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Mayra Aguiar: a tri medalhista do judô brasileiro

A atleta gaúcha é a primeira mulher a conquistar três medalhas olímpicas em um esporte individual e possui uma história repleta de batalhas e vitórias

ARQUIBANCADA
16 maio 2023 | Por Ingrid Gonzaga (ingrid.gonzaga@usp.br)

A judoca Mayra Aguiar entrou para a história do esporte do Brasil ao se tornar, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a maior medalhista feminina das modalidades individuais do país. É também uma das maiores campeãs do judô brasileiro e coleciona pódios em mundiais, Grand Slam, Grand Prix e campeonatos pan-americanos. Conheça a história da mulher que possui um dos nomes mais famosos dos tatames.

Nasce uma campeã

Mayra Aguiar da Silva nasceu no dia 3 de agosto de 1991 em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Aos seis anos de idade, ingressou no judô. Filha de um engenheiro e de uma professora, a lutadora antes era bailarina — e quis deixar a dança para vestir o judogi, assim como sua irmã mais velha. Também chegou a praticar atletismo, natação e ginástica.

Competitiva desde pequena, Mayra conta que já em sua infância tinha vontade de vencer. Em seu primeiro campeonato, conquistou o segundo lugar e logo quis lutar o próximo — e, daquela vez, visando o ouro. Era o começo de uma história de muitas superações e medalhas.

Um caminho de vitórias

A judoca desde muito nova mostrava seu talento nos tatames. Aos 11, entrou para a equipe da Sociedade de Ginástica de Porto Alegre, a Sogipa, a qual representa até os dias de hoje. Aos 14 anos, já fazia parte da seleção brasileira.

Sua primeira grande competição foi em 2007, nos Jogos Pan-americanos que aconteceram no Rio de Janeiro. Na época, ainda lutava na categoria até 70 kg. Depois de vencer três lutas, perdeu a final para Ronda Rousey, dos Estados Unidos, e subiu no segundo degrau do pódio. Ela ainda repetiria o feito em 2015, em Toronto, depois de ficar com o bronze na edição de 2011, em Guadalajara. Nos Jogos de 2019, em Lima, foi campeã.

Nos mundiais, a judoca conquistou sua primeira medalha enquanto ainda era da categoria júnior: uma prata, em 2006. Em 2008, reconquistou o vice-campeonato; em 2009 conseguiu um bronze; e, finalmente, em 2010, escalou até o primeiro lugar e tornou-se campeã do mundo. No adulto, Mayra também é vitoriosa. Foi prata em 2010, conseguiu dois bronzes — em 2011 e 2013 — e reivindicou o ouro, em 2014. No ano de 2017, foi bicampeã, e em 2019, terceira colocada. Em outubro de 2022, conquistou o tricampeonato mundial.

Mayra após vencer final contra Mami Umeki, do Japão, e conquistar o bicampeonato mundial. (Foto: Reprodução/FIJ)

Além de heptacampeã pan-americana, a atleta coleciona participações e medalhas em Grand Slam, campeonato importante no calendário internacional. Em julho, conquistou o bronze no Grand Slam de Budapeste.

Olímpica

Mayra Aguiar era uma adolescente de apenas 17 anos quando viajou até Pequim para participar da sua primeira edição dos Jogos Olímpicos. Perdeu logo na estreia, derrotada pela espanhola Leira Iglesias, e voltou para casa sem sequer ter a chance de disputar o bronze.

Mas os rumos da judoca foram diferentes nas próximas Olimpíadas. Em Londres 2012, foi novamente convocada para representar o país. Com 20 anos, a atleta voltou aos tatames olímpicos com o objetivo de superar a perda na primeira luta na China e finalmente ganhar uma medalha. Era a líder do ranking de sua categoria, até 78kg. 

Mayra começou bem em sua segunda participação nos Jogos. Por conta da disposição das atletas no chaveamento, não fez a que seria a primeira luta e iniciou logo nas oitavas de final. Passou pela tunisiana Hana Mareghni e pela polonesa Daria Pogorzelec e avançou às semis. Foi então que enfrentou uma rival de longa data: Kayla Harrison, dos Estados Unidos. Perto do final da luta, a brasileira foi finalizada no solo e lesionou o braço. Fez a disputa pelo bronze contra a holandesa Marhinde Verkerk mesmo com a dor e, em menos de dois minutos, derrubou a adversária com um ippon. Mayra Aguiar conquistava, pela primeira vez, uma medalha olímpica.

Em 2016, a atleta era uma das favoritas a figurar mais uma vez no pódio. Dessa vez em casa, Mayra queria conseguir no Rio mais uma medalha para chamar de sua. A primeira luta, contra a australiana Miranda Giambelli, acabou em quase 40 segundos e teve a brasileira como vitoriosa. Na segunda disputa, derrotou Luise Malzahn depois que a alemã recebeu uma punição por um falso ataque. Na semi, Mayra perdeu para a vice-líder do ranking mundial, a francesa Audrey Tcheumeo. De novo, disputaria o bronze. Logo no começo da luta contra a cubana Yalennis Castillo, fez um ponto, que se manteve até a contagem do tempo zerar e tornar a brasileira terceira colocada pela segunda vez — diante de uma torcida repleta de compatriotas.

Entre lesões e cirurgias

A atleta conhece bem o ambiente da sala de cirurgias: já passou por sete no total. Desde muito nova começou a passar por procedimentos. Na passagem de 2008 para 2009, aos 17 anos, operou o joelho — as demais operações também foram em articulações, partes do corpo que são comumente contundidas pelos judocas.

Nem mesmo as várias lesões foram capazes de parar Mayra, porém. A lutadora tem um histórico de se tornar medalhista em pós-cirurgia, ainda que depois de meses afastada para a recuperação. No fim de 2013, por exemplo, passou por duas cirurgias — uma no cotovelo esquerdo e outra no ombro direito. Antes disso, em 2012, operou um dos ombros. Nada disso a impediu de, em 2014, conquistar seu primeiro título mundial, em território russo. Em 2017, a história se repetiu: no início do ano, foi novamente para a mesa de cirurgia por conta do ombro. No final, tornou-se pela segunda vez campeã do mundo.

A cirurgia que viria a ser a mais estressante da carreira — a sétima — só aconteceu em novembro de 2020, alguns meses antes dos Jogos de Tóquio. No entanto, o que poderia ter sido uma barreira na participação da judoca em sua quarta edição olímpica, transformou-se em mais uma parte do enredo de superação em sua carreira.

Mayra é tri: a história é feita em Tóquio

Os tempos antes dos Jogos Olímpicos de Tóquio foram difíceis para a lutadora brasileira. Nove meses antes da competição, lesionou o ligamento do joelho esquerdo em um treinamento e o resultado não foi outro: teve que passar por mais uma cirurgia, a sétima de sua trajetória. 

Sua terceira participação em Olimpíadas ficou, então, indefinida. Ainda que a judoca se recuperasse a tempo de lutar os Jogos — o que estava previsto para acontecer entre abril e maio de 2021, enquanto a competição havia sido adiada para julho —, iria competir sem ter participado de outros campeonatos ao longo do ano.

No entanto, Mayra mais uma vez provou-se batalhadora ao, em junho de 2021, lutar o mundial em Budapeste. Após dezesseis meses sem competir — intervalo causado pela junção da pandemia e de sua lesão —, a atleta conseguiu vencer a primeira luta do torneio. Perdeu nas oitavas de final, mas comprovou que estava apta a lutar, pela terceira vez, os Jogos Olímpicos — dessa vez, no país que deu origem ao seu esporte.

Mayra lutando contra belga em primeiro combate no mundial de 2021. (Foto: Reprodução/FIJ)

Na luta de estreia no Nippon Budokan — arena considerada um templo das artes marciais —, Mayra derrotou a israelense Inbar Lanir. Em 40 segundos de luta, aplicou um uchi-mata e levou a adversária ao chão com um golpe perfeito. Porém, no segundo combate, a brasileira foi derrotada pelo contragolpe da alemã Anna-Maria Wagner, atual campeã mundial.

Já na repescagem, a judoca partia para a busca do bronze. A primeira oponente foi a atleta do Comitê Olímpico Russo, Aleksandra Babintseva. A adversária foi desclassificada da competição após levar o número máximo de penalizações, e Mayra estava na disputa de medalha pela terceira Olimpíada consecutiva.

No combate pelo bronze, a brasileira enfrentou a sul-coreana Hyunji Yoon. A luta começou muito disputada, com as duas lutadoras tentando segurar o kimono alheio. Por conta da demora em estabilizar a pegada, ambas receberam uma punição. Depois disso, Yoon tentou aplicar uma técnica de sacrifício, prontamente defendida por Mayra, que evoluiu sua esquiva para uma imobilização no solo. Passados 20 segundos, o resultado: Mayra Aguiar conquistava, pela terceira vez seguida, uma medalha de bronze olímpica.

Com essa conquista, Mayra se tornou a primeira mulher brasileira a obter três medalhas em um esporte individual em Olimpíadas. É também a primeira judoca do Brasil, entre homens e mulheres, a obter esse número de pódios nos Jogos.

Em entrevistas, a lutadora agradeceu o apoio recebido da família e de sua equipe no período da recuperação da cirurgia. Posteriormente, revelou que lutou em Tóquio estando com um dos dedos da mão quebrado — uma fratura sofrida dias antes da competição.

Destaque dos anos

Com uma coleção de vitórias dentro dos tatames, era de se esperar que Mayra também conquistasse vários prêmios fora deles. A judoca já foi selecionada cinco vezes como o destaque de sua modalidade pelo Comitê Olímpico Brasileiro: em 2010, 2014, 2017, 2019 e 2021. Também em 2017, ano do bicampeonato mundial, a atleta foi a vencedora do Prêmio Brasil Olímpico — que premia os melhores atletas do ano.

Mayra com o troféu do Prêmio Brasil Olímpico, em 2017. (Foto: Reprodução: COB)

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