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O dia em que a ginástica atingiu a perfeição

Há 45 anos, Nadia Comăneci saltava das barras assimétricas para entrar na história do esporte.

ARQUIBANCADA
18 jul 2021 | Por Gabriele Koga (gabrielekoga@usp.br) e Julia Castanha (julia.castanha@usp.br)

Aos 14 anos, a romena Nadia Comăneci protagonizou um feito histórico em Montreal, em 1976: o primeiro dez na ginástica artística nas Olimpíadas. Na ocasião, o placar do ginásio mostrou um luminoso 1,00. Conheça a “pequena gigante”, como a atleta foi chamada,  detentora de nove medalhas olímpicas.


Quem é Nadia Comăneci?

Nadia Elena Comăneci nasceu em Onesti, na Romênia, em 12 de novembro de 1961. É filha de Gheorghe Comăneci e Stefania Alexandrina

Nadia Comăneci atualmente e em 1976. [Imagem: Reprodução / Olympics]

Em Montreal, nas Olimpíadas de 1976, ela marcou a história do esporte ao conquistar sete notas dez. Como reconhecimento, recebeu a Ordem Olímpica duas vezes. Desde 1993, seu nome está consagrado no International Gymnastics Hall of Fame, além de ter sido reconhecida na Romênia como “heroína do trabalho socialista” e nomeada a atleta mais importante do país.

Em português, nasce uma estrela. Revista publicada em 2 de agosto de 1976. [Imagem: Reprodução / Amazon]

Entre 1967 e 1989 — praticamente todo o período da infância e da carreira de Nadia —, a Romênia foi governada pelo ditador Nicolae Ceauşescu e vivia um regime comunista. O governo investia em programas esportivos, pois os atletas conferiam crédito ao estilo de vida disseminado pelos líderes e funcionavam como propagandas ideológicas.

O sucesso da atleta resultou em uma “vitrine” da República Socialista da Romênia e, assim, a vida de Nadia passou a ser controlada. Em 1989, já renomada no mundo das competições internacionais, a ginasta e um grupo de seis pessoas fugiram do país antes da Revolução Romena, marcada pela queda do comunismo no Leste Europeu.

Aos 27 anos, Comăneci passou pela Hungria, que também integrava as nações soviéticas, mas não pode permanecer lá, já que deveria deixar completamente o território do bloco.

Posteriormente, chegou à Áustria e embarcou rumo aos Estados Unidos, onde pediu asilo. Em solo americano, contatou o ginasta Bart Conner, seu amigo, para ajudá-la a se instalar no novo país. No estado de Oklahoma, a dupla começou a fazer apresentações de ginástica. Algum tempo depois, Conner e Comăneci iniciaram um relacionamento, o qual resultou no casamento em 1996, na capital romena, Bucareste.

Tornou-se cidadã norte-americana no ano de 2001. Atualmente, reside em Oklahoma com o marido, Bart Conner, e o filho, Dylan Paul Conner. O casal é proprietário da produtora Perfect 10, além da academia de ginástica Bart Conner Gymnastics Academy, que atende cerca de 1500 alunos. 

Além disso, Comăneci é presidente honorária da Federação Romena de Ginástica e do Comitê Olímpico Romeno. Ela também é membro da Fundação da Federação Internacional de Ginástica, colaboradora da revista International Gymnast e dona da Clínica Infantil Nadia Comăneci, em Bucareste, atendendo crianças e idosos carentes.

 

Trajetória para o ouro

Aos 6 anos, Nadia começou a praticar ginástica artística a partir de um convite do treinador húngaro Béla Károlyi,  que a viu fazendo uma estrela. Assim, a menina passou a integrar a equipe da escola de ginástica de Onesti.

Nadia Comăneci com seu treinador

Nadia e seu treinador, Béla Károlyi. [Imagem: Reprodução / Pinterest]

Em 1969, Comăneci participou de um campeonato nacional pela primeira vez, e ficou em 13º lugar. Um ano depois, em 1970, foi a ginasta mais jovem a vencer o campeonato nacional. Aos dez anos, classificou-se para a sua primeira  competição internacional, conquistando o  título. Aos 12 anos, a romena competiu no Torneio da Amizade Júnior e ficou em primeiro lugar geral. Em 1975, participou do Campeonato Europeu e conquistou quatro medalhas de ouro. 

Na Copa América, em 1976, atingiu a primeira nota dez em sua carreira. Pouco tempo depois, a atleta disputou os Jogos Olímpicos de Montreal (1976) e conquistou a primeira nota dez da história da ginástica artística nas Olimpíadas. Competiu também em Moscou (1980), totalizando nove medalhas olímpicas em sua carreira — cinco ouros, três pratas e um bronze.

Durante o regime comunista no Leste Europeu, Comăneci foi proibida de sair da Romênia, mas conseguiu liberação excepcionalmente para as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, onde atuou como jurada. Aposentou-se após uma vitória nos Jogos Mundiais de Estudantes aos 21 anos.

 

A apresentação histórica

As Olimpíadas de 1976 ocorreram em Montreal, no Canadá, no período de 17 de julho a primeiro de agosto, com 92 países participantes, representados por 6084 atletas. A vencedora foi a União Soviética com 125 medalhas, totalizando 49 ouros, 41 pratas e 35 bronzes. 

Na ginástica, as favoritas ao ouro eram as soviéticas Olga Korbut e Ludmilla Tourischeva. No dia 18 de julho, Nadia Comăneci alcançou o que era considerado impossível até então: a combinação entre a técnica e o artístico foi realizada perfeitamente. Surgia um ícone que revolucionou o esporte.

Coletânea das apresentações de Comăneci nas Olimpíadas de Montreal. [Vídeo: Reprodução YouTube / floskate]

Na ocasião, a romena executou sua série nas paralelas assimétricas em menos de 20 segundos, que seguem lembrados 45 anos depois. Pela primeira vez na história olímpica, uma ginasta conquistou o dez perfeito.

Ao todo, foram sete notas dez, sendo quatro nas barras assimétricas e três na trave. Nadia, um fenômeno, ganhou três medalhas de ouro: individual geral, barras paralelas assimétricas e trave de equilíbrio. Também recebeu a medalha de prata por equipes e bronze no solo.

Em entrevista ao Olympic Channel, Comăneci relata que não tinha noção da dimensão de seu feito. “Eu não sabia até voltar para a Romênia e ver 10 mil pessoas no aeroporto”, diz a ginasta.

 

O legado

Três pessoas em um pódio, com Nadia Comăneci no primeiro lugar, com os braços levantados

Nadia Comăneci conquistou três ouros nas Olimpíadas de Montreal. [Imagem: Reprodução / Federação Internacional de Ginástica (FIG)]

Adriana Alves, representante do Comitê Técnico de Ginástica Artística Feminina da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), conta que a combinação da parte artística com o acrobático começa cedo e é necessária muita dedicação para atingir o refinamento dos movimentos e o acabamento dos detalhes. “Essa troca harmoniosa entre um acrobático e uma coreografia, só o tempo e a bagagem de trabalho de longos anos faz com que as ginastas consigam manter isso que a Nadia tinha”, afirma.

A virtuosidade, a técnica e a originalidade mudaram o nível da ginástica artística e marcaram a era de Comăneci. Segundo Alves, a Federação Internacional tem como objetivo resgatar a harmonia entre a dança e o acrobático da época de Nadia.

“A Federação Internacional busca o que a Nadia tinha e que hoje as ginastas perderam, que foi a plasticidade, a leveza e a graciosidade. O legado dela é tão grande que continua se buscando a ginástica que a Nadia apresentou em 76 e 80”, ressalta.

A representante do Comitê Técnico da CBG ainda destaca que, além da perfeição do momento, a atleta possuía uma parte artística, de graça, de leveza nos movimentos que era encantador. Cada detalhe era importante: “a pontinha do dedo, a posição do pé, a parte artística da dança”, aponta.

Nadia Comăneci com a ponta do pé levantada

Comăneci nas Olimpíadas de Montreal. [Imagem: Reprodução / Flickr RV1864]

“Eu estava muito focada nos detalhes. Eu sei que todo mundo faz isso, mas como posso fazer algo um pouquinho melhor do que todos os demais? Eu chamava isso de Toque da Nadia”, conta Comăneci ao Olympic Channel.

A ginasta foi um ícone e permanece conhecida e reverenciada nos eventos que participa até os dias de hoje. “O mais marcante foram as dificuldades que ela apresentava e essa harmonia entre a graciosidade junto com uma parte acrobática, que era dificílima de ser feita”, analisa Alves. 

Ela ainda complementa: “Era virtuosa, além de tudo. Fazer mortal todo mundo fazia, mas fazer aquele mortal que, antes de chegar no chão, estendia todo o corpo e abria os braços, parecia que ela estava parada no ar antes de aterrissar”Esse era o diferencial de Nadia Comăneci. “Ela fazia mais em tudo o que a técnica pedia e isso foi o grande encantamento que deixou”, comenta a representante.

 

Mudança no sistema de notas

Em sua primeira apresentação, a atleta realizou uma rotina com elementos de difícil executabilidade nas barras assimétricas. O público aplaudiu euforicamente, mas a surpresa e o silêncio vieram logo após o mostrador indicar a nota 1,00. Como esse escore tão baixo seria possível? 

Nadia Comăneci ao lado do placar, que marcava 073 e 1.00.

Pontuação de Nadia em Montreal. [Imagem: Reprodução / Facebook]

Para o Comitê Olímpico, a perfeição era considerada inatingível. O sistema de avaliação possuía placares de apenas três dígitos, e a nota mais alta chegaria a 9,99, já que ninguém jamais atingira a nota dez. Comăneci provou o contrário e brilhou nas Olimpíadas de Montreal.

“Foi discutido sobre isso. A empresa responsável pela divulgação dos resultados conversou com o Comitê Olímpico Internacional se precisava ter uma adequação do placar. O COI disse que não, porque ninguém iria tirar dez. Por isso, acabou ficando 1,00. Ela surpreendeu”, comenta Alvez.

Em 2006, a Federação Internacional de Ginástica (FIG), alterou o sistema de avaliação em competições, pois muitos atletas pontuavam notas boas ao apresentar uma série com dificuldade mínima e execução satisfatória. Dessa forma, os ginastas que tentavam apresentar elementos com maior grau de dificuldade estavam mais suscetíveis aos erros e, portanto, obtinham notas menores.

Atualmente, a pontuação é dividida entre execução e dificuldade. A primeira vale dez e a segunda não tem limite. O escore final é dado pelo somatório das duas notas.

Alves conta que esse sistema traz maiores dificuldades para o entendimento do público, uma vez que não existem notas máximas, o que encoraja os atletas a inovarem em suas performances, arriscando-se com elementos mais difíceis.

“A magia do dez hoje a gente não tem. Faz um bom tempo que a gente vem com as notas 17, 12, 13. Para o público, teve uma perda muito grande de poder acompanhar e vibrar com o dez. É muito estranho ver uma ginasta que tirou nota 12 ou nota 15. Não consegue ter um parâmetro. Tirou 15, mas 15 é bom ou ruim?”, aponta.

Na ginástica, a nota dez representava o sinônimo da perfeição, não só por ser o dez, mas por ter vindo do desempenho da romena que fez história: Nadia Comăneci.

Adriana Alves também explica que o código de pontuação, adotado internacionalmente, dita todas as regras do que pode ou não acontecer, o que é válido ou não. A cada ciclo olímpico — quatro anos — a FIG faz adequações para o que é considerado o melhor no momento e inclui as tendências das novas técnicas.

Em 2019, no Campeonato Mundial em Stuttgart, na Alemanha, a Federação Internacional utilizou um sistema eletrônico com sensores tridimensionais e inteligência artificial a fim de avaliar o desempenho dos ginastas com exatidão. Com isso, os árbitros foram auxiliados pela tecnologia, pois essa possibilitou a análise da nota de dificuldade, que inclui o valor dos elementos realizados na série. O “juiz-robô” segue em testes.

Em preto e branco, Nadia Comăneci abrindo um espacate

O espacate de Nadia Comăneci nas Olimpíadas de 1976. [Imagem: Reprodução / Facebook]

Mesmo com diversas alterações ocorridas na modalidade até o presente, o marco de 1976 jamais será esquecido. Esse foi o ano de ouro da Romênia na ginástica artística. Mudam-se os regulamentos, mas o feito de Nadia Comăneci foi eternizado. The perfect 10, como dizem os amantes do esporte, faz parte da história olímpica. 

Hoje, 45 anos depois, ela continua conhecida como símbolo de perfeição. É extraordinária. Nadia é sinônimo de nota máxima. Representa um dos momentos mais icônicos das Olimpíadas.

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