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O investimento em pesquisa para combater o déficit do saneamento básico

Inovações tecnológicas podem melhorar e baratear os processos de coleta e tratamento de esgoto, que ainda são um grande problema no Brasil.

I'm Sorry, Dave
22 set 2021 | Por Letícia Naome (leticianaome@usp.br)

A coleta de esgoto, um dos quatro pilares do saneamento básico, é importante para a melhora da qualidade de vida, preservação do meio ambiente e para impedir a proliferação de doenças. Apesar disso, no Brasil, apenas 54,1% da população têm acesso a esse serviço, conforme dados de 2019 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

De acordo com Luiz Antonio Daniel, doutor em Hidráulica e Saneamento pela Universidade de São Paulo (USP), a coleta e o tratamento de esgoto são heterogêneos no País. “Há regiões com elevado índice de coleta e outras muito deficientes. O atendimento para a coleta e o tratamento do esgoto está sendo ampliado, mas muito lentamente”, afirma Luiz, que também é professor no campus de São Carlos da USP.

Além disso, Luiz ressalta que, apesar dos processos de tratamento de esgoto estarem bem consolidados no Brasil, é necessário que sempre se realizem pesquisas nessa área. Segundo ele, estas devem buscar tecnologias para otimizar a retirada de dejetos do esgoto (como matéria orgânica, nitrogênio, fósforo e micropoluentes), dos patógenos e parasitas causadores de doenças. O professor enfatiza também que avanços na área não serão possíveis sem o devido investimento em inovação tecnológica. 

[Carlos Renato Marmo/Reprodução]

[Carlos Renato Marmo/Reprodução]

Um exemplo de inovação tecnológica nesse setor é a fossa séptica biodigestora desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Trata-se de um sistema de tratamento de dejetos humanos que pode ser instalado em residências de até 5 pessoas. Carlos Renato Marmo, mestre em Saneamento pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e analista da Embrapa, explica que a fossa, por ser uma tecnologia barata, tem como objetivo atender a pessoas de baixa renda em zonas rurais. 

Carlos afirma que a fossa foi pensada para residências com privada, acesso a água e esterco bovino. Ele explica que ela funciona do seguinte modo: a privada é conectada a três caixas d’água de mil litros (a primeira em nível mais alto que a última, conforme imagem abaixo) que coletam os resíduos produzidos pela descarga, com uma mistura de 5 litros de água e a mesma quantidade de esterco bovino. Os patógenos contidos nesses resíduos são eliminados por meio de um processo anaeróbico (ou seja, sem a presença de oxigênio) em que, pela ação do excremento bovino, ocorre a decomposição da matéria orgânica vinda da descarga – isso é a chamada biodigestão. Ao final, gera-se um líquido sem odor que pode ser utilizado como fertilizante.

Ilustração fossa séptica biodigestora

Representação artística de uma fossa séptica biodigestora, constituída por um conjunto de caixas d’água conectadas a uma privada. [Imagem: Letícia Naome]

 

O sistema pode ser adaptado a outras localidades, mas não de forma independente e sem a consulta de especialistas, pois o projeto foi desenvolvido para regiões rurais com características específicas de clima – e qualquer alteração pode prejudicar a biodigestão feita pelas bactérias. Sendo assim, para qualquer modificação, deve haver pesquisa, a fim de não prejudicar tal processo biológico. 

Esse é um exemplo de iniciativa pouco custosa que pode auxiliar no combate à falta de estruturas para coleta de esgoto, pois é um sistema sustentável e independente, que não fica ligado a uma estação de tratamento.

O novo Marco Legal do Saneamento Básico pode fomentar esse tipo de projeto. Ele foi aprovado em 2020, com vistas a modificar o déficit da coleta e do tratamento de esgoto no País. Seus principais objetivos são a busca pela universalização do saneamento e a melhora na prestação de serviços do setor, além de abrir processos de licitação e, assim, incluir o investimento da iniciativa privada.

A Embrapa, por exemplo, conforme afirma Carlos, é uma empresa pública que poderá realizar parcerias com a iniciativa privada para que sejam conduzidas pesquisas, com o intuito de resolver problemas do setor. Dessa forma, haverá retorno de capital, mas também social, e ideias assim poderão ajudar o país a alcançar a universalização do saneamento básico e, consequentemente, melhorar a saúde pública.

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