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Olímpiadas em tempos de Guerra Fria: 40 anos do boicote de 1980
ARQUIBANCADA
19 jul 2020 | Por Juliana Matias (julianasilvamatias.jsm@usp.br) e Sarah Lídice (sarahlidice@usp.br)

Há exatos 40 anos, a Olimpíada de Moscou marcava seu início. No mundo pós-segunda Guerra Mundial, um território pertencente ao bloco socialista sediaria os Jogos Olímpicos pela primeira vez. O país era a União Soviética — atual Rússia — e o ano era 1980. 

Essa edição foi particularmente atípica quando comparada a outras. Em um mundo polarizado, onde a política internacional cumpria papel estratégico e decisivo, os Jogos de Moscou marcaram a história quando mais de 60 países ideologicamente alinhados aos Estados Unidos deixaram de comparecer. Acontecia um dos maiores boicotes já deflagrados no movimento olímpico: era o esporte sendo utilizado como ferramenta política.

 

Os caminhos até o boicote

Chega a ser difícil imaginar comitês olímpicos de dezenas de países abdicarem da decisão de levar suas delegações para a finalização de mais um ciclo olímpico — o primeiro, para alguns, e talvez o último, para outros. Mas aconteceu. Ao longo de todas as edições olímpicas ocorridas no período da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética usaram o esporte como aparato político para avançar suas pautas.

Jay Coakley, pesquisador das relações entre esporte e sociedade e professor emérito de Sociologia da Universidade do Colorado em Colorado Springs, comenta que a Guerra Fria criou apostas tão altas para o sucesso competitivo entre os atletas que havia um desejo de se explorar e fazer o uso substâncias que melhorassem as performances, de uma maneira que não seria usada em outro contexto. “Em certo sentido, nós ainda estamos vivendo esse legado”,  conta.

Sobre as edições olímpicas daquela época, ele lembra, também, que os jornais americanos reportavam diariamente o quadro de medalhas dos EUA e da União Soviética, acirrando a disputa esportiva e ideológica.

Em 1980, ano das Olimpíadas de Moscou, Jimmy Carter era o presidente americano. Em meio a pressões políticas internas que envolviam seu processo de reeleição, ele também precisava mostrar que detinha de força na dinâmica política da Guerra Fria. “[Carter] não queria ver a União Soviética usar os jogos de 1980 como uma plataforma para vender o comunismo e o socialismo para o resto do mundo”, afirma o professor.

Do outro lado do atlântico, a União Soviética sabia da grande oportunidade que possuía. A escolha desse país, entre os outros países do bloco socialista, estava circunscrita no desejo do Comitê Olímpico Internacional (COI) de promover integração entre as nações. Houve por parte dos soviéticos, portanto, um grande investimento financeiro não só para sediar os jogos, mas também para demarcar — diante daquela inédita abertura ao mundo — uma imagem positiva do comunismo.

Essa disputa de forças, porém, ultrapassava o âmbito simbólico: apesar de o final da década de 70 não ter sido auge de tensões políticas da Guerra Fria, em dezembro de 1979, a invasão de tropas militares soviéticas no Afeganistão foi decisiva para que retaliações internacionais — como um boicote em massa — acontecessem. Os Estados Unidos exigiam a retirada das tropas soviéticas que se encontravam no território afegão para sustentar um regime comunista sob ameaça. 

O ultimato estava posto, mas nenhum acordo foi feito. E em 21 de março de 1980, a quatro meses do início das Olimpíadas de Moscou, os Estados Unidos anunciam que estariam definitivamente fora dos Jogos. No momento em que o boicote foi externalizado por Carter, muitas pessoas dos EUA demonstraram apoio, em função do contexto político da época.

“O sentimento de anti-comunismo nos EUA era muito forte naquela época. Então, promover uma ação que poderia, possivelmente, minimizar os esforços de Moscou para sediar os Jogos e os esforços soviéticos de usá-los como forma de propaganda, era vastamente apoiado pelas pessoas”, diz o sociólogo. 

Segundo Coakley, os atletas tiveram dificuldades em se posicionar contra o boicote porque estariam “priorizando interesses pessoais” em detrimento aos interesses do país. “Muitos atletas não reclamaram sobre o boicote no momento em que ele estava acontecendo. Mas depois, muitos deles adotaram posições críticas em relação a essa ação”, finaliza.

A corrida bélica e a disputa por zonas de influência que marcam o período da Guerra Fria, seriam, naquele momento, acrescentadas de mais um elemento: a corrida pela adesão de outros países ao boicote, movimento que começou antes mesmo do anúncio oficial. “[Carter e Margaret Thatcher] queriam que 85 países os apoiassem, mas apenas 67 aderiram ao boicote. Então, não foi totalmente bem sucedido, pela perspectiva deles”, comenta Coakley. Seria o suficiente, por outro lado, para desestabilizar os pilares do movimento olímpico.

O capital político de Muhammad Ali, boxeador americano, foi usado por Carter, sem muito sucesso, na corrida para recrutar países que pudessem aderir ao boicote [Imagem: Getty/Reprodução]

As dinâmicas de uma Olimpíada boicotada

As Olimpíadas de 1980 foram atípicas tanto para a sociedade quanto para a comunidade olímpica. Somente 80 Comitês Olímpicos Nacionais competiram, e até mesmo a cobertura midiática dessa Olimpíada sofreu interferência: em vez da cobertura americana, os jogos foram transmitidos pelas televisões estatais da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e por empresas mexicanas, europeias e canadenses.

Sérgio Settani, pesquisador da história política do futebol olímpico e professor do departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta como a qualidade técnica dos Jogos foi afetada, principalmente pela falta de diversos atletas dos países que aderiram ao boicote. 

Quando países que investiram altamente no treinamento de atletas para um bom desempenho olímpico não vão, eles afetam a estrutura. Porque se eles tivessem ido, provavelmente, tanto os EUA quanto a URSS iriam ‘abocanhar’ boa parte das medalhas”, diz em entrevista ao Arquibancada

Essa ausência dos atletas europeus e norte-americanos, de certa forma, acabou sendo positiva, porque delegações do leste europeu, de países africanos e até mesmo a do Brasil, conseguiram maior visibilidade olímpica o que não seria possível se os Jogos tivessem acontecido normalmente. 

Katia Rubio, professora doutora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos da EEFE/USP, relatou como o boicote deu visibilidade a atletas antes esquecidos no movimento: “As medalhas foram distribuídas entre os atletas da cortina do grupo do leste e da África. Isso foi dando visibilidade a atletas que, até então, não tinham qualquer participação. No caso do Brasil, isso interferiu diretamente na escolha de atletas, como, por exemplo, a equipe de vôlei feminina, que foi pela primeira vez aos Jogos, muito embora tenha tentado antes”. 

Com relação ao Brasil nas Olimpíadas, o presidente estadunidense pediu que os brasileiros não participassem dos Jogos e aderissem ao boicote. Entretanto, devido a uma oportunidade comercial, o país participou e conseguiu, ainda, lucrar com o fato: “Jimmy Carter queria de qualquer forma que o Brasil boicotasse os jogos, mas tinha uma questão comercial envolvida nisso. Havia um excedente de soja e de grãos no Brasil que estava armazenado, e o país não tinha pra quem vender. Com o boicote americano à União Soviética, esse mercado exportador se abriu para o Brasil e isso serviu de argumento para que os Jogos não fossem boicotados, para que o Brasil participasse e, ainda por cima, tivesse essa vantagem comercial”, explica Katia.

Além disso, até mesmo “costumes” olímpicos, como cantar o hino e usar a bandeira da respectiva delegação, foram afetados pelo boicote. 16 delegações optaram por cantar o hino do COI e utilizar a bandeira olímpica como principal estandarte. Mesmo na cerimônia de recepção das medalhas, algumas equipes não adotaram os respectivos símbolos nacionais. 

A União Soviética, em contrapartida a todas as alterações promovidas pelo boicote, “reagiu olimpicamente”. Levou para casa, ao todo, 195 medalhas, dentre elas 80 de ouro. Além disso, as cerimônias de abertura e encerramento das Olimpíadas marcaram a participação soviética. O ursinho símbolo dos Jogos de Moscou, Misha, se tornou o mascote olímpico mais popular da história, após derramar uma lágrima durante o encerramento do evento. 

Boicote às Olimpíadas

O ursinho Misha chora durante encerramento da Olimpíada de Moscou, em 1980 [Imagem: Folha de S. Paulo]

Com relação aos Jogos, Katia diz que é difícil saber realmente como o boicote afetou os ânimos dos soviéticos: “A União Soviética reagiu olimpicamente, fez de conta que nada estava acontecendo, fez cerimônias de abertura e de encerramento exemplares. Mas é difícil saber quais outros problemas, quais outras dificuldades, o país enfrentou, porque sendo um país totalitário e com toda a informação dele resguardada pela KGB (Comitê de Segurança do Estado), pela estrutura de poder soviética, é difícil saber, de fato, o que isso representou para eles”.

Essa postura totalitária soviética influenciou, também, na preparação dos atletas brasileiros antes de embarcarem para Moscou. No Brasil, na época em regime ditatorial, os militares tinham receio de que os esportistas não soubessem se comportar durante a estadia na União Soviética e acabassem sendo punidos por algo. De acordo com Katia, “os atletas que iriam embarcar para União Soviética passaram por por uma doutrinação pesada. Os militares tinham receio imenso de que os brasileiros fizessem alguma coisa. Mas no fim acabou que todos os atletas foram, voltaram e não teve nenhuma dissidência”.

 

Um movimento olímpico às avessas

Paz, amizade, cooperação e interação entre os povos seriam alguns dos pilares do movimento olímpico. O esporte internacional, por sua vez, não está isento de interferências políticas: é como se eles andassem juntos, mas nunca de “mãos dadas”.  

“Se você analisa a história das Olimpíadas, a política sempre esteve envolvida. Ela só não era uma questão, porque representava, em sua maioria, valores europeus e posições políticas europeias. E ninguém estava discordando disso, até a Guerra Fria”, comenta o professor Jay Coakley. 

As pessoas têm interesses que transcendem o espírito do olimpismo, o que pode motivar ações como boicotes. Ao recusar-se a competir em solo soviético, Carter sugeriu em uma declaração, por exemplo, que os Jogos Olímpicos voltassem a ser sediados na Grécia permanentemente. Isso afastaria as tentativas do Comitê Olímpico de usar esses eventos para promover uma integração global: mover a cidade sede de um continente para o outro seria oportunidade para que mais países cultivassem interesse nos Jogos.

O boicote liderado pelos EUA, então, abala os valores do olimpismo porque está imerso em uma realidade política que não é passível de eliminação. Hoje, boicotar Olimpíadas não seria mais tão viável justamente em função de novos rearranjos políticos. Settani comenta que essas são dimensões cada vez mais raras de encontrar, porque, “de algum modo, todos esses países estão em uma órbita, ou conectados em uma lógica de pensar o movimento olímpico na qual um depende do outro”.

Além disso, Coakley destaca que há algum tempo, como na década de 70, as Olímpiadas não eram um evento comercial tão grandioso como são hoje: “Se os Estados Unidos boicotarem hoje, eles recebem todo o tipo de reclamação de grandes corporações e patrocinadores. Seria um grande problema. O COI não está tão preocupado com isso atualmente, porque os únicos países que boicotariam seriam aqueles que são tão pobres que não teriam maiores interesses econômicos nos jogos, de qualquer forma”.

Antes dos eventos de 1980, alguns países africanos boicotaram as Olimpíadas de 1976 em Montreal, em função do Apartheid. O professor Coakley conta que o Comitê Olímpico, naquela época, queria aprovar uma lei para tornar as Olimpíadas inelegíveis aos países que boicotassem pelos cinco anos seguintes: “O COI nunca aprovou essa lei porque os EUA são simplesmente muito poderosos. E depois, a União Soviética era muito poderosa quando ela fez a mesma coisa em 1984”.

 

Marcas históricas do boicote

As consequências do boicote extrapolaram os anos de 1980. Ele continuou influenciando tanto o movimento olímpico, quanto a política mundial: em 1984, por exemplo, um outro boicote abalou as Olimpíadas. Era a resposta da União Soviética a edição anterior.  

No dia 8 de maio de 1984, a URSS anunciou que não participaria dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos Estados Unidos, alegando que seus atletas poderiam ser atacados em protestos estadunidenses. Após alguns dias, mais 16 países comunistas aderiram ao boicote soviético. 

Da mesma forma que o anterior, esse jogo político também interferiu na qualidade técnica das competições. Settani ressalta que os pódios olímpicos das últimas edições vinham sendo ocupados pelos EUA e pela URSS. Quando esses países deixam de participar de alguma Olimpíada, sua dinâmica é inevitavelmente afetada. “Isso revela um certo lugar desses países”, comenta. 

O objetivo político dos dois países ao promover o boicote surtiu pouco efeito concreto. “Quando nós olhamos para o boicote de 1980, da perspectiva de 2020, geralmente, as pessoas diriam que ele não foi de todo útil. Não foi útil politicamente. Não foi útil para a união esportiva e, certamente, não ajudou o COI e o movimento olímpico”, adiciona Coakley. 

Os boicotes funcionaram como demonstração de força das duas potências e trouxeram consequências simbólicas não intencionais: “Eles [a URSS] viram os Jogos de 1984 como uma vitória para os Estados Unidos. E, curiosamente, em 1980, os atletas soviéticos ganharam muitas medalhas. Então, para a União Soviética e os países do bloco soviético, os Jogos de 1980 foram um vitória para eles”, afirma o professor.

Teria sido mais eficaz utilizar os Jogos como uma plataforma. Falar sobre sua ideologia, sua posição política, em vez de boicotar as Olimpíadas e ser esquecido, como Coakley adiciona. Esse jogo político acabou sendo ineficaz para o objetivo principal: as tropas soviéticas que invadiram o Afeganistão, por exemplo prenúncio para o boicote ocidental em 1980 não se retiraram e ainda marcaram o início de uma guerra que se arrastaria por uma década.

Diversos atletas americanos, em 1980, criticaram publicamente tanto a decisão de Carter, quanto o posicionamento do COI, alegando que uma competição internacional como as Olimpíadas não deveria ser palco para desavenças políticas. 

“Muitos deles tiveram suas vidas viradas de cabeça pra baixo, pois esperavam competir nos Jogos de 1980. Suas identidades dependiam de seu envolvimento com o esporte. E muitos deles tiveram problemas psicológicos para se reintegrarem à sociedade, retornar com sua carreira no esporte. Devido a isso, posteriormente, eles se tornaram muito críticos em relação ao boicote”, conta Jay Coakley.

Dessa maneira, nota-se que o boicote não passou de um jogo político, onde a tentativa de retaliação de uma ideologia acabou dando destaque olímpico ao bloco soviético. O boicote, politicamente falando, não surtiu nenhum efeito positivo. Apenas serviu para o enfraquecimento do movimento olímpico e seus princípios, além de promover uma queda na qualidade técnica dos Jogos. Apesar de possibilitar que atletas antes não reconhecidos conseguissem alcançar diversas vitórias olímpicas, o boicote mostra-se majoritariamente negativo em diversos âmbitos.

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