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15 anos do milagre de Istambul: a comprovação do You’ll Never Walk Alone
ARQUIBANCADA
25 maio 2020 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br) e Vinicius Machuca (viniciusmachuca@usp.br)

Imagine que você está jogando uma partida de futebol no videogame. Agora, pense que, no primeiro tempo de jogo, você está perdendo por três a zero. O que você faria? Ficaria com raiva ou até mesmo desistiria do jogo?

O Arquibancada vai mostrar como, há 15 anos, o Liverpool passou por essa situação e, milagrosamente, com o apoio da torcida, conseguiu ser campeão da UEFA Champions League após estar perdendo por três gols de diferença para uma das melhores equipes do continente europeu até então, o Milan.

 

A tentativa de “espanholização” na terra da rainha 

O Liverpool inicia a temporada 2004/2005 pressionado: 20 anos sem conquistar a Liga dos Campeões (que, até a temporada 1991/1992, chamava-se Taça dos Clubes Campeões Europeus). Na época, também fazia 15 anos que o clube não vencia o campeonato inglês, tabu que permanece até os dias atuais.

Para tentar acabar com essa sina, os Reds trouxeram a sensação espanhola Rafa Benítez, o técnico do badalado Valencia bicampeão da La Liga e campeão da Copa da UEFA (atual Europa League) na temporada anterior. Com ele, veio uma legião de espanhóis para atuar no clube, sendo os principais o goleador Luis García, que já havia sido treinado por Benítez, e o meio-campista Xabi Alonso, revelação da Real Sociedad. 

O trio que ajudou o Liverpool no milagre de Istambul

Rafa Benítez (ao centro), com suas principais contratações: Luis García (à esquerda) Xabi Alonso (à direita) [Imagem: Reuters]

O primeiro treinador espanhol da história da Premier League, no entanto, teve problemas em implantar seu estilo de jogo de posse de bola e velocidade. A qualidade técnica era reservada a Steven Gerrard, capitão e ídolo da torcida, e ao novo contratado Alonso. 

De acordo com João Castelo-Branco, correspondente da ESPN Brasil na Inglaterra, a equipe já não era a mais qualificada no país: “Em termos financeiros, tinha o Manchester City chegando, o Chelsea, e o Manchester United já dominava o futebol inglês”. Além desses, o Arsenal vinha de uma temporada campeã e invicta

Por conta dessa dificuldade, os Reds não obtiveram grande sucesso nos campeonatos nacionais: quinta colocação na Premier League, atrás do rival local Everton, e eliminação precoce contra o Burnley na FA Cup. O mais próximo de uma conquista deu-se na Copa da Liga, perdendo a final por 3 a 2 para o mais novo endinheirado Chelsea.

 

A peregrinação para o milagre de Istambul

A esperança de título, por conta do elenco enxuto, estava nas competições eliminatórias. Como a equipe de Liverpool não obteve sucesso nas nacionais, as atenções voltaram-se para a UEFA Champions League. Entretanto, a caminhada não foi fácil.

Na fase de grupos, enfrentou o Mônaco, vice-campeão da temporada anterior da competição internacional, o Olympiakos, time grego em que Rivaldo jogava, e o Deportivo La Coruña. O Liverpool terminou essa fase na segunda colocação, com dez pontos conquistados, empatado com o time grego. A classificação inglesa deu-se pelo saldo de três gols positivos contra nenhum da equipe liderada pelo craque brasileiro.

Com grandes atuações de Gerrard e García, o Liverpool passou sem dificuldades pelo Bayer Leverkusen-ALE nas oitavas de final. Nas quartas, encontrou a Juventus, recheada de estrelas como Buffon, Nedved, Del Piero e Ibrahimovic. Mas foi o atacante espanhol, com um golaço, que fez a equipe inglesa se classificar: 2 a 1 no agregado. 

Nas semifinais, haveria o reencontro inglês entre os Blues do Chelsea e os Reds. No primeiro jogo, no Stamford Bridge, um empate sem gols. No jogo de volta, em Anfield Road, um gol “chorado” do goleador Luis García fez com que o time do noroeste inglês retornasse à final da principal competição europeia de clubes.  

O adversário da decisão não poderia ser outro: o grandioso Milan. A equipe italiana, comandada por Carlo Ancelotti, era um dos principais times do mundo naquele momento, com grandes jogadores. Os brasileiros Dida, Cafu, Kaká e Serginho eram acompanhados pela classe de Andrea Pirlo e Clarence Seedorf e pelo faro de gol de Andriy Shevchenko e Hernán Crespo, argentino contratado na temporada em questão. Junto a isso, havia a solidez defensiva italiana, com a presença de Gattuso, Nesta e Maldini.

Duas temporadas antes, os italianos haviam vencido a competição europeia junto de uma série de títulos nos anos anteriores. Portanto, na temporada 2004/2005, a esperança de título retornava à Champions League após um segundo lugar na Série A do italiano e queda na Copa da Itália. 

O grupo dos rossoneros, apesar de complicado no papel, não proporcionou grandes dificuldades. O Milan perdeu um jogo, contra o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, fora de casa, e empatou a última partida, já classificado, contra o Celtic-ESC. Assim, ganhou ainda os dois jogos contra o Shakhtar Donetsk-UKR e classificou-se em primeiro do grupo, com 13 pontos.

Nas oitavas de final, encontrou com outro gigante do futebol: 2 a 0 no Manchester United, com gols de Crespo. Nas quartas, contra a Internazionale, o ucraniano Shevchenko brilhou e a equipe venceu por 3 a 0 no agregado. O segundo jogo, porém, teve de ser finalizado antes, pois Dida foi atingido por um sinalizador. Nas semis, um susto, mas que não deveria trazer preocupação: 2 a 0 em casa contra a sensação PSV. No jogo de volta, 2 a 1 para os holandeses, com Ambrosini fazendo o gol salvador nos acréscimos.

Por conta da adversidade enfrentada pelo Liverpool e a qualidade da equipe italiana, o Milan era considerado o favorito para a conquista do título europeu. Porém, segundo Castelo-Branco, os torcedores ingleses tinham muita confiança em seu time: “Dois, três dias antes do jogo”, explica o repórter, “você escutava aquele sons das mesquitas chamando as pessoas para a reza, mas você escutava, também, ecoando pela cidade, cantos do Liverpool a noite inteira”.

Torcedores dos Reds indo acompanhar o milagre de Istambul

Torcida dos Reds empolgada para a final [Imagem: Liverpool Echo]

Em um local religioso e místico, talvez só um milagre traria o título para os ingleses…

 

1º tempo: a dominação italiana

Enfim chegou o grande dia, 25 de maio de 2005. Milan e Liverpool se enfrentariam em um jogo que ficaria marcado para sempre na memória dos amantes do futebol.

O Milan foi a campo em um 4-4-2 escalado por Carlo Ancelotti. Dida no gol. Cafú e Maldini nas laterais. Stam e Nesta faziam a dupla de zaga. O meio campo era formado por Gattuso, Pirlo, Seedorf e Kaká. No ataque estava Shevchenko e Crespo.

Rafa Benítez escalou o Liverpool também em um 4-4-2. Dudek era o goleiro. Finnan e Traoré eram os laterais. A zaga era composta por Hyypia e Carragher. O meio tinha Riise na esquerda, Luis Garcia na direita, Gerrard e Xabi Alonso completavam por dentro. A dupla de ataque possuía Kewell de segundo atacante e Baros centralizado.

No primeiro lance, Kaká arrancou pela direita, sofrendo a falta de Traoré. Pirlo cobrou com perfeição e a lenda rossonera Paolo Maldini, usando a perna direita, chutou de primeira e abriu o placar para o time italiano. Nem o torcedor mais otimista imaginaria um gol na primeira oportunidade do jogo.

Após o primeiro balanço das redes, o Milan dominava as ações do jogo, enquanto  o Liverpool enfrentava problemas em sua criação de jogadas. Além disso, aos 22 minutos, Kewell sofre uma lesão, obrigando Rafa Benítez queimar uma das três substituições inglesas, colocando Smicer em seu lugar.

Aos 38 minutos, surge um contra-ataque para o Milan: após Nesta bloquear uma jogada na defesa, Kaká arrancou metade do campo e achou Shevchenko pela esquerda. O ucraniano cruzou rasteiro para Crespo ampliar o placar em Istambul.

O domínio do Milan era claro, o time inglês não conseguia parar Kaká, melhor jogador da partida até então. Aos 43 minutos, o craque brasileiro fez um lançamento incrível de trás do meio-campo que atravessou toda a defesa do Liverpool. A bola teve seu destino em Crespo que, com tranquilidade, tocou por cima do goleiro, fazendo 3 a 0 e colocando o Milan com as duas mãos na taça.

Crespo fazendo o terceiro gol do Milan [Imagem: Liverpool Echo]

2º tempo, prorrogação e pênaltis: o impossível que se transformou em inacreditável

Mesmo com o amplo domínio e vantagem no placar do time italiano, a torcida do Liverpool acreditava no título e não parou de cantar nem por um minuto durante o intervalo. Segundo João Castelo Branco a torcida deu forças para o time: “Lembro nitidamente da energia que a torcida passou no intervalo” e completa “com o time perdendo de 3 a 0, cantaram You’ll Never Walk Alone e foi uma energia contagiante”.

Rafa Benítez fez uma substituição no intervalo que mudaria a história do jogo: colocou o volante Hamman no lugar do lateral Finnan, com o propósito de marcar individualmente o brasileiro Kaká, variando o esquema tático para um 3-5-2, que dava ao Liverpool uma superioridade numérica no meio campo.

E assim começou a reação dos Reds. Aos oito minutos, Riise cruzou para Gerrard, que, agora jogando mais adiantado, cabeceou no canto esquerdo de Dida, não dando chance de defesa para o goleiro.

O gol abalou completamente o Milan, que já não parecia aquele time avassalador do primeiro tempo. A equipe estava nervosa e errava lances que não costumava errar. Em um deles, aos 10 minutos, erraram o passe e deram um lateral de graça para o Liverpool. Após a cobrança, a bola chegou no pé de Smicer que chutou forte. A bola foi rasante até encontrar as redes do lado direito do gol. O Liverpool diminuía ainda mais a diferença no placar e sua torcida estava cada vez mais empolgada acreditando no milagre.

A pressão da equipe inglesa continuava mais forte do que nunca e, aos 14 minutos, o zagueiro Carragher fez um lançamento para Luis García, que, de calcanhar, tocou para Gerrard. Ele faria o gol se não fosse derrubado por Gattuso. Pênalti para o Liverpool. Xabi Alonso cobrou no canto direito. O grande pegador de pênaltis Dida se esticou e conseguiu defender. Porém, no rebote, o mesmo Xabi Alonso encheu o pé para marcar o gol do empate.

Liverpool comemorando o gol de empate [Imagem: Liverpool Echo]

O que parecia impossível tinha acontecido: o Liverpool conseguiu igualar um placar elástico, enfrentando um time recheado de estrelas. Ninguém acreditava no que estava acontecendo. O restante do segundo tempo foi bem equilibrado, com algumas chances para ambas as equipes. O placar terminou em 3 a 3, forçando a prorrogação.

Na etapa complementar, o time do Milan parecia melhor fisicamente e pressionava o Liverpool, até que, aos 12 minutos do segundo tempo, Dudek, goleiro do Liverpool, fez uma defesa que pode ser considerada como o quarto gol dos Reds. Serginho, que tinha entrado ao decorrer da partida, cruzou para Shevchenko que cabeceou para a defesa de Dudek. No rebote, o ucraniano chutou de novo, desta vez na pequena área, para mais um milagre de Dudek. A defesa no reflexo em um chute à queima roupa deu ainda mais confiança para o título do Liverpool.

Defesa de Dudek em chance de Shevchenko [Imagem: Stefano Rellandini/Reuters]

O empate na prorrogação levou à disputa para os pênaltis. O brasileiro Serginho foi o primeiro cobrador do Milan e acabou isolando por cima do gol. Hamman bateu em seguida e colocou o Liverpool na frente. A lenda Pirlo cobrou no canto direito para a defesa de Dudek. Cissé converteu sua cobrança e abriu 2 gols de vantagem. Thomasson fez o primeiro gol do Milan na disputa, 2 a 1. Riise bateu o terceiro pênalti do Liverpool, mas parou em Dida que defendeu no canto direito. Kaká, que fez um primeiro tempo brilhante, marcou o gol de empate na cobrança dando uma sobrevida ao Milan, mas, logo em seguida, Smicer abriu mais uma vez vantagem para os italianos. 

A última cobrança dos rossoneros reeditou um duelo que tinha acontecido  poucos minutos antes, na prorrogação: Shevchenko contra Dudek, e, mais uma vez, a estrela do goleiro brilhou. O goleador do Milan cobrou no meio do gol, Dudek defendeu e se garantiu como o herói do título.

O Liverpool, depois de estar perdendo de 3 a 0 de um time recheado de lendas, heroicamente empatou e garantiu o título da Champions League. Não eram apenas 11 jogadores em campo e sim toda uma nação vermelha, pois o Liverpool nunca caminhou sozinho.

Capitão Gerrard levantando a taça [Imagem: Liverpool Echo]

Liverpool e Milan pós milagre de Istambul

O Liverpool colecionou más campanhas nas competições européias nos anos seguintes à glória de 2005, retornando à elite do futebol europeu com o a conquista seu sexto título da Champions League de 2019 comandada pelo tridente ofensivo formado por Salah, Mané e Roberto Firmino. Segundo Castelo Branco, o time inglês “fez um trabalho excepcional para dar a volta por cima, aos poucos reconstruindo o time, investindo e dando certo com a chegada do Klopp”.

O Milan dois anos depois deu o troco, e conquistou a Champions League de 2007 em cima do Liverpool. Infelizmente, após a conquista do campeonato italiano de 2011, o Milan entrou em uma crise e não consegue chegar perto de suas conquistas do passado, ficando fora das últimas edições da Champions League.

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