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A relação inseparável entre música e cinema
CINÉFILOS
02 set 2018 | Por Jornalismo Júnior

Música e Cinema

[Fernanda Pinotti/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

Música e cinema são inseparáveis: um não vive sem o outro. Desde seus primórdios no cinema mudo com um pianista (ou até mesmo orquestras) tocando em salas junto à exibição do filme, até os dias atuais com grandes produções que utilizam os mais modernos sistemas e recursos sonoros, a música sempre esteve presente na história do cinema. Apesar da mudança do uso da música e recursos de som ao longo do tempo, estes ainda são vitais para a cinematografia.

Música e Cinema

Apresentação de um pianista na reprodução de um filme mudo [Alex Brasil]

Como é feita a escolha de uma música para um filme?

Em regras gerais, a trilha sonora de uma produção cinematográfica pode ser dada de duas formas: uma música original (normalmente instrumental) composta para o filme ou uma trilha composta por músicas conhecidas. O processo de escolha de músicas para o filme é passado por um profissional chamado Music Editor (Editor de Música), e é ele que vai receber sugestões do diretor e em contrapartida apresentar músicas e/ou referências para um compositor. Porém nem sempre o Music Editor vai ser presente na produção do filme. O famoso diretor de grandes sucessos, Quentin Tarantino, por exemplo, possui um grande conhecimento musical e tem forte contato com grandes compositores. Exemplo disso é um de seus maiores sucessos Kill Bill: Volume 1 (Kill Bill: Vol. 1, 2003), cuja trilha sonora é considerada uma das mais marcantes do cinema.

A escolha da trilha sonora de filmes é uma escolha artística que descreve o sentimento do diretor para a obra. O diretor Jean-Marc Vallée, por exemplo, utiliza músicas conhecidas para dar um aspecto realista ao filme e assim conectá-lo ao mundo presente. Christopher Nolan, outro conhecido diretor, possui forte contato com o aclamado compositor alemão Hans Zimmer, e normalmente utiliza trilhas sonoras originais em seus filmes.

Algumas dessas músicas originais de filmes ganham destaque e acabam ficando populares por si só. Elas viram parte do cotidiano e nem imaginamos que foram, na verdade, escritas e produzidas especialmente para filmes. Pode-se citar como grandes exemplos dessas músicas:

Eye of the Tiger

A icônica música da banda de rock Survivor foi escrita por encomenda para Rocky III – O Desafio Supremo (Rocky III, 1982). A canção é um dos hits mais famosos da banda, ficando no top 100 das melhores músicas pela VH1. Também está presente nos filmes Asterix e os Vikings (Astérix et les Vikings, 2006) e Debi & Lóide 2: Quando Debi Conheceu Lóide (Dumb and Dumberer: When Harry Met Lloyd, 2003).

Streets of Philadelphia

A música escrita e interpretada por Bruce Springsteen para o filme Filadélfia (Philadelphia, 1993) foi também vencedora do Oscar de Melhor Canção Original em 1994.

Don’t You (Forget About Me)

A canção memorável da banda escocesa Simple Minds foi gravada para a trilha sonora do filme O Clube dos Cinco (Breakfast Club, 1985). A canção viria a se tornar a mais famosa da banda e também é considerada por muitos como uma das canções que ajudaram a definir a década de 1980.

Gangsta’s Paradise

A marcante canção do rapper americano Coolio foi gravada para o filme Mentes Perigosas (Dangerous Minds, 1995). Ele recebeu o Grammy daquele ano pelo single e a música é uma das músicas de rap mais reconhecidas e premiadas até hoje.

Footloose

Footloose é uma canção de Kenny Loggins produzida para o filme homônimo. O single ganhou grande popularidade e permaneceu por três semanas seguidas em primeiro lugar na lista Billboard no ano de 1984.

Skyfall

A canção de Adele foi produzida para o filme 007 – Operação Skyfall (Skyfall, 2012). O single se tornou extremamente popular e foi sucesso comercial, recebendo o Oscar de Melhor Canção Original de 2013.

You’ve Got a Friend in Me

A canção foi composta em 1996 por Randy Newman e Lyle Lovett para o filme Toy Story – Um Mundo de Aventuras (Toy Story, 1995) e foi indicada ao Oscar de Melhor Canção Original. A versão mais conhecida aqui no Brasil por Amigo Estou Aqui foi adaptada por Renato Rosenberg e executada por Zé da Viola.

Ghostbusters

A música composta pelo cantor Ray Parker Jr. fez parte da trilha sonora de Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 1984) e é considerada até hoje como uma das mais marcantes da história do cinema.

(I’ve Had) The Time of My Life

É a canção tema do filme Dirty Dancing – Ritmo Quente (Dirty Dancing, 1987) composta por Franke Previte, John DeNicola e Donald Markowitz. Ganhou o Oscar de Melhor Canção Original de 1988 e é bastante conhecida pela regravação do Remix da banda The Black Eyed Peas com o nome de The Time (Dirty Bit).

Take My Breath Away

Take My Breath Away é uma canção cantada pela banda Berlin, para o filme Top Gun – Ases Indomáveis (Top Gun, 1986). Foi escrita por Giorgio Moroder e Tom Whitlock. Pouco tempo após seu lançamento, a música conseguiu o lugar número 1 nas paradas de vários países, incluindo a primeira posição na Billboard Hot 100. A canção ganhou o Oscar de Melhor Canção Original de 1987.

Qual a importância da trilha musical para um filme?

Primeiramente é importante diferenciar trilha sonora e trilha musical. Trilha sonora é o conjunto de todos os sons presentes no filme, enquanto que a trilha musical, por sua vez, é a trilha de músicas somente.

A trilha musical, em alguns filmes, torna-se o fio condutor na narrativa. O cinema das décadas de 1940/1950 é o momento do auge de uma trilha instrumental orquestral, com grandes referências na música descritiva do século 19. Já nos anos 60, nos Estados Unidos, têm a chegada da contracultura com o rock no cinema, como grande exemplo do filme produzido pelos Beatles, Os Reis do lê, lê, lê (A Hard Day’s Night, 1964), que teve um grande público por conta das músicas presentes na obra. O pós anos 60 é marcado pela retomada de uma trilha instrumental orquestral, com referências de grandes nomes como George Lucas, Martin Scorsese e Brian De Palma, e de seus grandes filmes como Indiana Jones e Star Wars, que usam a música de forma eclética.

Essa retomada do uso da música tradicional de filmes clássicos como …E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939), onde a música estava presente em 90% do filme torna o cinema atual muito mais musical. A trilha musical e a trilha composta ficam mais flexíveis e ganham grande importância no cinema industrial atual.

Como uma música influencia na percepção do espectador?

Emoções, sentimentos, afetos, lembranças… Quantas vezes não despertamos isso assistindo a filmes? A música é poderosa, ela comove, perturba, abala. Em seu livro Unheard Melodies, Claudia Gorbman diz que a música em um filme, de um modo geral, tem que ser inaudível, servir a narrativa com referenciais de emoção. As músicas têm uma autonomia própria de causar emoção, medo, romance, de acelerar ou desacelerar o filme, despertando sentimentos e sensações, contribuindo de maneira decisiva para a construção da narrativa da obra.

A música tem, em alguns momentos, uma relação sinestésica com o espectador, e quando misturada com uma sucessão de imagens, pode nos transportar a lugares para além da tela. Um bom exemplo é o documentário Koyaanisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio (Koyaanisqatsi, 1982) que mostra diversas cidades e paisagens naturais dos Estados Unidos, porém não contém nenhum diálogo ou narração, apenas imagens e músicas justapostas.

Há obras cinematográficas que dão destaque à música por si só e a colocam em primeiro plano, como na clássica cena do filme Bom Dia, Vietnã (Good Morning, Vietnam, 1987) quando é tocada a música What a Wonderful World de Louis Armstrong.

Para exemplificar essa relação de cena e som, temos grandes cenas de filmes que podem ser destacados e que explicam por si só essa relação magnífica entre música e cinema:

A cena inicial de Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting, 1996)

Logo no ínicio do filme já somos apresentados aos personagens principais do filme. Essa ideia genial do diretor Danny Boyle é colocada através da música de Iggy Pop Lust For Life, para dar “vida”, ritmo e contexto à cena de abertura do filme.

Quando é tocado What a Wonderful World em Bom dia, Vietnã (Good Morning, Vietnam, 1987)

No momento que a famosa música de Louis Armstrong What a Wonderful World toca no filme, uma série de imagens aparecem e entram em conformidade com a música, quase tornando naquele momento um clipe musical.

A icônica cena do chuveiro em Psicose (Psycho, 1960)

Considerada por muitos como uma das mais importantes cenas da história do cinema. O episódio em que ocorre o assassinato no chuveiro é ditado pela trilha sonora, que impõe uma sensação de suspense e euforia.

Head Over Heels do Tears for Fears em Donnie Darko (2001)

Aqui o diretor Richard Kelly nos apresenta aos personagens mais relevantes na obra ao som da música Head Over Heels da banda Tears for Fears. A canção produz o ambiente e entonação da cena.

A abertura do filme A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967)

A cena ocorre com o protagonista em silêncio enquanto a música The Sound of Silence da dupla Simon & Garfunkel é tocada ao fundo.

A abertura do filme Apocalypse Now (1979)

A cena de abertura do icônico filme Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, na qual a música da banda The Doors, The End constrói o ambiente da cena.

A cena de lembrança em O Grande Lebowski (The Big Lebowski, 1998)

Em um episódio de lembrança do protagonista, a música de Kenny Rogers, Just Dropped In, é tocada em consonância com a cena.

por Guilherme Roque
guilhermeroque@usp.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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