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A Paleta por trás das películas: Como as cores ajudam um filme a contar sua história?
CINÉFILOS
27 fev 2021 | Por Guilherme Caldas (guilhermecaldas@usp.br)

Muitos fatores ajudam o roteiro de um filme a contar a sua história e a atingir e emocionar o espectador. A música, o enquadramento, o cenário e vários outros. Mas, um dos principais, e muitas vezes pouco percebido pela audiência, é o uso das cores. Por isso, este texto do Cinéfilos irá explorar como a paleta de cores influencia o espectador e ajuda a construir uma boa narrativa.

O uso das cores sempre foi parte da arte. Obras renascentistas, barrocas, românticas e de várias outras escolas artísticas exploram o uso das cores para transmitir os mais variados sentimentos. Com a evolução da arte e o surgimento de novas artes – como o cinema – não seria diferente.

Desde o começo do cinema, os diretores atentam para a escolha de cores em seus filmes. De maneira mais analógica nos primeiros anos do cinema, e mais digital hoje em dia, esse cuidado sempre esteve presente. Mas, como essas paletas são usadas e como elas nos afeta?


A História das cores no cinema

Quando os filmes ainda eram em preto e branco, o principal método de inserção de alguma cor nas obras era por meio de filtros. Os realizadores adicionavam um filtro de determinada cor para gerar algum efeito ou para dar um ar mais realista às obras.

 

Cena de Viagem à Lua(Voyage dans lá lune, 1902), um dos primeiros filmes coloridos manualmente. Imagem: Reprodução/Filmoteca de Catalunya

Cena de Viagem à Lua (Voyage dans lá lune, 1902), um dos primeiros filmes coloridos manualmente. [Imagem: Reprodução/Filmoteca de Catalunya]

Um outro meio de colorir os filmes era manualmente. Os diretores e produtores dos filmes pintavam à mão fotograma por fotograma com o mesmo fim dos filtros, ampliar o realismo, só que de maneira mais artística e mais realista, como colocando cores em uma roupa do personagem, ou em algum elemento do cenário que precisaria da cor para auxiliar a narrativa.

No fim da década de 1930, com a transição dos filmes de preto e branco para colorido, as possibilidades do uso das cores foram expandidas e permitiram, assim como é feito hoje, que a Teoria das Cores fosse explorada também no cinema, como já era feito na publicidade ou no design gráfico.

Com a digitalização dos métodos de filmagem e edição, a colorização também foi digitalizada, o que ampliou ainda mais a possibilidade de que os diretores aplicassem a teoria com ainda mais detalhes e precisão. Mas afinal, o que é essa “Teoria das Cores”? 


A Teoria das Cores

Estudadas há muito tempo pela arte e pela psicologia, as cores têm o poder de causar respostas físicas e psicológicas na audiência. Ainda que não seja uma ciência exata, em que o uso de uma cor causa necessariamente determinada reação, a Teoria das Cores estuda como uma imagem ou um filme, com o arranjo certo, pode manipular as emoções e influenciar a impressão do espectador.

Um dos primeiros a estudar o efeito psicológico delas foi o escritor e cientista alemão Johann Wolfgang von Goethe que, numa tentativa fracassada de refutar a teoria sobre a formação das cores do físico inglês Isaac Newton, acabou explorando de maneira mais profunda o impacto da cor na mente humana. Devido ao prestígio de Newton, a teoria de Goethe foi pouco reconhecida à época. Só no século 20 foi reavivada e aprofundada por estudiosos da gestalt, um movimento científico-filosófico alemão que buscava compreender melhor as formas e os elementos do mundo. Entre eles, as cores.

 

O círculo das cores proposto por Goethe. [Imagem: Reprodução/Editora Nova Alexandria]

O círculo das cores proposto por Goethe. [Imagem: Reprodução/Editora Nova Alexandria]

Nesses estudos de Goethe, somados aos acréscimos e aprofundamentos dos estudiosos da gestalt e mais diversos estudos modernos, é que se baseia o que conhecemos hoje como a Teoria das Cores.


As cores e nós

Ainda que não estabeleça uma resposta exata e precisa da mente humana às cores, a teoria busca estimar essa reação que temos ao vê-las. É assim que as obras visuais e audiovisuais, como filmes, comerciais, fotos e outdoors, planejam as cores que usarão.

De maneira simplificada, podemos estabelecer relações como o azul trazendo uma sensação de calmaria, por exemplo. Porém, aprofundando a análise, tem-se, mais do que cores, combinações delas que nos trazem determinadas sensações.

Para representar essa gama de combinações, convenciona-se usar um círculo cromático. Um círculo baseado nas cores “descobertas” por Newton em que estão organizadas de uma maneira específica, de modo a deixar algumas próximas e outras opostas para, assim, criar efeitos com as suas combinações.

 

O Círculo Cromático  Imagem: Reprodução/HGTV

O Círculo Cromático [Imagem: Reprodução/HGTV]

Além da divisão entre cores quentes (laranja, vermelho, amarelo, etc.) e frias (Azul, verde, etc.), o círculo cromático estabelece as cores divididas desse modo:

 

  • Cores Primárias: Azul, amarelo e Vermelho:

cÍRCULO CROMÁTICO COM AS CORES PRIMÁRIAS

[Imagem: Reprodução/HGTV]

 

  • Cores Secundárias: Verde, Roxo e Amarelo:

 

Círculo cromático cores secundárias

[Imagem: Reprodução/HGTV]

 

  • Cores Terciárias: Misturas entre as cores primárias e secundárias:

Círculo Cromático cores terciárias

[Imagem: Reprodução/HGTV]

 

É com as cores divididas assim que a teoria estipula combinações identificáveis em diversos filmes e seus respectivos efeitos, em inúmeros exemplos encontrados em todas as épocas do cinema moderno. Mas, como podemos ver essa teoria na prática?


Os filmes e as cores

Usando as cores do círculo e combinando duas ou mais de um padrão específico (quentes ou frias) criam-se arranjos com elas, chamados de harmonia ou acordes cromáticos. Para esses arranjos atingirem o efeito desejado, existem seis esquemas de cor principais que são usados nos filmes.

O primeiro é o esquema monocromático. Esse esquema mostra a imagem com os diversos tons de uma única cor, transmitindo um efeito de harmonia e suavidade. Esse era o esquema mais usado no início do cinema, em que os produtores utilizavam filtros para colocar as cores desejadas e, assim, criar a atmosfera e sensação que buscavam. 

Um exemplo de filme mais atual com esquema monocromático é Matrix (The Matrix, 1999). Nele, o tom verde que permeia todo o filme dá, ao mesmo tempo, a sensação das telas de computador dos anos 1990 e essa de calmaria, representando os adormecidos pela Matrix.

 

O efeito esverdeado que permeia todo o universo de Matrix [Imagem: Reprodução/Roadshow Pictures]

O efeito esverdeado que permeia todo o universo de Matrix. [Imagem: Reprodução/Roadshow Pictures]

Outro modo de usar o efeito monocromático é o uso de uma única cor em cena, como visto por exemplo em Sin City (2005) ou A Lista de Schindler (Schindler ‘s List, 1993). Nesses casos, a cor usada serve para destacar um elemento do resto do cenário, como a garotinha de roupa vermelha no filme de Steven Spielberg.

 

A garotinha em vermelho no campo de concentração de A Lista de Schindler [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

A garotinha em vermelho no campo de concentração de A Lista de Schindler. [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

O segundo esquema é o das cores complementares, que usa de cores opostas no círculo, combinando uma fria com uma quente e gerando um contraste. Um exemplo de filme que usa esse esquema é O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux destin d’Amélie Poulain, 2001). O longa utiliza o vermelho e o verde para gerar um clima ameno ou tenso, dependendo das cores usadas.

 

A oposição do tom esverdeado do cenário com o tom de vermelho em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain[Imagem: Reprodução/Miramax]

A oposição do tom esverdeado do cenário com o tom de vermelho em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. [Imagem: Reprodução/Miramax]

Outra tendência em Hollywood é a combinação de laranja e azul que, segundo a teoria, contribui para destacar o personagem do plano de fundo nas cenas. Os filmes deixam o fundo azul e os atores em cores mais quentes. Esse é um dos esquemas mais vistos e contribui muito para ressaltar e mostrar a presença do personagem protagonista em cenas que poderiam ofuscá-lo, como em Batman v Superman (2016), em que a aparição da Mulher Maravilha a destaca do resto do cenário.

O terceiro esquema é o de cores análogas que, combinando cores próximas no círculo, gera um tom de harmonia geral na cena. Geralmente, nesse esquema as três cores são divididas em: uma para dominar, outra para dar suporte e outra para dar destaque à cor dominante. Um diretor que usa bastante esses esquemas é Wes Andersen, como em Moonrise Kingdom (2012), em que os tons de amarelo se juntam para dar um tom tranquilo às cenas da trama.

Outro esquema é o triádico. Ele usa cores com intervalos iguais no círculo cromático e gera um tom bastante chamativo. Está geralmente presente em filmes infantis ou descontraídos, mas não só. Outro modo de usar ele é em filmes coloridos de maneira propositadamente “absurda” e estereotipada, como Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), por exemplo.

 

Os tons absurdos da sociedade distópica de Laranja Mecânica [Imagem: Reprodução/Warner Bros]

Os tons absurdos da sociedade distópica de Laranja Mecânica [Imagem: Reprodução/Warner Bros]

Um outro é a chamada harmonia complementar dividida, em que usa-se uma cor, somada às duas vizinhas de sua cor complementar, oposta no círculo. Como por exemplo, vermelho somado a verde claro e verde escuro. Esse efeito dá o mesmo ar do esquema complementar, mas sem o tom de tensão, já que usa duas cores análogas. Assim como o complementar, é usado para criar um clima mais descontraído e arrojado, com um ar menos tradicionalista Por gerar esse clima, é muito visto em filmes mais leves e direcionados ao público jovem, como Homem de Ferro (Iron Man, 2008), e outros filmes do universo Marvel.

O último é o chamado de tetrádico e se baseia em um “retângulo” no círculo cromático usando-se as cores de suas pontas como, por exemplo, laranja, amarelo, roxo e azul. Esse efeito, inclusive por ter menos “regras” em sua composição, é o mais perigoso de ser usado, já que, se todas as cores tiverem a mesma intensidade, o efeito gerado seria o de caos.

É claro que muitos outros esquemas podem ser usados nas produções. Os elencados aqui são os mais usados e mais claros na hora de compreendermos os efeitos causados por eles.

A teoria das cores é extensa e complexa, além de – vale ressaltar mais uma vez – não ser um glossário ou uma ciência exata. Para quem se interessou no tema, uma dica de fonte de informação mais detalhada para adentrar nesse universo é o livro Cores & Filmes: Um Estudo da cor no cinema (Editora CRV, 2011), da pesquisadora Maria Helena Braga e Vaz da Costa, fora outros vídeos e livros que se aprofundam nesses elementos da produção de cinema para além dos roteiros e das atuações.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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