Home Controle Remoto ‘We Are Who We Are’ vai muito além de uma história de amadurecimento
‘We Are Who We Are’ vai muito além de uma história de amadurecimento
Controle Remoto
15 nov 2020 | Por Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

A juventude é, mais vezes do que não, definida só por ser juventude. Entre uma vida escolar qualquer e revoltados desesperançosos, vão se fazendo retratos típicos. Cada lado em busca de suas perspectivas únicas através dos estereótipos. 

Quanto a isso, We Are Who We Are (2020), de Luca Guadagnino, se situa em uma zona cinzenta. A minissérie foi perfeitamente lançada após o fenômeno de Euphoria (2019) e a renovação do interesse por superproduções que captem realidades simples, mas grandiosas — que aproveitem o sub-representado ponto de vista da geração Z, cheio de fluidez e extravagância. 

A sinopse não é longa. Em uma base militar estadunidense na Itália, dois adolescentes, Fraser (Jack Dylan Grazer) e Caitlin (Jordan Kristine Seamón), desenvolvem um laço inquebrável enquanto exploram questões identitárias e dificuldades de suas criações opostas. 

Caitlin e Fraser, respectivamente, em We Are Who We Are [Imagem: Reprodução/HBO]

Caitlin e Fraser, respectivamente [Imagem: Reprodução/HBO]

Com isso em mãos, Luca e seu time de escritores compõem um universo emocionalmente nivelado, no qual um jovem pode ser tão abusivo ou despedaçado quanto um adulto, enquanto a idade não representa inevitável progresso. Claramente apaixonado por seus personagens, Guadagnino recorta com empatia essa noção tão intimidadora. 

Há, embora, um divisor de águas. Para os adultos, em algum momento não esclarecido, acabam os questionamentos ativos, e o que foi construído se torna conforto. Através de Fraser e Cate, o seriado aborda com proeza o breve — e tão facilmente esquecido — momento no qual, sem barreiras emocionais convincentes, resta apenas o mistério da própria exploração, solitária ou com ajuda do olhar mais carinhoso do outro. 

Os episódios são como memórias avulsas, despreocupados com o desenrolar passo a passo de linhas narrativas. As cenas que se congelam repentinamente parecem registros feitos ao vivo, fixados na mente dos personagens. Até mesmo a linha temporal cria sua própria atmosfera nostálgica, no passado recente do ano de 2016.

We Are Who We Are é única ao dispor a juventude não em sobreposição ao militarismo e ao conservadorismo do início da era Trump, nem em confronto direto através de diálogos expositivos. A minissérie estabelece um belo diálogo, verossímil e crítico, que considera seus personagens capazes de lidar com e refletir o mundo em que vivem, cheios de respostas vindas da incerteza, dor, cinismo e existencialismo próprios. 

Em contraste à rigidez do exército, Fraser incorpora e subverte elementos militaristas em seu guarda-roupas. [Imagem: Reprodução/YouTube/HBO]

Em contraste à rigidez do exército, Fraser incorpora e subverte elementos militaristas em seu guarda-roupas. [Imagem: Reprodução/YouTube/HBO]

Não é, então, uma série com fio condutor delimitado ou imponente, mas um fluxo em formação com sua própria realidade. É uma história de tirar o fôlego e quebrar o coração, do lento ao caótico. 

No centro disso, Jack Dylan Grazer entrega uma performance fascinante e eclética sob o figurino de Giulia Piersanti. Fraser é desafiador e conflituoso (consigo e com outros), e se veste não pela aceitação alheia, mas pelo reverso. 

O personagem é arrogante do jeito que só adolescentes intelectuais conseguem ser. Também é agressivo, assim como vulnerável e ansioso feito qualquer jovem com uma obsessão amorosa impossível, ou uma amizade forte demais. Jack nunca perde o ritmo de seus trejeitos — o número musical de Time Will Tell é um bom estímulo para se assistir à série. O resto do elenco tampouco tropeça em momento algum. O retrato, como um todo, nunca deixa de ser poético.

Tão seguro de si mesmo em seu título (“somos quem somos”), é um seriado de improvável reprodução, uma convergência das vozes certas no tempo certo, ao som certo do compositor Devonté Hynes, o Blood Orange. 

We Are Who We Are é um espetáculo de humanidade plural e contraditória, que, se acusado de irregular, dado o número de narrativas abordadas, é apenas pela própria natureza. Talvez a obra mais complexa do diretor Luca Guadagnino, é destruidora como uma tempestade frenética e acalentadora como uma viagem ao lado de sua pessoa favorita.

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