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Observatório | O que o comportamento dos nossos representantes nas Nações Unidas revela sobre a atual situação do Brasil?

A polêmica presença dos brasileiros na Assembleia Geral traz consequências para a política interna e externa do país

JPRESS
03 out 2021 | Por Duda Ventura (eduardaventura@usp.br) e Gabriele Koga (gabrielekoga@usp.br)

A 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas teve início no dia 21 de setembro e foi encerrada na última segunda-feira (27). O Secretário-Geral, António Guterres, enfatizou o impacto da pandemia sobre as pessoas mais pobres, o aquecimento global e criticou as disparidades na vacinação contra o novo coronavírus. Em suas palavras, o mundo “está se movendo na direção errada” e os direitos humanos e a ciência “estão sob ataque”. 

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) discursou na abertura da Assembleia. No fórum, destacou temas como meio ambiente, agronegócio brasileiro e as medidas tomadas pelo governo para combater a pandemia do coronavírus, além de se opor à vacinação obrigatória e defender o “tratamento precoce” para o Covid-19, o qual não apresenta evidências científicas de eficácia.

Jair Bolsonaro discursando na Assembleia Geral das Nações Unidas

Presidente Jair Bolsonaro em seu discurso na Assembleia Geral. [Imagem:  Reprodução/Flickr]


O que é a Assembleia Geral das Nações Unidas? 

A Assembleia Geral (AGNU) foi estabelecida em 1945 sob os princípios presentes na Carta das Nações Unidas. O órgão possui caráter recomendatório e, portanto, todas as decisões votadas não são impostas aos Estados-membros presentes, o que faz com que as nações possuam a mesma relevância e poder de decisão, diferindo-se do Conselho de Segurança. Sua principal função é promover o amplo debate de todo o espectro abrangido pelas questões internacionais.

As reuniões ocorrem anualmente na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, de setembro a dezembro. As sessões ordinárias abrangem discussões por meio de itens ou subitens apresentados na Agenda e buscam a adoção de resoluções para os problemas em pauta.

 

[Imagem: Reprodução/UFSC]

Clarissa Dri, professora doutora do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), analisa a importância do evento. Para ela, a ONU é a tentativa mais ambiciosa que a humanidade já assistiu na busca de diálogo entre os povos ao invés do recurso à força e à violência para resolver divergências. 

“A Assembleia Geral é o espaço em que os Estados são tratados em pé de igualdade, cada nação possui um voto, e é o espaço de deliberação e de argumentação que pode levar os países a se conhecerem melhor e a construírem instituições, regimes e normas que têm potencial de contribuir para o desenvolvimento”, explica.

Neste ano, com a pandemia, o evento aconteceu em um novo formato, com participações presenciais, virtuais e gravadas. O tema “Construindo resiliência por meio da esperança — para se recuperar de Covid-19, reconstruir a sustentabilidade, responder às necessidades do planeta, respeitar os direitos das pessoas e revitalizar as Nações Unidas” deu enfoque aos debates.


Os discursos na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2021

“Estou aqui para soar o alarme”, foi com essa frase que o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, abriu os debates da 76ª sessão da Assembleia, no último dia 21. 

Em seu discurso, Guterres apontou para seis problemas estruturais, cujas soluções deveriam constar entre as metas dos Estados ali presentes: a divisão da paz, a divisão climática, a lacuna entre pobres e ricos, as diferenças de gênero, a exclusão digital, e, por fim, as divisões entre as gerações. O secretário ainda apontou para a importância da valorização da ciência e para o perigo dos extremismos e da desinformação. 

Homem discursando na Assembleia Geral das Nações Unidas

Discurso de António Guterres, secretário-geral da ONU. Imagem: [Reprodução/Flickr]

No dia seguinte (22), o presidente Jair Bolsonaro discursou na sede nova-iorquina, dando seguimento à tradição da fala inicial brasileira, que ocorre desde 1947. A declaração de Bolsonaro foi permeada por dados relacionados aos setores econômico e ambiental, além de dados sobre a vacinação no país. 

O chefe de Estado brasileiro apresenta um histórico de ataque à imprensa, e em seu discurso na ONU, manteve seu posicionamento: “Venho aqui mostrar um Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões”, disse. 

No quesito ambiental, Bolsonaro foi duramente criticado pelas ONGs, que apontaram uma distorção dos dados otimistas apresentados na Assembleia — os números de diminuição do desmatamento e melhoria nas porcentagens de preservação da Amazônia, os quais fazem referência apenas ao mês de agosto de 2021, não condizem com os divulgados pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no restante dos meses. 

O presidente ignorou em seu discurso as intensas queimadas que acometeram o Pantanal e a Mata Atlântica, além de dados como os que apontam 2020 como o segundo ano consecutivo com o maior índice de destruição amazônica desde 2015, além do corte de mais de 240 milhões para o Ministério do Meio Ambiente.

Segundo a doutora Clarissa, as falácias proferidas podem ser prejudiciais ao Brasil. “Se um chefe de Estado ou representante diplomático mente ou distorce dados, ele está minando a confiança dos parceiros nas negociações com seu país. Se um chefe de Estado defende valores não democráticos, ele pode estar estimulando outros Estados a andarem pela via autoritária”, explica. 

No que tange a pandemia, Bolsonaro apresentou os números da vacinação no país, alegando ter buscado, ao longo de toda a crise, um equilíbrio no combate do desemprego e do vírus. O brasileiro foi o único entre os líderes do G20, que não se vacinou contra a Covid-19 e, seguindo suas tendências negacionistas, defendeu novamente o uso de remédios sem eficácia científica

A participação do presidente brasileiro apontou os holofotes do mundo para seus discursos prévios. As falas polêmicas foram ridicularizadas em diversos programas televisivos, como Jimmy Kimmel Live e Saturday Night Live, famosos talk shows estadunidenses. “A imagem do Brasil na ONU era positiva antes do governo Bolsonaro”, destaca a pesquisadora. 

Jimmy Kimmel ridicularizou a participação de Bolsonaro na ONU. [Vídeo: Reprodução/YouTube].


As andanças da comitiva brasileira

O que chamou atenção acerca da participação da delegação brasileira em Nova Iorque não foram apenas seus discursos e encontros com figuras relevantes – poucos e superficiais em relação a assuntos oficiais. Nas palavras de Clarissa Dri, a agenda da comitiva do Brasil foi “lamentável e vexatória”. O grupo de representantes comeu pizza na calçada da cidade em decorrência da não vacinação, fez gestos obscenos para manifestantes contra o governo, se tornou motivo de ridicularização pelo prefeito de Nova Iorque e marcou presença em lojas de eletrônicos.

Bolsonaro, não vacinado, comeu pizza ao lado de ministros nas calçadas de Nova Iorque. [Imagem: Reprodução/Instagram @gilsonmachadoneto]

A especialista aponta o perigo do não aproveitamento do espaço desse evento pelo Brasil para a construção de relações: “Com discursos, participação em reuniões, em espaços deliberativos, de negociação e de troca de ideias no ambiente internacional, o Brasil deve mobilizar argumentos e ferramentas para auxiliar a construir normas que garantam paz, comércio justo e equitativo, proteção ambiental, respeito aos direitos humanos, autonomia dos povos, desenvolvimento humano sustentável, igualdade entre as nações… Quando deixa de fazer isso, o Brasil deixa de buscar desenvolvimento por meio de sua política externa”.

Jair Bolsonaro só se encontrou oficialmente com dois chefes de estado, entre eles, Boris Johnson, primeiro-ministro britânico. [Imagem: Reprodução/Flickr]

Outra polêmica envolvendo os representantes se deveu em razão do Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ter testado positivo para o coronavírus após comparecer à Assembleia Geral, duas reuniões distintas, um jantar com o embaixador do Brasil nos EUA e uma visita ao Memorial do 11 de Setembro. Seu contato com Boris Johnson, primeiro ministro britânico, e o contato deste com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, levou a Casa Branca a prestar depoimentos sobre o estado de saúde do líder estadunidense. 

O filho do presidente e deputado federal Eduardo Bolsonaro também testou positivo para o vírus, mas quando já estava no Brasil. Ainda em solo americano, visitou escritórios sem o uso de máscara e fez compras em uma loja, onde foi hostilizado por opositores do governo federal. 

Os dois representantes estiveram em pelo menos 11 locais espalhados pela cidade, muitos deles com grandes aglomerações. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, se vacinou antes de retornar ao Brasil, sendo incentivada pelo prefeito nova-iorquino a pedir que seu marido também o fizesse. 


A imagem brasileira no cenário internacional

Os posicionamentos dos representantes na Assembleia repercutem e geram consequências intra e internacionais para suas nações. Segundo Clarissa, o Brasil levará muito tempo para recuperar sua imagem de um país que defende a paz, a igualdade, a autonomia dos povos e a não intervenção nas relações internacionais, assim como a tradição diplomática brasileira apresentava-se. Para a especialista, as atitudes do presidente já eram esperadas, pois tais comportamentos estão presentes desde o início do seu governo. “As consequências são as mesmas que já vínhamos tendo: associação do Brasil com ideias autoritárias, preconceito contra minorias, e ataques ao meio-ambiente. Dentro do capitalismo, isso pode ser associado à instabilidade do governo e do próprio chefe de Estado, o que deixa investidores e parceiros comerciais desconfiados”, explica. 

Clarissa ainda finaliza: “O Brasil passa a ser compreendido como um país pouco sério e a ser associado a ideias ridículas e retrógradas sobre gênero, direitos reprodutivos, proteção ambiental e soberania nacional, que não cabem nas democracias contemporâneas”.

 

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