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Os voos de Fadinha

Medalhista de prata na Olimpíada de Tóquio e vice campeã da Street League Skateboarding (SLS), Rayssa Leal aos 13 anos já é um marco na história do skate e do esporte brasileiro e mundial

ARQUIBANCADA
16 nov 2021 | Por Carolina Borin Garcia (carolinaborin@usp.br)

Nas ruas de Imperatriz

Nascida na cidade de Imperatriz, no Maranhão, Rayssa Leal começou a sua trajetória na modalidade quando tinha seis anos, após ganhar de seu pai um skate como presente de aniversário. Desde pequena, a garota andava nas pistas da cidade junto aos outros skatistas. No entanto, foi aos sete que a atleta ganhou maior visibilidade nas redes. 

Era 7 de setembro e a escola da garota teria um desfile, o tema seria Peter Pan. Rayssa foi escolhida para ser a Sininho e, como já era tradicional após o desfile, os skatistas da cidade iam para um pico — gíria entre os praticantes da modalidade para “lugar” — chamado Calçadaria da Terra.  Ainda vestida de Sininho, em um vestido que a sua própria avó confeccionou, Rayssa colocou o seu tênis e foi andar de skate. Lilian Leal, mãe de Rayssa, decidiu gravar a filha, que executou um heelflip

O vídeo viralizou na internet e chegou a ser enviado para Tony Hawk, destaque na modalidade vertical e um dos maiores nomes do skate mundial. “Eu não sei nada sobre, mas isso é incrível: um heelflip de conto de fadas no Brasil por Rayssa Leal”, diz a publicação na qual o skatista compartilhou o vídeo de Rayssa.

No mesmo ano de 2015, diante da repercussão nas redes, Rayssa foi a uma edição do programa Esporte Espetacular que, como uma homenagem e presente do dia das crianças, convidou a também skatista Letícia Bufoni para conhecer a mais nova Fadinha. 

Naquele 11 de outubro, Rayssa realizava um de seus grandes sonhos: conhecer esse importante nome do skate nacional e também mundial. Buffoni é hoje uma figura frequente nos pódios das principais competições do esporte e foi uma das atletas que representou a delegação brasileira e competiu no Skate, na modalidade Street, durante a Olimpíada de Tóquio.

 

Caminhos até Tóquio

O skate, por muito tempo, foi visto como um esporte marginalizado pela sociedade e essa concepção ainda tinha muita força até o começo dos anos 2000. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o então prefeito Jânio Quadros proibiu a prática do esporte entre 1988 e 1989, ano em que Luiza Erundina foi eleita para o cargo e colocou fim a essa restrição. Desde então, o esporte ganha cada vez mais adesão e visibilidade. 

Assim, nem só de sonhos realizados a trajetória de Rayssa foi feita. A atleta faz parte da geração que vivencia esse novo capítulo, ainda não finalizado e em parte incerto, da história do skate. Para Douglas Prieto, editor da revista CemporcentoSKATE, alguns desafios já foram superados, mas a prática ainda é “mais tolerada do que de fato admirada”. 

Fadinha já relatou em entrevistas que o início na modalidade foi marcado por dificuldades. Preconceito por parte de familiares com o esporte escolhido e o bullying foram alguns obstáculos nesse caminho construído pela Fadinha. Era comum que, mesmo ainda tão nova, ela tivesse que ouvir e conviver com pessoas que não acreditavam que o skate possibilitaria à garota muitas oportunidades. “O skate não dá futuro” ou “o skate não é esporte para menina”, eram frases recorrentes no cotidiano de Rayssa. 

Além disso, a skatista relata que na sua cidade eram poucas as pistas disponíveis para a prática da modalidade. Em Imperatriz, além de serem pouco numerosas, as pistas nem sempre eram da melhor qualidade. Segundo relato da própria Fadinha, esses espaços muitas vezes não são bem planejados e o tamanho ou ainda a distribuição dos elementos, como o corrimão, é equivocada, justamente porque os skatistas locais raramente participam da construção. 

Apesar dos desestímulos, Fadinha seguiu acreditando e sonhando. Com o apoio dos pais, Rayssa participou de inúmeras competições. A primeira delas foi o Campeonato Brasileiro de Street Skate Mirim, em 2015, que ocorreu em Blumenau, Santa Catarina, no qual a garota foi campeã. 

Em 2019, a Fadinha conquistou o título da SLS e tornou-se a mais jovem skatista a faturar uma etapa da competição, que naquele ano incluía nomes como o da brasileira Pamela Rosa, com quem Rayssa ao longo dos anos construiu uma relação próxima, assim como fizera com Leticia Bufoni. No mesmo ano, a Fadinha também foi medalhista de prata no Campeonato Mundial. No ano seguinte, Rayssa foi indicada ao Prêmio Laureus, o equivalente ao Oscar no mundo do esporte, na categoria melhor atleta de ação. 

 

Rayssa nas pistas de Tóquio 

Devido a pandemia de Covid-19, o período qualificatório para os jogos de Tóquio estendeu-se até o dia 29 de junho de 2021. Depois dessa data, foram convocados os atletas de acordo com a sua posição no ranking da World Skate, que leva em consideração o desempenho em eventos chancelados por esse órgão regulador da modalidade. Dentre os nomes selecionados estava o de Rayssa Leal.  

Quem acompanha de perto as principais competições e a Fadinha já esperava que ela possivelmente se classificaria, visto que Rayssa encontra-se em uma grande crescente e tem executado com qualidade manobras de um nível cada vez mais alto. “Nos dois últimos anos, a gente sabia que ela ia para a Olimpíada para, no mínimo, ficar no pódio”, relata Douglas. O mesmo afirma Sandro Testinha, que está no mundo do skate há mais de 30 anos e é o atual presidente da ONG Social Skate:  “Para quem está no skate, é super natural ver o potencial dela. Com seis anos de idade, ela vinha tendo resultados expressivos nos campeonatos”.

Mas para quem pouco conhecia a modalidade, ver uma garota de 13 anos em uma competição de nível mundial como as Olimpíadas, o desempenho surpreende. A Fadinha brilhou em terras japonesas e, ao ganhar a prata, tornou-se a atleta brasileira mais jovem a subir em um pódio.

Rayssa Leal é medalhista de prata em Tóquio 2020 [Wander Roberto / COB]

“O skate mostrou que não era só ela que era criança, quase todas as atletas na modalidade, principalmente no feminino, eram muito novas”, pontua Douglas. O ouro ficou com a japonesa Momiji Nishiya, também de 13 anos, que somou 15,26 na final, à frente dos 14,64 da brasileira. A também japonesa Funa Nakayama completou a dobradinha da casa no pódio, com 14,49.

Apesar das qualificatórias e da própria final ter sido extremamente disputada e definida apenas nas últimas voltas, em nenhum momento Rayssa perdeu a sua energia e o carisma. Antes de dar início à sua volta, a Fadinha performou até uma coreografia, que depois acabou viralizando na internet. 

Para Eduardo Musa, presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSK), “apesar de ser uma modalidade estreante, o skate expressou os valores olímpicos e acredito que isso também contribuiu muito para toda essa repercussão positiva que ainda estamos tendo”. A leveza e o companheirismo com os outros atletas foi marca registrada da nossa Fadinha, mas também de muitos outros atletas do skate. 

Uma delas foi a filipina Margielyn Didal, que foi comemorar junto com a skatista brasileira após Rayssa acertar uma de suas manobras. “Ninguém vai ao campeonato para perder, todo mundo vai lá pra ganhar. Só que você quer ganhar com todo mundo acertando as manobras que sabe fazer. Se alguém for vencedor nesse cenário aí é válido. O skate é um aprendizado coletivo.”, conta Douglas. 

“É isso o que a gente ensina aqui na ONG, não fala de competição nem de campeonato para as crianças. A gente fala de se divertir, fazer amizade e dividir o que tem. Esses são os três pilares básicos do skate”, diz Testinha sobre a sua atuação dentro da ONG e como as crianças são introduzidas na modalidade. A competição é algo importante, mas não é o essencial, o skate vai muito além disso. As Olimpíadas e a figura da Rayssa só evidenciaram ainda mais essa característica.

“O skate é um aprendizado coletivo”

Douglas Prieto

Novos horizontes 

Com o fim dos Jogos Olímpicos e o sucesso do skate e da Fadinha, novos horizontes surgem para a jovem skatista. Na edição da SLS de Salt Lake City, em Utah, Rayssa mais uma vez esteve no pódio, só que agora no lugar mais alto. Para a última volta, a skatista executou um Kickflip Rockslide de Front, manobra que é rara no skate feminino e que lhe rendeu uma nota 8,5.

Douglas Prieto conta que Rayssa, além de ter um nível de manobra alto, conta com uma maturidade impressionante, inclusive comparando com skatistas que praticam a modalidade a mais tempo. “Por mais que tenha orientação, ela própria sabe escolher muito bem o que fazer, em que momento fazer, em que momento se guardar e quando deve tentar manobras mais difíceis”, explica.

Para o editor da CemporcentoSKATE, a skatista brasileira ainda tem um longo caminho na modalidade. Rayssa, além de um talento que não pode ser ignorado, tem buscado aprender manobras novas, o que pode fazer com que o nível de seu skate cresça ainda mais.

“Nenhuma outra skatista experimentou o tamanho que a Rayssa se tornou depois da Olimpíada”, afirma Douglas. Isso é evidente quando se constata que a skatista brasileira tornou-se a atleta mais mencionada nas redes sociais durante as Olimpíadas, ultrapassando, inclusive, o nome de Simone Biles

Justamente por isso, o cuidado e o acompanhamento da Fadinha daqui para frente é fundamental. “A questão dessa enorme pressão numa criança de treze, quatorze anos é algo que se deve ter cuidado porque ela ainda não tem uma estrutura psicológica para suportar certas coisas”, aponta o editor. O apoio dado pelos pais, pela família mais próxima e pela própria equipe que acompanha a Fadinha nas principais competições e no dia a dia é essencial no presente e também para o seu futuro.

 

Os impactos da Fadinha

Ao final dos Jogos de Tóquio, em agosto deste ano, Rayssa foi a vencedora do prêmio Visa Awards, organizado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em parceria com a Visa, que buscou eleger o atleta que melhor representou os valores olímpicos na última edição dos jogos. O valor do prêmio foi direcionado para a ONG Social Skate.

A ONG, fundada em 2011 pelo skatista Sandro Testinha e pela pedagoga Leila Vieira dos Santos, atua ajudando por meio do skate jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica na região de Poá, São Paulo. Segundo dados da própria associação, mais de 32 projetos já foram realizados e mais de 4200 crianças foram beneficiadas pelas ações da instituição. Testinha, presidente da ONG, pontua que talvez o mais interessante do seu trabalho e de toda vivência no skate é a própria possibilidade de socialização: “O que a gente tenta fazer na ONG e dentro do skate é trazer para sociedade o que o skate nos traz”.

[Imagem: Arquivo pessoal/Sandro Testinha/foto de @luquinhasxv]

Além do reconhecimento material da  trajetória da Rayssa no skate e nas Olimpíadas, na visão de Eduardo Musa, o sucesso da Fadinha “realmente tem gerado um movimento de muita procura pelas aulas de skate, de crianças que querem iniciar na modalidade”. Sobretudo meninas que pouco tinham se aventurado no mundo do skate viram um tipo de representatividade na figura de Rayssa, que demonstrou que é possível ocupar também esse espaço. 

O papel da Fadinha ganha ainda mais potência pelo fato da skatista ser uma dos 39 atletas nordestinos medalhistas nas Olimpíadas e vir de fora dos grandes centros urbanos do país. “Rayssa mostrou que não precisa necessariamente ser uma paulistana ou uma carioca pra ser uma grande skatista. Acho que isso é um exemplo para quem anda de skate fora dos grandes centros também.”, destaca Douglas.

Para além do mundo das competições, Rayssa continua os estudos e andando de skate nas pistas de sua cidade natal ao lado dos irmãos e daqueles que estiveram ao seu lado no início da sua trajetória. Ao mesmo tempo, a skatista continua atuando para que a prática do skate tenha melhorias. Em 4 de outubro, Rayssa denunciou a situação de precariedade e comandou um mutirão junto a outros skatistas na cidade de Imperatriz para tapar buracos na pista onde costuma treinar. Em suas redes, a Fadinha afirmou: “Cansamos de cobrar e esperar”

Seja pela capacidade de conciliar a rotina de uma garota de 13 anos com o seu sonho de competir no skate profissionalmente, seja pela sua postura alegre e de companheirismo nas competições, ou ainda pela sua maturidade apesar da idade, a Fadinha inspira. Rayssa Leal estimula garotas e garotos de agora e das próximas gerações por todo o Brasil a continuarem acreditando e seguindo seus sonhos.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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