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Correr: um novo hoby na quarentena
ARQUIBANCADA
09 nov 2020 | Por Natalia Nora Marques (natalianoramarques@usp.br)

Praticar esportes nunca foi exatamente minha melhor habilidade, longe disso, mas eu sempre gostei de como eles me faziam sentir. Calor, cansaço, competição e a sensação de êxtase depois das aulas de educação física, por exemplo, faziam tudo valer a pena. Mas em 2018 eu me formei, e esses jogos semanais acabaram, eu caminhava um pouco por onde eu moro, mas não com o intuito de ser um exercício.

2019 foi o ano do sedentarismo. Eu estava prestando vestibular, o que fazia com que toda a minha energia fosse destinada aos estudos. Minha disposição diminuiu muito, meu estresse aumentou e eu pensava que era apenas culpa desse período complicado. Mas quanto mais perto dos vestibulares eu chegava, mais difícil era lidar com tudo o que acontecia, talvez porque meus únicos exercícios físicos fossem caminhar do metrô até minha casa e subir dezenas de escadas no cursinho para buscar chá.

Quando chegou outubro, ansiedade e estresse estavam saindo do meu controle e me atrapalhando demais, então eu comecei a fazer aulas de dança duas vezes por semana na academia que minha mãe frequentava. E assim eu percebi que minha motivação para praticar esportes ou realizar exercícios era fazer isso em grupo, o que deixava tudo mais divertido e me fazia sentir vontade de continuar. Sem contar que as poucas aulas que eu fiz nesse período me ajudaram demais a aliviar o estresse que eu passava.

Acabei não continuando nas aulas de dança e voltei a não praticar exercícios até entrar para o time de cheer da ECA (Escola de Comunicações e Artes), mas logo os treinos presenciais precisaram ser interrompidos por conta da pandemia. Treinar em casa é complicado, o espaço não favorece os exercícios, muito menos quando se trata de acrobacias, mas as chamadas de vídeo que uniam o time todo me fizeram continuar.

Depois de algum tempo, ficar em casa o dia inteiro estava mais difícil do que o normal. eu ficava cada vez mais ansiosa e isso me impedia de fazer minhas tarefas do dia a dia. Lembrei-me que os momentos em que me sentia mais aliviada eram justamente os minutos de alongamento no final de cada treino. Então duas vezes por semana não estavam sendo suficientes para eu lidar com meus sentimentos. Eu queria sentir aquele cansaço, suor, respiração ofegante e alívio ao perceber que tinha superado algum limite.

Enquanto eu pensava em qual outra atividade fazer, acabei percebendo que alguns amigos meus corriam, e isso em despertou certo interesse. Mas fiquei com receio de tentar por não fazer nada aeróbico há tanto tempo. Resolvi começar pesquisando sobre a corrida, e os benefícios pareciam bem interessantes: melhora na resistência física, no controle da pressão arterial, na autoestima na disposição para atividades diárias, bem estar consigo mesmo e autodisciplina.

O problema, para mim, era o incentivo para começar. Pensar nos benefícios não era o suficiente porque o que eu gostava mesmo era de praticar esportes em grupo. Sem um grupo que pudesse correr comigo fisicamente, eu resolvi conversar com meus amigos que já praticavam. Pedi conselhos e resolvi começar.

O primeiro dia não teve muito planejamento, eu coloquei um tênis, roupas leves e saí de casa. O objetivo era ir até o início da minha rua, voltar pela rua de trás e repetir esse trajeto mais uma vez. Eu não tinha muita noção do tempo que isso levaria, nem da distância que isso significava, mas em cerca de 40 minutos eu estava de volta em casa sentindo que o meu pulmão iria parar de funcionar a qualquer momento. Fazia anos que eu não me cansava dessa maneira e depois veio aquela sensação que eu estava procurando. Nessa noite eu dormi assim que deitei na cama. Esse não era um benefício que eu esperava, mas meu sono melhorou muito logo no primeiro dia.

Apesar de todas as coisas boas que eu senti, durante a corrida as sensações não eram as melhores. Eu só precisei correr usando uma máscara uma vez durante a quarentena, mas manter um certo ritmo por 40 minutos com um tecido dificultando a passagem do ar foi bem mais complicado. Fazia sentido começar mais devagar e ir acelerando conforme o tempo passasse, e a respiração não estava sendo um problema no começo.

Não sei se eu ficava mais cansada por ter corrido por mais tempo ou se era a máscara que me deixava menos disposta. Mesmo depois de já ter diminuído a velocidade, todas as inspirações de ar não eram suficientes. Vi algumas pessoas na rua fazendo caminhadas sem máscara e me senti tentada a tirar a minha, mas continuei usando até o fim do percurso. Outra dificuldade foi meu condicionamento físico, eu provavelmente caminhei durante a maior parte do tempo porque não estava preparada para correr tanto.

No dia seguinte, um amigo me recomendou o aplicativo de corridas da Nike e decidi baixar. Ele monitora sua corrida, registra seu tempo, a velocidade de cada parte da corrida e possui algumas conquistas pessoais conforme os treinos do usuário. Utilizar o aplicativo deixou a corrida mais interessante, eu tive mais noção do que estava fazendo e pude sentir a superação dos meus próprios limites quando aquela voz dizia qual tinha sido a minha velocidade média no último quilômetro percorrido.

Mesmo assim, o começo teve outras dificuldades. Correr na rua é diferente de correr em uma esteira, são muitos obstáculos que o caminho apresenta: atravessar ruas, prestar atenção nos carros, desviar das pessoas e dos buracos nas calçadas. Isso tudo tirava um pouco da minha atenção, mas no começo algo que me deu trabalho foi meu celular. Eu queria ouvir música e precisava dele comigo para usar o aplicativo. O problema era que eu não sabia onde levá-lo, tentei colocar dentro do meu top, não funcionou; preso na calça, não funcionou; no bolso interno de um short, não deu certo; levar em uma pochete também não funcionou.

Levar o celular na mão me deixava insegura quanto a ele escorregar, a eu cair e precisar das mãos para me proteger, ou mesmo ser roubada. Depois das tentativas citadas eu lembrei da doleira que meu irmão tinha e fui tentar mais uma forma de carregar meu celular durante a corrida. Essa foi a forma que eu mais gostei, é confortável, relativamente segura e, como eu não pretendia mexer nele durante a corrida, a dificuldade de acesso não foi um problema.

Conforme os dias foram passando, eu percebi alguns detalhes que faziam diferença nas minhas corridas: o calor me atrapalha, horários muito ensolarados me deixam cansada mais facilmente e eu levo mais tempo para terminar o caminho, além dos dias de chuva que me fizeram ficar em casa por medo de escorregar no chão molhado. Mas justamente por conta dos dias chuvosos em que eu fiquei em casa decidi correr na pista de cooper do meu prédio (as áreas comuns estavam voltando a ser permitidas para os moradores desde agendassem um horário).

“Pista de cooper” é um nome bonito para um corredor de cerca de 50 metros com um canteiro no meio que fica no subsolo do prédio ao lado do estacionamento. Esse lugar não é usado por praticamente nenhum morador. Ele é relativamente escuro e definitivamente não passa por mais de uma limpeza por ano. Apesar de saber das condições, eu resolvi marcar um horário – o que foi bem fácil pois ninguém usa a pista – e fui até lá para experimentar.

É muito mais fácil correr em um ambiente controlado, todo o desvio que eu preciso fazer é em torno de uma poça d’água que se forma por conta de uma goteira. A subida e a descida são sempre iguais porque a pista começa no primeiro subsolo e termina no segundo, então eu consigo saber o que vem logo depois de um momento de maior cansaço. Minha maior dificuldade talvez tenha sido a poeira do local, meus problemas respiratórios que eram prejudicados pela máscara, agora se misturavam com os ácaros do lugar e me faziam espirrar constantemente.

Com o tempo eu me acostumei a correr na pista empoeirada, mas definitivamente mais confortável do que a rua. Acredito que o aplicativo tenha uma certa dificuldade de entender meu trajeto por conta de ele ficar restrito a um espaço tão insignificante do ponto de vista do GPS, mas apesar de alguns erros de rota eu continuo usando. 

Ainda não me considero fã da corrida. Estou ficando mais resistente, posso sentir, mas ainda me sinto destruída no momento em que meus 40 minutos são concluídos. O que realmente me motiva a continuar é a sensação que fica depois do exercício, e quem sabe no futuro eu goste tanto de correr ao ponto de participar de uma prova para amadores.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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