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Como as línguas são criadas?
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08 abr 2020 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

Fãs de Senhor dos Anéis e Star Trek, ou amantes da cultura geek em geral, já devem ter se perguntado como foram criadas as línguas utilizadas nesses universos. Mas mesmo quem não curte o assunto talvez já tenha imaginado como surgiu a linguagem no mundo real, e como ela evoluiu para originar as quase sete mil línguas faladas no mundo atualmente.

Ao compreender como a linguagem foi formada nas diversas civilizações, é possível ter uma breve ideia do processo de criação artificial de línguas, seja para ficções científicas ou tentativas de aplicação na sociedade.

O surgimento das línguas

Não há uma resposta certa para como as línguas surgiram. Seria como tentar responder quando a espécie humana surgiu na Terra. Foi um processo de lenta evolução. Mas Aldo Bizzocchi, doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), explica como dialetos “evoluíram” para se tornarem línguas e como a própria língua se transformou ao longo da história. É uma teoria semelhante à da evolução das espécies, de Charles Darwin.

Para o linguista, a diferença entre um dialeto e um idioma é mais política do que linguística, pois uma língua é oficializada quando é reconhecida pelo Estado, o que auxilia na afirmação da nacionalidade. O dialeto recebe uma visão preconceituosa que vem desde a Grécia Antiga, quando era considerado bárbaro quem não falasse grego. Dominar a língua padrão, dessa forma, é um passo a ser tomado na busca pela ascensão social.

Nas línguas mais modernas, sobretudo as de origem indo-europeia, houve grande influência do grego e do latim. Muitas palavras tiveram origem nessas línguas clássicas, sendo adaptadas à realidade de cada idioma. E esse processo ainda acontece: novas palavras estão sempre surgindo, o nome disso é neologismo. Essas palavras podem ter origem em outras já existentes ou não. Ou, então, algumas palavras podem ter um novo significado. Sobre essas mudanças, Bizzocchi comenta: “a língua é o resultado do equilíbrio instável e fugaz entre conservação e mudança, entre permanência e ruptura”.


Linguagem e cultura

Em um artigo publicado na Revista Língua, o linguista fez uma analogia com o ditado popular do ovo e da galinha: “quem nasceu primeiro: a língua ou a cultura?”. Isso constrói um ciclo vicioso em que, segundo Bizzocchi, “a linguagem altera a sociedade, que altera a linguagem”. Uma é influenciada pela outra. A língua não é uma ciência objetiva que pode ser traduzida, pois as palavras surgem de acordo com o interesse de cada povo. Um exemplo recorrente é o da língua inuit, falada pelos esquimós do Alasca, que possui diferentes nomes para diferentes tipos de gelo. Nesse caso, é algo essencial à sua sobrevivência. Sobre isso, o linguista Benjamin Whorf dizia que cada língua recorta a realidade de modo particular, o que levou Bizzocchi a concluir que a língua projeta sobre o mundo uma “visão de mundo”.


“Línguas de laboratório”

Aldo Bizzocchi comenta sobre o fascínio e o fracasso das línguas artificiais. Ele cita três motivos principais para que isso ocorresse. Em primeiro lugar, há a “criação artística”, que foi o que ocorreu com o klingon , de Star Trek, as línguas da Terra Média de J. R. R. Tolkien, a novilíngua, do romance 1984 e o na’vi, do filme Avatar. Nesses casos, houve semelhanças com línguas naturais: “essas línguas ficcionais visam a uma verossimilhança, mesmo que numa narrativa de pura fantasia”.

O segundo motivo é filosófico. Devido à imprecisão da linguagem, alguns filósofos tentaram propor uma nova língua. Para Ludwig Wittgenstein, filósofo austríaco, a linguagem é a própria ferramenta de trabalho do filósofo, visto que a maioria dos problemas filosóficos são linguísticos. O filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz também tinha esse problema, e criou a língua generalis, na qual misturava seu idioma com a linguagem matemática. 

Por fim, há a vontade de criar uma língua para ter um idioma auxiliar de intercomunicação. Além de ser mais simples e racional do que as outras línguas, não seria idioma de nenhum povo, existindo a visão inocente de que resolveria os problemas da humanidade. Mas, como será visto posteriormente, isso não deu muito certo.


Criação de línguas na ficção científica: Senhor dos Anéis e Star Trek

Reinaldo José Lopes, jornalista de ciência da Folha de S.Paulo, já palestrou sobre a ciência na Terra Média de Tolkien e traduziu O Silmarillion, livro do mesmo autor e que pertence ao universo de Senhor dos Anéis. Ao ser questionado sobre a quantidade de idiomas criados por Tolkien, diz que “a maioria foi apenas esboçada, mas duas estão bem completas”, o quenya e o sindarin, ambas línguas élficas – esta baseada no galês e aquela na fonética do finlandês.

Galadriel (Cate Blanchett) é uma das principais elfas e falantes da língua sindarin. [Imagem: Reprodução]

Galadriel (Cate Blanchett) é uma das principais elfas e falantes da língua sindarin. [Imagem: Reprodução]

Segundo Lopes, o principal critério na criação dessas línguas foi o fonoestético, “ou seja, Tolkien quis usar os fonemas que lhe pareciam mais agradáveis, como se a língua fosse um tipo de música”. O autor também tentou usar um sistema similar às línguas do mundo real, ao pensar em um idioma que seria o ancestral comum das línguas élficas, do qual as línguas mais recentes derivariam, seguindo mutações fonéticas já conhecidas a partir das línguas do mundo real. “É o caso das transformações do latim que deram origem ao português”, completa.

Tengwar, o alfabeto utilizado pelas línguas élficas. [Imagem: Tolkien e o Élfico]

Tengwar, o alfabeto utilizado pelas línguas élficas. [Imagem: elfico.com.br]

A relação entre cultura e linguagem foi explicada pelo jornalista da seguinte forma: os elfos, são artistas e cientistas natos, alteravam seu idioma para que ficasse mais belo e expressivo, “uma ‘seleção artificial linguística’, digamos”. Já os anões, povo fechado e desconfiado em relação a estranhos, tinham uma língua considerada mais difícil de aprender do que os demais.

Fernando Augusto Dias Afonso, advogado e vice-presidente do fã-clube Nova Frota – site sobre ficção científica e fantasia –, explicou o funcionamento da linguagem na série Star Trek, muito rica do ponto de vista linguístico.

“A quantidade de idiomas imaginados é incontável se pensarmos que cada raça tem o seu em uma saga com mais de 50 anos e mais de 700 episódios”,. Mas ressalva que os idiomas principais e mais escutados na série são klingon, vulcano, romulano, bajoriano e cardassiano. “Porém, sem sombra de dúvida, o mais elaborado é o klingon, que possui dicionários e até cursos de linguagem”.

Afonso diz que cada língua de Star Trek “teve motivos e inspirações diferentes ao ser criada”. O vulcano é muito próximo do inglês, pois os atores que fizeram as primeiras cenas estavam falando inglês e, durante a edição, decidiu-se que deveriam falar vulcano. Assim, criou-se uma língua cujos movimentos fossem parecidos com o inglês para que os atores pudessem redublar as cenas.

Já o klingon, principal idioma, teve uma razão histórica em sua criação. No período, “os Estados Unidos passavam por uma Guerra Fria com a Rússia, assim como a Federação de Star Trek estava em Guerra Fria com o Império Klingon”. Logo, existem algumas similaridades do klingon com o russo. No entanto, “o criador das regras gramaticais do idioma, Marc Okrand, teve que se basear nas falas inventadas  pelo Ator James Doohan, que interpretava o Engenheiro Scotty da Enterprise”.

Raça alienígena klingon, que fala a língua de mesmo nome. [Imagem: Reprodução]

Raça alienígena klingon, que fala a língua de mesmo nome. [Imagem: Reprodução]

Criação de línguas na realidade: o Esperanto

Segundo Bizzocchi, o ideal romântico de criar uma língua universal tinha como objetivo juntar todos os povos por meio da língua e estabelecer a paz mundial. Porém, isso não foi possível, visto que a maioria dos desentendimentos humanos ocorre entre falantes da mesma língua. Além disso, como a linguagem é viva, após um período sofreria modificações e seriam criadas diferentes versões em cada região ou povo.

De qualquer forma, o Esperanto foi a tentativa mais bem-sucedida de criar uma língua universal. Seu autor foi Ludwig Zamenhof, oftalmologista polonês, que a concluiu em 1887. A língua “saiu do papel” por possuir produção literária, tanto original quanto traduzida, realização de congressos e emissões radiofônicas. No entanto, as línguas utilizadas em encontros internacionais, como o da ONU ou da União Europeia, continuam sendo as línguas de países política e economicamente dominantes. Em sua maioria, a língua inglesa.

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