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A arte dos traçados
ARQUIBANCADA
15 mar 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por André Romani

Não é novidade para ninguém que o automobilismo é além de emoção, ciência. Os entusiastas do esporte sabem bem que o trabalho dos engenheiros é tão importante quanto o talento dos pilotos para um bom desempenho nas pistas. Porém, esses não são os únicos fatores de influência em uma corrida. Os circuitos e seus diferentes desenhos também interferem na definição de quem subirá no pódio. O Arquibancada conversou com um especialista em automobilismo e um arquiteto de pista para entender a importância dos traçados em duas categorias: Fórmula 1 e Stock Car.

Para um início de conversa, é preciso antes explicar alguns conceitos. As pistas podem ser classificadas em três principais tipos:

  • Alta velocidade: Poucas e rápidas curvas. Maioria do traçado formado por retas;
  • Média velocidade: Quantidade mediana de retas e variação entre curvas rápidas e lentas;
  • Baixa velocidade: Muitas curvas em sua maioria lentas.

Para exemplificar vamos analisar alguns dos circuitos mais conhecidos do planeta:

Pista de baixa velocidade – Monte Carlo

Mapa da pista de Monte Carlo (Imagem: Reprodução)

Localizada na Cidade de Mônaco, o traçado de rua tem a menor média de velocidade da Fórmula 1, com incríveis 166,5 km/h. Entre suas características, estão as escassas áreas de escape, os poucos pontos de ultrapassagem e curvas fechadas e de baixa velocidade. Dessa forma, os treinos classificatórios em Mônaco acabam se transformando em uma parte ainda mais fundamental, praticamente decidindo o resultado da corrida. ”Com certeza é uma das [pistas] mais desafiadoras para os pilotos, porque bater ali significa quase eliminação”, explica Vitor Fazio, repórter do Grande Prêmio e especialista em automobilismo.

Pista de média velocidade – Interlagos

Mapa da pista de Interlagos (Imagem: Reprodução)

A pista localizada em São Paulo é uma das mais tradicionais e preferida dos atletas. Com curvas difíceis e emblemáticas, Interlagos possui diversos pontos de ultrapassagem. Classificada como de média velocidade, ela mistura trechos lentos e rápidos. A quilometragem gira em torno de 221 km/h.

Pista de alta velocidade – Spa Francorchamps

Mapa da pista de Spa Francorchamps (Imagem: Reprodução)

Outra queridinha dos pilotos, Spa Francorchamps é considerada de grande dificuldade, por causa de suas curvas de alta velocidade. A quilometragem média é de 244,7 km/h, perdendo nesse quesito apenas para Silverstone e Monza.

Motor e Aerodinâmica

No começo de cada temporada, as construtoras se reúnem e montam seus carros a fim de melhorar sua performance. Mas será que os diferentes traçados influenciam nessa preparação? Ter um carro equilibrado, que tenha bom desempenho tanto em pistas de alta, como de baixa velocidade, é essencial para brigar pelos principais campeonatos.

Fazio explica que os carros com os melhores motores tendem a ter mais sucesso nos circuitos em que são mais exigidos: os de alta-velocidade. Para um melhor entendimento ele analisa as construtoras do último ano, principalmente o duelo entre Mercedes e Ferrari. A primeira tinha o melhor motor e assim, muito seu sucesso em circuitos menos travados, enquanto nos menos velozes a Ferrari acabou se sobressaindo, porque apresentou uma aerodinâmica mais qualificada. Ele conta que são dois grandes carros, com diferentes pontos fortes. Dessa forma, tem-se algumas vantagens dependendo do traçado.

Muitas equipes acabam então fazendo escolhas estratégicas. Fazio comenta que ”a impressão que fica é que Force India e Williams, por exemplo, estão realmente tentando se especializar em circuitos mais velozes, porque nos  mais lentos, elas simplesmente não conseguem evoluir de jeito nenhum”. A escolha deve-se ao fator de ter muito menos circuitos travados, do que rápidos na categoria.

Outro caso interessante é o da Red Bull de Adrian Newey, conhecido como o ”Mago da Fórmula 1”, que garante a eles quase sempre uma boa aerodinâmica. Dessa forma, quando o motor é muito bom, vide a época de Sebastian Vettel, a escuderia se destaca.

Arquitetos de pista

Como visto, os traçados influenciam e muito nas performances dos carros. Mas, como seria o processo de desenhar uma pista? Alfredo Rodrigues, engenheiro que projetou o Circuito dos Cristais, que hoje é uma das etapas da Stock Car, conta que o primeiro fator é ter um terreno onde trabalhar. A análise deste é muito importante, e o engenheiro costuma separá-la em 3 características: topografia, geologia e meio ambiente. A primeira envolve ”como as elevações e depressões do terreno podem criar oportunidades e restrições ao desenho do traçado”.

Traçado do Circuito dos Cristais, localizado em Minas Gerais (Imagem: Circuito dos Cristais/Divulgação)

A geologia, explica Alfredo, interfere muito no financiamento do projeto.”A presença de rochas encarece muito o processo e é preciso desviar delas se os recursos financeiros forem limitados”, conta ele. Já o meio ambiente é uma questão mais burocrática. Diversos aspectos legais podem atrapalhar o desenho da pista. ”Existem muitas restrições ambientais. Intervir em recursos hídricos ou suprimir vegetação é sempre complicado. No caso do Circuito dos Cristais, a presença de árvores protegidas por lei, exerceu grande influência no desenho do traçado”.

Apesar de não estar relacionada ao terreno, a segurança também é outro fator a ser levado em consideração. ”Existem regulamentos específicos da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e da Federação Internacional do Motociclismo (FIM) para projeto e construção de circuitos. Uma pista pode ser classificada em vários níveis”. Existem diferentes licenças que a FIA expede para cada traçado. A de grau 1 – a mais difícil de conseguir – é a que permite que uma pista seja utilizada em corridas oficiais na Fórmula 1. Diversos fatores, como a largura da reta de largada, elevação máxima da pista e exigências na área de escape, são avaliados com rigor para decidir se haverá algum tipo de licença e qual, procurando dessa forma manter público, funcionários, imprensa e principalmente pilotos com a maior segurança possível.

Alfredo explica que, no caso do Circuito dos Cristais, há ainda um enorme potencial para modificações no traçado: ”trabalho para que o Circuito dos Cristais possa ser melhorado continuamente. Ela não está encurralada por ocupações vizinhas”.

A pista portanto, deve equilibrar todos esses fatores. Na Fórmula 1, temos ainda a polêmica da substituição de curvas rápidas por chicanes – desvio proposital do traçado, para a diminuição de velocidade – prática que vem ocorrendo desde a morte de Senna, para dar mais segurança para os pilotos. ”Esportivamente pode parecer ruim e os pilotos sempre reclamam. O problema é que os carros se tornam cada vez mais rápidos e as pistas têm limitações para expandir áreas de escape. Isto é inevitável em algumas categorias”. Fazio, diz que a diminuição de velocidade não é o problema, visto que muitos traçados travados apresentam boas corridas, usando como exemplo o GP da Hungria nos últimos anos.

Muitas pistas novas vêm sendo construídas por Hermann Tilke, o que as torna de certa forma, homogêneas. Responsável pelos GPs do Azerbaijão, Áustria, Malásia, Bahrein, Alemanha, entre outros, o alemão divide opiniões. ”’Muita gente reclama que os autódromos novos são todos com traçado muito parecido, é tudo o mesmo tipo de curva” opina o repórter.

Pilotos

Muito se especula, hoje em dia, da real diferença que os pilotos fazem no automobilismo, por causa da evolução dos carros. Fazio conta que, em pistas muito complicadas, como Mônaco, onde qualquer erro pode tirar o piloto da corrida, faz sim muita diferença. Porém, em pistas mais fáceis como Monza, o carro tem uma maior influência. A qualidade dos carros tende a impactar mais do que quem os conduz nesses casos, principalmente em uma categoria onde todos os atletas são de alto nível.

Já sobre as características dos pilotos, como alguns andarem melhor em pistas rápidas ou o contrário, ele é mais cético: ”eles podem ter circuitos favoritos, e outros que gostam menos, mas é difícil esse fator fazer muita diferença. A tendência é que, se ele é bom mesmo,vai andar bem em tudo que é lugar; e se ele é ruim mesmo, ele vai mal em todos, conta ele.

Pneus

Traçados que geram maior degradação exigem pneus médios e duros, como em Barcelona e Silverstone, enquanto aquelas com menor degradação – Mônaco ou Canadá, por exemplo –  necessitam dos macios ou ultramacios. De acordo com Fazio, isso depende da estratégia da equipe. Chuva ou um safety car podem mudar totalmente a forma como cada piloto pensou a corrida e, consequentemente, seus pneus.

Essa degradação de pneus está relacionada a alguns fatores. Primeiramente, ”’circuitos com curvas de alta velocidade, com freadas fortes, têm a tendência de desgastar mais os pneus”, explica. Outro fator é a idade do asfalto. Assim, se ele é mais antigo e gasto, causará maior degradação. E por último a temperatura. A corrida ocorrer em um dia quente, por exemplo, como sempre ocorre no Brasil, também ajuda na deterioração dos compostos.

Pista Favorita

Com diferentes características e influências, cada um prefere um tipo de traçado. Fazio relata que na Fórmula 1, seu circuito favorito é Spa. ”A experiência que eu tenho é de quem joga videogame. Mas, mesmo a partir disso, é um circuito que você já consegue perceber que é desafiador, que exige muito do piloto e é divertido de pilotar”. Ele destaca também a diferença do relevo.

Alfredo prefere Suzuka, no Japão. ”É uma pista com trechos de alta e baixa velocidade dispostos de forma muito equilibrada, divertida e seletiva. Este circuito foi acomodado em um terreno extremamente pequeno e ainda assim tem um ótimo tamanho, e boa segurança. É uma façanha de design e engenharia”, complementa o engenheiro.

Arquibancada
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