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A música trap e o drip da periferia
Escuta Aí
10 fev 2021 | Por Pedro Ferreira (umpedroferreira@gmail.com)

Com ouro e prata nos dentes, Raffa Moreira comemora a primeira vez que ganhou 10K em um mês por conta própria. Jé Santiago, com “Juliet, Oakley, Michael Kors” e sua “nave sem o teto”, corre contra o tempo atrás do Diñero. A carioca Ebony também ostenta seu kit: “Nike, Supreme, Adidas e Fila”. Versace ela não tem, “mas já está na list”. As músicas citadas fazem parte de um universo em expansão pelo Brasil e pelo mundo, um estilo musical cru e transformador da realidade social para muitas pessoas. Frequentemente comparado ao funk, devido às similaridades entre suas origens, e ao rock, pelo domínio comercial dentro da indústria da música, o trap veio para ocupar seu próprio espaço e tomar seus rumos de forma independente.

O trap é um subgênero do rap marcado pelo uso de sintetizadores e graves pesados nas batidas acompanhados por um timbre mais melódico das rimas com auto-tune; uma fusão do hip-hop com a música eletrônica. Ganhou popularidade nos anos 2000 em Atlanta, capital do estado da Geórgia nos Estados Unidos, e seu nome faz referência às casas utilizadas por traficantes para vender drogas, as chamadas traps

O gênero se manteve no cenário underground nos primeiros anos, mas aos poucos conquistou mais espaço e se tornou um dos estilos musicais mais conhecidos e influentes da indústria fonográfica estadunidense. Rappers como Travis Scott, Lil Uzi Vert e a dupla Rae Sremmurd se estabeleceram nas paradas de sucesso do país com o estilo, enquanto artistas pop como Ariana Grande, Beyoncé e até mesmo Taylor Swift também incorporaram elementos de trap em algumas de suas músicas. No Brasil, de acordo com dados do Spotify, o consumo do gênero teve em média um aumento de 61% a cada ano entre 2016 e 2019. No YouTube, os clipes dos maiores trappers nacionais acumulam milhões de visualizações.

Muito mais do que apenas sexo, drogas, dinheiro e crime, o trap é uma celebração da melhoria de vida para pessoas periféricas através da fama e um grito de indignação contra o racismo e a desigualdade social. Essas características são atrativas principalmente para um público jovem que se identifica com as letras diretas e a cultura em volta do gênero. Por esse motivo, o ritmo é presença confirmada nos fones de ouvido e nas caixas e mesas de som das periferias.

A história do gênero

A cidade de Atlanta é o berço do trap. Desde os anos 1990, alguns produtores e rappers locais já exploravam alguns de seus sons característicos. A dupla UGK fez sucesso com Pocket Full of Stones e Cocaine in the Back of the Ride, faixas que contam com o uso de bateria sintetizada, e Master P incluiu sons eletrônicos em Mr. Ice Cream Man. Durante os anos 2000, o gênero chegou ao mainstream através de rappers do sul dos EUA que o incorporaram em suas produções, como Gucci Mane — que teve sua estreia com o álbum Trap House —, T.I., Lil Wayne e Rick Ross.

Na última década, o trap se manteve presente de maneira quase ininterrupta nas paradas de sucesso dos EUA, especialmente entre as dez músicas mais vendidas na Billboard Hot 100. Em 2013, o DJ Baauer emplacou a faixa Harlem Shake em primeiro lugar após a música viralizar nas redes sociais. Ainda que com uma roupagem mais próxima da música eletrônica, ela foi responsável por levar o trap ao conhecimento de um público mais voltado ao pop. Sicko Mode, de Travis Scott; Bad and Boujee, do grupo Migos com Lil Uzi Vert; e Rockstar, de Post Malone com 21 Savage, são algumas das músicas que repetiram esse feito.

No Brasil, o lugar de origem do trap é alvo de disputa. Guarulhos, o principal cenário do gênero no estado de São Paulo, foi onde Raffa Moreira e Klyn surgiram e ganharam reconhecimento através de faixas como Fiat 1995, parceria entre os dois trappers e Dreyhan, lançada em 2015. Em paralelo, a cidade de Vitória, no Espírito Santo, sediou as festas organizadas desde 2013 pelo coletivo Red Room, composto pelos artistas Naio Rezende, Luanna, WC, NOX Cachorro Magro e outros associados. O baiano Baco Exu do Blues e o pernambucano Diomedes Chinaski também utilizaram o estilo para exaltar os rappers nordestinos na polêmica Sulicídio, lançada em 2016. 

Nos últimos anos, o gênero ganhou hits como Bro, de Raffa Moreira, e Kenny G, do cearense Matuê. O coletivo paulistano Recayd Mob se consolidou com a faixa Plaqtudum, de 2018, cujo clipe conta com mais de 100 milhões de visualizações no YouTube.

 

Artistas de trap em pé reunidos em uma sala

Derek, MC Igu, Dfideliz e Jé Santiago do coletivo Recayd Mob. [Imagem: Reprodução/Instagram]

A produção independente

Não só o trap é consumido por refletir as vivências dentro das periferias, como também é referência para quem está no começo de uma carreira musical, seja através da produção ou das rimas. O ritmo cada vez mais se mostra como uma opção para quem não conta com instrumentos e outros equipamentos necessários para as gravações. Os programas de edição de áudio, aplicativos de alteração de voz e tutoriais disponíveis na internet auxiliam pequenos produtores e artistas a conseguirem fazer um som de qualidade dentro das limitações técnicas.

Ebony é um grande exemplo disso. Influenciada pelo grupo estadunidense Migos, começou a brincar com um aplicativo de alteração de voz para enviar a seus amigos, que apontaram seu potencial e a incentivaram a investir nas rimas. “Eu acho que não é exclusivo do trap, qualquer pessoa que quer algo busca fazer da forma que dá. Eu queria fazer música e fiz”, ela conta.

 

Artista de trap Ebony, com cabelos soltos e blusa em tons de azul e vermelho

Ebony, artista e modelo carioca. [Imagem: Reprodução/Instagram]

Em 2019, ela estourou com Bratz, parceria com o produtor L3OZIN, e em julho de 2020 lançou seu primeiro EP, Condessa. Ao lado de nomes como Clara Lima, Karol de Souza e Taya, ela reclama o espaço das mulheres dentro do gênero. “Dizer que tem mais mulheres crescendo no trap é relativo se compararmos com a quantidade de homens que crescem. Mas definitivamente mais mulheres estão tentando e isso que importa”, afirma.

Em Poá, município da zona leste da Grande São Paulo, a cena cultural independente movimenta a região do Alto Tietê. O coletivo Unknown Weird Kids e a festa Instância Cabulosa reúnem jovens de todos os estilos no consumo e criação de arte. O produtor e DJ GR?G é um deles. Ele, que tem como referências no trap nomes como Astroboy Cold, Lil Uzi Vert, Derek, Princess Nokia e Rico Nasty, começou a postar seus beats no serviço de streaming Soundcloud, que considera ser o berço para artistas independentes underground. Além do trap, explora outros gêneros como funk, house, techno e pop em suas criações por se importar mais com o processo de produção do que com o estilo musical definido:

 

Produtor de trap GR?G, com camiseta preta, mão esquerda sobre o rosto, contra um fundo de folhas verdes

GR?G, produtor independente de Poá. [Imagem: Reprodução/Instagram]

“Eu sempre pensei em produzir rap. Desde pivete ouvia bastante, mas eu achava que precisava de vários equipamentos, que precisava manjar de várias coisas de música, e meio que deixei isso de lado. O meu primeiro contato com produção musical foi no começo de 2018. Comecei querendo fazer alguns lo-fis com samples de MPB, alguns cloud raps, e a partir de então foi um momento em que eu tinha certeza que só precisava de um notebook e ideias. O que me atrai é entender desde a concepção da música até todo o universo acerca do objeto artístico, quais sonoridades, sentimentos e ritmos serão criados”.

Em Guarulhos, o trap influenciou as primeiras criações de Thiago, conhecido como Kunde. Aos dezesseis anos, ele gravou a música Te Querer Bem com sua amiga Laura para um show de talentos de sua escola. Um vídeo da apresentação dos dois fez sucesso no Twitter e chamou a atenção da Damn Producers, uma produtora independente, que convidou os dois para gravar a música e seu clipe. 

Seu pai conquistou quatro vezes o Campeonato Mundial de Capoeira e possui uma fábrica de instrumentos afro-brasileiros. Isso influenciou a musicalidade de Kunde e o fez ter como referências os ritmos samba de roda, jongo, tambor de crioula, frevo, blues e jazz, além do próprio trap.

Atualmente, Thiago estuda na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e trabalha no Ministério Público de São Paulo. Ele conta que decidiu dar uma pausa na música e entrar em uma instituição estatal para levar os aprendizados adquiridos para suas próximas produções, que visam ser mais politizadas. “A música, para mim, é um instrumento no qual eu posso mostrar para as pessoas tanto críticas quanto propostas de mudança do sistema econômico, político e cultural no qual a gente vive”, afirma.

 

Artista de trap Kunde, com camiseta clara, jaqueta jeans, óculos e faixa vermelha na cabeça

Kunde, artista independente de Guarulhos. [Imagem: Reprodução/Instagram]

O maior problema enfrentado por produtores e artistas independentes no Brasil é o alto custo envolvido na compra de equipamentos para realizar suas produções e na divulgação do trabalho, o que demanda um investimento muitas vezes inviável para quem está começando. “A música não é nada democrática, ela precisa de dinheiro investido para se movimentar. Então não é raro a gente ver vários artistas de muita qualidade que, por não terem investimento necessário, acabam não sendo escutados”, complementa Kunde.

GR?G afirma que, para contornar essa dificuldade, foi necessário ser autodidata. Começou a produzir apenas com um notebook e um fone de ouvido e aprendia técnicas de gravação e edição com tutoriais no YouTube. 

A conexão com a periferia

GR?G acompanhou o crescimento do trap no Brasil e enxerga semelhanças dele com o funk em relação ao sucesso do gênero nas periferias: “Acho que a identificação acontece porque o trap, assim como o funk, dialoga com coisas que jovens periféricos lidam, tipo crime, drogas, dinheiro, festa, superação, etc. Mas principalmente porque agora temos vários exemplos de artistas da quebrada que eram underground e conseguiram crescer na música, tipo Raffa Moreira e MC Caveirinha”.

“A conexão com o trap veio principalmente por escrachar uma realidade que é muito incômoda à classe média e à elite brasileira, que apontam as periferias como algo violento e como um problema. E os trappers começam a expor isso de uma forma que mostra que, na verdade, quem deu causa a todas essas problemáticas são as próprias pessoas que estão apontando o dedo”, comenta Kunde.

O crescimento do gênero também abriu margem para discussões. Alguns admiradores do rap tradicional se mostram relutantes com as letras ostentadoras e as atuais sonoridades em destaque, enquanto quem acompanha o novo estilo desde sua origem critica a ascensão e o protagonismo de artistas não-periféricos. “Eu acredito que, hoje, o trap tenha muito mais amplitude por ter sido capturado por um consumo de massa que não necessariamente cumpre com aquela primeira proposta de falar sobre a favela, de expor essa realidade”, afirma Kunde.

Seja como instrumento de ascensão social ou de politização, o trap é diariamente utilizado para alimentar sonhos e esperanças daqueles que com frequência são incentivados ou até obrigados a abandoná-los. É um ritmo que expõe a realidade tal como ela é, sem filtros ou eufemismos e sem medo de incomodar. Um legado de autoafirmação das novas gerações que abriu caminho para que mais jovens possam explorar suas potências. Sobre suas perspectivas para o futuro, GR?G afirma: “A meta é viver de música. Fazer dinheiro, ter meu estúdio, produzir e dar voz a mais artistas da quebrada”.

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