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Curtas de Animação: um breve encontro das artes
CINÉFILOS
21 jan 2016 | Por Jornalismo Júnior

por Luiza Queiroz
luly.agnol@gmail.com

Se filmar um longa metragem com atores de carne e osso já é um trabalho considerável, a dificuldade se intensifica quando falamos em filmes de animação: além da preocupação com o roteiro e o elenco de dublagem, é necessário planejar toda a identidade visual da obra. Parece natural, então, pensarmos que um curta animado é uma opção menos laboriosa para os profissionais da animação. Mas nem sempre contar uma história em alguns poucos minutos é tarefa fácil: produzir uma narrativa curta que seja capaz de comunicar algo ao público – e ainda com um cuidado estético – exige planejamento, talento e muita criatividade. Em compensação, geralmente todo esse esforço produz resultados brilhantes, expondo partes diferentes da sensibilidade humana de maneira artística.

As obras listadas a seguir são um belo exemplo do potencial dos curtas de animação; seja pela delicadeza, pelo humor ou pela sagacidade, essas obras conseguem ilustrar que o cinema e o desenho são uma dupla louvável:

A Ilha (2008)

Nada mais justo do que iniciar uma lista de curtas de animação com uma produção nacional, não é mesmo? Afinal, o mercado da animação no Brasil caminha a passos lentos, mas caminha, sem dúvidas. Ainda que a sofisticação técnica careça de investimentos para se equiparar à tecnologia das produções internacionais, o ramo conta com criatividade e talento em abundância (recentemente, houve uma nova guinada nas produções nacionais com o longa Uma História de Amor e Fúria – que, apesar da fraca recepção nas bilheterias do Brasil, surpreendeu a crítica internacional em mais de 40 festivais).

Mas em matéria de curtas, um dos destaques nacionais é a obra do diretor Alê Camargo. Em seu criativo e bem-humorado A Ilha, somos apresentados a uma crônica sobre a vida urbana nas metrópoles. O personagem, Edu, tenta metaforicamente sobreviver no dia-a-dia, naufragando em meio a um espaço dominado por um mar de automóveis. Em determinado momento, o oceano de veículos fica tão grande que os humanos são praticamente ilhados. O humor é presente durante a animação inteira, mas não deixa de ser um humor inteligente, capaz de dizer algo sobre a vida moderna.

Veja abaixo:

Alma (Alma, 2009)

É um dos mais famosos curtas de animação já feitos, aclamado tanto pelo público quanto pela crítica; somente no ano em que foi lançado, recebeu 6 prêmios e uma indicação para Goya Awards (prêmio anual do cinema espanhol). A história, bastante macabra, nos mostra Alma, uma criança que acaba tendo sua alma capturada em uma sombria loja de brinquedos. O mais interessante do curta é a inesperada combinação entre um design digital jovial e alegre, típico da Pixar (a animação é dirigida por Rodrigo Blaas, um animador espanhol do estúdio) e a história sinistra que é contada. À primeira vista, percebemos que há algo de errado com a loja, mas esperamos um final feliz, talvez até um desfecho cômico para toda a tensão da trama. E é justamente por frustrar essa expectativa do senso comum que o curta merece ser visto:

Mas qual seria o objetivo desse “terror” animado? Uma das interpretações mais aceitas para a história é a de que seria uma crítica à indústria de brinquedos, cujos produtos são cada vez mais autônomos e independentes. Assim, é como se brincassem pela criança, e não com a criança – estimulando em quase nada aquilo que deveria definir a mente infantil: a imaginação. Portanto, é como se as crianças tivessem suas almas “roubadas” pela indústria. Faz sentido, não?

O Emprego (El Empleo, 2008)

O Emprego é um curta argentino de sucesso inquestionável entre a crítica: lançado em 2008, a obra já acumulou 102 prêmios e 200 indicações em festivais. A razão para tantos aplausos reside no senso crítico feroz do diretor Santiago ‘Bou’ Grasso. Violentamente perspicaz, o curta traz um retrato inquietante da exploração. Na história, seres humanos trabalham desempenhando funções de objetos: alguns são mesas; outros são cabides; e alguns são até mesmo semáforos. Além de simbolizar a dureza do trabalho no mundo capitalista, a obra também reflete a objetificação à qual as pessoas se submetem para conseguirem sobreviver. Tudo isso é intensificado pelo desenho dos personagens: os traços são padronizados, tristes, de tonalidades opacas. Todos os elementos visuais foram cuidadosamente planejados para que a aparência geral do curta fosse a menos viva possível. Afinal, o que realmente deve ser visto aqui não é estético: o que merece atenção é a indignação poderosa de Grasso, que nos mostra as cotidianas distorções às quais acabamos por nos acostumar.

Veja o curta a seguir:

https://www.youtube.com/watch?v=Kxbz6WvNq50

A Princesa Yennega (La Princesse Yennega, 1986)

Diferentemente das sofisticadas animações digitais da atualidade, algumas animações africanas optam por permanecer com um estilo simples, sóbrio. Isso porque as histórias que contam geralmente são belas por si só, não havendo necessidade de recursos estéticos tecnológicos. É o caso de A Princesa Yennega: baseado em um conto tradicional da Burkina Fasso, o curta conta a história de um rei que precisava lidar com uma tribo insubmissa dentro de seu território. Sua filha, a princesa Yennega, pede para ajudá-lo, mas ele nega o pedido dizendo que uma filha “só nasceu para ser bonita, para ter filhos e para cozinhar”. Yennega, porém, não aceita essa visão e, ao final do conto, consegue provar que é capaz de fazer mais do que cozinhar e ser bonita.

É interessante notar como esse conto africano revela uma visão extremamente avançada em relação ao papel social da mulher, quando comparada à visão ocidental (que pode muito bem ser representada, até hoje, pelo pensamento do pai de Yennega). Os traços são bastante tradicionais, rústicos – até mesmo por ser um curta mais antigo – e encantam justamente por sua simplicidade e autenticidade.

Confira a seguir:

Destino (Destino, 2003)

Trata-se de uma colaboração entre ninguém menos que Salvador Dalí e Walt Disney. O projeto começou em 1945, mas somente foi lançado 58 anos depois. A razão para um intervalo tão longo entre a produção e lançamento é que, na época em que foi concebido, o projeto acabou abandonado antes mesmo de começar: nada foi produzido além de alguns rascunhos inacabados. O curta foi retomado somente em 2000, quando o sobrinho de Disney, Roy, produzia Fantasia 2000, uma sequência para o anterior de 1940.

A animação apresenta a história de amor entre uma jovem mortal e o Deus Chronos (o Deus Tempo, na mitologia grega), que tentam alcançar-se mutuamente em meio ao cenário surrealista e fluído de Dalí. Embalados por uma belíssima melodia clássica (composta pelo mexicano Armando Dominguez e interpretada por Dora Luz), o casal parece preso em uma dança eterna, na qual um tenta frustradamente alcançar o outro. As imagens, típicas de Dalí, chegam a ser perturbadoras em alguns momentos, mas são sempre belas e extremamente bem trabalhadas. Existe um tom onírico durante toda a obra, o que sugere influências de Freud em meio ao cenário ambíguo e interpretativo criado pelo pintor catalão. Confira:

https://www.youtube.com/watch?v=1GFkN4deuZU

O que verdadeiramente chama a atenção, porém, é a fluidez: em meio aos movimentos graciosos da jovem e à brutalidade de Chronos, temos uma sequência de metamorfoses que conduz o filme, na qual cada cenário e cada personagem dá origem a algo novo incessantemente – tudo isso em perfeita sincronização e harmonia com a música. A história pode ser entendida como uma metáfora para a questão da vida humana: estamos sempre buscando “abraçar” o Tempo, aprisioná-lo, mas não conseguimos sequer alcançá-lo. O próprio Dalí definiu a obra como “uma exibição mágica do problema da vida no labirinto do tempo”. Curiosamente, Disney a via como “uma simples história sobre uma jovem garota em busca do amor verdadeiro”.

A Casa em Cubinhos (La Maison en Petits Cubes, 2008)

Extremamente delicada, a produção japonesa conta a história de um senhor que vive em uma casa cúbica em meio a um terreno alagado; o problema é que o nível da água sobe constantemente, de modo que seu lar termina sempre submerso. Toda vez que isso ocorre, ele precisa construir um novo “cubo” para morar, em cima do anterior. Acontece que, enquanto o construía, ele deixa cair seu cachimbo favorito. Hesitante, acaba por decidir buscá-lo no cubo anterior, porém é envolvido pelas memórias de cada um dos lares onde já morou, e decide chegar até o último (na verdade, o primeiro).

É uma belíssima metáfora para as diferentes fases da vida de alguém que, não raro, acaba compartimentada. Ao longo dos 12 minutos da animação, fica claro que não são somente antigas casas alagadas que o personagem está vendo novamente; ele está vendo sua esposa, está vendo sua filha casando-se e indo embora, está vendo sua filha nascer, está vendo seu casamento, está vendo sua infância… A lógica invertida dos acontecimentos reforça a ideia de que o tempo cruelmente não anda para trás; aquele senhor nunca terá de volta todos aqueles momentos, mas de certo modo apoia-se em todos eles (literalmente). São 12 minutos de pura beleza: tanto nos traços como na narrativa.

Confira a seguir:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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