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Redshirts: uma ode aos figurantes

Obra de John Scalzi homenageia e, ao mesmo tempo, satiriza clássicos programas de ficção científica para a televisão

SCI-FI
07 dez 2021 | Por Mariana Carneiro (marianacarneiro@usp.br)

O termo redshirts, ou “camisas vermelhas”, do inglês, é utilizado por fãs de ficção científica para designar personagens secundários cuja única função é morrer. A piada teve início entre os espectadores da série Star Trek (1966), na qual os tripulantes da nave Enterprise — especialmente aqueles que trajavam o uniforme vermelho — sempre morriam no lugar dos personagens principais, livrando-os de qualquer perigo.

Partindo dessa fórmula que guiava os episódios do programa, o livro Redshirts (Editora Aleph, 2021) traz as populares histórias de exploração espacial de um ponto de vista diferente: o autor, John Scalzi, inverte os papéis de protagonismo e dá voz aos figurantes, que vivem desesperados com seu iminente fim e cheios de crises existenciais. O resultado é um romance divertido e recheado de referências a antigas obras do gênero. 

 

“Tem alguma coisa muito errada acontecendo nessa nave”

Publicado originalmente em 2012, Redshirts acompanha o dia a dia do alferes Andrew Dahl, recém-chegado na nave Intrepid. O novato, alocado para o laboratório de xenobiologia, não demora a perceber que acontecimentos misteriosos permeavam o cotidiano da tripulação: uma caixa mágica resolvia desafios biomédicos em tempo recorde, seus colegas desapareciam minutos antes de um oficial superior surgir, e diversos alfereses não retornavam com vida de suas missões de campo.

Sempre violentas, as mortes na Interprid ocorriam em um número substancialmente maior do que no restante da frota. Nas rotineiras missões de exploração interestelar, tripulantes de baixa patente eram perseguidos por máquinas assassinas, atacados por tubarões de gelo ou até mesmo devorados por minhocas gigantes borgovianas. Os comandantes, no entanto, sobreviviam a todos os confrontos, e mesmo que machucados, recuperavam-se quase imediatamente ao voltar à nave.

 

“Estatisticamente falando, todos os cinco [comandantes] deveriam ter morrido umas duas ou três vezes. Talvez um ou dois deles tivessem sobrevivido a todas as experiências pelas quais passaram até agora. Mas os cinco? Seria mais fácil um deles tomar um raio na cabeça”

 

 Temerosos pelas próprias vidas, Dahl e seus companheiros de trabalho — todos contratados para substituir membros da tripulação que haviam morrido — decidem investigar a causa de tantas tragédias. Lentamente, os personagens compreendem que suas existências servem a uma narrativa maior, e a frustração com a falta de controle sobre seus destinos toma conta. 

Pelo fato da história se basear em uma estrutura narrativa comum em séries do gênero, ela passa ao leitor uma falsa sensação de obviedade: Scalzi, no entanto, não subestima seu público, e se apropria dos absurdos e falhas na própria estrutura para construir plot twists cômicos e inesperados. 

 

John Scalzi, autor de Redshirts [Imagem: Divulgação/Editora Aleph]

John Scalzi, autor de Redshirts
[Imagem: Divulgação/Editora Aleph]

Ao contrário dos roteiristas de televisão que satiriza, o autor se esforça para criar uma história coerente e não deixa pontas soltas. Para tanto, ele recorre a três epílogos, escritos em primeira, segunda e terceira pessoa, respectivamente, que descrevem o desfecho de alguns personagens secundários do livro. 

Ainda que o formato dos epílogos, ou como descritos pelo autor, codas — uma espécie de adendo conclusivo em obras musicais —, seja interessante, eles apelam ao lugar-comum e apresentam respostas simples. É difícil, no entanto, afirmar que esse seja um problema: o clichê não deixa de ser uma homenagem direta à Star Trek e a tantas outras séries que antecederam o livro. Dessa forma, Redshirts se prova uma leitura divertida, inteligente e essencial para qualquer fã de ficção científica. 

*Capa [Imagem: Divulgação/Editora Aleph]

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