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A saúde mental no esporte: como o estado psicológico pode afetar a performance dos atletas

Em Tóquio 2020, grandes estrelas do esporte revelaram passar por problemas psicológicos após desistirem de algumas competições. A saúde mental dos atletas pode ser impactada negativamente por vários motivos. Confira.

Corpo e Mente
23 ago 2021 | Por Brenda Fernandes da Silva (fernandes2000brenda@usp.br), Guilherme Castro (gcastro@usp.br) e Victoria Pacheco (victoriapacheco@usp.br)

As Olimpíadas de Tóquio 2020, realizadas entre julho e agosto de 2021, foram uma das edições do evento que mais trouxeram reflexões e debates sociais — não só por causa da crise mundial causada pela covid-19, mas também pelos protestos de alguns atletas contra o racismo; pela presença da mesma quantidade de mulheres e homens em competição pela primeira vez e pela presença da primeira atleta transexual nos Jogos. Entre as reflexões, um dos assuntos que mais repercutiram é uma questão que transtorna milhões de pessoas: os desafios com a saúde mental.

O debate foi iniciado pela jovem tenista japonesa Naomi Osaka, ainda no início do evento, quando foi escolhida para levar a tocha olímpica e sua história repercutiu nas notícias esportivas. Depois, o debate foi fortalecido pela ginasta dos Estados Unidos e multicampeã Simone Biles, que surpreendeu o público nas provas pelo nervosismo e erros nas apresentações. Isso porque, como uma das maiores medalhistas da história dos Estados Unidos (com quatro ouros olímpicos na modalidade de ginástica artística), Biles era vista como uma atleta quase perfeita; cair ou de fazer um movimento fora do planejado era considerado muito improvável. Além de cair várias vezes, a atleta ainda resolveu desistir de algumas provas. Da mesma forma, Osaka também já surpreendeu o público ao abandonar, antes das Olimpíadas, um dos maiores torneios de tênis do mundo, o Roland Garros, mesmo sendo considerada uma das atletas favoritas para a disputa e uma futura estrela. O motivo comum entre essas e outros atletas que desistiram das competições é a necessidade de cuidar da própria saúde mental.

 

Imagem de Naomi Osaka acendendo a pira olímpica – saúde mental atletas

Naomi Osaka foi a primeira tenista a acender a pira olímpica na história das Olimpíadas. [Imagem: Reprodução/Naomi Osaka]

 

O desafio da saúde mental dos atletas

Karen Vogel

[Imagem: Reprodução/Karen Vogel]

Em entrevista ao Laboratório, a psicóloga clínica Karen Vogel explica que os atletas, sobretudo os olímpicos, estão submetidos a diversas pressões, sendo a principal delas a autocobrança. “O atleta coloca uma pressão em cima de si mesmo por resultado. De alguma forma, ele é seu próprio algoz e quer sempre ser melhor”, afirma Vogel.

A busca por resultados cada vez melhores traz consequências emocionais e físicas. “O atleta terá que deixar a família de lado, comer de forma diferente e talvez até sofrerá alguma lesão para conseguir colocar sua meta em prática”, explica a psicóloga.

No caso dos atletas olímpicos, as expectativas sobre o desempenho são especialmente elevadas, pois eles representam não apenas suas equipes, mas também uma nação. Vogel ainda destaca que, devido a essa grande responsabilidade que carregam, os atletas precisam lidar com pensamentos de comparação, já que muitas vezes se sentem inseguros diante da performance de seus adversários.

Além da insegurança e da pressão por resultados, outros fatores de estresse psicológico podem afetar o desempenho dos atletas. É o que destaca a Luciana Angelo, coordenadora do Curso de Aperfeiçoamento e Especialização em Psicologia do Esporte do Instituto Sedes Sapientiae e psicóloga da Seleção Brasileira de Futebol Feminino Sub 20: “Mortes de familiares, términos de relacionamentos, lesões durante o período de treinamento, relações interpessoais conflitantes no grupo esportivo, seja com a comissão ou com outros atletas. Todas essas situações podem gerar, em algum momento, um estresse mais elevado”.

Vários atletas profissionais lidam também com transtornos psicológicos. É o caso do maior medalhista olímpico da história, o ex-nadador estadunidense Michael Phelps — que revelou em 2018 que sofreu de depressão e chegou a pensar em suicídio após os Jogos Olímpicos de 2012 — e da já mencionada tenista Naomi Osaka, que fala abertamente sobre sua luta contra a depressão e a ansiedade.

Thabata Telles

[Imagem: Reprodução/Thabata Telles]

Para Thabata Telles, presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp) e pesquisadora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, o fato de atletas famosos falarem sobre saúde mental é essencial para que o tema ganhe mais destaque na sociedade. “Pense um atleta amador, que não tem patrocínio nenhum, e tem pensamentos suicidas. Dificilmente ele vai falar sobre aquilo, porque não quer colocar tudo a perder. É diferente de um atleta como [Simone] Biles ou [Michael] Phelps, que são medalhistas e já tem uma carreira consolidada. Então, é bom que essas pessoas estejam começando a falar sobre esses temas”.

A pesquisadora ainda explica que problemas como machismo, assédio, homofobia e racismo são comuns no mundo esportivo: “O esporte não existe apartado da sociedade e da cultura. Então, se a sociedade é estruturalmente machista e racista, isso também chega ao contexto do esporte”. Isso pode afetar, assim como a pressão ou os problemas pessoais, a saúde mental do atleta. “Daiane dos Santos já revelou que, quando treinava e competia, havia atletas que não queriam usar o mesmo banheiro que ela. Claro que esse tipo de situação afeta o atleta”, afirma Telles.

 

A pandemia

Luciana Angelo

[Imagem: Reprodução/Luciana Angelo]

Os Jogos Olímpicos de Tóquio, planejados inicialmente para 2020, foram adiados em um ano por causa da pandemia da covid-19, forçando os atletas a treinar em condições inéditas. Tivemos um ciclo olímpico maior, com a possibilidade de quase um ano sem treinar adequadamente. Muitas modalidades tiveram que fazer várias adaptações ao treinamento que vinha sendo dado aos atletas”, diz Angelo. 

Um exemplo disso é o arremessador de peso Darlan Romani, quarto colocado na modalidade nas Olimpíadas de Tóquio, que treinou em um terreno baldio durante o período de lockdown em Bragança Paulista (SP) — um vídeo de seu treino improvisado, inclusive, viralizou nas redes sociais.

Vogel elenca outros desafios impostos pela pandemia aos atletas olímpicos, tais como: o medo de contrair covid-19 na véspera das Olimpíadas e não poder participar da competição; a eventual perda de patrocínios devido a problemas financeiros dos patrocinadores; o luto diante da perda de entes queridos e as possíveis sequelas decorrentes da infecção pelo coronavírus, principalmente aquelas ligadas a problemas respiratórios.

 

Como preparar os atletas emocionalmente?

O trabalho com a saúde mental em meio a pressões, estresses e traumas é importante, mas como isso é feito na prática? Telles explica que, no Brasil, é perceptível um cuidado maior com a saúde mental do que em outros países. “Quando a gente fala sobre a psicologia do esporte e preparação psicológica, infelizmente não necessariamente vemos um cuidado com a saúde mental. Às vezes, é feito um trabalho de preparação psicológica muito técnico”, afirma. “Tem-se a melhoria da performance, com estratégias cognitivas para melhorar a concentração, atenção e percepção do atleta… Então, muitas vezes, o trabalho de preparação psicológica apenas ensina ao atleta as técnicas, estratégias e ferramentas, em vez de visar a saúde mental”, explica a presidente da Abrapesp.

“Historicamente temos uma tendência muito grande de técnicos esportivos, coaches ou até amigos do atleta considerarem que conseguem cuidar da parte psicológica. Mas é um trabalho que exige tempo, não acontece do dia para a noite. Rebeca Andrade, que ganhou a prata e ouro na ginástica, faz preparação psicológica há 9 anos”, completa Telles. Ela afirma que a preparação psicológica deve vir desde a base do atleta, antes mesmo dele atingir um alto nível e participar de grandes competições, para chegar lá com uma preparação interdisciplinar completa — de psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde.

 

Rebeca Andrade com medalhas olímpicas – Saúde mental atletas

Em entrevista ao BandSports, Rebeca Andrade defendeu a decisão de Simone Biles e ressaltou: “As pessoas têm que entender que nós [atletas] não somos robôs, somos seres humanos”. [Imagem: Reprodução/Rebeca Andrade]

 

De acordo com Angelo, a psicologia do esporte é uma área ampla e responsável não só por cuidar dos aspectos psicológicos referentes aos esportes de alto rendimento, como também lidar com as especificidades técnicas, físicas, táticas e culturais que são inerentes às modalidades esportivas. Em vista disso, a professora destaca que é muito importante que um psicólogo que queira trabalhar com esporte primeiramente estude as modalidades. Assim, pode compreender particularidades que envolvem as práticas esportivas e a modalidade a ser trabalhada, como o vocabulário utilizado, os métodos de treino e as relações interpessoais entre as comissões, por exemplo. Para ela, uma forma de assegurar que o atleta tenha um bom preparo emocional parte desse pré-requisito e da formação de profissionais competentes e especializados.

Além disso, parte do cerne da psicologia esportiva é a interdisciplinaridade. Ter contato direto com profissionais de outras áreas do contexto esportivo é fundamental para que se crie uma rede de apoio, que irá facilitar a condução de estratégias para melhor atender às vulnerabilidades psíquicas e socioculturais dos atletas. 

A psicologia, segundo Angelo, trabalha o desenvolvimento das competências psicológicas, como comunicação, conhecimento e habilidades sociais, além das exigências técnicas e táticas dos esportes, referentes à atenção, concentração e modos de gerenciar estresse e ansiedade — que facilitam a adaptabilidade e possibilitam a criação de ambientes saudáveis. Esse tipo de programação não mecanizada serve como medida preventiva para que o atleta identifique, em momentos de apreensão ou erro, que ele se preparou para aquilo e que consegue prosseguir em sua tarefa sem se comprometer.

Essa articulação é contínua, com desdobramentos posteriores às competições, a partir de feedbacks da equipe do atleta (técnico, psicólogo e assistente), que avalia seu rendimento e elenca formas de aperfeiçoar sua performance, desde o treinamento de base até a execução em campeonato.

O Comitê Olímpico Internacional, especialmente após os Jogos Olímpicos Rio 2016, lançou um programa de apoio e cuidado em relação à saúde mental, devido ao alto índice de depressão e suicídio entre atletas de alto rendimento. Isso influencia no tratamento e desenvolvimento de ações preventivas nos centros esportivos — e ajuda na ampliação do debate sobre saúde mental.

Ainda que desempenhem um papel importante na representação e cultura do país, os atletas, sobretudo os de alto rendimento, estão propensos a exigências irreais, seja por parte dos comitês e equipe de que fazem parte, ou por parte de suas próprias ambições e metas. Isso influencia na aparição crescente de doenças psíquicas, cada vez mais recorrentes no meio esportivo — o que torna as discussões sobre bem estar psíquico urgentes e prioritárias no cenário.

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