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Ginástica Rítmica masculina: a beleza de uma modalidade desconhecida
ARQUIBANCADA
03 ago 2019 | Por Gabriella Sales

Coques apertados, collants brilhantes e coloridos, os mortais de Daiane dos Santos e de Diego Hypólito. Quando se fala em ginástica, normalmente, é isso que vem à cabeça da maioria dos brasileiros. As duas modalidades mais famosas são a ginástica artística – praticada pelos atletas citados acima – e a ginástica rítmica, que, oficialmente, conta apenas com a participação feminina. Porém, isso não significa que os meninos também não a pratiquem, mesmo sem o devido reconhecimento. Conversamos com alguns atletas para saber um pouco mais sobre essa modalidade e o que a rodeia. 

Diego Hypólito executando solo da ginástica artística [Imagem: Divulgação/Doha Artistic Gymnastics]

Mas afinal, o que é a ginástica rítmica?

Embora muitos confundam, a ginástica rítmica é muito diferente da ginástica artística. As duas reúnem elementos de força, equilíbrio e elasticidade, mas, enquanto a primeira está muito relacionada com a coreografia e o ballet, a última tem características mais acrobáticas. 

“Os aparelhos da ginástica artística são aparelhos fixos. No caso, tem a trave, o cavalo, as argolas. Eles são fixos e usados por todos os participantes da competição”, explica a ginasta Amanda Souza. As apresentações da ginástica artística contam com saltos, mortais e piruetas como elementos importantes. Já na ginástica rítmica, os aparelhos são individuais e devem ser manejados pelo atleta ao longo da coreografia. Eles são cinco: bola, corda, maças, fita e arco, além da categoria de mãos livres. As apresentações podem ser em conjunto ou individuais. 

Uma diferença muito importante, mas pouco percebida, é que, em  competições oficiais – como nas Olimpíadas – a ginástica artística conta com as categorias masculina e feminina, mas a rítmica é restrita à feminina. A Federação Internacional de Ginástica (FIG) não reconhece a ginástica rítmica masculina como uma modalidade oficial e, por isso, poucos sabem de sua existência. 

Natália Gaudio, atleta brasileira, em apresentação de ginástica rítmica nas Olimpíadas do Rio 2016 [Imagem: REUTERS/Mike Blake]

De onde veio e como funciona

Existe uma ginástica rítmica, surgida no Japão, que foi adaptada para uma versão masculina e conta com elementos bastante diferentes da tradicional, desde as regras de execução até os aparelhos utilizados. Entretanto, aqui no ocidente, não é a mais praticada. “Não é a que os meninos que eu conheço [praticam]. Não é a que a maioria dos meninos fazem”, conta o atleta Wesley Souza. A ginástica praticada por ele é igual à feminina, ou seja, segue os mesmos códigos de pontuação e regulamento, com algumas particularidades. “As roupas são diferentes e algumas dificuldades também, porque os homens têm mais força que algumas mulheres têm, dentre outras coisas”, completa. 

Dentro desse modelo, a Espanha foi o primeiro país a promover campeonatos de GR com categoria masculina, no começo dos anos 2000. Um dos pioneiros do esporte foi Rubén Orihuela, nove vezes campeão espanhol, que chegou a competir com meninas por alguns anos, antes que a Federação Espanhola reconhecesse a modalidade. No Brasil, embora alguns estados promovam a participação masculina em campeonatos, ela não é oficializada pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). “Que eu saiba, ninguém praticava no Nordeste, de homem. Quando eu comecei a praticar foi um susto para o pessoal”, diz o ginasta John Lopes. A ideia causa estranheza justamente pelo fato de a maioria das pessoas acreditarem que essa é uma modalidade estritamente feminina. “Tiveram algumas pessoas que se mostraram bem resistentes, não acharam tão legal no início, mas depois até gostaram da ideia de um homem praticando um esporte totalmente feminino”, ele revela. 

Ginasta Rubén Orihuela em apresentação [Imagem: RFEG/ Europa press]

Por trás da beleza, dificuldades

A falta de investimento é uma realidade para muitos esportes no Brasil, e a ginástica é um deles. Por ser um esporte pouco reconhecido, a dificuldade de conseguir patrocínio é grande, mesmo na modalidade feminina. “As meninas costumam conseguir patrocínio quando são de um nível muito alto, quando já são seleção, já representam o Brasil, e são da categoria adulto”, diz Amanda, depois de explicar que, entre vestimentas e equipamentos, o esporte tem um custo muito alto. “A maioria das competições de GR não tem prêmio em dinheiro, só as enormes, tipo mundial, então você acaba não tendo essa resposta financeira”, acrescenta.

Se a situação já é complicada para as meninas, na modalidade masculina é ainda mais difícil, já que ela não é reconhecida nacional e internacionalmente. John conta que já foi convidado para participar de um campeonato mundial na Espanha, mas não pôde ir devido à falta de patrocínio. “Isso foi uma coisa muito triste na minha trajetória como atleta. Eu sabia que tinha condições de estar lá, competindo naquele campeonato”.

 

Além disso, o preconceito também é uma questão que dificulta o crescimento da modalidade e o ganho de reconhecimento. “Existe muito preconceito, principalmente das próprias meninas, na GR, e das treinadoras, porque muita gente diz que é um desrespeito”, conta Amanda, ao ponderar que o ambiente do esporte é bastante íntimo e algumas ginastas sentem-se desconfortáveis com a presença masculina ali. Assim como muitos outros, ela acredita que a inserção dos meninos na ginástica rítmica exige uma adaptação e regulamentação da modalidade. 

“Já me senti julgado, me sinto julgado até hoje”, afirma Wesley. Segundo ele, o preconceito vem tanto pelo fato de a modalidade não ser reconhecida oficialmente, quanto por ela remeter à dança, que é muito relacionada à feminilidade pela maioria das pessoas. “É uma coisa completamente equivocada e pejorativa, mas, infelizmente, muitos meninos passam por isso”, opina. 

Trabalhar com ginástica rítmica, portanto, pode ser muito difícil. O caminho envolve lutar contra estereótipos em um país que investe pouco em seus atletas. Porém, apesar de todos os obstáculos, os ginastas garantem que o esporte é uma paixão. “Eu tenho certeza que isso é o que eu quero levar para o resto da minha vida”, diz John. “Poder trabalhar com isso, poder aprender, poder ensinar, isso é muito bom.”

Arquibancada
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