Home Rússia 2018 A final improvável: a favorita e o azarão
A final improvável: a favorita e o azarão
ARQUIBANCADA
14 jul 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por César Costa e Tiago Medeiros 

(Imagem: Fifa via Getty Images)

França e Croácia passaram por muitas dificuldades até alcançarem a tão sonhada final na maior competição do futebol. Representando suas nações, a seleção francesa, com um título de campeã mundial em 1998, e a equipe croata, mais jovem, que disputou sua primeira Copa apenas em 1998, querem gravar seu nome na história. Venha com o Arquibancada saber tudo sobre esses dois países antes desta final inédita de Copa do Mundo.

Dois anos após o fracasso da Eurocopa em suas próprias terras, os franceses voltam a uma final com o favoritismo ao seu lado e a esperança de retomar a glória máxima do futebol

Volte ao ano de 1998, Copa do Mundo da França. No Stade de France, a seleção da casa alcança o tão sonhado título mundial pela primeira vez, logo contra o Brasil. Uma final em que, apesar das inúmeras histórias e conspirações, não se pode negar que a seleção francesa foi superior nos 90 minutos.

Vinte anos se passaram desde o feito histórico para o futebol francês. Nesse meio tempo, houve a frustrada campanha conseguida na Alemanha em 2006, em que Zidane acabou manchando sua carreira com um final trágico. Foram os italianos que, depois da disputa de pênaltis, consagraram-se tetracampeões mundiais de futebol em cima dos Les Bleus (Os Azuis, em francês).

Agora, em território russo, com um time recheado de craques, segura o posto de única seleção tratada como favorita antes do mundial que conseguiu cumprir com as expectativas. A equipe comandada por Didier Deschamps – atual técnico e volante do time campeão em 1998 – tenta alcançar o lugar mais alto do futebol, deixando de lado o favoritismo e buscando apenas seguir jogando da mesma forma eficiente que a trouxe até o estádio Luzhniki, em Moscou.

Favoritismo esse que, na Eurocopa de 2016, acabou sendo prejudicial ao time, que viu Cristiano Ronaldo e seus compatriotas conquistarem o troféu em cima dos franceses no mesmo Stade de France. Paul Pogba, atual meio-campista da seleção da França e remanescente da equipe de 2016, deu declarações de que, realmente, após a semifinal vencida contra a Alemanha, os donos da casa já comemoravam a conquista da taça. Para essa final, Pogba afirma que os jogadores estão mantendo a humildade e permanecem concentrados para a grande partida decisiva.

Entre o time de dois anos atrás e o elenco levado à Rússia não existem muitas mudanças. Deschamps seguiu com confiança em seus comandados mesmo com a derrota sofrida na Euro e manteve o planejamento para a Copa. Apesar da convocação da seleção para esse mundial ter levantado algumas desconfianças por conta de ausências tratadas como erros pela imprensa, o plantel francês mostrou-se completamente preparado e capaz de fazer frente na busca pela Copa do Mundo.

Nomes como os atacantes Alexandre Lacazette, do Arsenal, e Anthony Martial, do Manchester United, foram deixados de lado na convocação final. O volante Adrien Rabiot, do Paris Saint Germain, também foi preterido pelo comandante da seleção francesa e mostrou-se totalmente frustrado com essa decisão. Através de uma carta, o jogador se recusou a estar presente na relação de suplentes para o mundial (utilizada caso algum atleta se lesione durante a preparação).

Outros dois atletas não tiveram seus nomes colocados na lista, porém, em seus casos, há a justificativa de lesão. O zagueiro Laurent Koscielny, do Arsenal, e o meio-campo Dimitri Payet, do Olympique de Marseille, nomes importantes no time titular francês durante a Euro 2016, não se mostraram aptos a prática futebolística a tempo da convocação e ficaram de fora do mundial.

Elenco francês selecionado e confiado por Didier Deschamps (Imagem: Oficial/Seleção Francesa)

No entanto, com algumas surpresas, o time mandado a campo por Deschamps na Rússia conseguiu convencer a imprensa de que ele tem, em suas mãos, ótimos jogadores com capacidade de conquistar a Copa do Mundo para os Les Blues.

O time titular começa com o seguro e confiável Hugo Lloris, do Tottenham, goleiro de longa data da seleção francesa. A defesa passa pelos dois zagueiros: Raphael Varane, do Real Madrid, e Samuel Umtiti, do Barcelona. O primeiro, zagueiro titular do vitorioso Real Madrid, que acaba de faturar a terceira Champions League seguida; já o segundo, é o substituto de Koscielny e está conseguindo fazer uma Copa impecável, além de ter sido o herói da semifinal disputada contra os belgas.

As laterais ficam por conta de, pelo lado direito, Benjamin Pavard, do Stuttgart, jovem zagueiro que, apesar de estar sendo improvisado, vem surpreendendo muito a todos por sua segurança defensiva – vale a pena ressaltar também seu golaço feito contra a Argentina nas oitavas de final. Pelo lado esquerdo, a grande incógnita do time foi sanada por Lucas Hernández, do Atlético de Madrid, jovem lateral que, apesar de ser reserva do brasileiro Filipe Luís em seu clube, mostra muito potencial.

A espinha dorsal do time passa pelos três meio-campistas: N’Golo Kanté, do Chelsea, Blaise Matuidi, da Juventus, e Paul Pogba, do Manchester United. Os três conseguem entregar a dinamicidade e leveza necessária para que o time consiga transitar com facilidade a bola da defesa para o ataque. Todos possuem características defensivas e ofensivas, algo que ajuda muito na flexibilidade e nas trocas de posição da equipe. No entanto, Pogba possui mais liberdade para atacar e municiar o trio de ataque à sua frente.  

A tríade responsável pelos gols da seleção francesa é formada por Antoine Griezmann, astro do Atlético de Madrid, atacante responsável pelas bolas paradas dos Les Bleus e letal na frente do gol; Olivier Giroud, do Chelsea, centroavante que tem sua presença no time titular contestada pela imprensa e que ainda não conseguiu marcar nessa Copa; Kylian Mbappé, jovem de 19 anos sensação do time francês que chama a atenção por sua grande velocidade e pelo faro de gol muito apurado, mesmo com a pouca idade. Mbappé é visto também como o principal candidato a melhor jogador da Copa, caso sua seleção conquiste o torneio.

Mbappé, apesar da juventude, mostra muita maturidade para carregar o estrelato no time francês (Imagem: Franck Fife/AFP)

O caminho da França até a final mostrou-se desafiador no início da competição, mas, ao decorrer do campeonato, os comandados de Deschamps conseguiram mostrar superioridade em seus duelos e chegam à partida decisiva com uma certa confiança e com seu futebol afinado.

Na primeira fase, os franceses enfrentaram as seleções da Austrália, Peru e Dinamarca. Apesar de possuir um nível técnico tratado como muito superior em relação a essas equipes, a seleção francesa não deslanchou. Venceu os australianos e peruanos por apenas um gol de diferença, e ficou apenas em um 0 a 0 contra os dinamarqueses, jogo tido como o mais entediante do torneio por parte do público, por conta de ter sido a única partida sem gols da competição. Apesar do não -convencimento, os franceses passaram em primeiro do Grupo D.

Nas oitavas de final, o primeiro grande desafio, a Argentina de Messi e companhia. Apesar de não estar em grande momento, a Argentina sempre é um páreo duro, e as duas equipes fizeram um autêntico jogo de Copa do Mundo: um 4 a 3 para ninguém colocar defeito. Com golaços dos dois lados e drama no final, foi a estrela de Mbappé que brilhou mais forte com dois gols e levou a França para a próxima fase.

Nas quartas de final, os uruguaios que antes tiraram os algozes da França de 2016, vinham fortes, porém desfalcados do atacante Cavani, que acabou fazendo muita falta. Em um lance de bola parada, Varane colocou os Les Bleus a frente, e em uma falha do goleiro Muslera, Griezmann deu números finais a partida.

Na semifinal, os franceses tiveram que enfrentar a sensação do Mundial, que tirara a seleção brasileira do caminho rumo ao hexa, a Bélgica. Cheios de confiança, os belgas travaram uma partida muito disputada contra o time de Deschamps, que acabou sendo decidida por um lance de escanteio. O camisa 7 da França, Griezmann, colocou a bola na cabeça do zagueiro Umtiti, que venceu o goleiro Courtois. A Bélgica até tentou uma reação mas não obteve sucesso, após 12 anos, a França vai disputar novamente uma final de Copa do Mundo.

Os adversários da final são conhecidos pelos franceses, se observar a campanha do título francês em 1998. Em seu melhor resultado em copas, a Croácia chegou às semifinais justamente contra a França, e, como em 2018, um defensor foi quem selou a vitória dos Les Bleus e a ida à final. Os dois gols de Lilian Thuram colocaram seu país à frente dos croatas e confirmaram a decisão contra o Brasil, fato semelhante ao ocorrido na Rússia com Umtiti. No entanto, dessa vez, os croatas serão os adversários da grande final e, como em 1998, apesar do favoritismo francês, com certeza haverá uma partida muito disputada.

Não há dificuldade que não se possa ultrapassar: Croácia teve um caminho torturante e está a um passo de realizar o sonho

Não era favorita para ganhar a competição, não era favorita para passar em primeiro no grupo. A Croácia definitivamente não foi a primeira seleção que veio na cabeça dos brasileiros quando se tratava de favoritos para vencer a Copa do Mundo. Espanha, Alemanha, Argentina, Brasil, Bélgica, Portugal… Isso sem contar as seleções que nem foram para a competição como Itália, Holanda e até mesmo Chile. Essas seriam cogitadas antes da jovem seleção do leste europeu que só tem quatro Copas na bagagem.

De 1930 até 1994, a Croácia ainda pertencia a Iugoslávia. Após a separação do antigo país, a seleção croata pôde disputar sua primeira Copa em 1998, chegando em terceiro lugar naquela ocasião – de quebra, ficou com o artilheiro da competição, Davor Šuker, com seis gols.

Em 2018, apesar dos bons resultados apresentados, nem tudo foi flores antes da chegada à Rússia. Zlatko Dalić, o atual treinador, assumiu a Croácia apenas em outubro de 2017. Na ocasião, era necessário vencer a Ucrânia para conseguir garantir-se nos playoffs para a Copa. Uma derrota significaria o fim do sonho, o que não aconteceu, felizmente para Dalić. O técnico ainda teve de passar pela Grécia, mas foi menos dramático: 4 a 1 em casa, 0 a 0 fora, e a Croácia estava na Copa.

Muita qualidade que estava escondida aos olhos do mundo (Imagem: Marcelo Theobald/Agência O Globo)

Atualmente, a seleção conta com diversos craques do cenário europeu, porém não chegou a ser tão badalada ao ponto de ser considerada uma geração sensacional como a belga. Entre os 23 convocados por Zlatko Dalić destacam-se: Šime Vrsaljko, do Atlético de Madrid; Ivan Perišić, da Internazionale, que vem fazendo uma Copa fantástica; Ivan Rakitić, do Barcelona, responsável por converter as penalidades decisivas nas oitavas e nas quartas; Mario Mandžukić, da Juventus, um dos artilheiros da seleção com dois gols, e a principal estrela, Luka Modrić, do Real Madrid.

Modrić ganhou tudo que podia enquanto jogador do Real Madrid e, agora, com a 10 e a faixa de capitão de sua seleção nacional no braço, é uma das principais engrenagens na máquina croata. Longe de ser um favorito no início do torneio, mas agora uma realidade, Luka pode vir a ser eleito o melhor da competição.

Para se ter noção da qualidade deste elenco, ainda há outros nomes de relevância internacional que não foram citados, como Dejan Lovren, finalista da última Champions League pelo Liverpool, Marcelo Brozović… A seleção inteira é composta por bons jogadores, e os resultados não foram por acaso.

Na fase de grupos esperava-se que passasse, mas não da forma que foi. Apenas três seleções nesta Copa passaram com nove pontos na fase de grupos: Uruguai, num grupo mais tranquilo com Rússia, Arábia Saudita e Egito; Bélgica, enfrentando as fracas seleções do Panamá e da Tunísia e vencendo num confronto de times B contra a Inglaterra; e, por fim, a Croácia, passando por cima de Nigéria e Islândia, e ainda com direito a um atropelo por 3 a 0 sobre a tradicional seleção da Argentina. As três vitórias conquistadas na fase de grupos criaram muitas expectativas para a seleção croata. Porém, as eliminatórias foram bem menos tranquilas.

Três prorrogações consecutivas. Primeiro contra a Dinamarca: Modrić perdeu um pênalti aos 10 minutos do segundo tempo da prorrogação, mas se redimiu na disputa de penalidades, da qual a Croácia saiu vitoriosa. Depois contra a Rússia, anfitriã da Copa: nesse jogo, ambas as seleções marcaram na prorrogação, com a Croácia saindo na frente e levando o empate em sequência. Mas, de novo, nos pênaltis, passou. Por fim, a Inglaterra: dessa vez, aprendeu com o erro do último confronto – 1 a 1 no tempo regulamentar e 2 a 1 na prorrogação.

Vale lembrar que esses 90 minutos a mais de jogo podem pesar fisicamente contra a França, que não disputou nenhuma prorrogação.

Num time de gigantes que só cresceu até a final, Mandžukić pode fazer a diferença (Imagem: Agência Reuters)

Apesar de ser muito conhecida por sua qualidade técnica, para a seleção croata também não falta coração. Maior símbolo disso, Mandžukić mostrou que não há bola perdida. Os seus dois gols nas fases eliminatórias explicam por si só: o centroavante que fica dentro da área e vai em direção a qualquer bola que sobre, não importa se há poucas chances de alcançá-la. Concentração máxima e voluntariedade ao extremo. Características de quem, mesmo não sendo primor com a bola nos pés, é mais do que apenas um em campo. Com essa vontade e determinação aliadas à qualidade, é realmente um páreo duro para os franceses enfrentar essa zebra xadrez.

Só nos resta agora, esperar por esse momento mágico do futebol que nos é agraciado a cada quatro anos e veremos, então, como a história será escrita. Se repetirá o desfecho do embate ocorrido há 20 anos ou veremos um novo capítulo formando-se na saga dos campeões mundiais?   

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