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O Golpe Fantasma: a polêmica revanche entre Ali e Liston
ARQUIBANCADA
24 maio 2020 | Por Guilherme Caldas (guilhermecaldas@usp.br) e Matheus Nascimento (matheus1124.eca@usp.br)

Há exatos 55 anos, em 25 de maio de 1965, o lendário boxeador Muhammad Ali, com um “golpe fantasma”, derrotava pela segunda vez o campeão dos pesos pesados Sonny Liston e selava seu posto como detentor do cinturão. No aniversário dessa luta histórica para o boxe e para o esporte, exploramos os detalhes e as repercussões dessa revanche na carreira dos dois lutadores.


O primeiro encontro de duas lendas

Em 1964, o então campeão dos pesos pesados, Sonny Liston, foi desafiado por um jovem e falastrão oponente. O americano Cassius Clay, de 22 anos, medalha de ouro nas Olimpíadas de Roma em 1960, era quem queria roubar seu cinturão. Liston era considerado por muitos como invencível, sendo inclusive evitado por alguns lutadores. Quando ele e Clay assinaram o contrato para a luta, pouquíssimos teriam apostado no jovem desafiante. 

No entanto, com o início do combate, o favoritismo de Liston deixou de ser tão evidente. Depois de sete rounds, o jovem Cassius Clay foi declarado o novo campeão dos pesos pesados por nocaute técnico, após Liston desistir da luta devido a uma lesão no ombro. A disputa, chamada por muitos na época de “luta da década”, é apenas o primeiro capítulo da história de duas lendas, uma em ascensão e outra em declínio.

Na primeira luta, em 1964, o favorito Liston se esquiva, enquanto Ali busca acertá-lo

Na primeira luta, em 1964, o favorito Liston se esquiva, enquanto Ali busca acertá-lo [Imagem: Neil Leifer/Sports Illustrated]

Thiago Ribeiro, praticante e apaixonado por boxe, tem um canal no YouTube – o Thiago Boxing – no qual comenta sobre grandes nomes desse esporte. Em sua análise sobre a luta, ele afirma que “era clara a vitória de Ali. Liston não aguentaria aquele ritmo, aquela vontade do jovem Ali. Ele já não estava mais em seu auge, e acredito que se não houvesse acontecido daquela forma, cedo ou tarde o nocaute apareceria”.

Thiago também ofereceu a sua leitura sobre a carreira de Liston em diferentes aspectos. “Em termos de boxe, Liston foi um grande lutador, tinha uma técnica muito aprimorada e seu físico também era bem atlético. A mídia em geral nunca lhe deu muita atenção devido a sua vida conturbada. Faltou a ele alguém que o colocasse nos eixos, tal qual Cus D’Amato fez com Mike Tyson, por exemplo”, comenta Thiago depois de falar sobre a já não tão boa forma em que se encontrava Liston na revanche.

Dois dias depois da primeira vitória sobre Liston e dos inúmeros gritos de “eu sou o melhor”, Cassius Clay anunciou, numa declaração no rádio, que era membro do grupo Nação Islâmica. Depois de um breve período usando o nome Cassius X, assumiu o nome pelo qual ficaria mais conhecido e entraria definitivamente para a história: Muhammad Ali.


Lutas muito além do ringue

A lenda que se criou ao redor de Muhammad Ali é muito maior do que a história sobre o que fazia no ringue. É a trajetória de um homem que, dentro e fora das cordas, lutou com determinação e fúria. Ali não limitava essa fúria ao ringue mas, muitas vezes, usava suas declarações como golpes. Nas palavras de Thiago Ribeiro, “além do atleta incrível, ele iniciava seus combates do lado de fora, com inteligentes provocações e seu jeito único de abalar o psicológico dos seus adversários. Ali já entrava no ringue com um plano pronto para ser executado”. 

Ainda sobre o comportamento de Ali além do ringue, ele acrescenta: “Hoje em dia é extremamente raro encontrar um lutador, ou uma celebridade, que para além do seu esporte, seja porta-voz de alguma causa”. Thiago ainda reforça que Ali foi grande não somente pelo boxe, mas, também, por tudo o que o lutador representou. “Foi o cara que lutou para defender seus ideais, colocando em risco inclusive sua própria carreira. Ele abriu caminhos para tantos outros que, no meio esportivo ou não, aprenderam a lutar e combater a desigualdade sem medir esforços.”

Muhammad Ali ao lado de Martin Luther King Jr., símbolo da luta pela igualdade racial nos EUA

Muhammad Ali ao lado de Martin Luther King Jr., símbolo da luta pela igualdade racial nos EUA [Imagem: AP Photos]

Essa postura, constantemente a postos para o combate, foi o que Ali mostrou na revanche, marcada para 25 de maio de 1965, no St. Dominic’s Hall, em Lewiston, no estado americano do Maine. A luta já estava repleta de polêmicas antes mesmo de acontecer. Três meses antes do combate, o militante negro Malcolm X havia sido assassinado e membros da Nação Islâmica, grupo de que Ali fazia parte, foram presos acusados de participação no crime. Mesmo tendo que treinar cercado por seguranças e sob diversas ameaças, o detentor do cinturão manteve sua pose e seu jeito provocador, declarando sua superioridade perante Liston diversas vezes antes da luta.

Em uma entrevista à Mort Sharnik, da revista americana Sports Illustrated, Ali teria declarado, pouco antes do combate: ”Vai ser uma luta curta. Só vou recuar e Liston vai me perseguir. De repente, vou soltar um contragolpe e BAM! A luta vai acabar.” A previsão estranhamente certeira de Ali fomentaria ainda mais as polêmicas sobre o resultado final dessa revanche que entrou para a história. 


O Golpe Fantasma

Para aqueles que já não se sentiam confortáveis com uma possível manutenção do cinturão com o “The Greatest” Muhammad Ali, a maneira como a luta foi encerrada gerou ainda mais argumentos para seus críticos e contestadores. O árbitro do combate, o ex-campeão mundial dos pesos pesados, Jersey Joe Walcott, foi o alvo da vez. Ele apresentou severas dificuldades na comunicação com o responsável pela contagem, Francis McDonough.

Ali, voando como uma borboleta e picando como uma abelha, na revanche contra Liston

Ali, voando como uma borboleta e picando como uma abelha, na revanche contra Liston [Imagem: Neil Leifer/Sports Illustrated]

Após a primeira queda de Liston, Walcott ficou totalmente perdido, dando a entender que acreditava na continuação do confronto. Muitos dos que estavam na primeira fila da arena, a maioria da imprensa, relataram que sequer ouviram a contagem de McDonough. Devido à movimentação ocasionada pelo aparente fim da luta, Francis já nem usava o microfone. A justificativa da mídia da época era que, preocupado com a contenção de Ali em uma zona neutra, o árbitro possivelmente também não tenha ouvido a contagem.

Para entender algumas das razões que abalaram até mesmo o experiente árbitro, é preciso compreender a maneira como lutava Ali. Thiago explica que o lutador “dominava muito bem o espaço do ringue, sua movimentação era leve, nenhum outro peso pesado da época se movia parecido. Seus golpes eram precisos”. Essa forma despreocupada com que Ali se movia no ringue e executava seus incríveis reflexos talvez tenha sido sua principal arma. Em suas próprias palavras, “voando como uma borboleta e picando como uma abelha”, Ali impunha severas dificuldades a todos os seus oponentes. “Seu maior diferencial era a capacidade de fazer o adversário acreditar que estava tendo espaços para boxear. Ali não pressionava o tempo todo, ele aguardava e permitia que os seus adversários cometessem erros.. Sou um grande saudosista desse boxe dos anos 60 e 70, muito pela presença de uma técnica polida”, comenta.

Assim Muhammad Ali lutou naquela noite, dançando no ringue, fugindo de Liston e se aproveitando dos contragolpes. Ainda no primeiro round, depois de dois minutos e doze segundos de luta, os espectadores ficaram perplexos com o que se apresentava diante deles. Num contragolpe, com um jab de direita, Ali havia derrubado seu oponente sem que muitos dos mais de doze mil pagantes entendessem como. Um golpe quase invisível, de tão veloz, e imperceptível, de tão preciso, desmontou o veterano Sonny Liston. Caído, o oponente mal pôde ouvir a contagem e os gritos do público que, indignado, dizia que a luta tinha sido vendida. 

Após o “golpe fantasma”, com Liston caído, Muhammad Ali grita, mandando que o oponente levante

Após o “golpe fantasma”, com Liston caído, Muhammad Ali grita, mandando que o oponente levante [Imagem: Neil Leifer /Sports Illustrated]

“Hoje em dia com o recurso do vídeo, podemos ver e rever muitas vezes para tirarmos as próprias conclusões, mas, na época, claramente não seria possível acompanhar a velocidade e sequer saber que golpe acertou Liston”. A polêmica ao redor do movimento foi tanta que este ficou conhecido como phantom punch (golpe fantasma, em português) e, por muito tempo, houve quem questionasse a vitória de Ali.

Muito mais do que o resultado de uma luta, o “golpe fantasma” selou o destino desses dois lutadores. A derrota para Ali teve forte impacto na carreira de Liston. Depois da luta, ele perdeu espaço no cenário internacional do boxe, participando de disputas com oponentes menos famosos até sua morte, em janeiro de 1971. Seu falecimento, apesar de ter como causa oficial um infarto, ainda permanece um mistério, havendo quem alegue abuso de drogas e,até mesmo, homicídio.

Muhammad Ali, por sua vez, continuou em franca ascensão. Manteve o cinturão até 1971, quando o perdeu para Joe Frazier num combate que muitos chamaram de “luta do século”. Ali ainda recuperou o cinturão posteriormente, além de protagonizar, ao longo da carreira, combates memoráveis com outros gigantes do boxe como George Foreman e Chuck Wepner. Fora dos ringues, suas contínuas lutas contra o racismo e suas atuações políticas bastante firmes contra posturas do governo americano marcaram ainda mais sua imagem no boxe e no esporte como uma das maiores lendas da história.

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