Home Em Cena Sapatilhas para bailarinas negras e o preconceito no balé clássico
Sapatilhas para bailarinas negras e o preconceito no balé clássico
Em Cena
11 abr 2021 | Por Juliana Matias (julianasilvamatias.jsm@usp.br)

As sapatilhas de ponta de balé começaram a ser usadas no século 19 e têm a intenção de ser uma extensão das pernas das dançarinas. Entretanto, as sapatilhas para bailarinas negras começaram a ser produzidas somente em 2018, o que mostra como o balé tem um histórico de omissão quanto à diversidade racial

Os calçados com tons nudes chegaram somente depois de 200 anos da aparição das sapatilhas de tons claros. A britânica Freed of London e a estadunidense Gaynor Minden foram as primeiras marcas a adicionar esses tons de ponta aos seus estoques. 

Elas demoraram tanto para chegar ao mercado porque o balé clássico ainda é muito tradicional, como explica Fabiana Aguiar, artista e bailarina  pela Faculdade Paulista de Artes: “A mentalidade do balé se manteve ao longo dos anos, ele continuou engessado. Mediante a nossa realidade, algumas coisas poderiam ter mudado”. 

 

Antes das sapatilhas de tons marrons

A questão das sapatilhas há muito tempo é um problema para as bailarinas negras, pois os calçados deveriam sem extensões das pernas, mas, quando contrastam com o tom da pele, não cumprem essa função. Devido a isso, nas escolas mais liberais, eles são tonalizados pelas próprias dançarinas. 

Pessoas de pele clara também pintam suas sapatilhas para retirar o excesso de brilho, ou mesmo para chegar ao tom de sua pele, porém ainda existem pontas com tons salmão que se adequam para a maioria das bailarinas brancas. Por conta desse costume, Amanda Lima, bailarina e profissional de educação física pela USP, via a pintura com normalidade. Mas ela enfrentava uma dificuldade adicional: “Para mim, era bem mais complicado porque eu tive que descobrir sozinha como pintar, como chegar no meu tom sem que isso sujasse o chão depois”, explica.

As dançarinas negras, além de todo o tempo gasto aprendendo e pintando seus próprios calçados, também desembolsam mais dinheiro para alcançar a tonalidade ideal. Fabiana expõe: “Fora o preconceito estrutural que acontece quando não tem uma sapatilha do nosso tom, existe a questão financeira. Uma ponta é muito cara e nós temos que gastar mais ainda na pintura. É realmente muito injusto”.

Em 2018, chegaram as primeiras sapatilhas de ponta em tons marrons. O acesso a elas, porém, ainda era inviável para a maioria das bailarinas brasileiras, devido ao valor do dólar. Era necessário que marcas nacionais começassem a produzir. Amanda participou dessa mudança, quando fez um ensaio fotográfico para uma marca brasileira de balé. Ela conta: “Fiz esse ensaio e pintei uma das sapatilhas. Quando eles postaram a foto, receberam comentários questionando se tinha o tom que eu estava usando. Eles já estavam nesse processo de produzir outros tons e pediram para que eu enviasse minha sapatilha pintada para que fizessem uma pesquisa. Pouco tempo depois elas chegaram ao mercado”. 

Usar uma sapatilha de cor similar à sua pele muda a maneira como bailarinas negras se enxergam. As pontas, naturalmente, são maiores que os pés das dançarinas, por conta do gesso. Segundo Fabiana, quando elas estão em tons diferentes da pele, isso se destaca, o que faz com que o calçado pareça ainda maior. Já meias de cores desajustadas encurtam a imagem da bailarina. Fabiana relata como descobrir isso foi importante: “Eu estava bicolor, com os pés maiores e achatada. Quando me olhei no espelho, percebi que era isso que me causava estranhamento. Tem certas coisas que não conseguimos explicar, as pessoas teriam que estar na nossa pele para entender”.

A chegada das sapatilhas em tons marrons é um passo importante para a inserção. “Nós somos incluídas na sociedade quando acontece esse tipo de coisa. É realmente uma conquista”, explica Fabiana. Entretanto, isso não significa que o balé deixe de ser um ambiente preconceituoso. 

 

Escolas de balé e a aceitação das sapatilhas

Algumas escolas e mestres ainda possuem uma visão muito fechada sobre o balé. Muitas impõem um tipo de uniforme e não aceitam a diversidade dentro de seus espaços. Ao fazer isso, os mestres acabam negando o próprio intuito das meias e sapatos, que era ser uma continuidade da bailarina. 

A aceitação das sapatilhas em tons marrons por parte das escolas ainda é um grande obstáculo para um ambiente mais justo dentro dessa dança. Amanda explica: “É uma vitória ter esses produtos no mercado, mas ainda falta muito das escolas, dos lugares de formação, principalmente. Eles precisam trabalhar a questão da identidade da pessoa e a diversidade do Brasil.

 

Interesse econômico

Além da dificuldade do uso dessas sapatilhas dentro de escolas conservadoras, ainda existem o alto custo e o difícil acesso a elas no mercado. Os preços das pontas são muito altos para a realidade das bailarinas negras brasileiras. “Para comprar sapatilhas nesses tons, é necessário encomenda. Ainda é muito mais fácil comprar uma ponta para pessoas brancas”, ressalta Amanda. 

Por trás da chegada das sapatilhas nudes ao mercado também existe um interesse econômico. No Brasil, mais de 50% da população é preta. “O produto foi criado, na verdade, para alcançar uma questão de mercado, entendendo que pessoas pretas também consomem”, Amanda destaca. 

As sapatilhas começaram a ser produzidas a partir de uma pauta da sociedade que nos últimos anos vem discutindo o racismo estrutural. Segundo Fabiana, “é política e dinheiro que estão em torno dessa questão”. 

Entretanto, isso não anula a importância da disponibilidade das sapatilhas em tons marrons no mercado. “Por um lado eles ganham financeiramente, por outro lado nós ganhamos em auto-estima e valorização”, expõe Fabiana.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*