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A quem se propõe o Flamengo?
ARQUIBANCADA
13 ago 2020 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br)

Não há dúvidas que o Clube de Regatas Flamengo tenha atualmente o elenco mais notório do futebol brasileiro. O Flamengo não é um clube qualquer, tudo que acontece e as decisões em torno da instituição devem ser multiplicadas por 40 milhões. Não é simples.

Nos últimos tempos, o Flamengo não escapou de ter sido também um protagonista em tragédias, estratégias populistas e no corporativismo. Vale a pena questionar até onde vai o real interesse do clube para com seu torcedor e com o desenvolvimento do futebol brasileiro. O momento quando o clube se perde em meio ao seu desejo de grandeza.

O jornalista Cahê Mota, setorista do Flamengo no Globo Esporte há seis anos, deu um retrato geral das especificidades do clube em sua entrevista para o Arquibancada.

 

Popular apesar do clube 

Segundo Cahê, “o que tornou o Flamengo popular não foi o próprio clube, mas a sua massificação. Então, nesse sentido, acho que o clube não vai deixar de ser popular. Mesmo que tenha gestões com decisões impopulares, ele não deixará de ser popular, principalmente pela sua expressão no Norte e no Nordeste”. O jornalista fala de uma predominância já consagrada do Flamengo nessas regiões. Uma pesquisa feita pelo dataFolha em 2018 apontou que no Nordeste, 23% dos torcedores de futebol têm o Flamengo como time do coração, já no Norte, esse número representa uma porcentagem ainda mais significativa, com 37% do público. A relevância do clube nessas regiões é o que torna o Flamengo um time de torcida nacional.

O comentário do jornalista vai de encontro com a pesquisa feita no doutorado de Renato Soares Coutinho, doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), no Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. A tese do pesquisador aponta para as raízes elitistas do Clube de Regatas, que teve sua popularidade “inventada” a partir da década de 1930. Isso porque, anteriormente ao período, o clube era frequentado por um público de classes mais altas.

O contexto histórico do Brasil da época foi decisivo. No período em que a torcida passou a tornar-se um símbolo da brasilidade, muito por influência do rádio, especificamente da Rádio Nacional. O veículo, além de transmitir as partidas do Flamengo para o restante do Brasil, atuava como plataforma de diálogo entre o Estado desenvolvimentista e a massa popular. A popularidade do clube estendeu-se para o país inteiro, dominando, posteriormente, demais classes sociais, não apenas as mais baixas. 

Os recentes posicionamentos do Flamengo, na visão de Cahê, poderiam ser mais criticados pela torcida, se não fossem respaldados pelo histórico vitorioso recente do clube: “Tomar esse tipo de posicionamento é muito fácil enquanto você está ganhando”. No entanto, há  uma recompensa momentânea ao torcedor – devido às várias conquistas recentes – que encontra-se mais distante do clube, longe dos estádios devido ao encarecimento do ingresso ou por não dispor da televisão paga para acompanhar os jogos: “Mesmo que o torcedor não veja o jogo,o momento do time ainda o deixa feliz, ele ainda pode caçoar do rival”. 

A dimensão social do futebol deve ser destacada, principalmente quando se dirige a um clube de massa. Cabe entender a função da transmissão gratuita pois, para uma parcela dos torcedores, o futebol ocupa um dos principais ambientes de socialização e acesso ao lazer, o que justifica o posto do esporte como uma paixão nacional. Cahê diz que “é necessário entender que dentro dos 40 milhões, tem uma parcela considerável que não tem acesso, nem sócio torcedor ou possibilidade de acessar um serviço de streaming”.

 

A tragédia do Ninho   

Atualmente, pouco mais de um ano após uma das maiores tragédias recentes do futebol brasileiro, o Flamengo chegou a um acordo com mais uma das famílias afetadas. Agora, são sete – além do pai de uma das vítimas –, do total de dez famílias afetadas pelo incêndio, a entrarem em acordo com o clube. 

Imagem aérea do Ninho após o incêndio [Imagem: Reprodução/Wikipédia]

Na tragédia, morreram dez meninos das equipes de base do Flamengo, além de três feridos. Após o ocorrido, o clube se prontificou a pagar mensalmente a quantia de R$ 5 mil mensais para as famílias. No entanto, em dezembro, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) concedeu uma liminar determinando um aumento do valor proposto pelo clube, elevando o montante para R$ 10 mil mensais, até que o processo seja julgado de forma definitiva. Os valores estabelecidos entre as famílias acordadas e o Flamengo são desconhecidos devido a uma cláusula de confidencialidade.

Em diversos aspectos, não se pode dizer que uma fatalidade como a do Ninho tenha sido uma surpresa. Na época, a Prefeitura do Rio de Janeiro informou que o Centro de Treinamento (CT) do Flamengo já havia recebido pouco menos de 30 autos de infração por estar funcionando sem o alvará obrigatório. O Corpo de Bombeiros confirmou também que o CT detinha a documentação definitiva da corporação e encontrava-se ainda em processo de regularização. Dessa forma, o local não possuía o Certificado de Aprovação dos bombeiros para combater incêndios em seu funcionamento. 

O incêndio ocorreu enquanto os jovens dormiam no alojamento. De acordo com peritos, a suspeita é de que o incidente fora causado por um curto-circuito em um dos ar-condicionados da instalação. Acredita-se que, pela estrutura ter sido formada por seis contêineres adaptados para dormitórios, o fogo alastrou-se mais rapidamente. 

Em entrevista para o programa Esporte Espetacular, no início de 2020, algumas famílias das vítimas – aquelas que ainda não haviam chegado a um acordo com o clube – comentaram sobre o impacto da tragédia em suas vidas, na mudança de cotidiano e também de perspectivas de vida. Um relato em comum em algumas dessas famílias é justamente a cobrança por uma melhor postura do Flamengo como um clube formador. 

As famílias reclamam do distanciamento da diretoria, reforçando a expectativa que tinham de o Flamengo ser mais que apenas uma empresa do futebol. Sentiram falta de acolhimento por parte do clube. Elas relatam pouca quantidade de tentativas de contato efetuadas pelo clube, além da falta de explicações do ocorrido. Um dos pais comenta, inclusive, sobre o desejo de justiça, para que tragédias semelhantes não voltem a acontecer, e que outros tantos atletas de base mal alojados e submetidos a péssimas estruturas não corram o mesmo risco.

 

O Flamengo e a direita no Brasil 

Não é por acaso que algumas das figuras políticas brasileiras mais influentes revelam publicamente ter simpatia pelo clube de maior torcida no Brasil. Aproximar sua imagem política à um clube popular e vitorioso transmite uma ideia de pertencimento e também de empatia com um grupo muito grande de pessoas, como é no caso rubro negro. No início do ano passado, a diretoria do Flamengo negou em nota dizendo que não se envolve em assuntos políticos. Essa foi a justificativa utilizada para o clube não erguer uma estátua em homenagem ao ex-remador rubro-negro Stuart Angel, torturado e morto pela ditadura militar, em 1971.

Em visita recente à China, o presidente do Brasil Jair Bolsonaro entregou a Xi Jinping um blusão do Flamengo. O presidente exclamou frases de apoio ao clube, pouco tempo antes da final da Copa Libertadores de 2019, em que o Flamengo sagraria-se campeão.

Presidente do Brasil segurando uma camisa do Flamengo

Bolsonaro e Xi Jinping na visita do presidente à China [Imagem: Isac Nóbrega-PR/Flickr Palácio do Planalto]

Pouco tempo depois do The Intercept ter publicado a Vaza Jato, no meio de 2019, Sérgio Moro, principal alvo das denúncias de parcialidade comunicadas pelo veículo, acompanhou Bolsonaro em um dos jogos que o Flamengo fez no estádio Mané Garrincha, em Brasília.

Após ser eleito, o governador do estado do Rio de Janeiro Wilson Witzel teve como um de seus primeiros compromissos oficiais receber um dos candidatos à presidência do Flamengo – hoje atual presidente do clube – Rodolfo Landim. Witzel também compareceu a jogos do Rubro-Negro, além de se dispôr a motivar o treinador Jorge Jesus, em uma determinada época em que havia  dúvidas se o técnico permaneceria no comando do Flamengo. 

Outra conexão importante entre Palácio da Guanabara e o clube está no relacionamento entre Aleksander Santos, diretor de relações governamentais do Flamengo, e Cláudio Castro, atual vice-governador do Rio de Janeiro. Conheceram-se quando militaram pelo Partido Social Cristão (PSC). O vice-governador também marcou presença na posse de Landim no Flamengo.

O deputado bolsonarista Rodrigo Amorim (PSL-RJ), que viralizou na internet posando com a placa quebrada da homenagem feita a Marielle Franco, tem, em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) , uma camisa do Flamengo emoldurada, dada pelo próprio time. Vale ressaltar que o Flamengo classificou como uma gentileza a entrega da camisa do clube ao deputado, feita também por Aleksander, apesar de não a endossar como uma atitude institucional.

Recentemente, a associação entre movimentos políticos de direita e Flamengo fez-se presente novamente. Dentro do imbróglio das transmissões, a segunda final do Campeonato Carioca foi transmitida pelo canal SBT. O presidente Jair Bolsonaro, utilizou-se de sua já consolidada aproximação com a rede de televisão para vincular-se novamente ao Flamengo e declarar seu repúdio à Rede Globo, pela qual acredita ser perseguido politicamente. Em suas redes sociais, o governante posou com a camisa do clube, apoiando a transmissão do canal SBT.

 

A pandemia, a volta do Carioca, transmissões e legado

O jornalista vê uma possível auto suficiência maior dos clubes como algo importante. Mas que também deve ser acompanhada de precauções: “Ao mesmo tempo em que a auto suficiência pode se levantar a novos patamares, também pode representar uma armadilha. Deve haver um equilíbrio nessas situações para que esse desejo não se torne uma arrogância na qual prevaleçam os pontos negativos”. Cahê ainda comenta sobre o caráter inédito da decisão quando aponta que “ninguém no mundo faz isso, nem Real Madrid, Barcelona, Manchester United ou Juventus”. 

Os clubes citados pelo jornalista são grandes potências mundiais, capazes de explorar mercadologicamente outros continentes com muita eficiência, mas ainda não adotaram essa estratégia. Para o setorista, a briga recente envolvendo as transmissões entre Flamengo e Fluminense, na decisão do estadual, carece de planejamento estratégico. Para ele, “comprou-se a briga, sem saber como proceder”. Cahê Mota fala isso, pois toda a pressa e precipitação demonstrou a experimentação dessa nova tentativa dos clubes, dado que o “produto” futebol permanece um pouco indefinido: “Faltou planejamento estratégico em todos os sentidos”.

Na sua opinião pessoal, a discussão em torno das transmissões tornaram-se muito inflamadas. Ele afirma isso, pois será somente em 2024 que não haverá mais contratos de emissora – até  o atual momento, dado que há a possibilidade da negociação  de um novo contrato de transmissão – somente nesse futuro próximo poderá se discutir o assunto com a devida amplitude e complexidade.

Para Cahê, por mais que sempre se fale do Flamengo ressaltando seus 40 milhões de torcedores, o alcance das tecnologias é bem menor do que esse número. Para ele, não há dúvidas que o investimento nas plataformas de transmissão seja uma tendência. Haverão outras tecnologias em 2025: “O que utilizamos hoje estará obsoleto, com novas plataformas e novas estratégias”.

Também é interessante notar a divergência entre a reação inicial da torcida com a cisão, e a repercussão posterior a questão: “Se fizermos uma amostragem acerca do feedback da torcida, inicialmente, no momento da cisão, a avaliação era altamente positiva, porque o clube estaria rompendo com o monopólio e seria dono de si mesmo. A partir do momento em que foi cobrado o valor de dez reais para assistir à transmissão, boa parte desses torcedores que apoiaram inicialmente mudam de postura”, comentou Cahê.

Quando perguntado sobre a questão das transmissões, Cahê levanta uma reflexão como cidadão, não apenas como um profissional da área esportiva. Para o jornalista, vivemos em uma sociedade em que a tecnologia não é bem difundida: “São poucas as pessoas que têm acesso à tecnologia que permita rodar, com uma qualidade mínima, uma partida de futebol por um serviço de streaming”. Essa escolha da diretoria flamenguista, principalmente ao cobrar de seu torcedor o valor de R$ 10 para acompanhar uma partida pela internet, escancara a pura visão do futebol como um negócio.

O jornalista comenta sobre as mudanças da Medida Provisória (MP) aprovada recentemente, e compara com o movimento ocorrido em 1987, na Copa União, quando Flamengo e São Paulo impulsionaram a competição. No entanto, ele pontua o fato de que os clubes da época tiveram uma preocupação coletiva, de construção – destacando a atuação de Márcio Braga, presidente do Flamengo na data. 

Essa união maior culminou na criação do Clube dos 13: os maiores clubes do Brasil negociaram em conjunto os direitos de transmissão e a organização da competição. E, mesmo que 16 clubes brasileiros já tenham se manifestado a favor da MP, o processo atual ocorreu de forma mais fragmentada, com opiniões individualizadas sobre o assunto. 

A percepção da conjuntura atual dá a entender que o Flamengo apresenta uma preocupação em construir um legado para si próprio. Os objetivos do clube encontram-se distantes do interesse de fortalecer o campeonato nacional.

Justamente no âmbito de decisões individualizadas, Cahê complementa que, com o novo formato de negociações, algumas cifras tenderão a aumentar, e nisso entra a participação de clubes grandes como o Flamengo: “Ele já ganha muito mais do que os outros, então a partir de qual valor os outros clubes também vão crescer ou somente o Flamengo vai crescer. Isso tudo é especulação, mas deve ser preocupante”.

A volta precipitada do Carioca ilustrou novamente a frieza administrativa do clube: “Ver o Flamengo jogando dá a entender que está tudo bem”, comentou Cahê. O impacto da transmissão de um jogo de futebol engloba uma dimensão maior do que a vitória ou a derrota, mas todo o cotidiano de uma população.

Não se deve, em nenhum momento, subestimar a capacidade do futebol como um fator social, interligado aos demais setores socioeconômicos da sociedade. Assim como não se deve exonerá-lo de sua responsabilidade social enquanto instituição, mesmo que ressignificada.

 

*Imagem da capa: Wilson Dias/Agência Brasil

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