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Os caminhos da Surdolimpíadas

O segundo evento mais antigo do calendário esportivo mundial acontecerá em 2022 no Brasil e luta por maior visibilidade em meio ao contexto de sucesso das últimas edições dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos

ARQUIBANCADA
25 abr 2022 | Por Carolina Borin Garcia (carolinaborin@usp.br)

O Brasil se tornará o primeiro país latinoamericano na história a sediar os Jogos Surdolímpicos de Verão. Em decorrência da pandemia de Covid-19, o evento, previsto para 2021, foi adiado e ocorrerá em 2022 na cidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.

A Surdolimpíadas é organizada pelo Comitê Internacional de Esportes para Surdos (ICSD) e ocorre, assim como as Olimpíadas, de 4 em 4 anos. Nesta, que será a 24ª edição do evento, espera-se receber um total de 4500 surdoatletas de mais de 100 países. Os atletas competirão em 21 modalidades, como atletismo, basquete, vôlei, além de esportes menos comuns no Brasil como badminton, orientação e luta greco-romana.

A história por trás dos jogos

Surdolimpíadas de 1924 realizada em Paris [Imagem: Reprodução / Wikimedia Commons]

O Deaflympics (Surdolímpico, na tradução livre em português) é um evento internacional multiesportivo que ocorreu pela primeira vez na história em 1924 na cidade de Paris, França, com 9 nações e 148 atletas, dentre eles, uma única mulher. O 1º Deaflympics de Inverno foi realizado em Seefeld (Áustria), em 1949, onde 33 atletas de cinco países participaram do evento. 

Nessa época, o evento recebia o nome de International Silent Games (Jogos Internacionais Silenciosos). Os jogos nasceram de uma ideia de Eugène Rubens-Alcais, ativista surdo que depois tornou-se o presidente da Federação Francesa de Esportes para Surdos. Propor um evento multidesportivo para portadores de necessidades especiais foi uma proposta que, além de inédita, rompia com os paradigmas do contexto. 

Isso porque os Jogos Paralímpicos são criados apenas ao fim da Segunda Guerra Mundial e também porque, nesta primeira metade do século XX, prevalecia na sociedade o estereótipo e a visão preconceituosa de que os surdos eram “intelectualmente inferiores” e não seriam capazes de se comunicar ou fazer coisas úteis. Eugéne ao criar esse evento global coloca fim a essa ilusão preconceituosa contra as pessoas surdas.

Em 2001, durante a 19ª edição dos Jogos, o nome foi alterado e, desde então, a competição é chamada de Surdolimpíadas. No ano em questão, os Jogos foram sediados em Roma, na Itália, e participaram 67 países e mais de 2200 atletas. Esses números demonstram que gradativamente a competição foi crescendo e atraindo um número maior de nações e atletas participantes .

A 24ª edição

Devido a pandemia de Covid-19, a 24ª edição da competição ocorrerá entre os dias 1 e 15 de maio de 2022. Apesar do adiamento dos jogos, o nome do evento, assim como na Olimpíada de Tóquio, se manteve o mesmo. A Surdolimpíada 2021 está sendo localmente administrada pelos esforços do Comitê Plural, um sub-comitê afiliado diretamente ao ICSD, responsável pela organização e projeto do evento. 

O comitê também é composto pelos membros associados, conselho de honra, conselho executivo e funcionários. De acordo com informações disponibilizadas pela prefeitura de Caxias do Sul, os Jogos irão ocorrer nas dependências da Universidade de Caxias do Sul (UCS), sede prioritária. Além disso, as cidades vizinhas Flores da Cunha e Farroupilha receberão alguns dos jogos da competição. 

Para Guilherme Maia, campeão surdolímpico na natação em 2017 e recordista mundial, as expectativas para essa edição dos Jogos que ocorrerão no Brasil são altas. “Espero subir no pódio, trazer uma medalha pro Brasil e melhorar ou manter o meu recorde olímpico mundial”.

Para representar essa edição das Surdolimpíadas, escolhe-se como mascote o quati Nino. O nome foi sugerido por Felipe Oliveira, de 34 anos, de Minas Gerais, que participou do concurso aberto a todos os brasileiros. Já a ilustração e criação é de autoria de Ezequiel Becchi, que participou do concurso que visava aproximar a comunidade da região dos Jogos e foi destinado aos estudantes de ensino médio das cidades que sediarão alguma modalidade ou de abrangência da UCS.

“É algo incrível poder, de certa forma, dar “cara” a um evento de tamanha importância como é a Surdolimpíadas, que reúne pessoas de todas partes do mundo”, relata Ezequiel, que atualmente é graduando em Publicidade e Propaganda.

[Imagem: Reprodução / Deaflympics]

O estudante mencionou que conheceu o evento por um trabalho que havia realizado sobre inclusão no esporte e, depois, pelo próprio concurso da mascote.

 

“Também é muito especial poder representar a cultura da região na primeira edição no Brasil”, relata Ezequiel.

A escolha foi inspirada no quati-de-cauda-anelada, um animal de alta capacidade de adaptação que habita regiões desde a Colômbia até o sul do Brasil. O chapéu que acompanha o desenho representa a cultura agrícola da região da Serra gaúcha e é um símbolo dos produtores de uva. Já o lenço vermelho faz referência à cultura gaúcha.

 

Participar ou não das Paralimpíadas?

No ano de 1955, o Comitê Olímpico Internacional (COI) reconhece o ICSD como entidade máxima desportiva internacional para surdos e, desde 1996, o ICSD tem um status independente, já que não integra o Comitê Paralímpico Internacional (CPI) por conta da natureza específica da deficiência. O caráter independente foi procurado e aceito por esses três órgãos organizadores.

A questão da participação dos atletas surdos nas Paralimpíadas é uma questão sobre a qual ainda se tem uma divergência significativa. Por um lado, a inclusão desses atletas poderia significar a garantia de uma maior visibilidade do que se tem hoje. Isso porque, apesar de todas as dificuldades das Paralimpíadas em conquistar um espaço na mídia e o direito de transmissão em diferentes canais, a realidade das Surdolimpíadas e dos atletas surdos é permeada de desafios ainda mais numerosos. 

“Acho que seria excelente ideia competirmos nas Paralimpíadas. Mostraríamos ao nosso país quantos surdos são capazes de subir ao pódio com a bandeira do Brasil”, afirma Guilherme Maia. O atleta aponta que existe uma realidade de baixos incentivos e patrocínios para os surdoatletas, sobretudo no Brasil, que poderia ser amenizada com a inclusão de atletas surdos nas Paralimpíadas.

Porém, Jorge Suede, ativista em prol da acessibilidade e atual presidente da Associação de Surdos de São Paulo (ASSP), afirma que existe uma parcela de pessoas da comunidade surda que é contrária a essa medida. Isso porque essa parcela “não acha justo competir com os ouvintes. Além disso, as Olimpíadas e as Paralimpíadas teriam que ser reestruturadas para se adequarem ao padrão das Surdolimpíadas”, justifica Jorge.

E o Brasil?

O país enviou atletas à Surdolimpíadas pela primeira vez na história em 1993, por meio da Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS). Nesta edição, sediada em Sofia, na Bulgária, dois nadadores competiram em onze provas e chegaram em quarto lugar por três vezes. Desde então, a natação ocupa um papel significativo de representação do Brasil na competição.

[Imagem: Reprodução / CBDS]

O ano de 2009 foi outro marco para a participação do país no evento, pois o Brasil conquistou a sua primeira medalha nas Surdolimpíadas, com o bronze de Alexandre Soares Fernandes no Judô, na categoria até 81 quilos. A 23ª edição, realizada em 2017, também foi histórica para o Brasil. O país levou à Turquia 101 atletas — a delegação mais numerosa do país na competição. Além disso, o Brasil conquistou a sua primeira medalha de ouro na competição com o nadador Guilherme Maia na prova de 200 metros livres. “Foi a maior emoção da minha vida. Eu treinei sozinho, mostrei para meu país e para minha mãe que o nosso sonho foi realizado. Eu queria ser campeão, queria trazer essa medalha pra minha mãe”, relata o atleta sobre o título.

Apesar do país ter começado a participar das Surdolimpíadas na década de 90, a história da Confederação e dos esportes para atletas surdos é mais antiga. Nos anos 50, iniciou-se uma intensa movimentação de criação de Associações para Surdos, que funcionavam como espaços de convivência, de articulação política e prática desportiva. Uma delas é a ASSP, que foi fundada em 1954 e, desde então, segundo o seu atual presidente “tem se tornado uma referência”, atraindo sócios de diferentes lugares do país.

Inicialmente, foi fundada a Federação Carioca de Surdos Mudos (FCSM), no Rio de Janeiro, em 1959. Depois, em 1984, foi criada a CBDS efetivamente, com o intuito de centralizar a organização dos campeonatos, atletas e equipes de todo o Brasil. 

Com 37 anos de existência, a CBDS, até 2009, já registrava um total de mais de dois mil surdoatletas. Atualmente, a Confederação atua apoiando e organizando competições em nível nacional e internacional. No cenário nacional, destaca-se a Surdolimpíadas do Brasil, que é uma versão dos Jogos Surdolímpicos voltados para os surdoatletas brasileiros, vindos de diferentes estados do país. O evento já conta com duas edições, uma realizada em 2002 e outra, mais recente, que ocorreu em 2019, na cidade de Pará de Minas, em Minas Gerais.

Os desafios dos surdoatletas: luta por visibilidade e investimentos

Comemoração após conquista do Mundial de Futsal de Surdos Feminino em 2019 [Imagem: Josiane M. Poleski / Arquivo Pessoal]

“Comecei aos 5 anos de idade na escola de surdos. Com o passar do tempo, o professor me via como potencial no futsal, me colocou no time de ouvintes. Infelizmente, na minha época, tinha muita discriminação e preconceito contra surdos, acabei desistindo”. O relato de Josiane M. Poleski, campeã mundial de futsal de surdos e medalhista surdolímpica, é comum a outros surdoatletas, que desde cedo enfrentam inúmeros obstáculos para adentrar e permanecer no mundo do esporte. 

Josiane conta que conheceu as Surdolimpíadas em 2009 pelas redes sociais, após o país ganhar o seu primeiro bronze na competição. “Fiquei curiosa pra saber mais sobre eventos internacionais, pois eu achava que tínhamos só torneios nacionais”, relata a atleta. 

Ainda que o Brasil tenha tido um desempenho cada vez melhor ao longo dos anos, as Surdolimpíadas ainda é pouco divulgada e raramente é transmitida em canais de grande audiência. “Crianças surdas não sabem que isso existe. Eu mesmo só fui descobrir em 2019”, afirma Guilherme.

Somado a um cenário de investimentos escassos em surdoatletas e nas competições dessas categorias, prevalece a invisibilidade e o preconceito, que é potencializado pelo próprio desconhecimento de grande parcela da população sobre o esporte direcionado para as pessoas surdas. 

A invisibilidade do mundo do esporte para atletas surdos começa desde cedo e é um processo constante de luta dos pais e das escolas para retirar essas camadas que impedem com que muitos jovens ingressem no esporte. “As crianças surdas precisam saber que existem esses campeonatos, que o surdo é capaz de ter um esporte predileto e é capaz de ter um foco no esporte. Nós somos iguais, apenas não ouvimos”, explica Guilherme.

Jorge Suede pontua que outro obstáculo significativo é justamente a falta de investimento: “É difícil conseguir se consolidar nesse mundo se não tem investidores interessados em financiar atletas e competições”. Até o momento, os surdoatletas não recebiam nenhum tipo de bolsa Surdolimpíca e praticantes de esportes exclusivos de surdos também não eram contemplados com a Bolsa-Atleta. Esse benefício é de extrema relevância no contexto do esporte brasileiro, isso porque, por exemplo, em Tóquio 2020, cerca de 80% da delegação do país eram bolsistas integrais do programa.

Recentemente, essa realidade caminha para novos rumos. No último dia 29 de junho, o projeto de lei que inclui os atletas surdos como beneficiários do Bolsa-Atleta e que equipara a CBDS às demais entidades esportivas do país foi aprovado na Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência (CDDPD). Agora, a proposta segue para a Comissão de Esporte da Câmara dos Deputados. 

“Posso afirmar que este benefício ajuda e muito mesmo os surdoatletas a se dedicarem de fato ao surdodesporto sim, sou testemunha”, pontua Josiane. A atleta foi beneficiária do programa por competir nas modalidades do futebol e do futsal. “A última bolsa que recebemos foi em 2015, que nos ajudou com a conquista do bronze Surdolímpico na Turquia 2017 e, com pouca sobra, conseguimos o título inédito no Mundial na Suíça, em 2019”.

Seleção Brasileira Feminina de Futebol na Surdolimpíadas de 2017 [Imagem: Josiane M. Poleski / Arquivo Pessoal]

A mudança nos trâmites do Bolsa-Atleta é apenas um dos primeiros passos nessa constante trajetória de luta por visibilidade e reconhecimento pelos surdoatletas. Medidas essenciais e primordiais como o ensino de libras — sobretudo para “ouvintes” —, aumento da divulgação e transmissão de campeonatos, ampliação de incentivos aos esportes para surdos ou ainda a criação de espaços mais democráticos não só para a prática esportiva, junto de apoio emocional e financeiro podem colaborar com a valorização das Surdolimpíadas e a consolidação de uma sociedade mais inclusiva e tolerante. 

Guilherme aponta que, apesar de atualmente estar sem técnico, o apoio de seus familiares e treinadores foi fundamental ao longo da sua trajetória no esporte e salienta como a construção dessa rede de apoio é essencial para os surdoatletas.

Para Ezequiel, “são Jogos como este que proporcionam uma inclusão para as pessoas com deficiência auditiva e também levam cultura para as regiões que recebem estes eventos”. Na visão do estudante, a Surdolimpíadas é “algo essencial para diminuir o preconceito que algumas partes da sociedade têm sobre pessoas que possuem algum tipo de deficiência”. 

Josiane finaliza com um legado e uma mensagem de persistência: “Persistam e não desistam. Cada um tem seu potencial de mostrar o que sabem fazer. É preciso acreditar e respeitar o seu objetivo.”.

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COMENTÁRIOS
Ze leitor
Precisa atualizar com as novas informações, do não repasse de verbas, prejuízo dos organizadores e o uso politico.
24 maio 2022
 
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