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Balés de Repertório: um passeio pela história do balé clássico
Em Cena
16 nov 2020 | Por Maria Clara Abaurre (mariaclara.abaurre@usp.br)

Com roupas leves e sapatilhas, bailarinos constroem narrativas vívidas, permeadas por saltos e giros, pas de deux e variações. O balé é um suspiro de fantasia, que ao misturar emoções de bailarinos e espectadores, cria um espaço único de comunicação e arte.

No livro Contos do Balé (2007), a diretora da São Paulo Companhia de Dança, Inês Bogéa, define como balé de repertório todo balé clássico dançado segundo um roteiro, no qual os elementos da história estão fortemente ligados entre si e carregados de simbologia e que, junto com a coreografia, ajudam a compor a narrativa. Os repertórios contam ainda com a música, os figurinos e o cenário, que são essenciais para dar suporte ao enredo.

As narrativas dos balés de repertório, muitas vezes inspiradas em contos de fadas ou lendas populares, contam histórias universais, que podem ser compreendidas em qualquer parte do mundo. Esses balés também podem ser definidos por esse caráter universal, sua época de criação e suas sucessivas remontagens.

Em destaque, os bailarinos Luiza Yuk e Yoshi Suzuki no balé de repertório La Sylphide, pela São Paulo Companhia de Dança. [Imagem: Reprodução/São Paulo Companhia de Dança/Wilian Aguiar]

Em destaque, os bailarinos Luiza Yuk e Yoshi Suzuki em La Sylphide, pela São Paulo Companhia de Dança. [Imagem: Reprodução/São Paulo Companhia de Dança/Wilian Aguiar]

 

Surgimento do balé e dos repertórios

O balé nasce entre os séculos 15 e 16, inicialmente na corte renascentista italiana. Os espetáculos apresentados em festas aristocráticas se disseminaram nos anos seguintes entre a nobreza francesa. A influência que o país teve na dança foi tanta que a maioria dos termos técnicos do balé tem origem no francês.

Durante o século seguinte, os dançarinos italianos se destacavam pelos movimentos acrobáticos, enquanto os franceses por sua elegância. Contudo, o balé costumava se misturar com a ópera. Foi apenas no século 18 que surgiu o ballet d’action (balé de ação), que extinguiu as falas nas apresentações. É exatamente nesse momento que nasce o balé de repertório, com o coreógrafo Jean George Noverre, que revoluciona os espetáculos ao tirar as máscaras e perucas, e investir na fluidez dos movimentos. Ele passa, então, a ser considerado o criador da modalidade.

As solistas do Australian Ballet são as fadas em A Bela Adormecida. [Imagem: Reprodução/The Australian Ballet/Daniel Boud]

As solistas do Australian Ballet são as fadas em A Bela Adormecida. [Imagem: Reprodução/The Australian Ballet/Daniel Boud]

Os balés de repertório são divididos em atos e costumam seguir uma estrutura relativamente fixa, com coreografias de corpo de baile (bailarinos que dançam em conjunto), variações de solistas, variações dos primeiros bailarinos (aqueles que representam os papéis principais) e os gran pas de deux. Neste último, os dois bailarinos principais entram em cena e dançam juntos, depois o homem dança sozinho, seguido pela mulher, também sozinha. Por fim, os dois se juntam novamente e encerram a dança.

Apesar da origem ítalo-francesa, foi na Rússia que o balé viveu seu renascimento, com o bailarino e coreógrafo Marius Petipa, que inicia a rica tradição russa de balés de repertório, com o espetáculo A Filha do Faraó em 1862. Ele inaugura um novo período na dança – o academicismo alinhava técnica, disciplina e a inspiração em contos de fada. 

Seguindo o movimento romântico do século 19, os balés representavam fantasias leves e delicadas, baseadas em lendas folclóricas. Passaram, também, a explorar aspectos de culturas étnicas distintas, porém de acordo com a visão européia das culturas da África, Ásia e Oriente Médio. Nesse período, as mulheres começam a se destacar nos balés e a técnica das pontas é aperfeiçoada. O corpo de baile e a figura masculina perdem espaço para enfatizar a primeira bailarina.

No início do século 20, o balé russo já era mais famoso que o francês, mas o público e os próprios bailarinos começavam a se cansar das ideias e princípios de Petipa, e passaram a buscar novas ideias. 

 

Os balés hoje

Na década de 1930, chega à Nova Iorque um coreógrafo russo que muda a história do balé: George Balanchine, fundador do New York City Ballet, introduz o balé neoclássico, que é uma expansão da forma clássica já tão conhecida. Considerado por muitos o maior inovador do balé “sem trama”, cujo propósito é usar o movimento para expressar a música e a emoção humana sem uma história definida, Balanchine foi essencial para o balé multifacetado que existe hoje.

Segundo Ilara Lopes, brasileira diplomada em todos os exames da Royal Academy of Dance como bailarina e examinadora da academia, “os balés se mantêm vivos através de Benesh Notation e de professores autorizados para fazerem as remontagens”. Os répétiteurs são ensaiadores autorizados a remontar os clássicos balés de repertório. Já o Benesh Notation é um sistema de notação da dança e de outros tipos de movimentos humanos, usado em coreografias pela Royal Academy of Dance desde a década de 1940.

A professora ressalta, ainda, que antigamente adaptações não eram aceitas nos repertórios. Já hoje, pode-se observar muitas mudanças. Formas clássicas e tradicionais convivem e se entrelaçam com coreografias contemporâneas inovadoras, dando forma ao balé moderno. A cada ano, o balé conta novas histórias em uma gama cada vez mais ampla de culturas. 

Os balés de repertório continuam sendo criados e recriados nos tempos atuais. Muitos coreógrafos têm se inspirado em clássicos da literatura ou reconstruído histórias do século 19 sob novos olhares. Um grande exemplo é Alice no País das Maravilhas, criado pela Royal Ballet School em 2011. 

Outra obra que não pode deixar de ser citada é Giselle (2016), de Akram Khan, para o English National Ballet. Na releitura do clássico Giselle (1840), Khan, que é conhecido por suas performances poderosas e inovadoras e treinado em kathak – uma dança tradicional do norte da Índia –, utiliza uma nova trilha sonora, trajes e cenário para criar algo totalmente novo em cima da história assombrada das wilis (dançarinas baseadas na lenda eslava de noivas mortas cujas almas não conseguem descansar).

Os bailarinos Tamara Rojo e James Streeter em Giselle de Akram Khan, pelo English National Ballet [Imagem: Reprodução/English National Ballet/Laurent Liotardo]

Os bailarinos Tamara Rojo e James Streeter em Giselle de Akram Khan, pelo English National Ballet [Imagem: Reprodução/English National Ballet/Laurent Liotardo]

Sobre a relação do público com o balé atualmente, Ilara comenta que “os brasileiros, em sua maioria, adoram assistir os clássicos”. Ela acredita que os jovens se interessem mais pelo estilo contemporâneo, mas conta que os teatros lotam quando há apresentações como Lago dos Cisnes, Giselle, Raymonda e outros. 

 

O repertório na sala de aula

O balé de repertório em escolas de balé é de grande importância no que diz respeito ao conteúdo histórico, criando motivação para que os alunos entendam a importância do balé clássico e conheçam mais do mundo que estão frequentando, mesmo que temporariamente.

Apesar de acreditar que antigamente os alunos tinham maior interesse, a professora registrada pela Royal Academy of Dance, Mariana Borges, afirma que há bailarinos com grande interesse pelos repertórios, “principalmente ao buscar aprender alguma variação. Grande parte inicia esse interesse na adolescência, quando surge a vontade de aprender sobre os balés”.

Nesse sentido, foi lançado em 2018, pela Royal Academy of Dance, o exame Discovering Repertoire, como alternativa para alunos avançados que não querem ser profissionais, mas podem aperfeiçoar habilidades técnicas e executar a dança de forma desafiadora por meio do repertório. Acompanhando o movimento de aumento da acessibilidade do balé, as aulas de variações permitem que a aspiração de dançar clássicos como Giselle e o Lago dos Cisnes se torne real para bailarinos amadores.

Para Mariana, que é diretora executiva da escola Lenira Borges Ballet Studio, é necessário instigar as alunas a conhecerem mais sobre a história do balé, e isso pode ser feito através de remontagens de balés de repertório. Ela aponta que é preciso ser “sempre feita com muito cuidado, para não pecar em uma história que já existe”. Mariana conta que “as crianças geralmente são bichos, camponesas ou floristas e as mais avançadas vão adquirindo papéis mais próximos dos principais, mas ainda como corpo de baile”.


Em sua maioria recheados de magia, os balés de repertório são capazes de transportar a plateia para um mundo onde realidade e fantasia se combinam. Apesar das diversas questões levantadas atualmente – como a falta de representatividade; histórias que, apesar de darem destaque às personagens femininas, as colocam em condições de submissão; entre outras – é impossível negar a importância desses clássicos que, ainda hoje, sempre que revisitados, arrebatam o público com sua beleza.

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