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15 anos de um Arsenal invencível
ARQUIBANCADA
15 maio 2019 | Por Arquibancada

Por Danilo Moliterno
danilomoliterno@usp.br

 

“Na minha opinião é o maior feito futebolístico da Inglaterra, maior que o treble do United. A perfeição é, acima de tudo, uma improbabilidade”. A frase de Alcysio Canette, brasileiro e torcedor apaixonado do Arsenal, define o tamanho do feito alcançado pelo time em 2003-2004. Na Premier League desta temporada, os Gunners não só foram campeões, como terminaram as 38 rodadas do campeonato sem perder sequer uma vez.

Wenger comemora o título [Imagem: Getty Images]


O Arsenal de Arsène

É impossível falar de Arsenal sem falar de Arsène Wenger, treinador dos “invencíveis de 2004” e maior ídolo da história do time londrino. E para falar do técnico, é necessário voltar em 1996. Naquela época, os Gunners buscavam uma reestruturação devido ao fracasso dos trabalhos anteriores, então Wenger foi contratado. Sem campanhas de sucesso no ocidente e conhecido apenas por seu trabalho no futebol japonês, ele foi, inicialmente, tratado com desconfiança pela torcida.

Entretanto, não demorou muito para Arsène cair nas graças da torcida. Em pouco tempo, ele conseguiu implantar no time um estilo de jogo jamais visto na Europa – sólido, leve e eficiente. E o bom futebol trouxe seus primeiros resultados já no ano seguinte; resultados, por sinal, extraordinários. Na temporada de 1997-1998, o Arsenal foi protagonista de todas as competições que disputou em nível nacional. Os comandados do técnico francês levaram, no mesmo ano, o Campeonato Inglês, a Copa da Inglaterra e a Supercopa da Inglaterra. Só não conquistaram a Copa da Liga Inglesa, da qual foram eliminados nas semifinais.

Dois anos depois, em 1999-2000, os Gunners iriam ainda mais longe. O time londrino chegou à decisão da Copa da UEFA nesta temporada. “A final foi mais marcada pelas batalhas campais ocorridas em Copenhague – que culminaram na morte de dois torcedores do Arsenal – do que pela partida em si, que foi ruim. Times do Wenger nunca tiveram uma cabeça boa para finais continentais”, conta Alcysio sobre a derrota do Arsenal para o Galatasaray naquela finalíssima.

A volta por cima veio já em 2001-2002. Nesta temporada com um timaço recheado de craques como Ljungberg, Bergkamp e Henry o Arsenal conquistou a Premier League e a Copa da Inglaterra. Após o sucesso deste ano, a meta voltaria a ser um título continental. Contudo, na Champions League da temporada seguinte, o time decepcionou mais uma vez e sequer chegou às quartas de final.

Wenger entrega a camisa para Henry, no dia da apresentação atacante [Imagem: Sienad Lynch/AFP

Explicando um fenômeno

A princípio, a temporada 2003-2004 não prometia muito para os Gunners. “A expectativa não era das melhores. Havíamos perdido a liga do ano anterior e, ao ver o time contratar apenas um jogador na janela [de transferências], nós [torcedores] ficamos com a impressão de que a diretoria não estava fazendo o melhor para ter um time mais competitivo possível. Estávamos todos errados”, disse Alcysio sobre aquela pré temporada.

Apesar da desconfiança da torcida no início do campeonato, o Arsenal não demorou muito para dar sinais de que iria longe naquela temporada. O time londrino venceu sete das nove primeiras partidas da Premier League, com destaque para as vitórias diante de Newcastle e Chelsea – no Highbury Stadium – e contra o Liverpool, jogando fora de casa.

Os gunners, naquele momento, levavam o futebol sólido e leve de Wenger ao seu auge. Alcysio, que acompanhou de perto aquela campanha, conta um pouco mais como o time jogava: “Acho que a melhor comparação é com o basquete. Jogávamos um jogo de transição muito forte. O time chegou a um ponto de entrosamento em que qualquer roubada de bola virava um contra ataque letal, mesmo com o adversário organizado”.

O  Arsenal de 2003-2004 – citado pela história como “o time de Henry e Bergkamp” – ainda segundo o torcedor, tinha seu principal diferencial na defesa: “Sem dúvidas, a espinha dorsal do time era Lehmann (goleiro), Campbell (zagueiro) e Patrick Vieira (volante). Era fundamental para que o time funcionasse. É fácil esquecer de como aquele time defendia bem”.


O apuro e o herói

Os jogos foram se sucedendo e ao final do primeiro turno o time ainda não havia perdido. Mas a invencibilidade que alavancara a confiança da equipe, acabou por comprometê-la no segundo turno. “Depois de um tempo, o recorde invicto começou a pesar no desempenho, fazia o jogo ficar conservador demais e, ao mesmo tempo, transformava o time em um alvo para todos na liga. O recorde foi ameaçado, a sério, inúmeras vezes”, contou o gunner.

Na segunda metade do campeonato, o time londrino, realmente, ficou próximo de perder o unbeaten diversas vezes – como nos confrontos diante de Manchester United, em jogo que terminou 1 a 1; e Liverpool, quando o resultado do embate foi 4 a 2. Apesar do placar do último indicar um jogo tranquilo, este foi, provavelmente, o momento mais complicado dos “invencíveis” naquele campeonato.

A partida diante dos Reds, válida pela 27ª rodada, ocorreria no dia 9 de abril e deveria ser “somente mais um jogo” para o Arsenal. Isso se não fossem os eventos da semana que antecedeu o confronto: em terceiro de abril, os Gunners haviam sido eliminados da Copa da Inglaterra pelo Manchester United, e no dia 6, foram desclassificados da Champions League pelo Chelsea.

Mesmo com essas decepções na bagagem, o time se superou. O Arsenal foi ao Highbury e, com direito a hat trick de Henry, derrotou o Liverpool. O francês – hoje ídolo do clube – arrancava ali rumo à artilharia daquele campeonato. Ele, que marcou 30 dos 73 gols do time londrino naquela Premier League, foi nomeado craque da competição.

Da esquerda para a direita_ Touré, Pirés, Cole e Henry, comemoram o título [Imagem: premierleague.com]

A cereja do bolo

Passado os momentos de turbulência, os Gunners se aproximavam cada vez mais do título. A taça parecia questão de tempo, já que o Chelsea segundo colocado e maior perseguidor durante o campeonato era mantido a uma distância considerável. E na 34ª rodada daquela Premier League, após derrotar o Leeds por 5 a 0, o time londrino soube que poderia ser campeão no jogo seguinte caso pontuasse no confronto, mesmo que com um empate.

A circunstância já era ótima, mas ganharia um gostinho especial. O adversário do Arsenal na 35ª rodada seria o Tottenham – maior rival dos gunners – em jogo disputado no White Hart Lane, estádio do Spurs. O clima da partida se aqueceu. Conquistar o título de maior relevância nacional com uma campanha impecável, e comemorá-lo na casa do grande rival, ficaria para a história. E ficou.

A bola rolou, e demorou apenas três minutos para Patrick Vieira colocar os “invencíveis” em vantagem. Aos 35, Robert Pirés – ponteiro e outra peça importante daquele elenco – ampliou o placar. O Tottenham ainda tentou estragar a festa, buscou o empate com gols de Redknapp e Robbie Keane, mas de nada adiantou. Era dia de festa em Londres. Ao apito final, o placar indicava 2 a 2. O Arsenal era bi-campeão da Premier League.

 

A cereja da cereja do bolo

Contudo, a saga dos gunners no torneio nacional não terminava aí; ainda restavam quatro rodadas. Se o time passasse pelos próximos confrontos sem  derrotas, sagraria-se o primeiro campeão invicto da competição na era moderna (o primeiro, de fato, foi o Preston North End em 1889, quando o campeonato ainda era disputado em 22 rodadas).

A sequência final de jogos era, teoricamente, simples. Nos quatro últimos confrontos, o Arsenal enfrentaria apenas adversários de pequena/média expressão, nada que preocupasse o atual campeão, certo? Errado. O medo de perder a invencibilidade transformou jogos fáceis em duelos complicadíssimos. “A pressão foi enorme, e não à toa, a dificuldade em jogos ditos tranquilos foi grande. Inclusive no dia da final contra o Leicester”, disse o torcedor.

Como adiantou o Alcysio, foi contra o Leicester, no Highbury, que os gunners concretizaram o grande feito. Na última rodada, o time venceu por 2 a 1 com gols de Patrick Vieira e Henry e completou as 38 rodadas da Premier League de 2003-2004 sem um sequer revés. Aquele elenco entrara para a história do Arsenal e do futebol inglês. Nasciam ali “os invencíveis”.

 

 

Dados técnicos do time campeão

Pontuação: 90;

Jogos: 38;

Vitórias: 26;

Empates: 12;

Derrotas: 0;

Saldo de Gols: 47;

Gols marcados: 73;

Gols sofridos: 26;

Time base: Lehmann, Lauren, Touré, Campbell e Ashley Cole; Gilberto Silva, Patrick Vieira, Pirès e Ljungberg; Bergkamp e Henry;

Treinador: Arsène Wenger.

O elenco campeão invicto da Premier League 2003-2004 [Imagem: premierleague.com]

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