz Hemi Dale. “Carregar esses tipos de tatuagens falam sobre o engajamento com a cultura Māori e te ao Māori (o mundo Maori).

Homens Maori com tatuagens típicas do povo participam de uma manifestação cultural [Imagem: Flickr].

Homens ori com tatuagens típicas do povo participam de uma manifestação cultural [Imagem: Flickr].

A revitalização de Māori e a valorização da cultura desse povo também pode levar a movimentos semelhantes em comunidades por todo o mundo. Populações indígenas no Brasil vêm sofrendo arduamente desde a época da colonização, mas o governo atual de Jair Bolsonaro foi repleto de retrocessos.

“No Brasil, quando a gente fala — pelo menos para uma parte razoável [da população] e para o governo atual —, índio é pejorativo”, diz Paulo Chagas. “Saindo das universidades, há pouca gente que valoriza [a cultura e as línguas indígenas].”

 

A valorização da cultura indígena: a diversidade como solução

As últimas décadas de esforços governamentais de reparação histórica aos Māori na Nova Zelândia não se restringem somente à Te reo, entretanto. O gabinete da primeira-ministra Ardern é composto em 25% por pessoas com descendência Māori. O governo neozelandês também almeja que, até 2040, um milhão de residentes consigam falar o básico do Māori. Recentemente, foi concedida “personalidade jurídica” ao rio ancestral de uma tribo Māori, dada a dedicação para melhorar o estado do corpo d’água. 

Uma mulher faz um passeio de canoa no rio Whanganui, que recentemente ganhou o direito de ser representado judicialmente como uma pessoa jurídica [Imagem: Governo da Nova Zelândia].

Uma mulher faz um passeio de canoa no rio Whanganui, que recentemente ganhou o direito de ser representado judicialmente como uma pessoa jurídica [Imagem: Governo da Nova Zelândia].

O Te reo Māori vêm sendo incorporado de várias formas à sociedade neozelandesa. Esse povo compõe 16,5% da população do país de acordo com um censo de 2018. Entretanto, em 2013, foi atestado que somente 3,7% fala a língua. 

Pesquisadores da Universidade de Massey afirmam que tanto Māori quanto neozelandeses não-Māori conseguem uma compreensão mais profunda de sua identidade nacional com essas campanhas governamentais.

Mesmo com grandes progressos no quesito de revitalização de Te reo, ainda há muito a se fazer para tornar a sociedade da Nova Zelândia mais justa. 

A taxa de desemprego Māori é mais que o dobro da taxa nacional, e, em média, os Māori recebem cerca de 21% menos. Na capital da Nova Zelândia, Auckland, Māori representam mais de 40% da população moradora de rua, mesmo que sejam somente 11% da população. 

Arden nomeou em 2020 a primeira mulher Māori a ocupar o cargo de Ministra de Relações Exteriores do país, e até hoje são regularizadas quebras do Tratado de Waitangi, feito originalmente em 1840 e que fomentava a “colaboração” entre os nativos Māori e colonizadores britânicos. “Minha visão é que [isso] se relaciona à luta recorrente para resolver reclamações históricas e estabelecer um futuro positivo que sustenta mana Māori (ou seja, a habilidade dos Māori de controlar seu próprio destino)”, afirma o professor da Universidade de Auckland. 

 


Jacinda Ardern fala sobre reparações históricas aos Māori e o Tratado de Waitangi

 

Ainda vale mencionar que muitas vezes o desaparecimento de uma língua não se relaciona somente à quantidade de seus falantes, mas também à políticas de dominação. Paulo Chagas fala de línguas “minoritariezadas” ao invés de minoritárias: “para o povo elas não são minoritárias — na origem, todos falam aquela língua. Por circunstâncias históricas elas acabaram sendo minorias no país”. 

O professor ainda dá o exemplo da Bielorrúsia, país com governo favorável a Rússia em que sua língua nativa vem sendo praticamente extinguida em prol do russo. “Boa parte da população não fala mais a língua do país, embora seja um país de 10 milhões de habitantes que originalmente eram todos falantes da língua”.

Entretanto, um ponto positivo é que a internet facilita muito a aprendizagem de línguas, o que pode transformar o processo de conservação de línguas minorietarizadas por todo o mundo. O conhecimento é muito mais acessível, e a quantidade de materiais acaba por dar mais visibilidade. 

Guilherme ainda opina em como isso poderia ser aplicado no Brasil: “já que a gente aprende inglês e espanhol desde pequeno nas escolas, não tem porque a gente não aprender sobre [línguas e culturas indígenas]”.

A ativista indígena Sônia Guajajara é um exemplo de liderança indígena. Sua luta pelos direitos de povos originários também busca dar visibilidade a manifestações culturais indígenas [Imagem: Reprodução / Instagram].

A ativista indígena Sônia Guajajara é um exemplo de liderança indígena. Sua luta pelos direitos de povos originários também busca dar visibilidade a manifestações culturais indígenas [Imagem: Reprodução / Instagram].

“Qualquer coisa que dê mais visibilidade eu acho positivo. Chama atenção, e as pessoas vão começar a se interessar e se informar melhor”, acrescenta o professor Finbow. “Embora a melhor coisa seria a possibilidade de pessoas realmente indígenas fazerem suas manifestações culturais no plano nacional e internacional sem precisar do apoio de pessoas não-indígenas. Isso está acontecendo, mas ainda é muito reduzido”. 

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