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A parte que falta nos livros infantis
Na Estante
17 dez 2019 | Por Laura Toyama (laura.toyama@usp.br)

O livro infantil A parte que falta, do autor e ilustrador norte-americano Sheldon Silverstein, popularizou-se depois de ter sido tema de um dos vídeos do canal JoutJout Prazer. Lendo de forma emocionada, a youtuber nos cativa pela sensibilidade. De fato, há poucas coisas tão delicadas e que nos trazem lições sutis e importantes sobre a vida. 

Traduzido para o português pela Companhia das Letrinhas, o livrinho de capa dura traz pequenas mensagens e desenhos despreocupados, que parecem ter sido feitos à mão em cada um dos exemplares. Todo em preto e branco, chama a atenção pela simplicidade, que se contrasta com a complexidade das lições que pretende transmitir. Em meio aos traços finos e às palavras curtas, se esconde uma grande reflexão sobre o sentimento de completude e sua busca incessante ao longo da vida.

O personagem principal, uma simpática bolinha, não recebe nome. Tudo o que sabemos sobre ele (o pronome masculino é adotado pelo autor) é que lhe falta uma parte. Seu objetivo? Sair em busca dessa parte que lhe falta, pois acredita que só assim será feliz. Vamos com ele, rolando, cantando, observando a paisagem, numa busca lúdica e divertida por esse pedaço que acredita precisar. No caminho se depara com o cansaço, com a chuva, o sol, besouros, flores e até uma borboleta. Sobre este último encontro, o narrador descreve: “esse era o melhor momento de todos!”.

A música é entoada mais de uma vez durante sua obstinada busca: “Oh, busco a parte que falta em mim, por terras e mares sem fim, asse o pudim, faça o quindim, estou buscando a parte que falta em mim”. O tom divertido é adotado em toda a história e é cativante para desde crianças pequenas até as mais velhas. A linguagem é bem simplificada, combinando com as ilustrações e a historinha. A presença de outros pequenos personagens, ainda que sem falas, em sua maioria, também acrescentam um toque leve.

[Imagem: Reprodução]

Apesar de ser um livro infantil de narrativa simples, A parte que falta traz grande carga emocional e reflexiva. É importante  que existam contos infantis que falem sobre sentimentos e contem histórias de forma mais madura: aprender a entender as subjetividades é a parte que falta.

A obrigatoriedade de leituras, como um todo, nas escolas também é uma pauta a ser levantada. A pesquisa elaborada pela Instituto Pró-livro (IPL) em parceria com o Ibope Inteligência, nomeada Retratos da Leitura no Brasil, traz dados que demonstram que há uma queda no índice de leitura de crianças de todas as faixas etárias. Isso pode significar uma defasagem no processo de aprendizado e de uma marginalização do mercado editorial no país, que já vê horizontes de cortes de verba para a educação. Diante disso, os livros infantis têm uma grande responsabilidade em manter a leitura dentre os jovens no país. Segundo a mesma pesquisa feita pela IPL, as escolas são responsáveis por motivar a leitura de, em média, 73% dos jovens de 5 a 17 anos. 

A popularização de “A parte que falta” foi positiva para reacender a discussão sobre a literatura infantil e os impactos que pode exercer na vida de adultos e crianças. A youtuber Jout Jout foi o exemplo vivo de que uma história simples, feita para crianças, pode emocionar a qualquer um que captar suas subjetividades e sua forma de refletir o mundo. Mesmo dentro de sua simplicidade, Shel Silverstein, em 1981 revolucionou a forma de compreender a literatura voltada para crianças e seu potencial para ensinar importantes lições sobre crescer e sentir.

[Imagem: Reprodução)

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