Suburbicon: Bem Vindos ao Paraíso (Suburbicon, 2017) é protagonizado por Matt Damon e Julianne Moore, e dirigido por George Clooney. A Paramount arrecadou míseros 7,5 milhões de dólares internacionalmente até o presente momento. A produção do filme custou 25 milhões. Embora os dados de renda não definam a qualidade de um filme, este é um caso. Suburbicon é ruim: vale, assim como seu retorno financeiro, menos de um terço do preço convencional do ingresso.
Situado na década de 1950 no pacato bairro homônimo, o longa conta duas histórias principais. A primeira — mais geral — relata a chegada de uma família afro-americana, os Mayers, à vizinhança. Mediante ao contexto de turbulência racial nos Estados Unidos, eles são recebidos de maneira segregacionista pelos outros residentes, todos brancos. A segunda — mais específica — trata da “crise familiar” dos Lodge, os quais também moram nesse mesmo subúrbio. São essas duas histórias tangentes entre si que o filme tenta contar. Mas, fracassa.
![]()
O roteiro dos irmãos Coen é, no mínimo, prepotente. Ele almeja a conduzir duas correntes narrativas quase simultaneamente. A amizade entre os filhos das duas famílias o único elo entre ambas histórias. Entretanto, a relação não transcende algumas cenas em que as crianças, Nicky (Noah Jupe) e Andy (Tony Espinosa), brincam de beisebol ou de telefone de lata. Uma não influencia na outra, não se auxiliam para se estruturarem de maneira mais sólida e coerente. Não é possível definir com certeza qual a intenção do longa em dividir-se de tal maneira.
Em determinado momento, volta-se a atenção aos Lodge; em outro, aos Mayers e ao racismo no bairro de Suburbicon. Essa alternância compulsiva gasta os curtos 105 minutos do filme em duas narrativas rasas e incoesas. A vertente dos Lodge se resume a uma série de suspenses baratos envolvendo um “dramático” assassinato. Como uma tentativa pífia de manter o espectador atento, vários questionamentos brotam do vazio, mas não são respondidos. As poucas exceções se personificam no estereótipo do malandro esperto do detetive Bud Cooper, interpretado por George Clooney.
![]()
Cooper não é o único personagem quadrado. Na realidade, Suburbicon é povoado por figuras rasas. Não há um background por trás de suas motivações e de suas personalidades. O filme não proporciona empatia para com eles. E isso é agravado ao se considerar os acontecimentos bizarros que ocorrem com os Lodge. O pai da família, Gardner (Matt Damon), e a tia Margaret (Julianne Moore) são os principais frutos disso. Eles agem de maneira incoerente — mesmo de um ponto de vista subjetivo — e, até mesmo, estúpida. Simplesmente, não há explicações para seus comportamentos, os quais são totalmente imprevisíveis. A cada cena, Gardner e Margaret se relacionam com seu entorno da mesma forma que um dado é jogado: aleatoriamente.
Aqueles questionamentos que surgem do nada, também de maneira aleatória, promovem reações ainda mais imprevisíveis dos dois. Os personagens protagonizados por Damon e Moore são os casos mais extremos disso, mas todos os outros personagens se encaixam ou na idiotice insólita dos dois ou no estereótipo, como Cooper. E como toda a história dos Mayers também. Ela é apenas uma coletânea de imagens que tentam reproduzir o ambiente de resistência segregacionista norte-americano da década de 1950. Saudosistas confederados cercando uma indefesa família afro-americana como hienas, em bando e de forma agressiva e barulhenta. Estereótipos não comovem.
![]()
As atuações podem até ser consideradas razoáveis, mas como sentir empatia para com figuras rasas ou tão imbecilmente imprevisíveis quanto dados jogados em um tabuleiro? Com uma direção de arte e figurino nem um pouco especiais — os quais repetem as mesmas fórmulas coloridas e clichês para recriar a década de 1950 nos Estados Unidos —, Suburbicon é um filme melhor quando não visto. O longa marcou um tomate podre de 29% (Rotten Tomatoes) e patéticos 5,4 (IMDB). É aconselhável economizar o ingresso do filme para investir em uma viagem para Aruba, inspirado na ideia que os protagonistas sugerem repetidas vezes durante o filme. Já ouviu falar de Aruba? É um protetorado holandês no meio do Caribe. Tão aleatório quanto Suburbicon.
O filme estreia dia 21 de dezembro.
Confira o trailer:
https://www.youtube.com/watch?v=FhVICQ7shRs
por Caio Mattos
caiomattcardoso@gmail.com